O grito é algo muito intenso no CAPS III – Caminhar. Soa com uma constante variação de significados. Reverberando o ambiente com o som aveludado do grito, como se formassem sub partituras vocais para preencher todo o ambiente. Com os gritos somos levados a certa compreensão sobre os momentos em que o assistido se encontra. Às vezes, o grito torna-se um elemento natural do ambiente, disseminando nas caracterizações específicas de cada indivíduo. Uns gritam em seu estágio de estabilização, outros gritam por estarem desestabilizados.
As variações do grito é algo absolutamente normal ao ambiente em que nele se encontra, portanto, por trás do grito há uma infinidade de significações para quem o escuta e observa. Assim o fez Edvard Munch, pintor expressionista ao se inspirar em sua própria vida, suas angústias, tristezas e seus desencontros. Há um relato de inspiração para a produção do quadro do pintor: “Passeava com dois amigos ao pôr-do-sol – o céu ficou de súbito vermelho- sangue – eu parei, exausto, e inclinei-me sobre a mureta– havia sangue e línguas de fogo sobre o céu vermelho sangue e sobre a cidade – os meus amigos continuaram, mas eu fiquei ali a tremer de ansiedade – e senti o grito infinito da Natureza”. Munch acabou pintando quatro versões de O Grito. As quatro versões de O Grito foram criadas com distintos materiais e técnicas, mas se mantem a mesma imagem da pintura.
No caso do CAPS III – Caminhar sempre ficava observando calmamente o desenrolar de um assistido esquizofrênico. Ele desenvolvia em todas as manhãs um mesmo roteiro de caminhadas e ações. Quando chegava ao serviço, ora muito cedo, ora tarde, ele fazia sua caminhada. Andava em passos medianos e com o movimentar da cabeça na medida de seu percurso. Seguia inusitadamente os corredores do CAPS, indo e vindo em sua generosa caminhada e, em determinados momentos, gritava fortemente e continuava ávido de vida em seu longo caminho.
O grito foi o que mais me chamou atenção, pois em cada momento do grito tinha alguém que interagia com suas ações. Como o CAPS é um espaço de trânsito, há na maioria das vezes, pessoas que não estão acostumadas com as especificidades daquele local. Entre familiares e estagiários da saúde, o espaço é dinamizado com os públicos diversificados. Quando o grito aparece, as pessoas param com ele. Olhando-o fixamente e penetrando os
olhares já roteirizados na caminhada, onde o ritmo e pulsação induzirão as interações que ocorrem em determinadas especificidades.
Desse modo, os fatos que ocorreram o caracterizam como um performer diante de suas ações e significados do processo performático. Artaud dizia: “[...] um alienado é também um homem que a sociedade não quis ouvir e a quem ela quis impedir de dizer verdades insuportáveis”. (ARTAUD, 1970, p. 259). Talvez, por essa vertente, o grito tornou-se uma maneira de reação à sociedade não só por um lado patológico, mas também por um patamar de sanidade, uma vez que o grito o torna uma potência de interação com a sociedade.
Com essa performatividade do assistido, nessa perspectiva do grito, como uma dimensão acústica da fala, convidei esse assistido que desenvolvia certa rotatividade no ambiente do CAPS para se juntar ao grupo e realizar os exercícios para a performance. Tentei colocá-lo na performance Quebrando muros com o objetivo de que o assistido fizesse o mesmo percurso do corredor na performance. Para que o lado intuitivo e vivo da dinâmica natural do seu cotidiano pudesse sobreviver em novas variações nas trilhas da arte, por produzir e construir certos encontros entre o eu natural, cotidiano e o eu enquanto pulso na arte. Merleau-Ponty, nesta perspectiva, potencializa o que concerne o mundo vivido dizendo que:
[...] tenho o mundo como indivíduo inacabado através de meu corpo enquanto potência desse mundo, e tenho a posição dos objetos por aquela de meu corpo ou, inversamente, a posição de meu corpo por aquela dos objetos, não em uma implicação lógica e como se determina uma grandeza desconhecida por suas relações objetivas com grandezas dadas, mas em uma implicação real, e porque meu corpo é movimento em direção ao mundo, o mundo, ponto de apoio de meu corpo. O ideal do pensamento objetivo – o sistema da experiência como feixe de correlações físico-matemáticas – está fundando em minha percepção do mundo como indivíduo em concordância consegue mesmo, e quando a ciência busca integrar meu corpo às relações do mundo é porque ela procura, à sua maneira, traduzir a sutura entre meu corpo fenomenal e o mundo primordial. (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 468- 469)
As relações entre os dois mundos que os assistidos vivem, determina o certo limiar de afastamento de convivência entre quem não está preparado ou habilitado para o grito que se constitui fala representa, na medida que uma potência se propaga no meio de todos. E é esse impulso que traz pulsação ao indivíduo em seu percurso do dia a dia. Sendo assim, essas sensações estão muito além da razão e das ideias concretas ou das abstrações em consonância
com o mundo fenomenal. Haja vista que as mutações subjetivas são essências de criação e diálogo no percurso até então definido.
