Extraction conservative et patrons
6.5. CONSTRUCTION DU FEATURE MODEL
Se é verdade que a estatuária apresenta dimensões inovadoras quanto ao modelo estrutural das formas nas representações figurativas, também comprovamos que no que diz respeito aos seus valores cívicos, de memória, civilização e identidade, os mesmos mantém-se como características essenciais na definição desta forma de arte.
Quanto aos aspectos inovadores, gostaríamos aqui de mencionar factores determinantes na apresentação e representação das obras de estatuária.
Assim, e na sequência do que já citámos (cf. supra), além da classificação "busto", "cabeça" e "tronco" que definem as representações figurativas da imagem humana até à modernidade (séc. XIX), Vieira (2009: 244) aplica também a classificação de "troço" para determinação das categorias associadas à estatuária.
Efectivamente, na estatuária implantada a partir da segunda metade do séc. XX, encontramos especiméns que não são nem "busto", nem "cabeça" nem "tronco" pelo que se torna importante marcar esta característica inovadora na arte da estatuária. Ou seja, encontramos representações de estatuária com troços da figura humana, tais como pernas, mãos ou corpos truncados (por exemplo ao nível das coxas). São os casos da obra Schreitender de Rainer Kriester, em Berlim, datada de 1975, e que consiste na representação de duas pernas com pés no acto de caminhar; ou a apresentação de uma figura truncada a meio da coxa, titulada Multatuli, cujo autor é Hans Bayens, e com data de 1986, em Amsterdão; ou ainda a representação da Nemesis Divina através da
apresentação de uma mão num material compósito na cidade de Lund.39 Outros exemplos inovadores da estatuária actual são a junção numa mesma
representação escultórica de vários troços, ao que Vieira (2009) optou por classificar o género de forma mais descritiva por "cabeça e mãos". É o exemplo de Denkpartner40, peça do escultor Hans-Jörg Limbach, datada de 1982, localizada em Stuttgart (Alemanha) e composta por uma cabeça entre duas mãos.
39
Cf. também Soares (2009: vol. 2/ CD): Schreitender [IDSL: 257] e Nemesis Divina [IDSL: 103]. Cf. Vieira (2009: vol. 2/ DVD): Multatuli [IDE: 74].
40
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Tal como já anteriormente demonstrámos41, a diferença significativa entre estatuária e escultura figurativa reside na cultura do referente, na cultura da memória possível acerca do referente. Assim, a estatuária é também uma questão linguística e semântica.
Realmente, a estatuária urbana envolve várias camadas de referentes, os quais documentam a cultura e a memória local através de representações associadas à toponímia, a acontecimentos, a tipos sociais, ao folclore (música, dança, canções, provérbios, lendas), ou ainda a actividades de natureza sócio-económica que distinguiram as localidades e as pessoas. Deste modo, a estatuária urbana liga a dimensão linguística ao património escultórico edificado no exterior, sendo também um marco de identidade da cultura e da memória local. Por isso, é importante divulgar a estatuária urbana e o seu valor cívico e didáctico, enquanto documento de civilização e instrumento didáctico da cultura da memória.
Seguidamente, mostramos algumas obras de estatuária urbana42, procurando notar aspectos da sua dimensão simbólica e semiótica que realçam a componente documental de cariz histórico-cultural e etnológico das localidades onde estão implantadas.
41
Soares, A. P. G. 2009. Representações Linguísticas e Semióticas na Estatuária Urbana Europeia. [2 volumes. Texto policopiado – volume 1. CD/ base de dados de leitura informática – volume 2. (Tese de Doutoramento. Linguística Geral)]. Porto: Universidade do Porto. Faculdade de Letras.
42
Parte da investigação de campo efectuada encontra-se disponível em Soares (2009: vol. 1 e vol 2/ CD).
Fig. 9 - Hoschemer Käs- u. Weinskulptur em Horchheim
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Por exemplo, a obra de estatuária urbana Hoschemer Käs- u. Weinskulptur do escultor Josef Welling, situada em Horchheim, na Alemanha, consiste num monumento ao queijo e ao vinho composto em cenas narradas através de estatuetas de pequenas dimensões (intimistas). As estatuetas organizam-se em conjuntos (quadros) representando diversas cenas do fabrico e degustação do vinho e do queijo da região de Horchheim.
