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Confiance mal placée

Dans le document Contes de la vieille France (Page 26-32)

As organizações sociais dentro da perspectiva interacionista não são consideradas estruturas rígidas, estáticas e acabadas. A ordem social encontra-se sujeita a acomodações, peculiares às interações desenvolvidas contextualmente, que são constantemente negociadas e, portanto, modificadas. Isso permite afirmar que não há uma ordem social pronta e acabada. Essa ordem precária, em constante transformação, faz com que as organizações se sujeitem às negociações emergentes do contexto e da situação onde são desenvolvidas (DENZIN, 1977, p. 905).

Observou-se entre os três turnos que o noturno é o mais flexível com relação às regras e normas escolares. O processo de negociação das determinações que regem o contexto institucional esteve presente em todos os turnos, no entanto ele ficou mais evidente entre os membros deste horário.

A maioria dos professores e funcionários entrevistados afirmou tentar seguir o regimento interno da escola, mas admitiu que a negociação das regras é algo que acontece freqüentemente. Tal regimento é elaborado e aprovado de maneira conjunta, pela direção e colegiado da instituição. O regulamento destaca as normas e regras que regem a organização escolar, além dos direitos e deveres de todos os membros da instituição. No início do ano letivo de 2008, a supervisora do turno da tarde informou que uma cópia resumida desse regimento seria entregue a todos os alunos a título de esclarecimento dos padrões normativos adotados pela escola. Na tentativa de que todos os pais fossem informados a respeito de tais regras e normas, os alunos levariam para casa tal cópia e os responsáveis deveriam assinar um protocolo presente em sua parte inferior e devolvê-lo à instituição.

Essa mesma cópia nos foi concedida. Foi possível observar que diversas regras não são seguidas pelos alunos, professores, corpo técnico-pedagógico e funcionários. Dentre as normas mais descumpridas ou negociadas, está a regra que determina o tempo de tolerância para entrada dos alunos na instituição; a norma que versa sobre a obrigatoriedade do uso de uniforme; a cláusula de impedimento do uso de aparelhos celulares e MP3; a regra que determina a proibição do cigarro nas dependências da instituição e os tópicos referentes à aplicação das penalidades previstas para o descumprimento das normas e para a desorganização do contexto escolar.

Constatamos que tais regras são constantemente negociadas entre alunos e corpo técnico-pedagógico. Nos diversos momentos em que estivemos presentes na escola, a entrada

de alunos atrasados e sem uniforme foi permitida. Foi possível observar também, que os alunos estão sempre acompanhados de celulares e MP3. Em diversas circunstâncias, notamos que alguns alunos e membros do corpo técnico-pedagógico fumavam cigarro nas dependências escolares.

Nos momentos em que tivemos oportunidade de conversar com os atores que “descumpriam” tais determinações, a resposta mais comum era que nem sempre era possível cumpri-las rigidamente. A diretora nos informou que o uso do uniforme escolar é obrigatório, mas destacou que não pode impedir o aluno de entrar na instituição e fazê-lo voltar para casa, caso ele não o esteja usando, pois, se algo lhe acontecer na rua, a escola pode ser responsabilizada.

Outra norma destacada pela diretora que não é seguida em razão da impossibilidade de seu cumprimento diz respeito ao uso de celulares, MP3 ou outros materiais que não sejam de interesse educacional. Essa regra, segundo outros membros da direção, foi criada na tentativa de impedir os furtos de tais aparelhos dentro da instituição – já que ela não se responsabiliza pelos furtos e roubos –, no entanto, nada é feito àqueles que os levam para dentro do contexto escolar. A escola não pode retirar desses alunos tais bens, nem tem como averiguar se eles os estão levando para dentro da instituição. Isso impossibilita o controle de seu porte e uso. Quanto aos alunos com quem conversamos que faziam uso desses aparelhos, quando questionados a respeito dessa regra, alguns disseram descumpri-la simplesmente por não concordarem com tal ordenamento. Em contraposição, outros afirmaram concordar com tal determinação, já que se trata de uma norma que procura resguardar seus bens, prevenindo que eles sejam roubados. Mesmo conhecendo e concordando com a determinação normativa, esses estudantes optam por levar e usar tais aparelhos na instituição.

