Nas trilhas que Foucault nos anuncia, buscamos pelo entendimento da subjetividade hegemônica dos arquitetos urbanistas contemporâneos. Na perspectiva escolhida para o desenvolvimento dessa tese, tornou-se necessário nos ocuparmos do saber como categoria de análise, tomando-o como uma estratificação histórica ( formas de expressão/o que se diz e formas de conteúdo/ o que se vê)71. Não existem saberes desvinculados de relações de poderes e de subjetivações. Os processos de estratificações traduzem os interesses dessas relações que trabalham no sentido de garantir a consolidação de saberes assegurando-lhes assim suas territorialidades. O que está em jogo numa sociedade disciplinar e capitalista como a nossa é que tais relações quando hegemônicas produzem os agenciamentos que promovem a codificação e a sobrecodificação dos saberes que lhes convém, atribuindo-lhes a categoria de axiomas - verdades a serem disseminadas. Esses agenciamentos visam e trabalham para a consolidação desse território de conhecimentos específicos, traduzem a presença de agentes sociais, políticos e econômicos que defendem certos interesses e que são convertidos em conhecimentos específicos profissionais. Esses saberes acabam sendo sobrecodificados e passam a orientar as instituições de ensino e o exercício profissional. Geridos, agenciados e estratificados pelos poderes e pelas subjetividades em cena, esses saberes acabam sendo naturalizados e consumidos acriticamente por muitos estudantes, professores e profissionais do mercado. No campo da formação dos arquitetos urbanistas, em geral, observamos que:
71 Ver FOUCAULT, M. As palavras e as coisas; uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
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“[...] De regra, na formação disciplinar acadêmica, a instituição de ensino, como “dispositivo” de poder, evidencia o(s) Saber(es). Estes, atrelados a uma “formação discursiva”, no sentido de um conjunto de enunciados reproduzidos à exaustão, se encontram frente às diminutas criações que eventualmente questionam e problematizam os enunciados de consenso. Evidenciando a variável Saber, as instituições de ensino, visam sua reprodução e produção, colocando em segundo plano as relações de poder que permeia esses saberes e num terceiro plano ainda, e isso, quando o fazem, a questão dos processos de subjetivação (de docentes e discentes em suas individualidades). Poder e Subjetivação não recebem, pois, como o Saber o devido enfoque. No mais das vezes eles acabam reduzidos à uma percepção molar (macro), e isso, através de considerações genéricas relacionadas com o aparelho de Estado e/ou com as classes sociais, e muito menos com os micropoderes das instituições de ensino e de seus docentes. E tudo, de regra, sob a forma de pensar sedentária no âmbito de um espaço estriado e, raramente, no entendimento ou na presença do pensamento nômade, o qual não se deixa sobrecodificar, cria novas questões e problematizando-as visa caracterizar novos fatos e versões na construção de histórias.” (MAGNAVITA, 2006: 4).
Dentre as noções pós-estruturalistas, mais precisamente na visão de Foucault, elege-se o saber como categoria de análise considerando-o uma estratificação histórica constituído de “formas de expressão” (o que se diz) e formas de conteúdo ( o que se vê), ou seja, “As palavras e as coisas”72. Outra categoria de análise inseparável do saber diz respeito ao poder. Essas duas categorias estão enredadas nos processos de subjetivação, ou seja, “A história da sexualidade”73
. Constitui-se, portanto uma tríade as relações entre saber, poder e subjetividade. Ao observarmos o olhar de Deleuze sobre o trabalho de Foucault (DELEUZE, 2005), vemos que o saber está fundado sobre a primazia do real, da saturação da efetividade, dos domínios dos enunciados. O momento do poder, das máquinas abstratas, está relacionado à primazia do poder e de todos os outros conceitos modais associados, como o de “probabilidade” ou de “potencialidade”. O momento da subjetivação seria não mais o do poder, mas o do “possível”.
Entrelaçam-se na construção das formas de pensar, o exercício específico do saber, o exercício do poder que permeia esse saber (na composição de diagramas de forças) e
72
Ver FOUCAULT, M. As palavras e as coisas; uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
73 Ver FOUCAULT, M. História da Sexualidade. Rio de Janeiro: Graal, 1988. Vol.1: a vontade de saber e FOUCAULT, M. História da Sexualidade. Rio de Janeiro: Graal, 1984. Vol.2: o uso dos prazeres e FOUCAULT, M. História da Sexualidade. Rio de Janeiro: Graal, 1985. Vol.3:o cuidado de si.
