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Conséquences des déformations

CHAPITRE 5: AUTOMATE QUANTIQUE RELATIVISTE

5.3 Conséquences des déformations

Na África dizemos que a viagem mais longa é o que fazemos do mundo de fora para dentro de nós mesmos. Sotigui Kouyaté, griô do Mali95

“Ouvidos do Muntu, ouvi!” Com este chamado, do princípio ao fim, o conjunto de

poemas “La tierra de los ancestros” irriga o ritual mito-poético de Changó, el Gran Putas.

Os onze cantos que o compõem animam a dimensão espiritual da luta pela liberdade nas

histórias narradas pelo babalaô Ngafúa. Estes poemas – “Orichas”; “Deja que cante la

kora”; “Sombra de mis mayores”; “Ngafúa rememora el irrompible nudo de los vivos con

los muertos”; “Invocación a los grandes orichas”; “La maldición de Changó”; “Ngafúa, en

sueños”, “entreoye la maldición de Changó”; “Canto a Changó, oricha fecundo”;

“¡Changó!¡Changó!¡Buscaste fuera de África la Loba Blanca!”; “La despedida.

Bienvenida a Elegba abridor de puertas, Orúnla, vigila tus tablas, Despedida de las cien mil

tribus” – dão o tom épico ao relato e expressam os códigos das religiões afro-americanas

que o sustentam. Códigos através dos quais foram mantidos, durante vários séculos, os

nexos mais profundos entre a África e as Américas.96 Vínculos culturais que nunca se

romperam, apesar da barreiras impostas pelos senhores escravistas e da visão convencional sobre a África habitualmente dada pela historiografia colonial. Sem cair em nenhum tipo de essencialismo, o romance é construído a partir da metáfora do diálogo, do olhar mútuo entre africanos e afro-americanos, cocção variada e complexa ao longo do tempo e ao mesmo tempo, como compreendeu Zapata para configurar sua visão dos múltiplos vínculos e contatos entre culturas; percepção presente na representação da tríade América/África/Europa, com os intercâmbios forjados durante vários séculos de difícil, conflituosa e, não poucas vezes, violenta convivência. Dessa convivência, Zapata confere

95 Ver documentário: “Sotigui Kouyaté: um griot no Brasil” https://www.youtube.com/watch?v=sJd1te_3pjI 96 Ver (MATORY, 2015). O livro desse antropólogo afro-americano analisa o que ele denomina como “a

religião do Atlântico negro” como símbolo central do diálogo e intercâmbio permanente entre os africanos e os afro-americanos.

centralidade às vertentes invisibilizadas, africana e indígena, lugar a partir do qual elabora a saga das lutas dos afro-americanos pela liberdade.

A compreensão dos nexos e do contínuo diálogo entre a África e as Américas regem o resgate e a reelaboração literária da cosmovisão das religiões de origem africana, o

candomblé, a santería e o vodu, perspectiva aberta na América Latina por Alejo Carpentier

com Ecué Yamba-ó e El reino de este mundo97 para poetizar o sentido mais profundo e

revolucionário da diáspora africana. Destes códigos emana a poderosa e renovadora força literária e cognitiva do romance; sua configuração narrativa, poema, mito, canção, história e filosofia, é montada com a diversidade de elementos da religiosidade. Profecia, redenção, oração e cura se nutrem de todas as tradições, africanas e afro-americanas, em primeiro lugar, e indígenas e europeias, para burilar o universo poético da epopeia vivida pelos africanos em suas lutas pela liberdade. O sentido político profundo do romance provém da rebeldia e da luta pela liberdade. Zapata escreve a saga com a convicção de que a contribuição mais significativa dos escravizados para a história das Américas é a luta.

Como em Pedro Páramo (1953),de Juan Rulfo; Grande sertão: veredas (1967),de

João Guimarães Rosa; Macunaíma (1928), de Mario de Andrade; Los ríos profundos

(1971),de José María Arguedas; Yo, El supremo (1974),de Augusto Roa Bastos; El reino

de este mundo (1949), de Alejo Carpentier; e Cien años de soledad (1967), de Gabriel García Márquez, modelos emulados por Zapata no resgate das tradições e mitologias das Américas, nos encontramos dentro de uma experiência mitológica, artística e intelectual. Como assinala Eduardo Subirats, em sua análise de várias das obras mencionadas:

Estamos no centro de um processo criador de formas, símbolos e mitos. Encontramo-nos no meio de uma reflexão esclarecedora sobre memórias destruídas e palavras falsas. No coração emocional e espiritual das culturas latino-americanas. [...] Mas existe ainda outro aspecto mais relevante nestes romances: não apenas assumem uma nova forma a partir da oralidade, a partir de mitologias soterradas, e a partir das línguas e memórias originais da América. Todos estes romances alimentaram e foram integrados socialmente como a forma, a consciência e o espírito de uma comunidade nacional e latino-americana, e de sua resistência a sua dissolução linguística, ecológica e política. (SUBIRATS, 2014: 31)

97A trama destes romances de Carpentier está estreitamente ligada ao sistema religioso afro-cubano e ao

Changó poderia estar entre os cinco romances analisados por Subirats em Mito y Literatura,98por possuir a mesma estatura literária, e ser, portanto, uma obra à qual lhe cabe

em toda sua extensão a consideração como criadora de formas, símbolos e mitos. E, com maior razão, porque resgata essas mitologias soterradas da contribuição da diáspora africana às Américas. Com as mitologias africanas, Zapata elabora sua epopeia, na qual poesia e prosa se confundem numa mesma potência criadora, transcendem as fronteiras entre as diversas facetas da condição humana. Todo se constitui na totalidade do Muntu. Como expressa Zapata:

O fundamento de todo esse romance é o conceito do Muntu, que é um conceito banto que alude à família, mas não no sentido tradicional da cultura ocidental, mas sim a família dos homens vivos e seus mortos, irmanados com os animais e os vegetais e os minerais. Noutras palavras, esse grande problema que hoje em dia a humanidade se está propondo, de reconhecer essa biodiversidade por meio de uma fraternidade e não por uma luta até a morte. (ZAPATA, 1990: 345).

O Muntu permite amalgamar poesia, música, literatura, filosofia, realidade e ficção; diversidade de facetas tecidas como ramificações da árvore bruxa da liberdade, o baobá sagrado das culturas milenares africanas. A mitologia e o pensamento africano, sua concepção da vida e da morte, sua continuidade nas Américas nutrem o realismo mítico de

Changó, definição que o próprio Zapata dava à forma de representação. O primeiro poema

– “Orichas. Deja que cante la kora” — imprime caráter mítico a tudo o que será relatado

adiante por Ngafúa, o babalaô-narrador:

Ouvidos do Muntu, ouvi! Ouvi! Ouvi! Ouvi! Ouvidos do Muntu, ouvi! (O corá ri

chorava o corá, suas cordas irmãs contarão num só canto a história de Nagô

a trágica viagem do Muntu ao continente exílio de Xangô.)

98 Subirats não se ocupa da obra de Carpentier, nem da de García Márquez, obras que considero, junto com

(ZAPATA, 2010: 42)

A epopeia narrada se dirige à Humanidade. O Muntu a metaforiza. O canto anuncia o indissociável destino dos africanos junto com seus deuses, desse prolongamento que nunca abandonou totalmente a África: a diáspora que mesmo na distância de terras estranhas suporta seu destino com a sabedoria dos Ancestrais e a proteção dos orixás, destino escrito nas Tábuas de Ifá. Na interpretação mítica do romance, a diáspora ocorre

por um castigo de Xangô que a envia ao “continente exílio”. Exílio forçado que será

protagonista da resistência e das lutas libertárias com a proteção de Xangô e dos demais orixás. Ngafúa canta a epopeia da diáspora para as Américas acompanhado pelo corá,

espécie de harpa ou alaúde tocado pelos djelis (os griôs), bardos profissionais encarregados

de conservar as tradições e histórias épicas orais, e assim fazer perdurar a sabedoria viva dos povos africanos.

Nas viagens de Zapata à África, ele teve a oportunidade de conhecer os griôs, inspiradores do personagem Ngafúa, o conselheiro e guia de Nagô, que ao tanger do corá conta a epopeia da diáspora. Dessa maneira, define-se o lugar de onde narra, de dentro da cosmologia das Tábuas de Ifá. A função de Ngafúa assemelha-se à dos griôs, ao mesmo

tempo em que é um babalawó de Ifá. O papel e a significação do babalaô nas religiões

africanas e afro-americanas, segundo um dicionário de religiões afrocubanas:

Babalawó. Das religiões de origem Iorubá. De babá (pai) e awó (adivinho, sacerdote ou mão de Ifá). Hierarquia máxima no sistema de Ifá. Filhos do orixá Orulá (orixá maior que rege o Ifá), que devem possuir uma integridade moral e sexual absoluta. Estão investidos de autoridade ritual que lhes permite determinados trabalhos exclusivos de sua dignidade. Os babalawós só podem ser homens. Além de adivinhar por meio de Ifá, podem fazer entrega dos chamados Orixás guerreiros: Ogum, portador de força e obstinação; Elegguá, capaz de abrir e limpar os caminhos, e Osaín, que proporciona os benefícios das ervas. Também de Olokun, orixá que somente pode ser entregue por eles, embora na atualidade existam santeiros que fazem entrega dessa misteriosa orixá. Como parte do ritual, os babalawós todos os dias saúdam Olorum de pé diante do sol nascente (o leste) com os braços estendidos e as palmas da mão abertas para cima, com um pensamento de reconhecimento e solicitação. Depois enxaguam a boca e vão ao pé de seus santos para perguntar com o ekuele (corrente para a adivinhação) como será o dia. Os babalawós têm diversas categorias segundo seus poderes, antiguidade e conhecimento no sacerdócio: alawó, omo-fá, omo kalaba e oluo. (RAMIREZ, 2014: 57).

Ngafúa se apresenta como babalaô de Ifá. Isto é, como pai do segredo que recebe as mensagens por meio dos símbolos (odus) das Tábuas de Ifá. O babalaô, entre os iorubás, detecta esses odus por meio das sementes de Ifá ou jogando o rosário de Ifá (opele Ifá), seguindo certas regras. O papel do babalaô Ngafúa está poetizada como o de um visionário que guia Nagô e a diáspora em seu novo destino, como um sacerdote, guardião, sábio e profeta abençoado pelos Orixás, as divindades protetoras supremas, as forças também conhecidas como Voduns, Oguns, Loas, Guédés e Zakas. Ele conhece os mistérios da vida e da morte, porque sua sabedoria provém da sombra protetora dos supremos da natureza e das potências criadoras Ancestrais. Ngafúa é o xamã e o bardo, o curandeiro e o trovador. Quando invoca seu pai, Kissi-Kama, sua voz se vincula ao canto épico do herói malinke Sundjata:

Dá-me, pai, tua palavra,

a palavra evocadora da espada de Sundjata a sangrenta espada cantada por teu corá a que banhou em sangue o chão de Kirina só para que Xangô-Sol

todas as tardes ali manchasse sua máscara vermelha. (ZAPATA, 2010: 43)

Por trás destes versos há uma longa história e a geografia de uma civilização: a do povo Manden (Mandenka ou Mandingo), os povoadores do império Mali (HGA IV, 2010). O canto refere-se aos heróis do Mandingo, cujas histórias Ngafúa escutava quando menino, nos braços de seu pai, à sombra do baobá de raízes profundas. Agora a invoca para que

estas histórias sábias iluminem a sua própria história. “A palavra evocadora da espada de

Sundjata” alude ao lendário herói da unidade do império Mali no século XIII – Sundjata

Keita – e à memorável batalha de Kirina, ao norte da moderna Bamako, por volta de 1230,

na qual Sundjata vence Sumaoro Kante o chefe dos sossos, o povo inimigo dos mandingas.99

Essa vitória unifica todos os clãs malinqueses e sela a fidelidade a Sundjata, proclamado como rei dos reis do novo império recém-criado: o de Mali (DA COSTA E SILVA,1996). As histórias desse império foram transmitidas por uma rica tradição oral de geração em

99 Os relatos da tradição oral sobre Sondjata Ketia foram coletados pelo historiador da África do Norte,

Djibril Tamsir Niane, e podem ser consultados na Internet: http://www.webmande.net/bibliotheque/dtniane/sunjata/tdm.html

geração pelos griôs,

A saga do herói é declamada com o acompanhamento de árias bem definidas; essa epopeia, ou Sundjata fassa, foi composta por Bala Fasseke Kuyate, griot do conquistador. O canto conhecido como Boloba (a Grande Música), composto pelos griots de Sumaoro Kante, foi adotado por Sundiata Keita como a música de todo guerreiro mandenka; isto significa que qualquer Maninka pode solicitar a um griot que o execute, seja para ouvi-lo, seja para dançá-lo. (HGA IV, 2010: 164).