Através da placa afixada neste conjunto escultórico, somos informados que o
Spitznamen (alcunha) dos naturais de Horchheim tem a sua base nos caracteres
etnológicos associados à importância que a actividade vinícola e de produção de queijo teve nesta localidade. São precisamente as inscrições que assim o comprovam: «Bis 1920 war Horchheim eine grosse Weinbaugemeinde. Allein hier am Römerplatz gab es
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vier Weinlokale: Brühl, Puth, Holler und Killian. zu den bekannten Rot- u. Weissweinen wurde der aus Kuhmilch gefertigte Faustekäs, der duftende 'Hoschemer Käs' gegessen. Dieser einstigen Spezialität verdanken wir horchheimer unseren 'Spitznamen'. 28.06.1998», [Trad.: Até 1920 Horchheim foi uma grande comunidade vinícola. Aqui na Römerplatz existiram várias adegas: a Brühl, a Puth, a Holler e a Killian. A acompanhar os famosos vinhos tinto e branco comia-se o queijo feito a partir de leite de vaca, o queijo cheiroso de Horchheim. A esta especialidade ancestral devemos nós os naturais de Horchheim a nossa 'alcunha'.28.06.1998].
Esta escultura em Horchheim, Hoschemer Käs- u. Weinskulptur43 apresenta a particularidade de isolar pormenores da realidade, i.e. da actividade de produção do vinho e fabrico do queijo, enquadrando-os em cenas narrativas e transpondo-os para a sua representação estatuada.
É possível concluir pela observação da narrativa representada nas diversas cenas escultóricas que compõem esta obra a natureza cultural do discurso. Todos os eventos representam imagens de carácter etnológico e etnográfico, tais como a degustação do queijo e a prova do vinho, trabalhadores na vindima transportando os respectivos artefactos (cestos e enxadas), um carro puxado por uma junta de vacas e carregando um barril de vinho, uma mulher fazendo queijo e um grupo de homens em pose descontraída e divertida, bebendo vinho, não faltando as crianças com as suas sempre actuais traquinices.
43
Cf. também Soares (2009: vol. 2/ CD): Hoschemer Käs- u. Weinskulptur [IDSL:274]. Fig. 12
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[Figuras 11, 12, 13 e 14 - Pormenores de algumas cenas que compõem o conjunto escultórico Hoschemer Käs- u. Weinskulptur.]
[Figuras 15 e 16 – Pormenores de algumas cenas do mesmo conjunto escultórico, onde não faltam os caracóis evocando metaforicamente a lentidão temporal da vitivinicultura e um apontamento religioso através da imagem de uma pietá].
Fig. 13 Fig. 14
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O testemunho etnológico desta peça está manifesto nas representações linguísticas presentes na placa afixada à obra, as quais revelam não só a importância que esta actividade agro-pecuária teve na localidade mas também a etimologia onomástica associada aos naturais de Horchheim. Efectivamente, a alcunha dos naturais de Horchheim tem a sua origem nesta actividade funcional da localidade. É por esse motivo que os naturais de Horchheim são „Hoschemer Käsjer“, alusão que nos é transmitida pela nota de humor da figura masculina sentada num barril e com a mão no nariz e que encima este conjunto escultórico, ilustrando, assim, quão forte é o
cheiro do queijo outrora produzido nesta terra do sul da Alemanha. Aliás, a semanticidade desta obra de estatuária urbana estende-se à própria iconografia presente na escultura cimeira do conjunto (vide fig. 17), a qual é gizada na base de uma conceptualização de cariz metafórico e metonímico. De facto, notamos nesta obra que o queijo é representado metaforicamente pela escultura de uma figura no acto de tapar o nariz, ou seja a alusão ao forte cheiro do queijo, e que o vinho é representado metonimicamente pela contiguidade semântica que se estabelece entre o barril (onde está sentada a figura humana), contentor para o vinho, e o vinho.