89 os processos de subjetivação que contribuíram para a construção de subjetividades de arquitetos urbanistas ao longo da história em diferentes contextos. Na visão foucaultiana, “o poder não vê nem fala, mas faz ver e falar”. Ver e falar encontram-se vinculados às relações de poder que resultam de forças móveis que se dissipam e que não se encontram do lado de fora dos saberes (estratos), mas são o seu lado de fora. Se ver e falar são formas de exterioridade, o pensamento se orienta para um lado de fora que não possui forma. Ver é pensar, falar é pensar, mas o pensar opera na disjunção, no interstício entre ver e falar. Entre o poder e o saber há uma diferença de natureza - são elementos heterogêneos, mas mantêm uma pressuposição recíproca e capturas mútuas. O poder não passa por formas e sim apenas por forças. Como já referido, o poder não fala e não vê, mas faz falar e ver através de agenciamentos de enunciação (expressão) e agenciamentos maquínicos (conteúdo).
O que seria a arquitetura e o urbanismo senão enunciados? Agenciamentos maquínicos? Formações discursivas? Não se trata de compreendermos os discursos como puro e simples entrecruzamento de coisas e palavras. Na concepção que Foucault nos coloca, o discurso não é uma estreita superfície de contato ou de confronto entre uma realidade e uma língua, o intrincamento entre um léxico e uma experiência. Analisando os próprios discursos , vemos se desfazerem os laços aparentemente tão fortes entre as palavras e as coisas e destacarem-se um conjunto de regras próprias da prática discursiva. Essas regras definem não a existência muda de uma realidade, não o uso canônico de um vocabulário, mas o regime dos objetos – isso consiste em não mais tratar os discursos como conjuntos de signos (elementos significantes que remetem à conteúdos ou à representações), mas como práticas que formam sistematicamente os objetos de que falam. Certamente os discursos são feitos de signos, mas o que fazem é mais que utilizar esses signos para designar coisas (FOUCAULT, 1995:55). Privilégio da forma e visão preeminentemente estetizante, estratégicas demiúrgicas, valorização da autoria dos projetos, crença no projeto como prospecção acabada da arquitetura, o conceito de tábula rasa como instrumento recorrente, determinismo, positivismo, padronização, cientificismo e muitas outras formas de enunciados, eis o que encontramos de mais recorrente nos discursos e ações dos arquitetos e urbanistas contemporâneos desde os modernos. Tais agenciamentos acabam por constituir o campo do saber erudito onde se posicionam e relacionam: conhecimentos, experiências, ciências que reverberam na construção da subjetividade
90 hegemônica desse meio e que vêm sendo nomeadas nesse estudo de posturas desencarnadas.
O saber visto como estratificação no tempo constitue-se por acumulações, sedimentações, consolidação de ações, práticas, pensamentos, construção de subjetivações daqueles que dizem no campo da arquitetura e do urbanismo através de seus escritos, teorias, projetos, edificações em meio a um complexo de relações de forças constituído dentre poderes e micropoderes. Vemos portanto, que as ações « incorporadas »74 de arquitetos urbanistas tanto na prática profissional além dos domínios acadêmicos ou na produção docente enredam relações de saberes, poderes e subjetividades, e por isso possuem uma contundente conotação política. Mas, os modos de ações desencarnados «protegem» os saberes, principalmente, no âmbito acadêmico dos fluxos correntes da multiplicidade75 de subjetividades e de poderes que constituem as mais diversas realidades. As subjetividades e poderes que afetam esses saberes «protegidos» e disseminados nas nossas formações e práticas são, em geral, os hegemônicos, aqueles associados à ordem molar. É necessário que esses saberes passem pelo grande quadro dominante. Não é raro nas escolas de arquitetura e urbanismo encontrarmos estudantes que, incomodados com essa conjuntura molar e não encontrando no ambiente acadêmico uma formação que trate das micropolíticas76,
