Os documentos utilizados como fonte de dados aqui foram os anais dos três últimos eventos publicados, já que o 13° aconteceu em 2017 e ainda não foi publicado. O 10º Encontro sobre o Poder Escolar ocorreu no ano de 2010, o 11º em 2012 e o 12º no ano de 2014. Cada um deles teve carga horária de quarenta horas distribuídas em quatro dias de trabalhos e um público em torno de mil docentes participantes. O número de trabalhos selecionados para apresentação
3 - Agenda XXI foi um dos principais resultados da conferência ECO 92, ocorrida na cidade do
Rio de Janeiro no ano de 1992. É um documento que estabeleceu a importância de cada país se comprometer a refletir, global e localmente, sobre modos de cooperação e de soluções para os problemas socioambientais.
e registrados nos anais, experiências pedagógicas de docentes em serviço, foi em torno de cento e cinquenta em cada encontro. Destes, foram identificados uma média de doze experiências da prática docente por encontro que tinham relação com os saberes geográficos, no entanto, menos da metade das experiências selecionadas se referiam aos conteúdos específicos da disciplina de geografia e sim com temas correlacionados.
Nos dados coletados observamos, primeiramente, o pequeno número de trabalhos vinculados ao campo da Geografia, bem como um número significativo de trabalhos ressaltando projetos interdisciplinares envolvendo valores humanos, letramento, mídias, tecnologia, culturas locais e educação ambiental. Projetos executados não de forma individual, mas por grupos de profissionais da educação. Muitos deles vinculados a datas comemorativas específicas ou temas atuais de repercussão como diversidade étnico-racial, educação inclusiva e inclusão digital.
Para as experiências docentes relatadas no 10° Encontro sobre Poder Escolar pude observar que existe, primeiramente, uma dificuldade de identificar conteúdos relacionados à Geografia que é nosso foco de pesquisa. Os professores parecem estar preocupados com a justificativa por ter escolhido determinado relato se ausentando de informações sobre como e onde aconteceu a ação descrita, com que professores e, principalmente, qual o conteúdo ou objetivo desejava atingir com a sua prática.
Do mesmo modo, observei que a maioria das experiências dos trabalhos estavam ligadas a projetos interdisciplinares com temas transversais, entre eles, assuntos ligados à educação ambiental, às mudanças de comportamento, aos valores humanos, entre outros. Projetos estes que são executados por um grupo de profissionais da educação e estão, geralmente, ligados a temas da atualidade como consumo de alimentos orgânicos, africanidades, educação inclusiva,
inclusão digital, etc. Ainda, constatei que foram publicados relatos de estágio
docente e trabalhos de conclusão de curso da UFPEL, UNIPAMPA e IF-SUL, além das experiências daqueles professores que estão em efetivo exercício da sua profissão docente.
Para os resumos que abordam os saberes geográficos, relata-se a inovação nas formas de avaliação da disciplina de Geografia com vistas a uma participação mais democrática dos alunos em relação aos seus trabalhos. Já nos
relatos que apresentam saberes geográficos em atividades de educação ambiental, que é a maioria das experiências apresentas, observo a preocupação dos professores em apresentar aos seus alunos a rápida transformação do espaço, dando enfoque à degradação ambiental por meio do consumo exagerado da sociedade moderna, apontando, através de diferentes ferramentas, ações com vistas a sustentabilidade. Incentivam práticas agroecológicas, a coleta seletiva do lixo, construção de hortas escolares, valorização das plantas medicinais, entre outros trabalhos que tenham o cuidado com meio local.
Este tema transversal de Educação Ambiental geralmente envolve as disciplinas de ciências, artes e agricultura, no caso das Escolas Agrícolas que tem esta disciplina na grade curricular. No entanto, a maioria dos relatos de experiências não especifica com quais conteúdos curriculares dialogam.
Entre as propostas metodológicas apresentadas pelos docentes está a inclusão digital, utilização de imagens, música, danças, brincadeiras e gincanas. Estas buscam romper com as aulas consideradas tradicionais e envolve grande parte dos alunos, independente do grau de aprendizagem e série em que se encontram.
Os relatos que especificam a construção de saberes geográficos, especificamente, referem-se a estágios de docência, tanto do curso de Pedagogia como de Geografia. O relato do estágio de pedagogia evidencia a preocupação com a alfabetização cartográfica, onde a professora apresenta os recursos tecnológicos para sanar as dificuldades de abstração que os alunos apresentam, principalmente nas séries iniciais. Para organizar as dimensões espaciais, a professora propõe a inclusão digital utilizando o software Google Earth como ferramenta para compreensão do conteúdo cartográfico. Já o estágio do curso de Geografia trata da construção do conceito de espaço geográfico. Para tanto, o docente apresenta uma metodologia de análise da paisagem utilizando recursos simples como figuras de revistas antigas e imagens atuais. Ambos os relatos contemplam os conteúdos que foram previamente planejados e fazem parte do currículo e orientado pelos Parâmetros Curriculares Nacionais. Nos relatos de experiências do 11° Encontro sobre Poder Escolar a geografia está presente basicamente nos temas transversais de educação ambiental e pouco se referem aos conteúdos do currículo escolar. As atividades
que os docentes julgam importantes para ser socializadas no evento se referem aquelas que desenvolvem a consciência ambiental. Para tal, os professores se utilizam de ferramentas lúdicas como os meios de multimídias com o objetivo de atrair os alunos para uma linguagem mais acessível e prazerosa, revelando os espaços com mais clareza e atualizados. O objetivo destas abordagens metodológicas é a formação de um educando voltado para a cidadania ambientalista, contextualizando a grande quantidade de informações trazidas pela acessibilidade dos meios de comunicação, transformando-as em conhecimento geográfico.