Dificilmente os alunos da noite usam o uniforme. Todos os entrevistados afirmaram conhecer tal lei, mas disseram que, como não há nenhum tipo de punição para tal infração, optam por não usá-lo. Além disso, alguns alunos disseram já haver um consenso a respeito de tal norma: “a norma e a regra pra usar o uniforme existe, mas ninguém cumpre não” – afirma um aluno da oitava série do turno da noite.

Essas averiguações corroboram com a perspectiva interacionista, ao afirmar que a ordem social, a sociedade, bem como as identidades, não podem ser consideradas instituições acabadas, mas processos constantes de negociação com ordenamentos precários e provisórios. Não há como explicar a ordem social, tomando como base somente as regras e regulamentos prescritos. Não há como ignorar os processos pelos quais eles são promulgados, mantidos, manipulados, alterados ou mesmo totalmente destruídos e substituídos. É através do processo

interativo, no processo social de vida em grupo, que as regras são criadas, mantidas e modificadas (MELTZER et al., 1977, p. 45).

Sabemos que os contextos institucionais são fortemente marcados pelas definições e imposições normativas. Neste sentido, os agentes institucionais exercem um papel fundamental no cumprimento de tais regras. Diante das evidências, não há como negar que esses ordenamentos são constantemente negociados no interior de cada situação e entre todos os atores da instituição.

Berger e Luckmann (1985, p. 80) afirmam que o desenvolvimento de mecanismos específicos de controle social é necessário em qualquer tipo de instituição, entretanto destacam que os desvios nos cursos de ações institucionalmente legitimadas acontecerão sempre, principalmente quando tais padrões normativos não forem estabelecidos pelo indivíduo participante. Em diversos momentos, foi possível averiguar, principalmente através de conversas informais com os alunos a respeito das infrações cometidas – como não obedecer rigidamente ao horário das aulas, não utilizar o uniforme, utilizar celulares e MP3 e fumar dentro das dependências da escola – que muitos não concordam com as regras a que estão subjugados ou tendem vê-las de maneira distante. Em alguns casos, eles não costumam ver sentido em determinadas normas porque não participaram de sua elaboração e determinação nem foram consultados a respeito de sua concordância e adequabilidade.

A discordância com relação às determinações normativas apareceu mais comumente entre os alunos do noturno, em razão do fato de eles se verem com mais autonomia que lhes permite questionar certas regras, como destacado anteriormente. Enquanto conversávamos com uma aluna a respeito da proibição do cigarro dentro das instalações escolares, ela afirmou: “Não consigo compreender isso. Aqui não tem criança. O que que eu posso fazer? Não consigo controlar. Vício é vício. Eu preciso sair da aula pra fumar. Não posso fazer nada.” Ela não reconhece a legitimidade dessa regra, primeiramente porque se vê e se reconhece como adulta e, portanto, com autonomia e liberdade para se comportar da maneira que deseja. Além disso, não enxerga essa regra como algo coerente com a sua realidade, o que faz com que ela não seja considerada importante ou digna de acatamento.

A respeito dessa discordância dos alunos com relação às regras e normas escolares, Becker (1977) chama a atenção para o fato de que as perspectivas das pessoas que se engajam em determinados comportamentos são, em muitas circunstâncias, diferentes das pessoas que as julgam e condenam. A pessoa pode sentir que está sendo julgada de acordo com regras cuja elaboração não contribuiu e que não aceita. De acordo com o autor:

[...] as pessoas na verdade estão sempre impondo suas regras a outras, aplicando-as mais ou menos contra vontade e sem o consentimento daquelas outras. Em geral, por exemplo, as regras são feitas para os jovens pelas pessoas mais velhas. [...] As regras em relação à freqüência à escola e ao comportamento sexual não são feitas considerando-se os problemas da adolescência (BECKER, 1977, p. 66).

A desatenção para o descumprimento de determinadas regras e normas, ou a chamada “vista grossa”, por parte de funcionários e professores, também foi algo constantemente observado no cotidiano escolar. Essa desatenção sutil8 também pode ser considerada uma forma de negociação dos padrões normativos que regem a organização. O fato de muitos membros do corpo docente e de funcionários não cumprirem rigidamente o regimento escolar pode denotar a necessidade de adequabilidade de tais regras à situação, a não concordância com relação a tais normas e/ou a impossibilidade de sua implementação. Em determinadas circunstâncias, a maneira como os atores apreendem a realidade em que vivem não correspondem ao contexto original em que foram propostas tais regras. Além disso, Becker (1977, p. 90) destaca que essa estratégia da desatenção pode ser ainda utilizada porque os dois grupos que competem pelo poder – no caso alunos versus professores e funcionários – encontram vantagens mútuas em ignorar as infrações.

