A doença psiquiátrica surge frequentemente associada a um padrão de sofrimento individual e social de natureza dificilmente mensurável. Experiência do quotidiano, vivida por todos e, consequentemente, pelos médicos. No entanto, estes deverão, tanto quanto possível, efectuar a gestão dessas experiências sem que elas possam influenciar a gestão da relação terapêutica. Esta característica da patologia psiquiátrica é, claramente, um indutor de tensão continuada com que o médico de família é obrigado a lidar, podendo alterar aspectos do desempenho, facilitando eventuais distorções do processo de referenciação.
O aspecto das dificuldades em lidar com o sofrimento psiquiátrico (m=2,300; dp=0,714) remete-nos para os problemas discutidos mais recentemente. Apesar de, tal como eles, não se revelar com significado estatístico, não impede que seja preciso atender ao número elevado de médicos que dizem ter algumas ou mesmo muitas dificuldades a este nível (26 em 40), situação que condiciona, de forma efectiva, o seu comportamento referenciador, numa tentativa de ultrapassagem das dificuldades. Daqui resulta que esta terá de ser (como a preocupação com as áreas formativas em geral) uma zona de intervenção de forma a reestruturar o processo quer assistencial quer de referenciação.
No estudo desta questão os dados foram avaliados de acordo com os resultados da codificação obtida na entrevista, seguindo o mesmo processo anteriormente referido.
(a). O primeiro grupo (quadro 36 – sofrimento psiquiátrico – cod 1-2) integrou os médicos de família que forneceram respostas codificadas como 1 ou 2, as quais traduzem dificuldades em lidar com o sofrimento psiquiátrico, com reflexos em termos de qualidade do processo de referenciação de doentes à consulta. Os valores obtidos, revelam influência desse parâmetro, com valor estatístico significativo, ao nível do processo em estudo, de acordo com o esperado face à experiência expressa pelos médicos. quadro 36 q1 q2 q3 q4 q5 q6 q7 q8 q9 q10 q11 q12 q13 q14 média média 3,077 3,577 4,077 3,192 2,846 2,923 3,000 2,154 2,538 1,846 2,231 1,538 2,923 3,346 2,805 desvio pad. 0,730 0,743 0,615 0,556 0,769 0,615 0,679 0,455 0,634 0,361 0,576 0,692 0,730 0,617 0,239 T = 0,453
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Também neste grupo surgem dois resultados, relativos à experiência do médico (m=4,077; dp=0,615) e aos problemas de comunicação interinstitucional (m=1,538; dp=0,692) com reflexos sobre este processo sobreponíveis aos discutidos anteriormente.
Dos outros parâmetros avaliados não se revelaram resultados com relevância estatística.
(b). O segundo dos grupos formados para avaliar os resultados desta questão (quadro 37 – sofrimento psiquiátrico – cod 3) integrou os médicos de família cujas respostas foram codificadas como 3 e, portanto, sem dificuldades ao nível do factor estudado que implicassem numa alteração dos padrões de referenciação de doentes à consulta.
Dos resultados obtidos apenas três parâmetros de influência revelaram significância estatística, a idade do médico (m=3,833; dp=0,373), a experiência do médico (m=4,250; dp=0,433), ambos no sentido positivo, de melhoria de qualidade e, no sentido inverso, os problemas de comunicação interinstitucional (m=1,500; dp=0,645).
(c). O último dos grupos considerados para esta pergunta englobou os médicos cujas respostas foram codificadas como 4 ou 5 (quadro 38 – sofrimento psiquiátrico – cod 4- 5), traduzindo uma capacidade de gestão do sofrimento psiquiátrico adequada, facilitadora duma melhor qualidade do processo de referenciação. Contudo, tem de ser atendida à dimensão reduzida deste grupo (apenas dois elementos) na avaliação destes resultados. Para além desta implicação em termos de avaliação dos resultados importa reter o facto de que este número traduz as dificuldades sentidas pelos médicos de família ao nível da gestão deste factor, o qual se transporta para a actividade diária, condicionando situações de insegurança com afectação do desempenho.