Ao analisar esses fatos percebemos o quanto é complexo esse processo no que concerne à performance propriamente dita. Pois, de tal modo, despotencializa a carga energética emocional dessas imagens e promove tanto a sua decifração quanto a reorganização interior e a reconstrução da realidade do assistido no decorrer de sua ação. E sendo esse percurso extremante importante para a descoberta dos sentidos em cada situação vivida.
Portanto, estimular expressão de subjetividades singulares e suas diferenças radicais, que rejeitam qualquer tentativa de preconceito e rótulos sobre a loucura, é fundamental para a modernização e organização do trabalho coletivo que motiva qualquer atividade nas potencialidades do trabalho artístico passando por esse encontro psicossocial.
Outrora, devem-se compreender essas ações enquanto espaço que visa proporcionar o convívio entre múltiplas singularidades, por meio de diferentes formas de expressão, seja corporal, auditiva ou verbal, plástica, entre outras. E não se limitando somente ao que já foi estabelecido a priori, mas fortalecendo os novos encontros entre grito, luta e vida, uma vez que estes pontos estão ontologicamente ligados a essa força maior inata em cada indivíduo que participou desse encontro com a performance e suas decorrências.
Espera-se, por conseguinte, a livre manifestação de expressões como palavras, afetividades, criações artísticas, ou toda ação que promova, assim, uma transformação nos modos de compreensão acerca dos indivíduos que são assistidos por alguma instituição de saúde. A performance pode possibilitar a expressão de emoções, produzindo assim, novas subjetividades e outras formas de ser e estar no mundo. Portanto, o trabalho com a performance no ambiente psicossocial é um importante meio de superação da estigmatização e exclusão da loucura, além de contribuir para a reinserção social desses assistidos que por muito tempo permaneceram estigmatizados.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
No decorrer desta pesquisa, avaliou-se o quanto os processos criativos da performance são importantes para a construção de identidade e a reinserção social para os assistidos diante o fazer artístico. Observou-se que os participantes perceberam melhor sua identidade, no momento de contato com as diferenças de cada um. É relevante apontar a estruturação criada pela produção artística e a espontaneidade dos participantes nas apresentações em diversos espaços. Por esse percurso, há de sondar marcas nesses corpos e mentes envolvidos pela performance enquanto conhecimento.
O processo criativo da performance desenvolvido com os assistidos foi um riquíssimo processo de conexão consigo mesmo e, neste sentindo, a arte vai estar no limiar das subjetividades do sujeito. Podemos dizer, numa classificação sistemática, que a linguagem híbrida da performance provoca nos participantes uma apreciação mais cognitivo-sensorial do que a ideia de racionalidade. Portanto, o fator sensorial atribuído aos participantes é uma condição da criação e do desenvolvimento artístico na performance.
Em outra dimensão, a performance vem preencher a lacuna, enquanto expressão artística aos temas decorrentes e correlacionados a ideologia, formação e estética. Nessas amplitudes de variações de significados ela pode ser atribuída e apresentada na dicotomia das artes plásticas e das artes cênicas, no qual a primeira evidencia a sua criação e origem e na segunda se articula enquanto fins da cena. Permanecendo nesse limiar das artes e atribuindo eventuais caminhos que fazem a hibridização dos sentidos.
