Os anos 1930 constituíram um momento significativo de “reafirmação do português como língua nacional diante dos imigrantes” (PAYER, 2006, p. 60). Nesse contexto, “adquiriram ênfase as concepções de
idioma pátrio e de língua pátria, explicitamente abordados neste momento
como ‘elementos de soberania nacional’” (grifos da autora). Assim, “ganhou relevância neste sentido toda uma disputa em torno da definição dos símbolos da República Brasileira (bandeira, hino, herói nacional etc.), junto com a sua propagação e exaltação” (ibid., p. 70).
Quando refletimos sobre os sujeitos fronteiriços, mais especificamente, filhos de brasileiros, significados na SD23 enquanto aqueles que aprendiam a cantar o hino argentino, “como se fosse o de sua pátria”; devemos lembrar, tal como apresentamos antes, que idioma pátrio e língua
pátria já eram abordados como elementos de soberania nacional nos anos
1930. A princípio, parece-nos que há um desligamento entre idioma pátrio e
língua pátria, produzindo um deslizamento de sentidos, um efeito metafórico,
que, de acordo com Pêcheux (2010 [1969], p. 96), é “o fenômeno semântico produzido por uma substituição contextual [...], esse ‘deslizamento de sentido’
entre x e y é constitutivo do ‘sentido’ designado por x e y”. Segundo Orlandi (2008a, p. 184), “a língua, enquanto idioma oficial, está vinculada à ideia de país, de pátria, de povo”. Essa definição nos reporta às reflexões dessa mesma autora quando ela analisa os sentidos da estátua de Fernão Dias, à margem da rodovia de mesmo nome, na entrada do município de Pouso Alegre-MG. Em suas palavras,
[...] temos aí um sofisticado processo discursivo. O de uma estátua que nos faz pensar um corpo – o de Fernão Dias – que se materializa em um sujeito, o Bandeirante, que institui caminhos e forma povoados, situa populações. Povoa o solo do Brasil. Transforma espaço em territorialidade, em acontecimento, em história. Em país. Em nação. Submete o chão ao Estado. E este, por seu poder, suas instituições, individua seus sujeitos desse chão (id., 2011, p. 32).
Sendo assim, a língua também se constitui na relação com a pátria e com seus sentidos de
[...] país em que nascemos. Qualquer terra ou localidade, em que nascemos [...]. Nacionalidade. Berço (Lat. patria) (FIGUEIREDO, 1913, p. 1511, grifos do autor). Novo diccionário da língua portuguesa.
De acordo com o relato, vemos como se produz a evidência de que os brasileiros que nasciam no território catarinense eram registrados como argentinos em Barracón. Contudo, isso não representa que, de fato, haviam nascido na Argentina, que eram cidadãos argentinos, que a Argentina era sua pátria. E aí aparece o furo e os sentidos deslizam, porque eles são significados enquanto aqueles que aprendiam a cantar o hino argentino “como se fosse” o de sua pátria, ou seja, “como seu hino nacional”, como aqueles que eram alfabetizados na língua espanhola, na escola argentina, mas sendo significados como brasileiros e não como argentinos. Nesse discurso sobre eles, o Estado significa esse sujeito como desnacionalizado, ou melhor, do lugar do Estado esse sujeito não é reconhecido como “brasileiro autêntico”.
De acordo com Muraro (2016, p. 175),
[...] do ponto de vista geográfico e cultural, na década de 1940, ainda não eram evidentes os espaços ocupados por brasileiros e argentinos. Da mesma forma, não eram evidentes as diferenças que permitiam distinguir, através da fala, dos costumes e das atitudes, a qual dos países pertencia a população que se deslocava para além dos limites territoriais entre os dois países. As fronteiras legais existiam, mas não
limitavam a circulação de pessoas e de cultura. A convivência e o tempo deram origem a laços de parentesco, amizade e afetividade entre indivíduos que, antes de se perceberem como brasileiros, argentinos ou paraguaios, se identificavam como pessoas que tinham uma história comum, independentemente do local de nascimento.
Tais considerações apontam para as formulações de Celada (2002), quando ela explora o significante familiar, o qual, no seu entender, é recorrente na discursividade do brasileiro sobre a língua espanhola. Nessa análise, a autora cita uma observação feita por Vieira (1996)57 com relação ao leitor
brasileiro de literatura espanhola. Segundo essa pesquisadora,
[...] há na condição desse leitor a marca um tanto contraditória do ‘estrangeiro-familiar’, pois as semelhanças entre as duas línguas, por um lado, criam zonas permeáveis em suas fronteiras e, por outro, não deixam apagar os traços da identidade estrangeira (VIEIRA, 1996, p. 114 apud CELADA, op. cit., p. 186).
Temos em consideração que a observação da pesquisadora está restrita a uma relação específica, no entanto, ajuda-nos a pensar acerca de nossas questões de análise. Vemos como a marca um tanto contraditória do
“estrangeiro-familiar” (ibid.) se apresenta, mostrando-nos como a língua se
abre para o equívoco: os sujeitos fronteiriços brasileiros são significados como aqueles que aprendiam a cantar o hino argentino “como se fosse” o de sua pátria; contudo, consideramos que aquilo que é posto enquanto uma evidência pode funcionar de outro modo.
Assim, seria importante levarmos em conta que se pode cantar o hino argentino de diferentes modos: enquanto um estrangeiro que se relaciona com as instituições nacionais e seus símbolos e, portanto, enquanto estrangeiro; enquanto um brasileiro que se torna um argentino, desnacionalizando-se, passando a se significar enquanto argentino; ou, ainda, como aquele que se movimenta entre nações e seus símbolos, significando-se na movência dos pertencimentos ou do frequentar, construindo a possibilidade
57 VIEIRA, M. A. C. O ensino da literatura espanhola na Universidade de São Paulo. In: Encontro de Professores de Línguas e Literaturas Estrangeiras, 4, 1996, Assis. Anais do IV Encontro de Professores de Línguas e Literaturas Estrangeiras, Assis: Unesp, v. 1, seção “grupos de debates”, 1996, p. 113-117.
de se constituir na relação entre as nações. Conforme apontam os estudos de Sturza (2010, p. 345):
Na condição de viverem nos limites territoriais do estado nacional, se relacionam com a exterioridade à medida que é o vizinho é também o estrangeiro; é outro país, é outra língua. No entanto, ao mesmo tempo, é o vizinho sendo o próximo, por estarem neste espaço fronteiriço constituído pela existência e confluência de elementos de identificação social e cultural comuns.
Naturalmente, essas possibilidades – dentre outras – buscam apenas suspender a evidência instituída e não recategorizar os sujeitos que, em nossa posição teórica, são tomados, por princípio, como moventes. Dessa maneira, se não podemos afirmar que a língua espanhola e o hino argentino significam como estrangeiros ou não para esses sujeitos, podemos dizer, com base em Celada (op. cit., p. 254), que a situação de contato entre as línguas espanhola e portuguesa na fronteira revela-se como estranhamente familiar.