quadro 37
q1 q2 q3 q4 q5 q6 q7 q8 q9 q10 q11 q12 q13 q14 média
média 3,083 3,833 4,250 3,083 2,833 3,167 3,000 2,583 2,917 3,000 3,083 1,500 3,250 3,167 3,054
desvio pad. 0,759 0,373 0,433 0,493 0,799 0,373 0,707 0,759 0,759 0,000 0,640 0,645 0,595 0,373 0,251
t = 0,299
SOFRIMENTO PSIQUIÁTRICO - 10B - cod 3
quadro 38
q1 q2 q3 q4 q5 q6 q7 q8 q9 q10 q11 q12 q13 q14 média
média 4,000 4,000 4,000 3,000 3,500 3,000 2,500 2,000 2,000 4,000 3,000 1,000 2,000 3,000 2,929
desvio pad. 0,000 0,000 0,000 0,000 0,500 0,000 0,500 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,071
t = 0,499
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Os resultados obtidos apontam para diversos factores de influência positiva e negativa com valor estatístico. Assim, dum ponto de vista positivo, para além do problema em discussão, relativamente ao qual os médicos entrevistados não revelaram qualquer dificuldade, obtemos como parâmetros de influência as características do médico (m=4,000; dp=0,000), a idade do médico (m=4,000; dp=0,000), a experiência do
médico (m=4,000; dp=0,000). Como factores de influência negativa no processo de
referenciação verificam-se as dificuldades de manuseamento do diagnóstico (m=2,000; dp=0,000), as dificuldades de manuseamento da terapêutica psiquiátrica (m=2,000; dp=0,000), os problemas de comunicação interinstitucional (m=1,000; dp=0,000) e as dificuldades introduzidas pelas pressões de natureza externa da participação dos
doentes no processo de referenciação (m=2,000; dp= 0,000).
(d). A análise do quadro 39 (comparação de grupos 10) traduz, a exemplo das questões anteriores, uma dificuldade generalizada dos médicos de família em gerir este aspecto relativo ao doente psiquiátrico que se revela mais difícil ao nível dos médicos em regime de dedicação exclusiva (Ge – m=1,9; dp=0,539) (pela provável existência de uma actividade mais centrada nos doentes e instituições), ao nível dos médicos mais jovens (G1 – m=2,059; dp=0,725) (pela provável falta de experiência no gerir a capacidade de distanciamento necessário para a execução do trabalho terapêutico) e do GII (m=1,778; dp=0,416) (pela, segundo decurso das entrevistas, pela proximidade continuada com múltiplos casos em seguimento).
quadro 39 m-dp m m+dp média 2,623 2,886 3,149 totais 1,586 2,300 3,014 GUSF 1,535 2,296 3,057 GCS 1,702 2,308 2,913 Ge 1,361 1,900 2,439 Gne 1,797 2,467 3,124 G1 1,334 2,059 2,784 G2 1,736 2,500 3,264 G3 1,957 2,455 2,952 GI 1,517 2,333 3,150 GII 1,362 1,778 2,194 GIII 1,843 2,500 3,157 Sofrimento psiquiátrico (10)
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4.11. Cronicidade
A doença psiquiátrica é entendida, de um modo geral, como tendo um carácter crónico e recorrente, necessitando de tratamento prolongado para estabilização; sendo assumida como possuindo características diferentes, a este nível, de outras patologias (apesar desta premissa não se verificar de modo tão linear), levando a atitudes diferentes. Estas, estão por vezes associadas à persistência da sintomatologia, a despeito duma intervenção terapêutica adequada, levando a situações de insegurança do médico, pelo arrastar das queixas.
Tal como nos anteriores pontos discutidos, este (m=2,525; dp=0,707) não se apresenta com valor significativo eme termos estatísticos. Contudo, à semelhança daqueles, representa um foco problemático para 50% dos médicos entrevistados, reduzindo a sua capacidade de exercer um referenciação adequada e, consequentemente poder ser um foco de disfunção deste processo.
A divisão dos dados para avaliação desta questão obedeceu aos critérios seguidos anteriormente, obtidos através da codificação das respostas fornecidas durante a entrevista.
(a). No primeiro grupo (quadro 40 – cronicidade – cod 1-2) foram integrados os médicos cujas respostas fornecidas tiveram uma codificação de 1 ou 2. Dos resultados obtidos, apenas em dois parâmetros de revelaram como tendo valor estatístico significativo, um com efeito positivo, de melhoria da qualidade, a experiência do
médico (m=4,000; dp=0,548) e outro com efeito negativo, prejudicando a qualidade
dessa mesma referenciação, como seria de esperar, a dificuldade em lidar com o
carácter crónico da doença psiquiátrica (m=1,900; dp=0,300), característica que impõe
limitações em termos de abordagem, condicionando a realização dum trabalho com bases diversas das habitualmente realizadas.
quadro 40
q1 q2 q3 q4 q5 q6 q7 q8 q9 q10 q11 q12 q13 q14 média
média 2,850 3,500 4,000 3,050 2,800 2,900 2,950 2,100 2,550 1,950 1,900 1,650 2,850 3,350 2,743
desvio pad. 0,726 0,806 0,548 0,589 0,812 0,624 0,740 0,300 0,669 0,497 0,300 0,792 0,792 0,572 0,225
t = 0,472
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(b). O segundo dos grupos obtidos relativamente a este factor (quadro 41 – cronicidade – cod 3) integrou os médicos cujas respostas foram codificadas como 3 durante a entrevista.
