Para melhor compreendermos o que é esse projeto, tornou-se necessário analisar o seu desenho, seu conteúdo e seus processos. Nesta direção, foi adotada a perspectiva do “ciclo de políticas”. (CONDÉ, 2011; BALL & BOWE, 1992) 33.
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O ciclo de políticas é composto pelo contexto de influência, onde os discursos e as políticas se iniciam, geralmente a partir de interesses ou de um problema, e intermediado por partidos, ONGS, mídias, redes sociais, agências reguladoras e mesmo pela mercantilização de ideias. Esta influência conduz ao contexto da produção de textos legais ou pronunciamentos que geram consequências. Levados ao contexto da prática, onde serão operacionalizados, a política é sujeita a interpretação e ressignificação, produzindo efeitos, consequências e redimensionamentos. Condé adota a perspectiva das “fases”, a saber, agenda, formulação e decisão, implementação e avaliação.
A abordagem do ciclo das políticas constituiu-se um referencial útil para entendermos projeto Acelerar para Vencer no contexto de sua prática e de suas implicações, por considerar os processos micropolíticos e a ação dos atores que lidam com as políticas no nível local, indicando a necessidade de articulação entre os processos locais e centrais para a análise da política.
Partimos da hipótese inicial de que embora o projeto possa vir a resolver as questões da distorção idade/série no Ensino Fundamental, o problema se transfere para o Ensino Médio, uma vez que os alunos oriundos do projeto concluem o Ensino Fundamental de forma esvaziada e aligeirada e vão para o Ensino Médio Regular. Ao não se adaptarem aos conteúdos do Ensino Médio, tais alunos podem vir a evadir, repetir ou abandonar a escola. Atrelados a este fato encontram-se os desafios impostos ao Ensino Médio, advindos da obrigatoriedade de sua oferta e universalização, a partir da Emenda Constitucional nº 59 de 2009.
Com o objetivo de confirmar/refutar esta hipótese inicial, no primeiro momento, além das visitas às escolas (que possibilitaram observações assistemáticas e entrevistas), foram analisados os dados relativos ao número de evasões e reprovações dos alunos provenientes do PAV que se matricularam no 1º ano do Ensino Médio. Conforme se verificou na seção anterior, nas duas escolas analisadas, a maior parte dos alunos oriundos do PAV e matriculados no Ensino Médio evadiu ou foi reprovada (65,5% para a Escola A e 50% para a Escola B). Recorremos ainda ao banco de dados da Diretoria de Informações Educacionais da Secretaria Estadual de Educação que foi organizado a partir da implantação no âmbito da SEE/MG, de um sistema informatizado destinado à inserção de dados gerenciais e pedagógicos concernentes ao projeto, de forma a facilitar seu acompanhamento e avaliação. Neste sistema, acontece o registro nominal dos alunos. Por meio deste recurso, pudemos confirmar nossa hipótese em âmbito estadual, conforme resultados que serão evidenciados adiante.
Para melhor conhecermos o contexto das escolas analisadas, observamos as notas obtidas pelas unidades pesquisadas no PROEB/SIMAVE e o boletim contextual com os fatores extra e intraescolares que caracterizam cada escola conforme já apresentamos. Nesse sentido, obtivemos mais elementos que reforçaram o enquadramento desta situação como um caso de gestão educacional e pudemos melhorar nosso instrumento de pesquisa para nova visita. Os resultados obtidos nessa primeira etapa reforçaram nossa hipótese inicial. Para ratificá-la e tentar entender os motivos pelos quais isso possa estar acontecendo, aperfeiçoamos nosso
instrumento de pesquisa e fizemos nova coleta de informações, inclusive no nível regional do Projeto e estadual de ensino.
Na nova visita realizamos questionários e entrevistas semiestruturadas buscando conhecer o contexto da prática, os processos de resistência ou aceitação do projeto, os aspectos relativos à interpretação dos textos, às atribuições dos atores, os aspectos relacionados à gestão pedagógica do currículo, à comunicação e articulação entre os atores, dentre outras. A escolha dos entrevistados na segunda visita se deu de acordo com o seu envolvimento no Projeto e aceitação do mesmo. Foram entrevistadas 12 pessoas, sendo 1 coordenadora regional da Superintendência de Divinópolis, 1 coordenadora regional da Superintendência de Passos, a supervisora pedagógica do projeto da Escola A, a diretora da escola A, 2 professores da Escola A que trabalham com o PAV, sendo que um deles começou atualmente. Na Escola B foram entrevistadas a supervisora pedagógica do PAV, a diretora, a supervisora do Ensino Médio e 1 professora que trabalha com o PAV desde o início, 1 professora que começou a trabalhar recentemente com o PAV e uma professora que já trabalhou no PAV e hoje recebe tais alunos no Ensino Médio.
A fim de facilitar a identificação dos atores entrevistados, designaremos os mesmos por siglas e nomes fictícios, segundo o quadro-síntese a seguir:
Tabela 12. Participantes da pesquisa por escola, pseudônimo e função.
Funções Escola A Escola B
Coordenadora regional CRA CRB
Diretora DA DB
Supervisora pedagógica SPA SPB
Professora Andreia Angélica
Professora Claudiana Vanda
Professora --- Suelen
As entrevistas da segunda etapa foram realizadas em dias separados. Primeiramente foi agendada a entrevista com a coordenadora regional de Divinópolis, suas respostas foram anotadas e, posteriormente, conferidas por ela, uma vez que sua superior afirmara não poder haver gravação. A entrevista com a supervisora pedagógica e com as professoras da Escola B foram gravadas e posteriormente transcritas. A entrevista com a Coordenadora Regional de Passos foi previamente agendada por telefone e também teve suas respostas anotadas. As
entrevistas com a diretora, a supervisora e com as duas professoras da escola A, foram gravadas em momentos distintos e, posteriormente, transcritas.
Acreditamos nas possibilidades advindas da pesquisa, uma vez que permite evidenciar a realidade e verificar como a política está sendo implementada. Sendo recente o projeto implantado em Minas, consideramos importante aplicar mais instrumentos e realizar mais pesquisas sobre essa área. Reconhecemos as limitações e dificuldades de formulação de instrumentos de análise de políticas, daí a necessidade de mais pesquisas nesse campo.