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“La población es termófila, hifrófila y platófila (y cabe añadir también urbanófila)”

“Dezembro de 91. Uma decisão política encerra metade da centenária linha ferroviária do Tua, entre Bragança e Mirandela… A sentença amputou o rumo de desenvolvimento e acen- tuou as assimetrias entre o litoral e o interior de Portugal, tornando-o o país mais centralista da Europa Ocidental. Os mais velhos resistem nas aldeias quase desertificadas, sem crianças. A falta de emprego e vida na terra leva os jovens que restam a procurar oportunidades nou- tras fronteiras… um povo inconformado, maior vítima de promessas incumpridas dos que juraram defender a terra.”

A Direção Geral do Território (DGT,2016) identificou 22 grupos de unidades de paisagem em Portugal continental, sendo um desses grupos Trás-os-Montes. Num contexto global, podemos considerar que Trás-os-Montes apresenta características marcadamente rurais (cf. Cordeiro e Reis, 1976; Portela, 1986; Medeiros, 2000; Alves, 2000; Patrício, 2012; Pereiro, 2018, Domingues, 2018) sendo, simultaneamente, um território rurbano e urbanizado com especial liderança das capitais concelhias nesses processos, pequenas cidades como Bra- gança, Mirandela ou Macedo de Cavaleiros são um bom exemplo desse traço rurbano do qual falamos. A unidade de paisagem de Trás-os-Montes caracteriza-se pela existência de duas áreas algo diferentes: a Terra Fria e a Terra Quente (Ribeiro, 1991; Leitão, 2011). A Terra Fria transmontana (Vinhais, Bragança, Vimioso…), em oposição à segunda localiza- se a norte do distrito de Bragança, e apresenta uma morfologia mais diversificada, alter- nando entre planaltos de 700-1000 metros de altitude, serras e vales, onde predominam características climáticas e de paisagem continentais e atlânticas, rude e contrastado (“nove meses de inverno e três de inferno”). A vegetação predominante é a de carvalho negral e castanheiro, cultivos de centeio, batata de altura e tem no porco o totem da tribo. Simul- taneamente, é um território onde o arvoredo se sobrepõe à produção hortícola e frutícola, pelas características que assim o obrigam. O povoamento é disseminado na terra fria.

(Tomás Vidal Bendito, catedrático de geografía reformado da Universidade de Barcelona, cf. http://www.ub.edu/gehc/es/investigadores/item/tomas-vidal-bendito)

(Sumário de “Pare, Escute, Olhe”, documentário de Jorge Pelícano, 2010)

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“A beleza vítrea do Sabor e dos lameiros, das fragas, dos amieiros, das nogueiras e dos ne- gros castanheiros dobrando-se à beira da estrada, das igrejas centenárias em granito, con- trastava com a desolação humana. Raramente encontrava mais do que uma ou duas pessoas no café de uma povoação…As marcas da emigração estavam por todo o lado. Mesmo nas vilas, muitas das casas permanecem fechadas e só se abrem no Verão. Atravessei povoações inteiras com a maioria das habitações fechadas, de janelas e estores cerrados… Muitos dos que regressaram nos anos de 1990 partiram de novo com a crise e outros querem seguir-lhes os passos.”

(Ferreira, 2014: 78) A Terra Quente transmontana coincide com o sul da NUT e a CIM das Terras de Trás-os- Montes: Alfândega da Fé, Mirandela, parte de Macedo de Cavaleiros e Vila Flor, para além do município de Carrazeda de Ansiães (pertencente à CIM do Douro). A sua paisagem predomi- nante é a da oliveira e corresponde também à área dos vales dos afluentes do rio Douro, nos quais a vegetação e o clima são, tendencialmente, mediterrânicos, predominando a vinha, os olivais, as amendoeiras e as laranjeiras. A terra quente tem no sobreiro, na amendoeira, na oliveira, laranjeira, figueira e na vinha a sua identidade paisagística (cf. Cortesão, 1995: 91). Na terra quente integram-se os vales que afluem ao rio Douro, tem poucas chuvas, o inverno é mais moderado e o verão tórrido: “Conta-se que se assam sardinhas pousando-as nas linhas do caminho-de-ferro” (Ribeiro, 1991: 1249).