Da análise dos resultados obtidos verifica-se a existência de três parâmetros de influência com significado estatístico, a idade do médico (m=3,824; dp=0,381), a
experiência do médico (m=4,235; dp=0,546) e os problemas de comunicação interinstitucional (m=1,412; dp=0,492), reflectindo-se no processo de acordo com o
padrão anteriormente descrito, os dois primeiros de forma positiva, facilitando a qualidade da referenciação e o último de um modo negativo, dificultando essa mesma qualidade.
(c). No último grupo formado para o estudo deste parâmetro (quadro 42 – cronicidade – cod 4-5) foram integrados os médicos com respostas codificadas como 4 ou 5, tradutoras duma boa capacidade de gestão das dificuldades impostas pelo carácter crónico da doença psiquiátrica. Também aqui importa referir o tamanho muito limitado deste grupo e a sua implicação na avaliação dos resultados mas que reflecte a dificuldade dos médicos de família em lidar com este problema, causando incomodidade e insegurança, com implicações na actividade desenvolvida.
Neste contexto verifica-se a existência de diversos factores com relevância estatística, a
idade do médico (m=4,000; dp=0,000), a experiência do médico (m=4,333; dp=0,471),
para além da induzida pela ausência de dificuldades em lidar com o carácter crónico da
doença psiquiátrica (m=4,000; dp=0,000), como previsível pela resposta dada, as quais
implicam uma interferência positiva na qualidade de referenciação e, as limitações na
gestão do sofrimento psiquiátrico (m=3,000; dp=0,000), os problemas de comunicação
quadro 41
q1 q2 q3 q4 q5 q6 q7 q8 q9 q10 q11 q12 q13 q14 média
média 3,353 3,824 4,235 3,176 2,824 3,059 2,882 2,353 2,529 2,588 3,000 1,412 3,118 3,176 2,966
desvio pad. 0,681 0,381 0,546 0,381 0,706 0,416 0,582 0,681 0,606 0,771 0,000 0,492 0,676 0,513 0,155
t = 0,200
CRONICIDADE DA DOENÇA PSIQUIÁTRICA - 11B - cod 3
quadro 42
q1 q2 q3 q4 q5 q6 q7 q8 q9 q10 q11 q12 q13 q14 média
média 3,667 4,000 4,333 3,667 3,667 3,333 3,667 3,000 3,667 3,000 4,000 1,000 3,000 3,333 3,381
desvio pad. 0,471 0,000 0,471 0,471 0,471 0,471 0,471 0,816 0,471 0,000 0,000 0,000 0,000 0,471 0,168
t = 0,371
61 interinstitucional (m=1,000; dp=0,000) e as dificuldades colocadas pela participação do doente no processo de referenciação (m=3,000; dp=0,000) que impõem uma influência
negativa, apesar de quer os problemas decorrentes da gestão do sofrimento psiquiátrico quer os decorrentes da participação do doente no processo de referenciação à consulta se integrem no valor médio da escala.
(d). No entanto, a avaliação desta questão em termos individuais transporta-nos para a existência de dificuldades acentuadas, experienciadas por todos os grupos (quadro 43 – comparação de resultados 11) que surgem mais marcadas ao nível dos grupos mais jovens e menos experientes, os quais revelam menor índice de experiência para lidar com esta característica assim como uma maior necessidade de obtenção de resposta terapêutica mais rápida no tempo.
quadro 43 m-dp m m+dp média 2,623 2,886 3,149 totais 1,818 2,525 3,232 GUSF 1,770 2,556 3,341 GCS 1,963 2,462 2,960 Ge 1,737 2,400 3,063 Gne 1,888 2,600 3,312 G1 1,664 2,176 2,689 G2 1,921 2,750 3,579 G3 2,243 2,818 3,393 GI 1,806 2,222 2,638 GII 1,545 2,111 2,678 GIII 2,818 2,818 3,534 Cronicidade (11)
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