Empreendedorismo é uma livre tradução da palavra entrepreneurship, para designar uma área de grande abrangência, que trata de campos como o empreendimento de novos negócios (criação de empresas), o empreendedorismo comunitário (as comunidades empreendedoras), o empreendedor/trabalhador independente (geração do auto-emprego), o intra-empreendedor (empregado empreendedor), bem como de políticas públicas que objetivam a formação de empreendedores e o desenvolvimento e financiamento de empreendimentos.
A ênfase do discurso do empreendedorismo está na natureza inovadora do empreendedor, sua capacidade de revolucionar pela tecnologia, sua importância no desenvolvimento econômico, além de seus aspectos comportamentais, como a liderança, a criatividade, a ousadia, a condição de assumir riscos e de atuar de forma independente, sendo a abertura de uma empresa considerada como reflexo de sua liberdade para empreender.
Para Dolabela (1999a), a empresa é uma forma de materialização dos sonhos. É a projeção da imagem interior do indivíduo, do “íntimo”, do “ser total”. Sob este prisma, segundo o autor, o empreendedorismo é visto também como um campo intensamente relacionado com o processo de entendimento e construção da liberdade humana.
Todos consideram que o estudo do comportamento do empreendedor é fonte de novas formas para a compreensão do ser humano em seu processo de criação de riquezas e de realização pessoal (p. 46).
Na apresentação à obra de Fernando Dolabela, O Segredo de Luíza (1999b), Luis Jacques Filion ressalta que o termo empreendedorismo tem conotação prática, mas também implica atitudes e idéias. Significa fazer as coisas novas, ou desenvolver maneiras diferentes de fazer as coisas. Para o autor, a preparação para a prática empreendedora, que pode ser aplicada a qualquer campo da atividade humana, envolve tanto o desenvolvimento da autoconsciência quanto o do know- how.
Ao abordar as diversas definições sobre o empreendedorismo, elaboradas por pesquisadores de diferentes áreas, Dolabela (1999a, p. 52) revela que os economistas associam os empreendedores à inovação e o seu papel fundamental no desenvolvimento econômico, os comportamentalistas atribuem aos empreendedores as características de criatividade, persistência, internalidade - capacidade de influenciar e controlar comportamentos de outras pessoas -, os engenheiros de produção vêem nos empreendedores bons distribuidores e coordenadores de recursos, e os financistas definem o empreendedor como alguém capaz de calcular riscos.
Expõe Dornelas (2001), que o papel do empreendedor foi sempre fundamental nas sociedades, diferindo o tempo presente do passado, pela emergência no aumento quantitativo do número de empreendedores, dados os avanços tecnológicos que modificaram a economia e os meios de produção e serviços. Segundo o autor, a ênfase no empreendedorismo surge como conseqüência da rapidez das mudanças tecnológicas e da competição na economia, considerando o momento atual
... como a era do empreendedorismo, pois são os empreendedores que estão eliminando barreiras comerciais e culturais, encurtando distâncias, globalizando e renovando os conceitos econômicos, criando novas relações de trabalho e novos empregos, quebrando paradigmas e gerando riqueza para a sociedade. O contexto atual é propício para o surgimento cada vez maior de empreendedores (p. 21).
Dolabela (1999a, p. 51) ressalta que o empreendedorismo expandiu-se consideravelmente após a década de 1980, dada a crescente importância da participação das pequenas e médias empresas no Produto Interno Bruto - PIB dos países, sendo esse o fator motivador para o aprofundamento dos estudos e iniciativas voltadas à temática do empreendedorismo, que passa a integrar cada vez mais as políticas públicas na maioria dos países do capitalismo avançado. Como exemplo, pode-se citar a “Alemanha, com o número crescente de programas de apoio à criação de novas empresas, e da França, pelo incentivo às novas empresas de tecnologia” (DORNELAS,2001, p. 22).
Filion (2000, p. 20) relaciona alguns dos temas dominantes nos estudos e programas relacionados ao empreendedorismo: características comportamentais e gerenciais do empreendedor; características econômicas e demográficas de pequenos negócios em países em desenvolvimento; empreendedorismo em corporações ou intraempreendedorismo; oportunidade de negócios; incubadoras, parques tecnológicos e sistemas de apoio ao empreendedorismo; empresas de alta tecnologia, estratégia e crescimento de empresas empreendedoras; sistemas de redes empresariais e complementaridade entre empresas; auto-emprego; fatores influenciadores na criação e desenvolvimento de novos empreendimentos; políticas governamentais para a área; educação empreendedora; empreendedorismo e sociedade.
De acordo com Dornelas (2001), a explicação para a crescente focalização no empreendedorismo na década de 1990 vem dosresultados da economia americana, onde o empreendedorismo é encorajado desde as décadas 1960/1970 e os empreendedores são considerados os grandes propulsores da economia.
A economia americana é o maior exemplo de compromisso nacional com o empreendedorismo e o progresso econômico.
Além de centenas de iniciativas dos governos locais e de organizações privadas para encorajar e apoiar o empreendedorismo nos Estados Unidos, o governo americano gasta centenas de milhões de dólares anualmente em programas de apoio ao empreendedorismo (...) Desde 1980, as quinhentas maiores empresas listadas na revista Fortune eliminaram mais de 5 milhões de postos de trabalho. Em contrapartida, mais de 34 milhões de novos postos de trabalhos foram criados nas pequenas empresas. As empresas com menos de quinhentos funcionários empregam 53% da mão-de- obra privada e são responsáveis por 51% do PIB americano. Os Estados Unidos vêm desfrutando de oito anos de crescimento econômico, o período mais longo de crescimento contínuo no século XX. A conjunção de intenso dinamismo empresarial e rápido crescimento econômico, somados aos baixos índices de desemprego e às baixas taxas de inflação, aparentemente apontam para uma única conclusão: o empreendedorismo é o combustível para o crescimento econômico, criando emprego e prosperidade (grifos nossos) (p. 26).
Em nome da prosperidade econômica é que o discurso do empreendedorismo apresenta-se como a solução para o desenvolvimento das economias. De um lado, porque possibilita a expansão da atividade empresarial, pela promoção e fortalecimento de micro, pequenos, e médios negócios, e de empresas de base tecnológica. De outro, porque seapresenta como uma alternativa para a crescente desocupação da força de trabalho, pois o momento atual é propício para o trabalhador, em especial, para o jovem trabalhador, libertar todo o seu potencial empreendedor, na criação de novos negócios, até então retido pela
... síndrome do empregado. O emprego não deve ser visto mais pelo jovem como um projeto de vida (...) os jovens devem buscar realizar seus sonhos através do negócio próprio, apesar de todos os riscos que apresenta. Devem perceber que o desenvolvimento das habilidades empreendedoras os coloca em melhores condições para enfrentar um mundo em constante mudança (DOLABELA, 1999a, p. 54-58).
Sob a ótica empreendedora, o jovem deve aproveitar todas as oportunidades que o mercado lhe proporciona e, com isso, contribuir para o desenvolvimento econômico e para a geração de emprego em seus países de origem, já que um dos principais atributos do empreendedor é o de
... identificar oportunidades, agarrá-las e buscar os recursos para transformá-las em negócio lucrativo. Não é indispensável que ele possua os meios necessários à criação de sua empresa”(DOLABELA, 1999a, p. 45).
Para isso, o jovem somente precisa adquirir a capacidade de atrair recursos ao, simultaneamente, apresentar seu projeto e a confirmação de que tem condições de pô-lo em prática.