74 Ações nomeadas nesse estudo de incorporadas serão abordadas no capítulo 3 dessa tese.
75 Multiplicidade não é diversidade: diversidade é o coletivo do diferente. Multiplicidade é a capacidade, a potência para a multiplicação, da transformação disso para aquilo e aquilo outro. Por isso ela é experimento, é proliferação (e...e...e...) e não recognição ou representação (isso, aquilo). Sobre o princípio da multiplicidade afirmam Deleuze e Guattari (1995): o múltiplo, só quando é efetivamente tratado como substantivo, como multiplicidade, deixa de ter qualquer relação com o Um como sujeito ou objeto, realidade natural ou espiritual, imagem e mundo. As multiplicidades são rizomáticas. É precisamente essa multiplicidade que não pára de mudar de natureza, multiplicando suas conexões num movimento infinito, que transforma os pontos em linhas. A partir do momento em que a noção de identidade é substituída pela de multiplicidade, o sistema passa a ser aberto, voltado para o exterior. As linhas de fuga ou de desterritorialização definem as multiplicidades pelo lado de fora. Um “plano de consistência” define o exterior de todas as multiplicidades, que se transformam seguindo as linhas. (DELEUZE e GUATTARI, 1995).
76 A questão micropolítica – ou seja, a questão de uma analítica das formações do desejo no campo social – refere-se ao modo como se cruza o nível das diferenças sociais mais amplas que Guattari (1993 ) denomina de “molar” - com aquele que chamou de molecular. As lutas sociais, a construção de cidades, de arquiteturas são, ao mesmo tempo, molares e moleculares. A análise micropolítica se situa no cruzamento entre esses diferentes modos de apreensão de uma problemática. Claro que os modos não são apenas dois: sempre haverá uma multiplicidade, pois não existe uma subjetividade de um lado e, do outro, a realidade social material. Sempre haverá “n” processos de subjetivação, que flutuam constantemente segundo os dados, segundo a composição de agenciamentos, segundo o momento que vão e vêm. Os mesmos elementos
91 dos micropoderes, de saberes mais plurais acabam buscando por essas «outras» subjetividades fora da escola. Não que esse percurso singular desses estudantes exterior a academia não seja enriquecedor, mas é preocupante que esse debate não esteja contundentemente intríseco na formação escolar. Vemos também docentes «em desacordo» com essa formação excludentemente hegemônica e «protegida» dos saberes frente aos múltiplos poderes e subjetividades. Esses acabam se recortando em guetos dentro dos territórios universitários. Grosso modo, o refúgio são os projetos de pesquisa e extensão. A esses são atribuídos a responsabilidade de construir zonas de contato entre o mundo acadêmico e a vida «lá fora».
O saber estático e encarcerado nas escolas acaba reproduzindo e propagando «os mesmos» paradigmas, dogmas direcionando os modos de pensar e agir nesse campo. Exemplo disso são as bibliografias, principalmente no âmbito das disciplinas de projeto de arquitetura que se repetem a despeito da contemporaneidade que se anuncia e se atualiza a cada dia. Não questionamos essas bibliografias como um todo, sabemos que determinadas obras são dignas de percorrerem anos a fio a formação dos arquitetos urbanistas e conquistaram essa permanência e continuidade por sua grande importância e relevância. O que parece importante discutirmos é um certo estado de acomodação e passividade diante de um mundo em acelerada mudança.
Além disso, vemos também que o conteúdo acerca dos movimentos arquitetônicos e urbanos atuais desenvolvidos nas disciplinas teóricas e práticas não são desdobrados criticamente nos ateliês de projeto. Estudantes não se indagam se os seus projetos desenvolvidos estão atrelados ao planejamento estratégico, ou à estetização de
existentes nos fluxos, nos estratos, nos agenciamentos podem organizar-se segundo um modelo molar ou segundo um modelo molecular. Se todas as formas provêm de uma relação de força e, portanto, de uma relação de poder, podemos afirmar que todas são políticas. “[…] Tudo é político, mas toda política é ao mesmo tempo macropolítica e micropolítica.” O macro e o micro são dois modos de recortar a realidade, “as duas efetivamente se distinguem mas são inseparáveis, embaralhadas uma com a outra, uma na outra.” (DELEUZE e GUATTARI, 1995:90). Quando tratamos de uma realidade, já tratamos de força e de formação ao mesmo tempo – elas estão sempre juntas. A micropolítica trata do campo das forças, do que insiste em permanecer velado, subterrâneo, enquanto a macropolítica trata das formas, do que se dá facilmente à nossa percepção, e é justamente pelo fato de que esses modos são inseparáveis que nos interessa a análise da micropercepção. Ela irá nos interessar, precisamente, porque no campo da arquitetura e do urbanismo somos “treinados” a ver os espaços como formas, reduzindo o espaço a essa dimensão macro, como se nele apenas encontrássemos macropolítica.
