A necessidade de retratar objetos, experiências e demais elementos que re- presentem alguma ocasião ou determinada cultura é uma habilidade inerente à própria condição do homem enquanto sujeito social, o que caracteriza o hábito humano do colecionismo. (CHAGAS, 2008, 2009) Por distintos mo- tivos o homem coleciona objetos e lhes atribui valor, seja ele afetivo, simbó- lico, cultural ou material; isto justifica a necessidade de preservá-los e tor- ná-los perpétuos, para que outras gerações possam ter acesso às narrativas que emergem destes bens ou objetos. Tal hábito se apresenta também como uma forma de contar histórias, que além de simbolizar contextos, épocas e trajetórias formativas, esboçou uma cultura de exaltação à memória e à his- tória que atravessou tempos.
Com a intenção de abrigar e preservar estas histórias conformadas em diferentes contornos, abrigadas “por trás” dos objetos, que os museus foram idealizados. E logo, embebidos por esta cultura, se revelaram como testemu- nhos vivos das criações humanas, que demarcam território nas sociedades desde o período antigo, representando o homem em suas “aventuras” en- quanto sujeito autor e ator de processos criativos, descobertas e invenções. Para Chagas (2009), os museus se estruturam a partir das práticas sociais de seleção, organização, salvaguarda e exposição de objetos em um espaço de- terminado, com o intuito de comunicar e exemplificar as narrativas de outros tempos, as quais podem contribuir para a compreensão do tempo presen- te, ao inspirar comportamentos e favorecer o desenvolvimento de estudos.
Entretanto, antes de assumir esta configuração, outras faces, princípios e filosofias deram vida a estas instituições. “Museu” é uma palavra de ori- gem latina, derivada do grego mouseion, que significa o templo das musas. Segundo a mitologia grega, as Musas são filhas de Zeus com Mnemósine (deu- sa da memória) e consideradas donas da memória absoluta; da imaginação criativa; das danças, músicas e narrativas. (SUANO, 1986) Nesse sentido, o
mouseion, como era originalmente conhecido, foi idealizado como um espaço
privilegiado e, sobretudo sagrado. As obras de artes e objetos expostos nesses ambientes existiam mais em função de agradar as divindades, do que serem contempladas pelo homem. (OLIVEIRA, 2002)
Para o autor até antes do século XVI, os museus eram espaços restritos às elites, visitados por apreciadores particulares sob autorização de seus pro- prietários; essa situação começa a sofrer mudanças a partir da influência ilu- minista, que defendia a igualdade de direito para todos. O primeiro museu público só foi criado, na França, pelo Governo Revolucionário, em 1793: o Museu do Louvre com coleções acessíveis a todos, com finalidade recreativa e cultural. Posteriormente, várias coleções particulares tornaram-se públicas e importantes museus foram criados como o Museu do Prado (Espanha) e o Museu Mauritshuis (Holanda).
Essas transformações representaram o início da construção de uma dife- rente concepção sobre os museus, com ênfase em suas abordagens filosófi- cas e museográficas. Agora mais focados na documentação, na pesquisa e no enriquecimento de suas coleções, em detrimento da sacralidade e da super exaltação aos fatos históricos, assumindo o papel de espaços de aprendizagem.
Dentre os novos enfoques encontrados pelos museus estão os patrimônios cultural, natural e ambiental que passaram a ser mais valorizados, buscando-se trabalhar e enaltecer o cotidiano que tem o indivíduo como elemento cen- tral das ações a serem realizadas. Esses aspectos podem ser observados nas práticas realizadas pelos museus comunitários, os ecomuseus e, também, a concepção de museus a céu aberto. Além desses aprimoramentos, inclui-se a comunicação praticada por essas entidades; o modo de expor os objetos – com textos e etiquetas reduzidas; a diversificação das tipologias de coleções, o aperfeiçoamento dos profissionais envolvidos e a valorização da função educativa dos museus. (BINA, 2007)
A partir dessas intervenções, as instituições museais começam a ser con- cebidas como entidades integrais, uma vez que o enfoque principal passa a ser os seus aspectos sociais e culturais. Para Oliveira (2002), diferentemente dos séculos anteriores, hoje, os museus se constituem em espaços sem fins lucrativos, que abrigam coleções de variados valores e categorias, com o pro- pósito de conservar, pesquisar, informar e exibir suas coleções para a educa- ção, a pesquisa e a visitação pública.