Nos relatos deste encontro, observei que a disciplina de Geografia está atrelada a outras de forma interdisciplinar abordando conteúdos como solos, bacias hidrográficas e poluição ambiental. Os mesmos são abordados sempre com vistas a uma preservação dos espaços, valorizando os espaços locais onde os alunos estão inseridos. As metodologias pedagógicas utilizadas para construir estes saberes estão, cada vez mais, ligadas às TICs – Tecnologias de Inovação e Comunicação. Este fato deve-se, provavelmente, a informatização das escolas públicas nos últimos anos e a adequação das tecnologias nas aulas tradicionais auxiliando no processo de ensino-aprendizagem.
No 12° Encontro sobre Poder Escolar continuam ausentes as informações mais precisas que possam identificar as abordagens dos saberes geográficos, no entanto, observo que aparecem mais títulos de experiências onde está escrito a palavra "geografia" de forma direta.
Segundo os resumos que contam as estratégias que os professores utilizam na prática escolar, continuam sendo evidenciadas as atividades de educação ambiental com a utilização, cada vez mais frequente, das mídias com a inclusão digital. Além disso, os professores apresentam relatos de trabalhos de geografia para educação inclusiva, atendendo a crescente demanda de alunos especiais nas escolas nos últimos anos. Conteúdos ligados a valorização do patrimônio histórico e cultural também aparecem ligados a construção de saberes geográficos.
A experiência que relata com clareza a disciplina de geografia expõe a crítica aos conteúdos programáticos e aos mesmos apresentados nos livros didáticos, alegando estarem distantes da realidade local dos alunos. Para sanar este problema, as atividades que o professor relata propõem trabalhar com
conteúdos geográficos mais significativos e vinculados à vida cotidiana dos alunos, sendo considerada uma proposta de êxito na sua avaliação. No entanto, o resumo não apresenta quais foram os conteúdos significativos e nem as estratégias utilizadas na prática da experiência docente.
Na experiência com alunos especiais foi relatado algumas estratégias de produção de conhecimento geográfico com utilização de mídias, material concreto para o conteúdo de relevo e o conceito de espaço pelo trajeto vivido. No entanto, não pode ser considerado como experiência docente, pois foi um projeto de extensão do curso de Geografia da Universidade Federal de Pelotas que foi ministrado pelos alunos em processo de formação acadêmica, chamado por eles de "professores-aprendizes".
Os conteúdos ligados às atividades de educação ambiental, que estão em maior número, estão atrelados a água, clima e poluição. As estratégias apontadas pelos docentes continuam tendo enfoque na sensibilização destes problemas através de vídeos e observação em loco, levando os alunos a se preocuparem com as mudanças climáticas e ter uma mudança de comportamento em relação ao ambiente que estão inseridos, procurando práticas mais sustentáveis. Observo que estas atividades atentam para um enfoque local, mesmo com alunos de ensino médio que deveriam abordar conteúdos de geografia de forma mais global. Os professores não relatam que as discussões se encaminham para as problemáticas globais envolvendo conteúdos de geopolítica ou de geografia econômica, por exemplo.
Entre os dados de análise dos últimos três eventos do Encontro sobre
Poder Escolar, que relatam as experiências de práticas desenvolvidas nas escolas e apresentadas pelos professores que contemplem os conteúdos geográficos, observei a predominância das atividades relacionadas a temas transversais, sobretudo, aqueles vinculados a temática do momento sócio educacional como a educação ambiental, inclusão digital e inclusão de alunos especiais.
Os professores demonstram seus saberes docentes na medida em que articulam estratégias que contemplem assuntos em voga no momento e relacionam com o conteúdo curricular. Observa-se que os conteúdos geográficos que tem uma maior representatividade nos relatos dos docentes estão ligados ao conteúdo da geografia física, porém, ao apresentá-los vinculados à reflexão
ambiental, trabalham também a geografia humana, política e econômica. Eles são considerados mais significativos quando trabalhados de forma macro no espaço escolar, junto com outras disciplinas em projetos amplos e atividades extraclasse. Entre as atividades apresentadas, estão em evidência aquelas ligadas ao lúdico e a inclusão digital, principalmente no que se refere a observação das paisagens degradadas com vistas para uma consciência ambiental e mudança de comportamento local.