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Em 2015, o que se notava eram grupos oposicionistas como Vem Pra Rua53 e

Movimento Brasil Livre54 permeando os protestos contra a presidente e convocando os participantes através das redes sociais. Apesar de se dizerem apartidários, ao contrário do que ocorreu em 2013, dessa vez, os protestos foram apoiados por partidos de oposição, como PSDB, Democratas (DEM) e Partido Popular Socialista (PPS), que convocaram seus filiados para os atos e até enviaram representantes políticos, estes, sim, hostilizados nas ruas. Dessa forma, tanto no primeiro momento de março de 2015, protestos a favor do governo, como no segundo, contra, percebemos a volta de atores do cenário institucionalizado ao debate e às ruas. Entretanto, o movimento foi mais pacífico, mesmo com a presença de grupos conservadores que pediam, inclusive, a volta da Ditadura Militar. Centraram-se majoritariamente nas questões políticas: cidadãos pró e contra o impeachment, combate à corrupção política, essencialmente. Se os movimentos de junho apresentavam peculiaridades e demandas regionalizadas (valores de tarifas específicos, problemas ligados a políticos regionais), agora, o movimento era nacional, contra e a favor do governo prioritariamente.

53 O Vem pra Rua “[...] é um movimento suprapartidário, democrático e plural que surgiu da organização

espontânea da sociedade civil para lutar por um Brasil melhor.”, segundo definição obtida no site do próprio movimento. Segundo informações também contidas no site, surgiu da necessidade de mobilização, “[...] desde o final de 2014, contra a grave situação econômica, política e social.” pela qual passa o Brasil. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/26/politica/1506459691_598049.html. Acesso em: 15 jan. 2018.

54 O MBL é um movimento político brasileiro, que defende o liberalismo econômico desde 2014. Em seu

manifesto, cita cinco objetivos: “[...] imprensa livre e independente, liberdade econômica, separação de poderes, eleições livres e idôneas e fim de subsídios diretos e indiretos para ditaduras”. Para o jornal El País, apesar de sua aparência, a ação do movimento é eminentemente anti-petista, aspecto que vem sendo repetidamente notado. O movimento está posicionado à direita do espectro político e carregou a bandeira do impeachment da ex-Presidenta Dilma. Apesar de se autodenominar uma entidade sem fins lucrativos, em reportagem extremamente detalhada do jornal El País, de 30 de setembro de 2017, é apontado, passo a passo, como se dá o financiamento do MBL. De acordo com o jornal, há um lado nebuloso sobre como se organiza e se mantém financeiramente este movimento, que conta com 2,5 milhões de fãs em seu perfil na rede social Facebook. Todos os recursos que recebe por meio de doações, vendas de produtos e filiações são destinados a uma “associação privada” — como consta no site da Receita Federal, chamada Movimento Renovação Liberal (MRL), registrada em nome de quatro pessoas, sendo três deles irmãos de uma mesma família: Alexandre, Stephanie e Renan Santos. Este último é um dos coordenadores nacionais do MBL e um dos rostos mais conhecidos. Disponível em: https://www.revistaforum.com.br/2017/09/30/renovacao- liberal-el-pais-revela-esquema-de-financiamento-do-mbl/. Acesso em: 18 jan. 2018.

Institutos de pesquisa, como Data Folha55 e Index56 traçaram os perfis dos

manifestantes que participaram dos atos de 15 de março de 2015 nas cidades de São Paulo, capital, e Porto Alegre (RS). O Instituto Índex realizou entrevistas com 766 pessoas presentes à manifestação contra o governo em Porto Alegre. Entre os entrevistados, a divisão por gênero ficou praticamente igual, com 51,2% de homens (392) e 48,8% de mulheres (374), o que foi também observado em nossas ponderações com relação à amostragem do período nas redes sociais online (vide Capítulo V) 57.

A maior parte dos manifestantes que responderam à pesquisa Index tinha entre 25 e 44 anos (42,3%) e concluiu o Ensino Superior (68,4%). Ou seja, não eram os excluídos que estavam nas ruas, mas uma população relativamente jovem e com formação educacional. Chama a atenção o perfil de renda dos participantes. Apenas 5% dos que estavam nas ruas ganhavam entre um e dois salários mínimos. Por outro lado, uma grande parte ganhava entre seis e dez salários mínimos (31, 9%), ou mais de dez salários mínimos (40,5%). Os brancos também foram maioria, 87,2% dos entrevistados. E mais, 73,6% responderam que nenhum integrante de seus domicílios estava desempregado. A maioria, também, ou seja, 76% responderam ter votado em Aécio Neves (PSDB-MG) para a Presidência da República, lembrando que o candidato concorreu contra Dilma no segundo turno das eleições presidenciais.

