• Aucun résultat trouvé

: Conseil d’Administration Article 26

Ao lançar as coleções Intérpretes, Teatro e Antologia, em 1956, o selo Festa já demonstrara desejo de expandir seu catálogo para além do formato de estreia, no caso, os LPs com os poetas falando a própria obra. No ano seguinte, sem deixar de produzir discos literários, Irineu Garcia passa a trilhar mais um caminho também considerado pouco atrativo pelo mercado fonográfico no Brasil, inclusive pelas poderosas majors estrangeiras: a gravação de música erudita brasileira.

No texto de contracapa do primeiro lançamento erudito do selo, Valsas de Esquina, o proprietário da editora Civilização Brasileira, Ênio Silveira, escreve que a partir daquele momento Festa iria divulgar a música brasileira “em todo o mundo e, o que é ainda mais importante, aqui mesmo”. Isso porque, como prosseguia o editor, não conhecíamos bem a obra de nossos compositores, à exceção de Villa-Lobos, “que as gravadoras ‘nacionais’ vinham lançando não como decorrência de seus inegáveis méritos, mas como reflexo do sucesso obtido quando lançadas em disco nos Estados Unidos ou na Europa pelas suas casas matrizes”.

É curioso observar que o disco de lançamento da coleção Poesias e o primeiro LP da série erudita do Festa, apesar de focarem em segmentos distintos, traziam uma ligação simbólica que conectava os três protagonistas das produções em questão: em 1938, Mignone compusera canções baseadas em poemas de Drummond (como Quadrilha, O que Fizeram do Natal e No Meio do Caminho) e Manuel Bandeira, a exemplo de Dentro da Noite (MARIZ, 2005).

Bandeira entregou outros poemas para Mignone musicar, como foi o caso, em 1942, de Berimbau e Solau do Desamado. Mignone, contudo, não foi o único

92 compositor a ser contemplado pelo poeta. Camargo Guarnieri, por exemplo, outro autor gravado pelo Festa, também musicou poemas de Bandeira, como Impossível Carinho, em 1930. Para o crítico literário, professor, compositor e poeta Antônio Carlos Ferreira de Brito, o Cacaso,

A palavra melódica pede música. Dentro desta família de lirismo, Manuel Bandeira é talvez nosso caso mais completo. Mais complexo. Simplíssimo. Dizia ele: “Sim, gosto de ser traduzido, fotografado, e... musicado”. E, de fato, Bandeira sempre foi marcado pela preferência dos compositores. Sua obra foi e continua sendo musicada livre e fartamente por todas as gerações: Villa-Lobos, Mignone, Moraes Moreira, Dorival Caymmi, Dori Caymmi, Camargo Guarnieri, Wagner Tiso, Ivan Lins, Jaime Ovalle, Joyce, Francis Hime, Radamés, Lorenzo Fernández, Tom Jobim, Toninho Horta e muitos outros (BRITO, 1997, p. 196).

Carlito Azevedo e Augusto Massi (2006) dizem que o autor pernambucano talvez tenha sido o nome mais musicado da literatura brasileira. “O poeta tinha ouvido. E a desenvoltura na leitura dos poemas beneficiou-se de uma, ainda que discreta, continuada educação musical: sabia tocar violão e militou na crítica” (AZEVEDO; MASSI, 2006, p. 82). Além disso, na opinião de Cacaso, Bandeira foi o poeta brasileiro que melhor compreendeu como a música poderia iluminar alguns aspectos da poesia e vice-versa:

Ele [Bandeira] dizia: “Foi vendo a musicalidade subentendida dos meus poemas desentranhada em música propriamente dita, que compreendi não haver verdadeiramente música num poema. Nunca a palavra cantou por si, e só com a música pode ela cantar verdadeiramente”. Essa “musicalidade subentendida”, espécie de indeterminação essencial, faz com que o texto possa conter, em potência, numerosas melodias. Ainda Bandeira: “Nem sempre a melodia despertada nos músicos pelos meus versos me parecia implícita no texto. Assim como certos poemas admitem pluralidade de sentido ou de interpretações, como que em qualquer texto literário há infinito número de melodias implícitas (BRITO, 1997, p. 196).

Ademais, o disco Valsas de Esquina sinaliza outro ponto em comum com os LPs que integram a coleção Poesias: trata-se de produções nas quais os autores apresentam as próprias obras. Mignone repetiria a prática em outros três discos que gravou para Festa: 12 Valsas-Chôros (1958), de piano solo, e nos outros dois orquestrais que levam o nome do compositor, lançados, respectivamente, em 1958 e 1963. Embora esse procedimento possa ser observado em outros discos de música erudita do Festa, ele não

93 se tornou padrão nessa série específica, ao contrário do que ocorreu na coleção Poesias, na qual todos os LPs trazem uma dupla de poetas falando os próprios poemas.

Figura 11 – A partir da esquerda, Irineu Garcia e Francisco Mignone, [s/d]

Fonte: reprodução de foto da contracapa do disco Francisco Mignone, na versão relançada em 1968, pela Festa e Companhia Brasileira de Discos. O disco original foi colocado no mercado em 1958. Acervo:

Gracita Garcia Bueno.

Mignone compôs a obra 12 valsas de esquina entre 1938 e 1943. Dedicou cada uma a pessoas com quem mantinha laços afetivos, respectivamente: o pianista Arnaldo Estrella; o musicólogo e crítico literário Andrade Muricy; a pianista e professora da Escola Nacional de Música Nayde Alencar Jaguaribe; o compositor e pianista Arnaldo Rebello; a professora e pianista Wilma Graça; Mário de Andrade; o compositor, pianista e professor Antônio de Sá Pereira; o pianista Mário de Azevedo; Violeta Corrêa de Azevedo (esposa do musicólogo Luiz Heitor Corrêa de Azevedo); a educadora, musicista e pianista Liddy Chiaffarelli Mignone (primeira esposa do compositor); o compositor, pianista, regente e professor João de Souza Lima; e o pianista Mário Neves.

No início de 1958, ao escrever sobre o disco Valsas de Esquina, Manuel Bandeira manda um recado para o compositor: “A série das doze valsas de Mignone é de enternecer um peito de pedra. Só vejo nelas um defeito, mas esse é grave: nenhuma é

94 dedicada a mim! Fiquei com inveja dos contemplados, fiquei suspirando por uma valsinha, pela minha valsinha”.149

O pedido surtiu efeito, como mostra o segundo disco erudito do Festa, 12 Valsas-Chôro, no qual Mignone, chamado de “Rei da Valsa” por Bandeira, dedica ao amigo a série que compôs entre 1946 e 1955. O LP foi lançado no dia 18 de abril de 1958, na Livraria São José, em função de uma efeméride, recurso muito usado pela gravadora para chamar atenção da imprensa e garantir espaço na mídia: a comemoração do aniversário de 72 anos de Bandeira. Em função do mesmo motivo, foi também lançado naquela oportunidade o décimo terceiro disco da coleção Poesias, com a dupla Sérgio Milliet e Manuel Bandeira. Essas conexões ajudam a mostrar que a série erudita da gravadora, então ensaiando os primeiros passos, e a coleção Poesias buscavam falar a mesma língua, a modernista.