A fruição estética desta imagem liga-se ainda ao seu valor documental e à sua representação identitária, dando existência na memória a representações dinâmicas e discursivas de pormenores da vida local. A narrativa visual deste conjunto escultórico está assim bem presente em toda a iconografia que a compõe, a qual revela a sua semanticidade e valor civilizacional. De facto, a semanticidade das representações escultóricas tem um carácter simbólico, donde se comprova que as mesmas são cunhadas na base da experiência a partir da dimensão cultural.
Fig. 17 – Figura cimeira do conjunto que representa a alcunha dos naturais de Horchheim.
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Do escultor português Pedro Anjos Teixeira, apresentamos três obras de estatuária urbana que muito bem comentam a história e a cultura local. Seguindo as linhas de composição próprias do naturalismo, observa-se na sua obra de estatuária cívica toda a dimensão simbólica na representação escultórica das figuras, as quais apresentam um elevado grau documental do património cultural e etnográfico das localidades onde foram implantadas. Já Vieira (2001)44 sublinha a importância do naturalismo nas composições escultóricas de Pedro Anjos Teixeira:
“Sendo o naturalismo a grande referência do mestre, é certo que tem em boa conta o factor compositivo na representação com elevado simbolismo no Monumento aos Perseguidos, em Almada, no Homem a Lutar com o Polvo, no Seixal e na mais original estátua que no século XX se fez a um poeta, O Pastor Peregrino, em Leiria.” (Vieira, 2001: 32).
Em Leiria, no Parque da Cidade ou Parque Tenente Coronel Jaime Filipe da Fonseca, encontramos um conjunto de quatro peças escultóricas de Pedro Anjos Teixeira, respectivamente um sapo jardineiro, um burro com alforges, um cão e uma parelha de bois.45
A obra escultórica composta por uma parelha de bois com canga, datada de 1948 e titulada Os bois, faz parte integrante deste conjunto. Esta imagem escultórica de bronze, em tamanho menor do que o natural, está assente sobre um plinto quadrangular de pedra, em cujas faces se encontram azulejos policromados com diversos dizeres acerca da natureza deste animal que tanto contribuiu para as tarefas da lavoura em Portugal.
44
Pedro Anjos Teixeira e a Escultura no Exterior (Vieira, 2001) continua a ser até ao momento a única obra inteiramente dedicada ao escultor Pedro Anjos Teixeira.
45
Cf. também Soares (2009: vol. 2/ CD):os bois [IDSL:340], burro com alforges [IDSL:7] e cão [IDSL:8].
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Assim, numa linguagem afável e poética, é observada a importância do boi na agricultura e bem assim a força deste animal de trabalho. As inscrições seguem um tom
aforístico com uma melodia ritmada: “Os bois! Fortes e mansos, os boizinhos - leões com corações de passarinhos! Os bois! Os grandes bois êsses gigantes, tão amigos, tão úteis, tão possantes!/ Sem as suas fadigas e canseiras não teriam florido as sementeiras! Sem a sua força, sem a sua dor, não estava rindo a terra toda em flor!”.
Nesta obra de estatuária urbana de Pedro Anjos Teixeira a qual mostra os bois em pose de descanso, nota-se a influência do naturalismo na composição e na modelação escultórica. Efectivamente, quer a representação da pose dos animais quer a sua modelação denotam claramente o naturalismo da peça, na qual está bem presente o profundo conhecimento oriundo da dimensão experiencial da vida campestre quanto o da anatomia do animal46 que qualificam a obra deste escultor.
46
"Esta atenção sobre a natureza do animal instrumentalizada com critérios científicos terá tido também a maior importância nos estudos que Pedro Anjos Teixeira virá a desenvolver mais tarde, sobre Anatomia Artística do Homem & Comparada dos Animais. Também no seu tratado das Tecnologias da Escultura, se reflecte a atenção que dedicava a estes dois aspectos da realidade: o Homem, e o Animal." (Vieira, 2001: 16 e 17).