Em São Paulo, o Instituto Datafolha, também detectou que a classe média foi às ruas. No que tange às motivações, a maior parte dos respondentes disse ter ido às ruas para protestar contra a corrupção. O pedido de impeachment da presidente Dilma, usado por alguns dos grupos organizadores do ato, vinha em segundo lugar. Foi mencionado por 27%. Protestar contra o PT (20%) e contra os políticos (14%) foram outras razões mais citadas.

55 O Datafolha foi criado em 1983, ainda como departamento de pesquisas e informática do Grupo Folha

da Manhã, com o objetivo de oferecer conteúdo e servir como ferramenta de planejamento para o jornal Folha de S. Paulo e outros veículos e serviços da empresa. De lá para cá, as atribuições do departamento cresceram, ele se tornou uma empresa independente, conquistou inúmeros clientes e, atualmente, é um dos mais importantes institutos de pesquisa de opinião do Brasil. Disponível em: http://datafolha.folha.uol.com.br/sobre/historia/index.shtml. Acesso em: 15 jan. 2018.

56 O Instituto Index foi criado em 1992, tem como objetivo desenvolver e aplicar pesquisas de opinião

pública nos Estados do sul do País. Ao longo de seus 24 anos de existência, “o Index tornou-se uma referência em pesquisas de opinião pública, visando não somente o acompanhamento de seus clientes, mas também fornecendo uma ferramenta de auxilio às suas gestões”. Disponível em: https://www.institutoindex.com.br/. Acesso em: 15 jan. 2018.

57 O perfil do manifestante que foi às ruas em São Paulo e Porto Alegre. Pragmatismo Político. Disponível

em: https://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/03/o-perfil-do-manifestante-que-foi-as-ruas-em-sao- paulo-e-porto-alegre.html. Acesso em: 15 jan. 2018.

No universo dos 210 mil manifestantes (lembrando, como acima mencionado, que este foi o número de participantes auditado pelo Datafolha) que estiveram na Avenida Paulista naquele domingo, 82% (número ainda maior que o auditado pelo Index) declararam ter votado em Aécio Neves no segundo turno da eleição presidencial de 2014, 37% manifestaram simpatia pelo PSDB e 74% participavam de protesto na rua pela primeira vez na vida. Quanto à renda e escolaridade, 41% dos presentes no ato declararam receber mais de 10 salários mínimos e 76% disseram possuir nível superior (FERRAZ, 2015).

FIGURA 26 - PERFIS MOSTRAM AS DIFERENÇAS ENTRE OS

MANIFESTANTES DE SÃO PAULO.

Dessa forma, percebe-se que os protestos reuniram pessoas mais velhas. Lembrando que em 2013, conforme demonstrado anteriormente, a grande maioria dos manifestantes pelo Brasil tinham de 14 a 29 anos - 14 a 24 anos (43%) e 25 a 29 anos (20%) - e eram pertencentes à classe média. Agora, havia uma emergente manifestação da direita. Foram, assim, como se vê, protestos muito diferentes das Jornadas de Junho de 2013. Em 2013, notava-se uma organização sistemática dos movimentos pelas redes sociais, de forma mais autônoma e espontânea, num processo que partiu da sociedade.

Neste segundo momento estudado, já se detecta a presença de movimentos institucionalizados, ligados a partidos políticos contrários ao PT, tanto na convocação como na articulação dos protestos. Outro ponto a se observar é que a mídia corporativa volta a orquestrar e motivar as manifestações, realizando uma ampla cobertura tanto dos protestos como chamadas antecipadas para a realização dos mesmos, o que pudemos observar em nosso estudo, via redes sociais online e que será tratado no capítulo V.

Os movimentos contra o governo Dilma ainda reuniriam aglomerações em 12 de abril, 16 de agosto e 13 de dezembro de 2015. Manifestações populares pedindo o afastamento da presidente voltariam a ocorrer em todas as regiões do Brasil no dia 13 de março de 2016. Seria o maior ato político na história do Brasil como veremos a seguir.

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