92 favelas, ou às cidades partidas promovidas pelos condomínios difundidos pelo new
urbanism e as consequências decorrentes de tais práticas. O professor, muitas vezes,
age como o cliente, aquele que encomenda os projetos fixando os temas a serem tratados. Por vários momentos, a escolha pelos temas são demandas recorrentes em outras localidades e amplamente publicadas na mídia, mas que não constituem demandas reais nos contextos desses futuros arquitetos urbanistas. Essas posturas desencarnadas nos remetem novamente à disseminação de um saber mais comprometido com o distante idealizado a despeito das singularidades do entorno imediato. E as custas desses procedimentos, a arquitetura subsiste como uma profissão refém das arcaicas tipologias disciplinares, de clientes conservadores, interesses e utopias privadas, sustentada pelo espólio de um passado glorioso e pela frivolidade de celebridades instantâneas. A escola se coloca como «mera» reprodutora e aliada ao mercado das especulações imobiliárias, do capital.
Podemos concluir que essa postura desencarnada da academia, dos arquitetos urbanistas docentes desperdiçam o fecundo espaço da escola como um lugar para discussões, embates, confrontos, invenções, reações e proposições engajadas no mundo real. Não se trata de deixarmos de estar comprometidos com os processos capitalistas para tornarmos paternalmente defensores de uma arquitetura e urbanismo dos pobres economicamente ou comprometidos com utopias irrealizáveis, mas de assumirmos a escola enquanto lugar de negociação em busca de propostas mais diversas onde os diferentes habitantes, coletividades, comunidades possam encontrar proposições inclusivas para os seus mais diversos problemas arquitetônicos e urbanos.
Infelizmente de modo recorrente observamos na formação desses profissionais que as correlações entre saber, poder e subjetividade são fragilizadas em função de uma supremacia do saber ( erudito, único) frente às demais forças constituintes da vida cotidiana.
Trata-se de não compactuarmos com os interesses escusos do CMI, nem de assumirmos um exílio tecnicista e/ou estetizante, mas construirmos singularidades, saberes moleculares internos à subjetividade molar. Assim, estaríamos reassumindo a dimensão emancipadora fundante de um campo do saber, do poder e de subjetividades
93 (nas esferas macro e micro) que se propõem construir habitações, cidades, objetos de uso cotidiano e simbólico.
“[...] Mais radicalmente, impõe-se a pergunta: que possibilidades restam de criar laço, de tecer um território existencial e subjetivo na contramão da serialização e das territorializações propostas a cada minuto pela economia material e imaterial atual? Como reverter o jogo entre a valorização crescente, ativos intangíveis tais como inteligência, criatividade, afetividade e a manipulação crescente violenta da esfera subjetiva? Como detectar modos de subjetivação emergentes, focos de enunciação coletiva, territórios existenciais, inteligências grupais que escapam aos parâmetros consensuais, às capturas do capital e que não ganharam ainda suficiente visibilidade no repertório das cidades? Há alguns anos no Brasil eram visíveis configurações comunitárias diversas, ora ligadas à Igreja, ora ao Movimento dos Sem Terra, ou provenientes de movimentos reivindicatórios e estéticos diversos, como o hip-hop, ou mobilidades de “inclusão às avessas” proporcionada pelas gangues de periferia, mantendo com as redes hegemônicas graus de distância ou enlaces diversos.” ( PÁL PELBART, 2003:22).
Não vemos em geral os arquitetos urbanistas reinventando seus saberes e deixando-se afetar pelos movimentos micropolíticos como os citados acima, re-engendrando assim novas posturas. Vale evidenciarmos que os movimentos acionados pela Igreja, as ações dos Sem Teto, assim como as táticas das gangues são todos movimentos diretamente relacionados à apropriação e ou conflitos territoriais estando diretamente vinculados ao nosso espectro de interesse e atuação. A dissociação entre as relações de saber, poder e subjetivação ou a ênfase no saber a despeito das forças de poder e subjetividade nos processos de formação disciplinar, acadêmica acabam por gerar práticas profissionais descomprometidas e alienadas em relação à vida real. Então, não é dizermos que a formação acadêmica e as práticas profissionais dos arquitetos urbanistas abortam as relações entre saberes, poderes e subjetividades posto que esses dois últimos alastram-se por todos os campos das nossas existências. Mas, é necessário ressaltarmos que ao recortar o saber imaculado no exercício acadêmico deixamos com que poderes e subjetividades adentrem sem serem indagados, problematizados, passam incólumes a nos ditarem suas demandas as quais respondemos de maneira veementemente alienada, desencarnada.