Essa configuração é resultado das intervenções praticadas no campo mu- seológico a partir de conferências como as realizadas em Santiago do Chile (1972); considerado um marco referencial, pois a partir dele essas novas dimensões foram introduzidas e aperfeiçoadas nos encontros posteriores. Desde então, o museu passou a ser considerado:
[...] uma instituição a serviço da sociedade da qual é parte integrante e que possui nele mesmo os elementos que lhe permitem participar na formação da consciência das comunidades que ele serve; que ele pode contribuir para o engajamento destas comunidades na ação, situando suas
atividades em um quadro histórico que permita esclarecer os problemas atuais, isto é, ligando o passado ao presente, engajando-se nas mudanças de estrutura em curso e provocando outras mudanças no interior de suas respectivas realidades nacionais (1972/ICOM, 1972)
Essa ambiência de engajamento e pertencimento da comunidade ao mu- seu vem gerando práticas como as realizadas pelo Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro, que conta com o apoio dos chamados amigos do museu que contribuem para realização das atividades nesses espaços. Tal prática é comum em países como os Estados Unidos, nos quais os museus têm a par- ticipação da comunidade com doações. Outra intervenção significativa é a introdução de uma dimensão pedagógica diferenciada dos anos anteriores, uma vez que os museus deixaram de se constituir em espaços que apenas reproduziam as práticas escolares, e passaram a assumir uma programação pedagógica mais participativa, com base na ideologia de Paulo Freire, que se fundamenta na educação popular.
Assim, intensificou-se a relação entre o público e o museu, o qual passa a ser entendido como lugar de projeção da sociedade. Nesse sentido, além de estreitar os laços com a educação formal a partir da criação de setores educati- vos, os museus buscaram tornar mais acessíveis os seus acervos à comunidade, modernizando inclusive as técnicas de exposição tradicionais, a fim de atender a necessidade das massas populares, estimulando a conscientização acerca dos problemas sociais que afligem as comunidades, a recuperação de seus patrimônios, mas também as transformações sociais, econômicas e culturais produzidas no mundo, configurando-se como um espaço de aprendizagem.
As propostas trazidas no Encontro de 1972 foram acrescidas de perspec- tivas lançadas no encontro de Quebec (1984), no qual foi legitimado os pre- ceitos do movimento para uma nova museologia (MINOM); e Caracas (1992), onde se discutiu a função comunicativa dos museus. (CÂNDIDO, 2003) Mas, indiscutivelmente, o principal ganho dos museus foi a abertura para a vida em sentido amplo, o espaço dado à comunidade e o entendimento de que
as ações museológicas podem se estender para além dos muros dos museus, sem deixar de atender aos seus objetivos de comunicar, expor, pesquisar e estudar os patrimônios e os testemunhos do homem.
Nesse sentido, uma vez que buscam reunir e representar os vestígios da humanidade, os museus se apresentam como verdadeiros refletores do mundo, o que lhes tornam espaços de história e memória, pois congregam as inspirações do homem, de coletivos humanos, e suas subjetividades sempre em mutação. Os museus representam, assim, histórias através de suas telas e esculturas, objetos, manuscritos, dentre outros elementos que nos revelam e traduzem pessoas e personagens, refazem experiências e contextos. Também expõem obras primas e descobertas científicas, além de desvendar relações de domínio, poder e valores negligenciados ao longo da trajetória histórica, nos convidando a construir associações com os cenários de hoje e amanhã. Esses espaços vivos de história e memória também podem abrigar as trajetórias dos atores sociais que são esquecidos na história oficial, que os torna, muitas vezes, invisíveis, a exemplo das mulheres, dos negros e dos homossexuais.