Mas a paisagem não é apenas física, é destacadamente cultural, social e humana (cf. Silvano, 2001), assim o exemplifica este excerto de uma obra de Nuno Ferreira, no qual relata a sua passagem por Trás-os-Montes:

Esta descrição feita pelo jornalista e viageiro Nuno Ferreira, capta perfeitamente alguns dos traços culturais e humanos que caraterizam o território de Trás-os-Montes, um território no qual “aqui ninguém se perde, isto é pequeno” (homem, 45 anos aproximadamente, gerente de um café-bar da Rua Direita de Mirandela, 19-08-2018) e com um ethos coletivo tradicio- nalmente negativo desde uma visão forânea. Assim Jaime Cortesão assinala: “o transmontano é áspero, violento e assomadiço”, e coloca em palavras de Guerra Junqueiro a afirmação de que enquanto um transmontano mata um homem, um minhoto quebra um prato (cf. Cortesão, 1995: 92).

José Rentes de Carvalho (2017) afirma que a personalidade coletiva do transmontano é a de um ser humano seco, indivíduo franco, cortês mas sem rodeios, impaciente e arrebatado, dado a valentias, impetuoso, pronto para agir antes de pensar, individualista, que no íntimo gosta de caminhar sozinho e de dizer “pão, pão, queijo, queijo”. Os investigadores José Mattoso, Suzanne Daveau e Duarte Belo (2010: 142-147) representam os transmontanos como pessoas com “independência de todos para com os de fora e de todos entre si…”, que vivem num chão com “dureza” e “uma existência sem abundância nem facilidades”. E Orlando Ribeiro (1998: 150) também insistiu nesta ideia: “A paisagem carrega-se de tons severos, cinzentos, acastan- hados. A luz torna-se mais crua, a terra mais dura e a gente mais retraída”.

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É assim que esta visão estereotipada atribui aos transmontanos um caráter indomável, pouco gregário, isolacionista e sempre pronto para a luta. É o discurso que o geógrafo Álvaro Domin- gues (2018: 122) denomina de trágico, que se contrapõe com a visão romântica, construída e congelada por algumas visões antropológicas do passado relativas ao caráter comunitarista das aldeias e comunidades de TMAD (cf. Dias, 1953; Portela, 1986; Veiga de Oliveira e Gal- hano, 1994; Alves, 2000), uma visão idealizada que vem sendo contestada desde finais dos anos 1980 pelos trabalhos dos antropólogos portugueses contemporâneos e que mostram que nas comunidades transmontanas também há conflitos, desigualdades e dialéticas locais- globais, que há proprietários, lavradores e jornaleiros, que há contrabandistas e rebeldes, e não apenas gentes conservadoras que “pisam onde pisa o boi” (cf. Pais de Brito, 1996; Godin- ho, 2006; Godinho, 2010; Raposo, 2010; O´Neill, 2011; Afonso, 2013).

Longe dessa visão estereotipada, uniforme e homogénea, Trás-os-Montes apresenta também traços heterogéneos e desiguais, não é todo monte e serranias, há também vales e planaltos (cf. Mattoso, Daveau e Belo, 2010: 147). Gostaríamos de frisar algumas destas heterogenei- dades (cf. Alves, 2000; Domingues, 2018). Em primeiro lugar o processo de despovoamento desde os anos 1960, que alguns agentes e autores chamam de forma errada “desertificação”, uma metáfora para definir o despovoamento.

Do ponto de vista demográfico, toda a região de Trás-os-Montes e Alto Douro (TMAD) au- mentou a sua população em 40% entre 1864 e 1960. Em 1960, tinha 680.000 habitantes, mas entre 1960 e 1995 perdeu um total de 213.000 habitantes, isto é, um total de 30% da sua população (fonte: INE) (Cepeda e Ramos, 2002, p. 33). Em 2001, contava com 445.000 habitantes. A partir dessa época, a perda de população continua e só alguns pequenos cen- tros urbanos como Bragança, Mirandela ou Macedo de Cavaleiros travam um pouco essa tendência. Desde 2001 observamos uma concentração da população nos pequenos núcleos urbanos da região (vilas ou pequenas cidades) mais intensificada naqueles mais próximos com a autoestrada A-4.

A este grave problema demográfico, “de falta de gente”, devemos acrescentar outros como o envelhecimento, a baixa natalidade, os problemas na agricultura e a emigração (cf. Mou- rão, 2006). O documentário de Jorge Pelícano (2010) intitulado “Pare, Escute, Olhe”, retrata com uma visão crítica alguns destes problemas, com ênfase no encerramento da linha do Tua (caminho de Ferro que ligava ao Douro e ao Porto). Trás-os-Montes é assim uma sociedade biespacial, dividida entre os de dentro e os que moram fora (migrantes na França, Alemanha, Suíça, Espanha…), entre dois tempos, o tempo do trabalho na emigração e o tempo de retorno a casa para férias e festas.

