O manual Ars Latina foi publicado em 1970 e oito anos depois já estava na décima nona edição, o que demonstra a popularidade deste manual no Brasil. Miotti (2006) nos informa que este manual é ainda utilizado como base para a elaboração de apostilas por parte de professores de latim das universidades pesquisadas pela autora.
Os autores iniciam a obra com a Exposição do método, na qual afirmam que seu curso “dá noções práticas de latim, conforme o estilo clássico de César e Cícero” (1978:09). A razão para a adoção deste estilo, segundo eles, é a de que o classicismo é requerimento importante para a aprendizagem de um idioma como o latim, que é uma língua morta e, portanto, sua estrutura só pode ser depreendida da literatura. Porém, é objetivo deste método, que os autores chamam de “método ativo”, ensinar também a conversação em latim. As recomendações mais modernas em relação ao estudo desta língua, como vimos com Miotti (2006) em capítulo anterior, são de que a única habilidade, das quatro existentes no ensino de línguas, a ser desenvolvida no processo de aprendizagem é a da leitura, escrever, ouvir e falar, portanto, seriam habilidades excluídas.
Segundo os autores, a língua será ensinada gradualmente, através de análises o aluno depreenderá as regras do idioma. Alertam que “o método de concentração requer, forçosamente, que a regência do português seja criteriosamente combinada com o programa de latim” (1978:10), recomendando que o mesmo professor ministre as duas disciplinas, ou seja, é preciso que o aluno tenha um bom conhecimento da gramática do português para que o estudo do latim seja proveitoso. O curso Ars Latina compreende 7 anos, sendo que o presente volume corresponde ao primeiro e segundo anos, e foi baseado em uma obra de mesmo nome publicada na Alemanha, e em outras obras citadas pelos autores. No entanto, eles alertam que seu volume “não é simples tradução. Segundo os abalizados mestres, adaptamos, transfundimos, e melhoramos a matéria por eles apresentada, de sorte que o manual ficou de sabor genuinamente brasileiro” (1978:11).
Os autores se propõem, então, a oferecer sugestões práticas ao professor de como iniciar as aulas de latim. O professor deve escrever uma proposição no quadro (a sugestão dos autores é Brasilia terra est), fazer com que os alunos a repitam em voz alta, em seguida deve ajudá-los a descobrir sentido das palavras da frase, chamando a atenção para aspectos gramaticais do latim, como a ausência de artigos. Assim deve o professor suceder com as demais proposições, até que os alunos possam traduzir as restantes sozinhos. Através das
traduções o professor deve ajudar os alunos a depreenderem as noções gramaticais do latim. Ele deve usar sempre o quadro-negro e incentivar os alunos a falarem em latim entre si. Procedendo desta forma, afirmam os autores, o método beneficiará a regência do português. O estudo da língua parte, portanto, não do texto, mas de sentenças isoladas, de autoria do professor, e a consequência deste estudo seria a aquisição de um conhecimento mais denso de seu próprio idioma, o que nos leva a concluir que este manual partilha dos pressupostos da AGT.
O primeiro capítulo traz a primeira declinação. Os autores apresentam os casos através de várias frases curtas em latim, isoladas e elaboradas por eles, alternando explicações sobre a gramática latina e portuguesa. Há algumas frases as quais o aluno deve traduzir do latim para o português, e outras que deve verter do português para o latim, e que vão ganhando complexidade gradualmente. Há também um Exercício de conversação, com perguntas que os alunos devem fazer e responder entre si, relacionadas a um pequeno texto de autoria dos autores do manual, exemplo: Quis arat? – Quid ancillae parant?, entre outras. Os autores não se restringem a explicar somente as declinações, conforme outros elementos vão aparecendo, por exemplo verbos, há esclarecimentos breves para que o aluno já tome conhecimento dos mesmos, porém, os elementos da gramática ainda são ensinados de forma isolada, crítica feita por Oliveira, no capítulo anterior.
O capítulo dois versa sobre a segunda declinação, e segue os mesmos moldes do anterior. Os textos contêm assuntos próximos dos alunos, como seu dia a dia na escola, além de assuntos relacionados à cultura romana.
No capítulo seguinte os autores abordam o verbo esse, que também explicado através de pequenas frases que o aluno deve traduzir. Todos os capítulos seguintes explicam a gramática desta forma, as frases para tradução e versão têm maior complexidade, porém não há sentenças de autores latinos.
Em alguns momentos, os autores dão sugerem traduções para certas particularidades gramaticais, como no capítulo oito: “Cum é também conjunção. Significa quando (e porque). Podemos também traduzi-lo por uma oração preposicional infinitiva: ao... Rege o subjuntivo” (1978:68), porém não aprofundam a questão da tradução do latim em nenhum dos dezesseis capítulos que compõem o livro.
Ao fim da obra há um Apêndice gramatical, no qual há tabelas das declinações, observações acerca destas, dos adjetivos, pronomes, verbos, enfim, um resumo do que foi exposto ao longo dos capítulos. Por último, os autores disponibilizam um Vocabulário das lições, no qual há a nota: “Os termos entre parênteses são, muitas vezes, elucidativos. Não
entram, sempre, na tradução.” (1978:139). No apêndice, há textos, sentenças e informações de autores latinos. Fazemos aqui uma crítica quanto ao fato de alguns provérbios não trazerem a referência do autor.
Resumindo as críticas em relação ao manual, afirmamos que os exercícios de conversação não cabem no ensino de uma língua do passado. Outro ponto negativo é o uso de frases isoladas e de autoria dos autores do manual, tanto como exemplo para as explicações da gramática, como nos exercícios. Se o latim é uma língua morta e, portanto, sua estrutura só pode ser depreendida da literatura, como afirmam os próprios autores na Exposição do Método, a língua deveria ser ensinada através de textos de autores latinos, adaptados, é claro, ao nível de conhecimento dos alunos. Conforme o manual avança, os exercícios contêm textos, e não somente sentenças isoladas, porém continuam sendo de autoria dos autores, sendo que muitos não têm qualquer relação com a literatura ou a cultura romana.