Cordes vibrantes
4.2 Conditions aux limites
A uma distância de 18 degraus para sul do portão do muro da cerca do Convento Velho começa o Convento Novo: Descendo da Ermida da Memória, […] para a parte do meyo dia, em lugar concavo ao modo de meya Lua, onde a serra se mostra mais fecunda na produção das arvores silvestres, se fundou a Igreja […] (PIEDADE, 1728, p. 58). A construção das instalações desta parte do Convento começou em 1542, quando foi concedida a autorização para se fundar o Convento naquele sítio (PIEDADE, 1728, p.
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52). Este início edificador está relacionado com a visita do Geral da Ordem Franciscana, frei João Calvo, que teve lugar em maio de 1542. Ao visitar a Ermida da Memória da Serra da Arrábida e ao ver a devoção dos frades arrábidos, decidiu constituir a Custódia de Santa Maria da Arrábida, incorporando-a na Ordem Franciscana (CALADO, 1993, p. 99-100). Como superior da Custódia foi nomeado o fundador frei Martinho da Santa Maria, que recebeu também a permissão de instruir noviços no novo convento.
Nestas circunstâncias, com o novo estatuto do Convento, as mudanças que surgiram no seio da pequena comunidade de frades arrábidos estão relacionadas não apenas com a passagem para novos espaços físicos que, de algum modo, se queriam mais “confortáveis”, pelo menos a intenção do padroeiro, o 1.º Duque de Aveiro, era essa, mas também com o início de uma nova forma da vivência neste ambiente. Trata-se da transformação da vida eremítica, praticada até então por frades, para uma existência conventual, mas com o igual entendimento da regra franciscana.
Mais tarde, em 1560, a Custódia da Arrábida que, após a fundação do Convento da Arrábida, integrou outros conventos fundados com base nos mesmos princípios e regras de vida religiosa, foi elevada a Província dos Capuchos da Arrábida (CALADO, 1993, p. 103).
Em relação às instalações propriamente ditas, e voltando ao ano da fundação do Convento, 1542, foram construídas uma igreja mais ampla e um conjunto de pequenas celas e dependências como cozinha, refeitório, livraria e portaria (PIMENTEL, 1992, p. 54). Todas elas foram construídas de acordo com os Estatutos elaborados por frei Martinho em colaboração com São Pedro de Alcântara, no mesmo espírito de penúria e austeridade contemplado na Regra Franciscana. No capítulo 40 dos Estatutos impressos em 1698, intitulado “Dos edifícios”, indicava-se como deveriam ser edificados os espaços indispensáveis à vivência dos religiosos arrábidos:
Morando nós em Casa do Rey Celestial, que por nos se fez pobre em este mundo, em pobres, & humildes Casas convem que moremos; pelo que Nosso Seraphico Padre São Francisco nos admoesta, & manda, que as Igrejas, & Casas, que para nós se edificarem, em nenhuma maneyra se recebão, se não forem conforme a pobreza, que professamos […].(ESTATUTOS..., 1698, p. 77)
No que diz respeito aos materiais empregados na construção os Estatutos definiam: “[...] serão os materiais das Casas, que edificarmos, os mais pobres & de menos culto, que
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puder ser” (ESTATUTOS, 1698, p. 78). Para cumprir o disposto nos mesmos, os frades utilizavam os recursos disponíveis, incluindo o proveito do relevo do terreno físico. Para exemplificar, as próprias rochas foram utlizadas de forma a servirem de estrutura para as habitações e outras dependências. Numa projeção arquitetónica, estudos de especialidade sobre as características dos edifícios dos conventos franciscanos, como é o caso do Convento da Arrábida ou do Convento de Sintra, apontam para o aproveitamento geográfico (PACHECO, [2012]), ou “aproveitamento da topografia do lugar” (ABREU, 2013).
Noutra ordem de ideias, Pereira (2006, p. 191-192) refere-se à arquitetura vernacular e estilo pobre, em que predomina o elemento pragmático e unilateral e em que “[…] nada era supérfluo, tudo era necessário e suficiente. Sobretudo, suficiente.” (Pereira, 2006, p. 191-192). Continua o mesmo autor, de uma forma bem expressa e pontual: “Pois é precisamente essa elementaridade arquitetónica que se surpreende no Convento da Arrábida. Paredes, portas e telhado. O Conventículo começa até por não ter nada disto, no Convento Velho, onde primavam as celas rupestres, o que é deveras singular […]. Para depois se resumir a apenas isso, na versão do Convento Novo” (PEREIRA, 2006, p. 191).