Hoje no Brasil, ainda acontece poucos trabalhos com a consolidação da performática nos CAPS. Trabalhos não apenas com um cunho terapêutico, mas como uma ferramenta de transformação a partir dos processos criativos da performance. Onde não existem igualdades e sim diferenças em todos os níveis e convivência com as pessoas com qualquer comprometimento físico ou mental. Essas diferenças devem ser aceitas por cada indivíduo, só assim haverá melhoras e novas formações de visão e de relacionamento com o portador de transtorno metal.
No ambiente do CAPS III- Caminhar existe dificuldades como há nas escolas de artes convencionais ou na educação como um todo. O educador aprende, dia após dia, a lidar com o assistido do CAPS. Assim, como nos disse uma vez o pedagogo Jorge Larrossa, experiência é: “o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa o que acontece, ou
o que toca” (LARROSSA, 2002, p. 21). Essa foi à experiência que nos tocou e nos aconteceu na exposição sistemática da construção e apresentação da performance Quebrando Muros.
As experiências que os assistidos tiveram em sua prática, reflexões que marcaram e reafirmaram novos significados nesse fazer artístico. Onde o conhecimento está presente na performance, no qual se contextualiza um tempo e uma época, nas modificações diante o pensamento e no corpo de cada participante. Nessa caminhada, os fazeres da performance alinham-se aos pensamentos para uma reflexão nas criações a partir do processo criativo construtivo.
A performance, por ser híbrida, proporciona uma real possibilidade de lidar com outras linguagens artísticas. Nesta visão, há de se apurar o quanto os processos criativos da performance levam para o assistido a sua valorização das suas estratégias de ação. E com essas estratégias, desenvolverão uma sociedade mais humana e crítica. Fazendo da prática performática, instrumento para aceitação de si e também situá-los no mundo. O trabalho com a performance no CAPS, por sua vez, levou também entusiasmo aos assistidos que participaram efetivamente dos processos criativos.
No total, três apresentações foram realizadas. Saindo das salas de ensaios para as ruas e para os palcos. E em cada momento de cena, uma nova criação e uma nova identidade eram marcadas ali. Apresentavam-se felizes, pois para eles estar diante do público é se aceitar e possuir o que existe de mais precioso: a identidade. Ser aceito é parte essencial do ser humano na vida. Só assim é que os assistidos terão uma vida mais íntegra e entusiasmo para viver no mundo e fazer parte dele como em sua natureza.
Nas vivências com a performance pretendeu-se chamar a atenção para a importância desse processo como instrumento de recuperação e construção de identidades dos assistidos com transtornos mentais, além de uma reflexão sobre o processo criativo, os deslocamentos para as apresentações, do caráter observador que a arte enseja, da produção artística propriamente dita, da ansiedade antes de cada apresentação, do fazer melhor, entre tantos outros acontecimentos e emoções.
Esta pesquisa teve como objetivo estudar os processos criativos da performance quebrando muros realizados com os assistidos do CAPS III - Caminhar, tendo como referencial teórico da performance, os filósofos rebeldes e a fenomenologia da percepção de Merleau-Ponty. No qual a coleta de dados se deu a partir das observações participantes sob o desenvolvimento criativo da performance.
Como objetivos específicos, este estudo se propôs: Examinar os processos de elaboração da criação da performance; Analisar os respectivos processos a partir da
construção performática; Descrever o processo criativo dos assistidos do CAPS III e as proposições interdisciplinares; Sistematizar as imagens capturadas em fotografias e vídeos sobre as experiências vividas pelos assistidos, nos quais foram todos alcançados.
Ao longo desta pesquisa percebemos o quanto os processos criativos da performance podem transportar o indivíduo para um pensamento de liberdade. Um pensamento na apreciação estética das linguagens artísticas. Criando novos horizontes para a sua vida e tornando-o autônomo, propiciando mudanças de atitudes. Construindo um espírito crítico, no ambiente em que vive.
Trabalhar com a performance no ambiente do CAPS III – Caminhar é um riquíssimo processo para compreender as diferenças e, através das diferenças, saber que cada um possui características próprias. Isso estendido a qualquer pessoa, independentemente de sua condição física e mental. Viver as experiências do processo performativo, das apresentações, trouxe a estes indivíduos/participantes uma nova forma de conhecer o mundo e principalmente despertar o conhecimento de si próprio. Desse modo, a aquisição de um conhecimento é o resultado sensorial das vivências no contato com o outro.
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