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A estátua que segue, também de Pedro Anjos Teixeira, situada no Parque da Cidade em Leiria apresenta um cão47 em cima de um plinto com azulejos policromáticos, nos quais visualizamos inscrições que nos fazem lembrar dizeres populares. Esta identificação das inscrições com modelos culturais da sabedoria popular48 vem confirmar a tese da metáfora conceptual que norteia o discurso scripto- visual desta imagem escultórica.
Na realidade, o modelo popular presente na conceptualização linguística da língua portuguesa leva- nos muitas vezes a entendermos as pessoas em termos de animais, por isso os esquemas imagéticos com animais são frequentemente usados na conceptualização metafórica.
A dimensão scripto-visual desta obra de estatuária urbana representa de uma forma naturalista o envolvimento cultural e etnográfico associado à importância que o animal "cão" teve na vida doméstica em Portugal.
Assim, a lealdade é um aspecto humano que é atribuído também ao animal “cão”, donde se conclui que o comportamento animal é entendido metaforicamente em termos humanos. Por isso, as inscrições no plinto transcrevem aspectos relacionados com os provérbios populares, os quais conceptualizam aspectos da sabedoria e da dimensão experiencial.
47
Cf. também Soares (2009: vol.2/ CD): O cão [IDSL:8]. 48
Efectivamente, tal como Lakoff/ Turner (1998: 193 e ss.) expõem, aspectos instintivos do comportamento animal são muitas vezes entendidos metaforicamente a partir de traços da personalidade humana.
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Através desta imagem escultórica é veiculada uma correspondência conceptual entre dois conceitos – o cão e a lealdade. Ou seja, a correspondência epistémica é gizada a partir do conhecimento que temos acerca do cão que é amigo, é leal, é bom companheiro, etc., tal como patente nas inscrições: "O cão que faz ão, ão, ão é bom amigo como os que são! É bom amigo, bom companheiro, é valente, fiel, verdadeiro, leal, serviçal, e tem bom coração.” E "Quando vem de fora, a gente e chega a casa, é o cão quem diz primeiro todo prazenteiro, saltando e rindo contente e com os olhos a brilhar de amor - "ora seja bem-vindo, meu senhor!".
Em suma, observamos através desta imagem escultórica e da dimensão verbal envolvente que o cão apresenta os atributos próprios dos humanos ao nível de uma entidade animada e também os estados de ânimo comuns às pessoas, a saber, a vontade, a emoção (medo, contentamento) e algumas capacidades cognitivas como a memória.
Assim, a conceptualização metafórica assente no domínio dos animais e que
observamos na representação scripto-visual da lealdade presente nesta obra de estatuária titulada O cão, constitui um documento e uma forma de salvaguardar o património etnológico imaterial associado à língua portuguesa e à importância que o cão assume na vida local das comunidades.
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Também do mesmo escultor, encontramos em Leiria, no Parque da Cidade, um conjunto escultórico em pedra, um pouco acima do nível dos peões, com cinco figuras femininas: quatro adultas e uma criança no acto de andar. Esta obra de estatuária urbana, datada de 1945 e implantada no espaço urbano em 1946, titulada A caminho da
cidade49, é também conhecida por As mulheres de Leiria e o Regresso do Mercado.
Este conjunto escultórico apresenta a figura feminina trajada com o vestuário comum da mulher de trabalho da região e carregando o bornal, apresentando uma pose de grande determinação associada ao movimento marcado na modelação do vestuário. Trata-se da representação de um tipo social da época e local, i.e. a representação de um
49
Cf. também Soares (2009: vol.2): A caminho da cidade [IDSL:342]. Fig. 21 - A caminho da cidade de Pedro Anjos Teixeira em Leiria.
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grupo de mulheres do povo, as quais também são mães, já que o conjunto inclui também uma criança.
