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Com aclamados 835 milhões de usuários pelo mundo já em 2012, o Facebook é, em 2018, o maior site de rede social nos Estados Unidos e na Europa, com a maior penetração entre os usuários da internet15. Em maio de 2010, Mark Zuckerberg falou a Dan Fletcher, um repórter da revista Time que a missão do Facebook era construir uma plataforma em que o parâmetro seria social, com o objetivo de tornar o mundo mais aberto e conectado16. O diretor coorporativo de comunicações da empresa disse que, tornando o mundo mais aberto e conectado, o Facebook está expandindo entendimento entre as pessoas e tornando o mundo um lugar mais empático17 (DIJCK, 2013).

Quando o Facebook foi lançado em 2004, estava competindo com diversas outras plataformas, como o Friendster, MySpace e Xanga. Oito anos depois, a maioria dos concorrentes desapareceu de cena ou foi deixada como sites “falidos” com poucos usuários. Poucas empresas experimentaram um crescimento tão rápido como o Facebook. Hoje, não estar no Facebook significa não ser convidado para festas, não ser atualizado para eventos importantes. Em resumo: estar desconectado de uma dinâmica da vida pública (DIJCK, 2013). É essencial apontar para o fato de que o Facebook começou, basicamente, como um local para que pessoas pudessem escrever sobre seus livros e filmes favoritos, conversar com seus amigos, ou postar fotos da festa da noite anterior. O “objetivo em comum”, em outras palavras, era formar laços sociais e parecer descolado para algum colega (BENKLER, 2011).

Recentemente, estes objetivos têm se tornado mais sofisticados, enquanto os movimentos sociais e políticos migraram para o Facebook. Sejam protestos contra os policiais de Mianmar (que juntaram mais de 300 mil apoiadores via Facebook em duas semanas) ou bases de campanhas pelo meio-ambiente: a simples habilidade para comunicar com mentes parecidas forma laços sobre interesses e forma planos coordenados o suficiente para motivar pessoas a participarem de uma causa e cooperarem (BENKLER, 2011). Shirky (2011), explica, inclusive, que o caráter humano é o componente essencial do nosso comportamento sociável e generoso, mesmo quando coordenado com ferramentas de alta tecnologia: “as interpretações focadas na tecnologia para entender esses comportamentos erram o alvo: a

15

Fonte: Internet World Stats. Acesso em: 23 abr. 2017

16

Disponível em: <http://content.time.com/time/magazine/article/0,9171,1990798,00.html>. Acesso em: 25 abr. 2017.

17

Disponível em: <http://readwrite.com/2009/12/10/why_facebook_changed_privacy_policies/>. Acesso em: 25 abr. 2017.

tecnologia possibilita esses comportamentos, mas não pode causá-los” (SHIRKY, 2011, p. 90).

Em 2013, em uma época na qual o assunto “algoritmos” não estava em evidência como hoje, Zuckerman defendeu que, enquanto usuários do Facebook, podemos estar conectados tanto a um ativista de um sindicato de esquerda como a um evangélico de direita, uma vez que ambos estiveram na nossa turma do Ensino Médio. O Facebook, neste sentido, poderia ser uma poderosa ferramenta para nos expor a diversos pontos de vista (ZUCKERMAN, 2013). Baym (2010), sem falar na palavra “algoritmos”, oferece uma perspectiva que pode ser compreendida como crítica ao argumento de Zuckerman (2013) a partir da simples constatação de que nós nos comunicamos menos com aqueles que são diferentes de nós. Socialmente, defende Baym (2010), vemos um retorno a certa forma de tribalismo, nos separando por grupos – raciais, étnicos, ideológicos – escolhendo acessar apenas a informação que se relaciona com as nossas identidades e crenças. Pariser (2011) também contesta a ideia de Zuckerman, como veremos a seguir quando tratarmos das bolhas de filtro.

Ainda sobre o funcionamento do Facebook, conectar pessoas, coisas e ideias é o princípio atrás do polêmico Botão Curtir18. Trata-se de um recurso que permite que os usuários expressem a sua aprovação por uma ideia específica (DIJCK, 2013). De acordo com Zuckerman (2013), a ascensão do Botão Curtir implica uma personalização que entra em cena até em sites com uma proposta curatorial, como o The New York Times. É possível receber sinais sobre quais amigos “curtiram” a história que estamos lendo, além de existir uma ferramenta intitulada “recomendado para você”, gerado para cada usuário. Não é difícil imaginar um futuro onde “curtir” informe até mais informações espaciais. Já é possível puxar um mapa online de qualquer cidade que estamos visitando e ver os restaurantes favoritos de amigos nossos sobrepostos no topo dele (ZUCKERMAN, 2013).