Estes relatos foram coletados na publicação Sundjata ou l’épopée mandingue

(1960), pela editora Presence Africaine, e foi objeto de vários colóquios internacionais,

segundo referência na História Geral da África (HGA IV, 2010: 148). Por essa edição

Zapata teve acesso ao canto épico do lendário herói malinke Soundjta Keita, que muitos anos mais tarde se vincularia com a narração de Ngafúa para lhe imprimir o mesmo caráter.

“Dá-me, pai, tua voz criadora de imagens, tua voz tantas vezes escutada à sombra do

baobá” (ZAPATA, 2010: 43).

A invocação de Ngafúa a seu pai Kissi-Kama vincula seu relato à tradição dos ancestrais transmitida sob a sombra da lendária árvore africana.

Sob a copa do Baobá se reúne o conselho dos anciãos, atuam os contadores de história, as pessoas fofocam e os namorados se encontram. A árvore é o palco de acertos e desacertos, onde as pessoas se unem e se separam. Seja lá o que for, o Baobá testemunha tudo o que de importante acontece na aldeia. Cenário por excelência dos eventos marcantes da comunidade, o Baobá se torna eixo da vida social. Exatamente por isso ele é, acima de tudo, a árvore da aldeia. (WALDMAN, 2012: 22)

Os baobás conferem ao relato de Ngafúa um mandato repassado por gerações que habitam o reino dos antepassados. Assim, o baobá simboliza o guardião de sentidos e significados das tradições, modos de ser e religiosidade dos povos da África; essa é a forma como Zapata poetiza esse passado que acompanha a diáspora africana às Américas. Na epopeia de Sundjata Keita, os baobás e outras árvores gigantescas aparecem sempre mencionadas como pontos de referência das comunidades e sobreviventes das cidades desaparecidas.

Situar a narração à sombra do Baobá proporciona à saga um símbolo da africanidade, com as múltiplas prefigurações que tem nas culturas dos povos africanos, além de suas qualidades naturais intrínsecas. Virtudes que expressam, no campo intelectual

das reivindicações dos movimentos das negritudes do século XX dos quais Zapata participou, a aspiração dos africanos e afrodescendentes de manter suas raízes e resistir às forças que pretendem desqualificá-la, inferiorizá-la e oprimi-la.

Desde sua passagem pelo Harlem e seu contato com os artistas e intelectuais afro- americanos, Langston Hughes, Paul Robeson, Claude Mackay e Richard Wright, e anos antes com o afrocubanismo de Nicolás Guillén, Alejo Carpentier, Fernando Ortiz e Lydia Cabrera, o indigenismo haitiano de Jean Price-Mars e a negritude de Aimé Césaire (Martinica), Léon Damas (Guiana Francesa) e Léopold Sédar Senghor (Senegal), Zapata assume os ideais destes movimentos para dar forma à sua saga. Sob a sombra do baobá se propõe recuper a cultura africana, a valorizar o passado que trouxeram e continua alimentando a diáspora no Novo Mundo. A negritude se tornou sinônimo do amplo processo de tomada de consciência racial, de valorização dos símbolos culturais de origem africana, da luta antirracista, da libertação nacional, e, talvez, do que Zapata ressaltou em meio de tudo: das religiões de matriz africana. Um conceito como o Muntu, uma função religiosa como a dos babalaôs, o simbolismo do baobá e os fios dos orixás, sintetizam esse espírito da negritude na criação narrativa de Zapata. O baobá é um baluarte da memória africana, abrigo das esperanças do babalaô Ngafúa.

Desta forma, o início ritual e cultural de Changó são os catorze poemas que o

babalaô Ngafúa canta. Este personagem mítico e literário está presente ao longo de toda a

narração, junto com Nagô, Olugbala, Kanuri “Mai” e Sosa Illamba. Ngafúa é o ancestral

dos babalaôs e Nagô, o dos guerreiros. Olugbala é a prudência da formiga com a força do elefante. Sosa Illamba é a mãe Iemanjá de cujo ventre nasce o Muntu americano. Kanuri

“Mai” é a luz da arte que redime a tragédia da escravidão e da doença. Estes cinco africanos,

arrancados de suas famílias e culturas, acorrentados nos navios negreiros, partiram para as Américas como mensageiros dos Orixás para libertar o Muntu. Eles são os Ancestrais que inspiram e protegem a redenção da liberdade com a sabedoria milenar. Por isto, as

primeiras palavras do romance, após o título e a dedicatória a Rosa, são: “Los Orígenes”,

“La tierra de los Ancestros” e “Los Orichas”.