O naturalismo e o realismo na modelação e na representação deste conjunto escultórico contribuem para que a mesma seja qualificada uma obra pioneira do neo- realismo em Portugal.50 Nesta linha, Vieira (2009) define os traços compositivos que marcam o carácter inovador da estatuária urbana a partir da segunda metade do século XX e que podem ser identificados através da expressão da dimensão social do trabalho, da expressão da dimensão social da cidadania e da expressão da dimensão social da heroicidade:
“Assim, no século que passou, a escultura atravessa três modelos compositivos, o herói, o trabalhador e o cidadão [...] Pedro Anjos Teixeira é o único escultor que evidenciou a capacidade de construir com referência as estas três tipologias icono- proporcionais (relação entre o material significativo iconograficamente e as constantes de proporcionalidade que suportam a forma), no Pastor Peregrino (expressão heróica), no Monumento ao trabalhador rural (expressão do trabalhador) e no Casal Nu (expressão da cidadania), esta terceira, com uma versão vestida, implantada no exterior, na praça de Londres.” (Vieira, 2009: 131).
50
Vieira (2009: 131) considera-a mesmo a primeira obra de estatuária urbana neo-realista em Portugal: “Em Portugal em 1946 foi erigido o conjunto Mulheres de Leiria, também conhecido pelo «regresso do mercado», de Pedro Anjos Teixeira, representando um grupo de Mulheres do povo, talvez a primeira obra da estatuária urbana neo-realista erguida no espaço português, memorializando uma identidade local.”. Da mesma maneira, “Pedro Anjos Teixeira foi considerado pela Comissão Instaladora do Museu do Neo-Realismo como um precursor do Neo-Realismo.” (Catálogo da exposição «ANJOS TEIXEIRA um precursor do Neo-Realismo», Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, ASSOCIAÇÃO PROMOTORA DO MUSEU DO NEO REALISMO, Galeria Municipal de Exposições de Alverca Out. / Nov. de 1996. apud Vieira, 2009: 261).
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A dimensão da cidadania é também frequentemente apresentada na estatuária urbana através da representação do folclore local. Um desses exemplos que registamos é a obra Hei-de Voltar a Viana do escultor Jaime Azinheira, em Viana do Castelo. Esta obra datada de 2000 apresenta um casal de bailarinos com traje vianês em passo de dança, modelado de forma que acentua os aspectos vitalistas desta coreografia do folclore de Viana do Castelo.51
51
Cf. também Soares (2009: vol.2): Hei-de voltar a Viana [IDSL:226]. Fig. 22 - Hei-de Voltar a Viana do Jaime Azinheira em Viana do Castelo
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Observamos na figuração escultórica não só o pormenor do traje feminino da saia rodada com os diversos saiotes e o avental sobreposto e bem assim o lenço na cabeça mas também alguns aspectos da técnica da dança que nos permitem identificá-la com o “vira”. Realmente, o casal encontra-se em passo de dança, com os braços levantados e com os membros inferiores no compasso próprio da atitude de dançar em roda, a qual é igualmente sugerida pela modelação da saia da figura feminina. Efectivamente, a modelação naturalista de todo o conjunto escultórico, no qual está impressa a sugestão de movimento, denota os traços semânticos que nos permitem identificar esta dimensão cívica do folclore local. Ribas (1982: 97) refere que "O vira é uma das mais antigas danças populares portuguesas; dele já Gil Vicente nos fala na sua peça Nau d’Amores dando-o como uma dança do Minho. Com efeito, o vira é uma dança de tradição minhota […]". Sendo o “vira” a dança padrão do Alto Minho, onde se situa a cidade de Viana do Castelo, entende-se a implantação desta obra de estatuária urbana nesta cidade como marco de identidade cultural e civilizacional. Anotamos ainda que o título desta obra é “Hei-de voltar a Viana”, o que nos permite concluir que a conceptualização semiótica e simbólica desta obra é reforçada pela realização linguística que lhe está inscrita. Deste modo, a expressão que constitui o próprio título deste conjunto escultórico é gizada na base do “movimento circular e de retorno” presente na construção perifrástica verbal “hei-de voltar”, a partir dos termos “hei-de” e “voltar”, os quais transmitem a noção circular de retorno próprios da técnica e da forma material deste tipo de dança que é o movimento em roda.
Assim, esta obra de estatuária urbana constitui um marco territorial de identidade quer nos seus aspectos etnográficos e etnológicos presentes na iconografia da obra quer na própria dimensão imaterial linguística que nos permite identificar nos traços semânticos da expressão linguística “Hei-de voltar a Viana” o folclore local.
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