Porém, a pesar disso, existe uma forte ligação cultural, social e emocional com a terra, tanto dos que nasceram como dos novos rurais como eu, que é muito importante na identidade regional transmontana e que representa um enorme potencial e esperança para o futuro do desenvolvimento territorial e para a melhoria das condições de vida dos transmontanos. Sem olhar para outro lado, podemos afirmar que Trás-os-Montes é uma das zonas mais atrasadas da União Europeia (Rentes de Carvalho, 2017: 14), mas distante da ideia de que é longe,

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pobre e atrasada, esta é ao mesmo tempo uma zona com um grande potencial de desenvolvi- mento, “uma vitrina do antigamente” (Rentes de Carvalho, 2017: 20) que não deixa de resistir uma certa mudança lenta.

Mas essa mudança aconteceu e continua a acontecer, em palavras do geógrafo Álvaro Domin- gues (2018: 122): “De terra pobre que exportou a maioria dos seus habitantes, ficou uma se- menteira de aldeias sem gente, e algumas vilas ou pequenas cidades “do Estado”, dada a im- portância maioritária do emprego e do rendimento gerado pelo sector público. Trás-os-Montes vive de uma economia assistida, sob forma de pensões ou reformas, poupanças e remessas da emigração, ou transferências do orçamento para o financiamento do Estado Social que ainda existe. Quem pode sai e a atividade agroflorestal vai desde o abandono ao autoconsumo em pequena escala, passando por projetos de modernização em produtos e sistemas de produção extensivos –oliveira, vinha amêndoa, castanha, sobretudo- com um papel muito reduzido na criação de emprego.”

Se bem o pano de fundo é assimétrico com relação ao interior de Portugal em geral, também existe uma má consciência face o próprio interior (cf. Domingues, 2018: 122) e também uma autovitimização dos transmontanos em relação a essa assimetria nacional e ao território vazio e abandono de muitas aldeias, ainda que só aparentemente e com matizes no meu entender. Com a abertura do túnel do Marão em 7 de maio de 2016 quebrou-se uma das barreiras físicas e simbólicas mais duras de atravessar entre o litoral e o interior Norte de Portugal. Essa barreira serviu durante muito tempo como discurso explicativo da pobreza na região, portanto abre-se agora uma nova oportunidade para ultrapassar o sentimento de abandono, isolamen- to e mal-estar. A esperança é algo que se bem não se perdeu, havia pouca, e em palavras de Álvaro Domingues (2018: 123):

“Apesar de tudo, o Reino Maravilhoso guarda uma poética inesgotável e um valor cultural enorme. Não será o olhar para a “aldeia típica” a resgatar este encantamento. Para além do somatório da fragmentação municipal, terá de haver uma entidade regional que cuide daquilo que não resulta do somatório das pequenas coisas. A região chegou a um nível extremo de rarefação e de envelhecimento e está a perder os seus habitantes “jardineiros da paisagem” como se fora o ermamento de há séculos. É preciso redescobrir Trás-os-Montes agora que em todo o mundo se está perto de tudo.”

Em relação ao tecido empresarial, o território de Terras de Trás-os-Montes tinha 12000 em- presas em 2011 (1% de todas as de Portugal) e 98% delas apresentam menos de 10 trabalha- dores (CIM-TTM, 2015: 23).

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Neste ponto achegamos alguns traços do capital diferencial de cada um dos municípios sob estudo. Como afirmamos mais acima, a premissa é que o território é uma das bases da ex- periência turística e consideramos importante afunilar alguns dos elementos estruturantes e estruturadores dos territórios municipais, que por outro lado apresentam capitais diferenciais próprios. Com a noção de capital diferencial queremos sublinhar a ideia do potencial de desenvolvimento que a diferença construída socialmente apresenta.

Mirandela é sede de um município com uma área aproximada de 674.08 quilómetros qua-

drados, tinha em 2017 um total de 21.963 habitantes (https://www.pordata.pt/DB/Munici-

pios/Ambiente+de+Consulta/Tabela), divididos em 30 freguesias (cf. Lei nº 11°/2013 de 28 de janeiro, Reorganização administrativa do território das freguesias). O concelho de Miran- dela situa-se na região do Nordeste Transmontano e conta em 2017 com 33,5 habitantes por

quilómetro quadrado (cf. https://www.pordata.pt/DB/Municipios/Ambiente+de+Consulta/

Tabela). É limitado a Norte pelo concelho de Vinhais, a Sul pelo de Vila Flor, a Oeste pelo de Murça e a Noroeste pelo de Valpaços. Mirandela, enquadrada numa fosa tectónica, insere- se na Terra Quente ficando Mirandela no coração da região de Trás-os-Montes e no limite

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