Porém não é esta a representação mais comum que se tem sobre os mu- seus. Não seriam estas instituições depósitos de velharias e objetos antigos de pouca serventia? Não são os museus aqueles que vivem de passado? Essas e outras associações parecem marcar presença considerável no imaginário social, dos brasileiros e latinos, como nos diz Ferrez citado por Oliveira (2002): “O povo latino-americano ao referir-se a algo que está superado, que não tem mais importância, diz: ‘isto é coisa de Museu’, ou ‘isto não serve mais para nada [...] deve ficar em um Museu”. A memória tem a capacidade de trans- fundir vida ao passado e reconstruir os sujeitos sociais no mundo, por isso, ela representa o reencontro do tempo perdido (CHIARA, 2001), na medida em que através do renascimento daquilo que “se foi”, abre-se fronteiras para perspectivas futuras e renovadas.
As mudanças até o momento elucidadas, as quais consolidam a concep- ção dos museus enquanto lugares compromissados com a difusão e reflexão sobre as narrativas e a transformação das sociedades, favorecem a construção
de uma interface entre os estudos sobre memória e a história, tendo os mu- seus como um possível ponto de convergência. Sobre esse aspecto, Pereira (2008, p. 1) salienta que:
Os museus são instituições sociais e culturais. Ao preservar indícios das memórias propõem chaves de interpretação de realidade sócio histórica. São, dessa maneira, instituições testemunhais, cenários convocados: convocantes [...]. São dessa maneira, expressões de uma sociedade que nos convoca a testemunhar memórias, evidentemente, silenciando ou ignorando tantas outras [...] São em grande medida, o registro da eleição de histórias que pessoas, grupos e/ou nações elegem no tempo para perpetuar diante da inevitabilidade da evasão inerente à própria vivência histórica.
Nesse sentido, com as reconfigurações das abordagens e concepções so- bre a história enquanto ciência, ocorridas nas últimas décadas, a memória e, consequentemente, os museus, passaram a ser reconhecidos nos estudos históricos, com devido respaldo teórico. Barros (2011) salienta que os fenô- menos históricos antes estudados quase exclusivamente pelos historiadores começam a ser examinados a partir de diferentes olhares oriundos dos vários lugares de memória. Assim, cumpre aos historiadores o papel de analisar as possíveis contaminações e/ou manipulações presentes neste processo.
Desse modo, experiências de ensino e aprendizagem em história que enaltecem a rememoração e a vivência em espaços como o museu, contri- buem para que o sujeito tenha conhecimento da realidade que o circunda, visto que nesses processos existem diálogos entre a memória, os dados do presente, o entendimento das transformações e a busca de um novo fazer; o que não significa, entretanto, uma aceitação submissa e passiva dos valores do passado, mas o reconhecimento de que estão ali os elementos básicos para a transformação dos sujeitos. (SANTOS, 1984)
A referida autora ainda salienta que não se trata de uma assimilação pu- ramente nostálgica, de formas e coisas ocorridas, há, neste momento, um su- jeito que analisa criticamente, que recria, constrói, a partir de um referencial;
por isso, é interessante notarmos que sem o confronto passado/presente será difícil fazer com que os sujeitos se identifiquem como sujeitos políticos e cidadãos; com um olhar vago sobre o passado, não podemos fazer história, nem sermos sujeitos autores da história.
Em vista da importância e do potencial dos museus no sentido de via- bilizar práticas de ensino da história, é necessário refletir sobre as recentes configurações e possibilidades que essas instituições vêm apresentando para atender às demandas e características da sociedade contemporânea. O desenvolvimento das tecnologias de base microeletrônica e o processo de digitalização sinalizaram aos museus novos mecanismos de intervenção e ampliação de seus objetivos, o que inclui a constituição de acervos digitais e a maior amplitude na difusão e salvaguarda da informação; a construção de redes relacionais; a elevação na qualidade da experiência interativa o usuário, dentre outros aspectos que fortalecem a relevância do papel social e educa- cional dessas instituições milenares.