“Difícil mas importante” não é um julgamento solicitado por sites de mídia social, não existem botões para expressar tal ideia. Ao invés disso, “compartilhar”, “se tornar amigo” e “curtir” são conceitos ideológicos poderosos cujos impactos vão além do Facebook, afetando outros cantos da cultura e a própria base da sociabilidade. Os valores de abertura e conectividade são refletidos pelo mundo de compartilhamento do Facebook (DIJCK, 2013).

Em 2018, mais do que curtir, os usuários do Facebook podem reagir a conteúdos compartilhados ali. A partir de 2016, o Facebook lançou as Reactions (reações, em tradução

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livre). A função do botão é mostrar que há outros sentimentos por trás da curtida: além de “gostar” de alguma coisa, os usuários podem expressar suas emoções com emoticons (ícones que exprimem sentimentos), que significam “amei”, “haha”, “uau”, “triste” e “nervoso”. As diferentes reações são animadas e se mexem conforme os usuários seguram os dedos na tela. Mais uma vez, vemos o Facebook atento às necessidades dos seus usuários: ao permitir que as pessoas se expressem de forma mais personalizada, a rede também estimula que as pessoas se manifestem apropriadamente conforme os seus sentimentos e emoções de forma pública (no capítulo 2, vamos recorrer aos estudos acerca da antropologia das emoções para verificar como as pessoas “sentem” umas em relação às outras, especialmente em um contexto de uma metrópole, como Nova York).

Figura 2 - Reações no Facebook

Fonte: Facebook Brand (2018).

A interface do Facebook também permite que seus membros criem perfis com fotos, listas de objetos preferidos (livros, filmes, músicas, gatos, etc) e informações de contatos. É possível “cutucar” para chamar a atenção, e também anunciar mudanças na sua situação conjugal ou profissional. O Facebook ainda ajuda as pessoas a encontrarem amigos (com a ferramenta People You May Know19), e também a identificar conhecidos em fotos (DIJCK 2013).

Ao longo dos anos, a organização do conteúdo do Facebook foi passando de uma estrutura que priorizava o arranjo de dados a uma estrutura narrativa. Com a implantação da Timeline20, em 2011, a interface, não mais aleatória, se organizou como uma biografia que conta a vida de alguém até o presente, em ordem cronológica. Com essa mudança, o Facebook se aprofundou ainda mais na “textura da vida”, a sua narrativa principal imitando convenções do modo tradicional de contar histórias. Os usuários notaram este efeito e comentaram como a emoção e memória são integrados à experiência do Facebook. Esta inovação do Facebook, ressalta Dijck (2013), representa bem a teoria de que as redes sociais se tornaram os palcos digitais para os flâneurs pós-modernos: um lugar para ver e ser visto em

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Pessoas Que Talvez Você Conheça (tradução nossa).

um deslizar de telas. Desta forma, o modo como conteúdo ali é organizado permite ainda maisque os usuários se apropriem do site como melhor se encaixar aos seus interesses próprios (DIJCK, 2013).

O Feed de Notícias, enquanto isso, representa uma lista ou fluxo de publicações de amigos e outros produtores de conteúdos.

Uma das principais características desse mecanismo é seu sistema de classificação: o fluxo criado pelo Feed de Notícias é organizado de acordo com a relevância relativa e potencial das publicações para cada usuário ou usuária do serviço. Ou seja, a partir dos dados gerados pela ação dos usuários na plataforma e pelo número de cliques e interações (curtidas e comentários) que cada publicação recebe, são selecionados e organizados os conteúdos de acordo com sua relevância calculada para cada usuário ou usuária, produzindo o que o Facebook costuma chamar de feed personalizado. Nas análises públicas sobre esses processos de definição do que seria relevante, algoritmos são posicionados como agentes fundamentais, como uma fórmula que comanda as diferentes tarefas computacionais realizadas (ARAÚJO, 2017, p.17).

Olharemos mais atentamente para esta questão acerca dos algoritmos a seguir, no próximo subcapítulo.

Mas talvez mais significativo que as mudanças estruturais do Facebook, seja justamente o impacto da plataforma nos cotidianos das pessoas (DIJCK, 2013). No seriado televisivo Girls (2012-2017), escrito por Lena Dunham, logo no primeiro episódio da primeira temporada, as protagonistas Hannah e Marnie discutem a hierarquia que rege as formas de comunicação contemporânea. Marnie, considerada a mais sábia da dupla, dita a regra: o Facebook é sinônimo, para ela, da forma mais “baixa” de conversação entre as pessoas.