É interessante como todos os professores, membros do corpo técnico-pedagógico e funcionários entrevistados afirmam que tomam como base o regimento escolar na orientação de suas posturas e comportamentos dentro da instituição; no entanto há uma noção de que determinadas ordens devem ser flexibilizadas e negociadas, seja em razão da impossibilidade de seu cumprimento, seja em razão da circunstância e do aluno que a infringiu. A professora de Inglês do turno da manhã destaca: “Há casos e casos, e é preciso ter isso em mente na aplicação do regimento.” “Nada a ferro e fogo”, afirma a vice-diretora da manhã.

A diretora, em sua entrevista, admitiu a possibilidade de negociação do regulamento, para um bom relacionamento entre os atores e sua adequação à realidade cotidiana: “Tudo é negociado. [...] Aí eu costumava falar com os meninos, presta atenção, ordem idiota é pra ser descumprida.” A diretora destaca a necessidade de mudança e adequação das normas escolares às diversas e diferentes situações que se desenrolam em contextos distintos: “As coisas têm que ser negociadas de acordo com a situação.”

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O termo desatenção sutil não está relacionado ao conceito de “desatenção cordial”, definido por Goffman (1980a, p. 156). O conceito goffmaniano diz respeito aos contatos desenvolvidos entre os indivíduos, que em determinadas interações, precisam demonstrar sinais visíveis de que estão dirigindo a sua atenção para outro lugar.

Essa postura se expressa na maneira como ela se define enquanto diretora e professora. Ela diz ser uma pessoa “flexível” e “rigorosa” ao mesmo tempo, pois tenta se portar, tendo como referência a circunstância e a situação desenvolvida. Essa flexibilidade de postura também se revelou variável de acordo com o aluno, ou melhor, de acordo com a maneira como ela enxerga o aluno. Isso ficou mais claro quando a entrevistada relatou um caso, acontecido no dia da entrevista, em que um grupo de alunos do noturno havia sido impedido de entrar em sala pela professora em razão do atraso no horário. Ela afirmou que, normalmente, de acordo com o regimento, tais alunos não poderiam assistir à aula por terem ultrapassado a tolerância de tempo de atraso permitida, mas, por se tratarem de alunos que ela considera “bons”, autorizou a entrada e o acesso à aula. Seu relato confirma essa informação:

Esses meninos que vieram reclamar, eles estavam cansados do trabalho, não queriam perder a aula e o professor não deixou entrar. Primeiro eu vou lá ver qual é o aluno, você entendeu? Se é aquele que eu vi desde a entrada, que está ali passeando no pátio, eu vou levar ele pra direção, mas se eu sei que são bons alunos, que são excelentes alunos, que a escola precisa desses meninos, até para o bom nome da escola, porque são alunos que, de repente, vão estar fazendo vestibular, que vão carregar, que vão estar no CTU9, entendeu, que vão levar o nome da escola pra frente (DIRETORA DA INSTITUIÇÃO).

Essa questão está intimamente relacionada à forma como as pessoas enxergam as outras e orientam suas ações tendo como base essa determinação. Fatalmente, ela enfatiza a importância da significação do mundo material e das pessoas – o que significa ser um bom e um mau aluno, para cada ator, em cada momento – e pela questão da estigmatização de determinados indivíduos e grupos, tão bem trabalhadas pelo Interacionismo. É possível visualizar aqui como as ações são orientadas pela interação e pelo universo de significados peculiares a esta relação. Essa orientação está de acordo com os pressupostos de Blumer (1980, p.119): os seres humanos agem em relação às coisas, tomando por base os significados que as coisas têm para ele; esses significados emergiriam da interação social e tais significações poderiam ser manipulados e modificados através de processos interpretativos utilizados pelas pessoas para lidar com as coisas com que deparam.

É claro que esse processo de significação também está correlacionado à classificação do aluno ou de um determinado grupo de alunos. Essa categorização e nomeação – que veremos mais a frente – orientam ações e posturas, como afirma Strauss: “a direção da atividade depende das maneiras particulares pelas quais os objetos são classificados”

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(STRAUSS, 1999, p. 40). Apreendemos o outro, como destaca Berger e Luckmann (1985, p. 49), através de esquemas tipificadores que estabelecem os modos como lidamos com ele. Todas estas tipificações afetam continuamente a interação social desenvolvida entre os indivíduos.