Evidenciamos também que esses poderes e subjetividades que adentram o campo acadêmico e posteriormente a vida profissional desses futuros arquitetos são de ordem molar, macro, hegemônicos e respondem aos interesses do CMI. Podemos de certa maneira entrever as causas das intervenções em favelas, por exemplo, se pautarem
94 geralmente nos decalques da cidade formal em territórios opacos constituídos e gerenciados por dinâmicas tão diversas das intervenções propostas pelos arquitetos urbanistas. O que nos permite vislumbrar que as causas desses modos desencarnados de projetar e construir estejam atrelados também à disseminação de saberes descolados das dinâmicas das subjetividades singularizadas e dos micropoderes constituintes dessas realidades, ocultados de nossas formações escolares por tendências homogeneizadoras e hierarquizantes. Abordarmos a arquitetura e o urbanismo como área do conhecimento, de saber, pressupõe que as formas de expressão (o que se diz sobre o que os outros disseram) e as formas de conteúdo ( o que se vê e o que os outros viram), são permeadas de relações de poderes que acabam por direcionar, afetar e exprimir a própria subjetividade através de agenciamentos de enunciação e agenciamentos maquínicos.
Não atribuirmos o devido valor aos fluxos do poder ( no sentido macro e micro) acaba por contribuir para a descontextualização e desencarnamento dos saberes, da produção de subjetividades dos arquitetos urbanistas. Relacionarmos e imbricarmos saberes, poderes e subjetividades atualizados nas esferas molares e moleculares é pensarmos em arquiteturas e cidades nas e para as realidades concernidas. Por mais perversas que sejam as forças de poder e as subjetividades em jogo, resguardar o saber enquanto categoria imaculada a ser reproduzido nas escolas de arquitetura é retirá-lo do jogo real das circunstâncias. Talvez esse desencarnamento e distanciamento do saber nos indiquem algumas das causas do refúgio estetizante e formalista do qual se ocupam tanto a formação quanto as ações de arquitetos urbanistas atuais.
O saber tutelado e hegemônico é muitas vezes reproduzido sem as devidas atualizações e contextualizações produzindo-se, assim, por parte desses profissionais propostas anacrônicas, adequadas a outras realidades/distanciadas, uma vez que desconsideram os atores, as subjetividades singularizadas, os micro e macropoderes em cena. De certo modo, esta demasiada estetização responde à subjetividade e macropoderes disseminados pelas correntes urbanísticas contemporâneas, correspondem às demandas produzidas pela subjetividade do CMI/ Capitalismo
95 Mundial Integrado, alimentam as necessidades da sociedade do espetáculo77. Essas posturas desencarnadas estão comprometidas com os macropoderes e com a subjetividade molar promovida pelo CMI, donde podemos concluir que as proposições convirjam para a homogeinização e para o consensual. Uma vez orientadas por saberes que não são afetados pelas diversidades das subjetividades e dos poderes na qual o mundo se apresenta é que a eleição de categorias projetuais/dispositivos a se repetirem indefinidamente a despeito da especificidade das demandas e do meio se justificam. Tábula rasa, olhar demiúrgico são redundantes quanto a um olhar sempre vertical, totalizante e privilegiado hierarquicamente – o arquiteto ao estilo “miguelangeliano”78, o autor demiurgo que trabalha para o Príncipe, que se vale de uma linguagem técnica hermética, que se vale de argumentos paternalistas e renuncia as intervenções de outrem.
Na formação dos arquitetos urbanistas ao associarmos o saber às componentes subjetivas e às forças de poder a atuarem em diferentes situações estaríamos contribuindo para uma produção crítica da arquitetura e das cidades afetadas inexoravelmente pelos macropoderes luminosos e pelas grandes forças da subjetividade capitalista, mas também se abrindo para a construção de outras territorialidades, agenciamentos e outros saberes. Mas o que se vê, na maioria das vezes, é que para quaisquer circunstâncias as estratégias projetuais seguem homogêneas subsidiadas por saberes tutelados (minimamente reciclados ou requalificados), mas não atualizados ou flexibilizados em consonância com as
77 “[...] A “sociedade - espetáculo” é o mundo das pseudo-necessidades, o mundo da economia do