HANNAH: Talvez eu devesse ligar para ele. Quer dizer, você não disse que mandar mensagens é a forma mais baixa de comunicação? [...].

MARNIE: [...] A forma mais baixa... seria o Facebook. Seguida pelo chat do Gmail. E então mensagem de texto, e então celular. Cara a cara é, claro, o ideal, mas não é dessa época.(GIRLS, 2012, tradução nossa21)

Mas se outrora éramos, enquanto usuários, alheios aos modos de uso de algoritmos (como veremos a seguir) e de apropriação de dados por parte do Facebook, hoje, em 2018, estamos no meio de uma convulsão.

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HANNAH: Maybe I should call him. I mean, didn’t you say texting is the lowest form of communication? [...] MARNIE: [...] The lowest form... that would be Facebook. Followed by g-chat. Then texting, then email, then

Em fevereiro de 2018, a revista Wired publicou uma imagem que ilustrava Mark Zuckerman pós-surra, como se tivesse levado a pior em uma briga. A matéria, profética, detalha os últimos dois anos de “batalhas” do Facebook – tendo de lidar com as Fake News e com o descontrole sobre os agentes comunicacionais que foram decisivos para a eleição de Trump em 201622. Em março de 2018, contudo, uma nova reportagem levantou dúvidas sobre as práticas da plataforma, pois o Facebook permitiu que a empresa Cambridge Analytica coletasse dados de mais de 50 milhões de usuários do Facebook. De acordo com reportagem publicada nos jornais The New York Times23 e The Guardian24 a empresa construiu modelos de comportamento para direcionar eleitores em campanhas políticas - entre elas, a de Donald Trump – a partir desse armazenamento. Os dados eram coletados a partir de perfis, curtidas, testes psicológicos e informações a partir dos próprios usuários e da sua rede de amigos. Pouquíssimos destes usuários concordaram em permitir o acesso dessas informações fora do Facebook25 (NEW YORK TIMES, 2018). Mark Zuckerberg, por sua vez, assumiu a culpa, e pediu desculpas publicamente por ter feito mau uso da confiança do público. Cabe ressaltar que esta pesquisa havia sido realizada meses antes das matérias, porém as informações reveladas não impactam na análise realizada.

Mas, mesmo se o Facebook perder o “fator descolado” como plataforma, a sua ideologia se espalhou tão fundo nos poros da sociabilidade online que os seus mantras e ideais vão reverberar por um longo tempo (DIJCK, 2013). Ainda que no exemplo do seriado Girls isto seja retratado a nível ficcional e em um contexto muito próprio – duas garotas brancas, morando em Nova York, falando sobre relacionamentos heterossexuais – é interessante notar como esse tipo de comunicação pós-moderna, digital, é um tema de discussão recorrente.

Aqui, é possível retomar as ideias de Baym (2010) sobre a apropriação da mídia textual pelas pessoas, que estebelecem as suas próprias normas e constroem relacionamentos interpessoais a partir das redes sociais (BAYM, 2010).

O Facebook autoproclama uma ambição de ser uma passagem para o conteúdo social, uma ferramenta que estrutura e facilita a sociabilidade online. Outrora atividades informais na esfera pública – amigos se encontrando e trocando ideias sobre o que os seus gostos –, hoje são interações mediadas por algoritmos numa esfera coorporativa. (DIJCK, 2013).

22

Disponível em: <https://www.wired.com/story/inside-facebook-mark-zuckerberg-2-years-of-hell>Acesso em:

26 mar. 2018.

23

Disponível em: <https://www.nytimes.com/2018/03/17/us/politics/cambridge-analytica-trump- campaign.html> Acesso em: 26 mar. 2018

24

Disponível em: https://www.theguardian.com/news/2018/mar/17/cambridge-analytica-facebook-influence-us- election> Acesso em: 26 de mar. 2018

25

Disponível em: <https://www.nytimes.com/2018/03/20/technology/facebook-cambridge-behavior- model.html?mtrref=www.google.com.br&mtrref=undefined> Acesso em: 24 mar. 2018

Ainda é nebulosa a maneira como o Facebook, contudo, “empacota” ou organiza os conteúdos para cada pessoa. É possível, apesar das dificuldades de obter dados diretamente da plataforma, analisar posts de Humans of New York e observar o perfil do seu público. Após traçar as particularidades da página, é possível ponderar algumas ideias acerca dos algoritmos que regem os sites de redes sociais. A seguir, vamos lançar um olhar mais aprofundado para a questão das bolhas de filtragem e os seus desdobramentos.

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