É preciso destacar ainda, como Becker (1977, p.114) afirma, que as regras tendem a ser aplicadas mais a algumas pessoas do que a outras porque são produtos da iniciativa de um grupo de indivíduos que podem ser chamados de “empresário morais”. Dentre estes, encontramos os “criadores das regras” e os “impositores das regras”. Os “criadores das regras” seriam indivíduos interessados na elaboração e criação dos padrões normativos que regerão as relações sociais que o envolve. Embora eles possam ser vistos como autoritários, geralmente estão interessados em fazer com que as pessoas façam o que eles consideram correto, porque acreditam que isso lhes trará benefícios.

A direção escolar pode ser identificada como os “criadores das regras”, apesar de, como visto anteriormente, em determinadas circunstâncias, eles também não concordarem ou negociarem as regras impostas. De qualquer maneira, são eles, junto dos membros do colegiado, que criam e aprovam os regimentos escolares.

Os “impositores” das regras são aqueles indivíduos responsáveis pela vigilância da ordem e pela imposição dos padrões normativos vigentes. Dentro do contexto escolar seriam representados, principalmente, pelos auxiliares de serviços da Educação Básica, ou por funcionários responsáveis pela supervisão, controle e manutenção da disciplina dos alunos. É interessante destacar que Becker (1977, p. 115) afirma que nem sempre esses impositores estão interessados no conteúdo da regra enquanto tal. O que lhes faz impor e fazer valer os padrões normativos elaborados pelos “criadores das regras” é a garantia de continuar em seus empregos.

Essa concepção pode, de alguma maneira, permitir uma maior flexibilização e negociação das regras e normas por parte desses funcionários – desde que não lhes originem nenhuma conseqüência grave – possibilitando a emergência dos mecanismos de desatenção, como vimos anteriormente. O manuseio desses padrões normativos garante a eles grande autonomia diante dos alunos, apesar de se encontrarem subjugados às determinações da direção. Diante dessa oportunidade de manutenção das regras e leis, o impositor tem liberdade para agir e reagir de maneiras diferentes de acordo com cada situação. Caso um aluno transgressor seja devidamente respeitoso ou tenha algum tipo de afinidade com o funcionário, o impositor pode tornar a ocorrência mais suave. Essa situação pôde ser observada nos três turnos letivos em diversas circunstâncias. O grau de proximidade entre os alunos e o

funcionário foi determinante para o abrandamento da punição ou até mesmo para sua inexistência como, por exemplo, nos momentos em que os estudantes se encontravam fora de sala, faltando à aula do professor. Observamos ainda, que a saída de determinados alunos da instituição, fora do horário regulamentado, era facilitada nos casos em que eles se mostravam mais amigos dos funcionários.

Esses fatos também foram mais notados no turno da noite, pois a funcionária responsável pela abertura do portão destacou, em diversos momentos em que tivemos a oportunidade de conversar, que o que há de melhor no seu trabalho e na relação com os alunos é a possibilidade de criar novas amizades. Ela confirmou essa informação em diversas circunstâncias e se mostrou amiga de muitos alunos. Em sua entrevista, classificou e dividiu os estudantes, em geral, como aqueles que “gostam de matar aula” e os mais “interessados e as meninas”. Ao colocar as meninas no grupo dos “melhores alunos”, próximas ao grupo dos “interessados”, expressa sua preferência. Talvez essa preferência exista porque, na entrevista, ela disse que tais alunas gostam muito de conversar. Elas costumam lhe confiar informações confidenciais “que não contam nem para as mães”, afirma. Observamos que ela se esforça muito em ser vista como uma pessoa amiga e que procura sempre desenvolver um vínculo afetivo com alguns dos alunos e, especialmente com as alunas. As pessoas que, de alguma forma, lhe têm como “uma figura materna”, ou como amiga, acabam sendo beneficiadas com relação à flexibilização de certas regras e normas e pelo abrandamento das punições às infrações.

Assim, observamos a maneira pela qual a ordem social é constantemente negociada dentro do contexto escolar. O reconhecimento e observação das diferentes significações emergentes dos distintos processos interativos possibilitam uma compreensão mais cuidadosa e acurada acerca das relações desenvolvidas na instituição. A partir da análise contextual das diferentes situações e fenômenos, bem como dos significados que lhes são atribuídos pelos atores participantes, é possível constatar as transformações e modificações a que instituição encontra-se sujeita.

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