Nesta primeira parte de Changó,encontra-se a concepção da palavra poética como

criadora de imagens, invocadora das divindades, narradora da sabedoria e canto ritual do muntu. A poesia em Zapata Olivella é mitológica, por isto se encarna no baobá como metáfora da árvore da palavra. No baobá africano, habitam os ancestrais e descem os

sagradas para os vodus). Para os iorubás, o baobá é a árvore da palavra, encarnação do ser espiritual e poético que contém o legado vital dos Ancestrais. Manuel Zapata Olivella

afirma a visão americana em relação a essa mitologia ancestral, porque para ele a ceiba é

El Árbol Brujo de la Libertad, sob a qual os ancestrais escravizados se refugiaram, lutaram e reviveram sua palavra milenar. Na arte e na tradição oral, foram imortalizados os heróis da libertação, com a mesma força criadora que permite que a árvore gigantesca brote da semente. Essa palavra é a que permite alcançar a redenção da dor mais trágica. Porque para Manuel Zapata Olivella, a diáspora africana foi um dos maiores dramas da humanidade, dos milhões de seres arrancados com grilhões de sua terra, família, cultura e cosmovisão. Mas os séculos de opressão nunca impedirão o surgimento da oração do babalaô e a

libertação da arte na terra americana. Changó é a palavra poética que redime o Muntu e o

cura com o bálsamo da arte. O romance é a árvore bruxa que narra nas vozes de seus ramos a luta e a vida da liberdade. Como Elegbá, o babalaô é o grande portador da vida do Muntu ao comunicar o mundo divino com o mundano. É o xamã que possui o poder da profecia e da cura, que conhece sua tradição e a perpetua em seu povo. Da mesma forma, o babalaô também é o Homero da mitologia africana, o poeta e cantor que dá forma à história de suas divindades na beleza verdadeira da arte. Sua semente é a memória e a natureza criadora da palavra. O próprio Manuel Zapata Olivella é um babalaô que foi nutrido de todas as facetas do ser humano com sua visão ecumênica da vida. Por isto, sua escrita é canto, conto, pensamento, oração, luta, redenção e poesia. Sua literatura é filosofia antropológica. Seu compromisso social é redenção estética. Sua tradição histórica é o legado imortal dos

Ancestrais. Dali surge a mensagem libertária e espiritual de Changó, que como o baobá

continuará crescendo nas estiagens e nos invernos com a vitalidade da palavra.

O baobá africano, a árvore da palavra, morada dos Orixás e Ancestrais, é símbolo e fonte de tradição viva, do passado para os africanos:

Esse passado, por ter sido deles, é nosso, que os continuamos – um passado em que é difícil deslindar mito e realidade, sobretudo no amplo espaço dos séculos em que a história era ainda poesia. A imaginação foi sempre o húmus do jardim de Clio. No caso da África, antes do século XVII, é particularmente válido definir-se a história como adivinhação do passado. (SILVA, 1996: 15).

Estas palavras do grande africanista brasileiro, a quem Zapata teve a oportunidade

de conhecer em Bogotá e lhe dar o romance Changó, nos anos 1990, quando era o

que anima essa saga, ao código de representação com o qual está tecido. Olodum, Xangô,

Iemanjá, Elegbá, Ogum – me comentou o poeta Costa e Silva – fazem parte do livro sobre

a história da África antes da chegada dos portugueses – A enxada e a lança – porque

pertencem inexoravelmente à realidade dos iorubás. E como um sábio babalaô explicou: eles estão como Eneas e sua viagem de Troia ao Lácio, e como Reia Sílvia, a loba, Rômulo e Remo, nos compêndios sobre história romana, cujos autores sabem que são mitos, mas

não ignoram que fecundaram um destino.100 Zapata tinha essa mesma compreensão. Como

romancista, lançou mão da imaginação para penetrar na história da África, pois, como Alberto da Costa e Silva, tinha a convicção de que esse passado era também o das Américas

fecundadas pela diáspora africana. Por isso, o fio condutor de Changó é a dimensão

mitológica, que engloba a África histórica e a utópica. Zapata compreendeu, como romancista, o caminho apontado por Costa e Silva, como historiador, em relação à história da África:

Se é verdade que toda narrativa histórica é uma aproximação hipotética de acontecimentos que o autor não viveu – o papel escrito, embora pareça neutro, é

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