No caso dos arrábidos, e como exemplo deste tipo de vida, ou seja, de “aproximação à natureza no seu mais elevado grau” (ABREU, 2013), mesmo na esfera do quotidiano, podemos referir a utilização da cortiça não apenas para forrar as portas das instalações, mas também como cama estendida diretamente no chão, sendo que “as próprias conchas da praia lhes serviam de prato” (PERESTRELO, 1952, p. 76). Esta prática de organização de espaço e do modo de viver, segundo os autores referidos, reflete uma tendência antropológica que lança uma ponte não apenas para as origens franciscanas, mas para as raízes da Humanidade em geral, quando o homem vivia simplesmente em harmonia com a Natureza e de acordo com o que a Natureza proporcionava.
Ao seguir o itinerário cronológico da construção do convento da Arrábida, iremos acompanhar este processo, atribuindo protagonismo às contribuições e intervenções dos padroeiros que tiveram um papel significativo.
As construções iniciadas em 1542, com apoio do 1.º Duque de Aveiro, D. João, foram continuadas pelo seu filho, 2.º Duque de Aveiro, D. Jorge, que assumiu o Ducado em 1571: […] o qual atendendo ao grande descómodo dos Religiosos, ordenou se lhes fizesse huma cerca, por não estarem expostos à gente, que vinha de Romagem à Senhora […]. Mandou também ajuntar as cellas, ficando em distância mais breve, e
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menos molesta. (PIEDADE, 1728, p. 58-59). Começou outras obras e pediu o acabamento destas através de recomendações expressas no seu testamento, manifestando, assim, estimação, muita devoção e amor que tinha pela sua Serra da Arrábida, mas também preocupação com os que a habitavam.
Foi D. Álvaro, 3.º Duque de Aveiro, que concretizou mais obras desde o ano em que assumiu o Ducado, em 1588, até falecer em 1626, e “que proporcionou a grande transformação que levou à construção do conjunto a que hoje chamamos Convento Novo” (PEREIRA, 2006, p. 71).
As principais obras do Convento da Arrábida, apoiadas e acompanhadas por D. Álvaro, incidiram, no âmbito da igreja, sobre a finalização da sacristia, tendo sido acrescentada a antessacristia e construído o coro. Neste processo de construção inscreve-se também o antecoro, o altar e a escada que comunica com a sacristia (CALADO, 1993, p. 103). O interior da igreja, sem elementos artísticos elaborados, apenas umas peças indispensáveis de mobiliário e umas imagens de diferentes épocas (PEREIRA, 2006, p. 106), alberga sepulturas de D. Pedro de Lencastre, 5.º Duque de Aveiro, D. Álvaro de Lencastre e sua esposa, D. Júlia de Lencastre, e um dos seus filhos, D. Raimundo, do Duque de Torres Novas e da neta Ana Luísa bem como dos seguintes frades: frei Francisco dos Reis, frei Diogo dos Anjos, irmão do poeta frei Agostinho da Cruz e Pedro Mesquita Carneiro. No seu conjunto, a igreja apresenta-se de uma desarmante singeleza em contraste com a grande estátua de mármore, à sua frente, que representa o fundador frei Martinho de Santa Maria, “uma originalíssima imagem de um frade arrábido, de teor alegórico, para a qual não encontramos paralelismo português, nem estrangeiro” (PEREIRA, 2006, p. 103).
Alguma variação de materiais e cores encontram-se no corredor e nos tetos da portaria, que apresentam decorações em azulejo com as figuras de santos da ordem: “S. Jácome de Marca, S. Bernardino de Sena, S. Luís Bispo, S. Boaventura, S. Pedro de Alcântara, Santo António de Lisboa e S. Francisco de Assis, S. João Capistrano, S. Pascal Bailão, S. Diogo de Alcalá” (CALADO, 1993, p. 103). De igual modo, são presentes neste espaço três religiosos, os mais representativos dos frades arrábidos que mais resplandeceram no exercício das virtudes. Trata-se do frei Francisco dos Reis - guardião do convento, do frei Diogo dos Anjos e do poeta frei Agostinho da Cruz.
Não podemos deixar de referir uma inscrição encriptada no teto da entrada do corredor da portaria que, de alguma forma, apresenta o carácter alusivo acerca da predestinação do convento, que não é, no seu conjunto, mais do que um caminho doloroso de
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penitência para o transcendente: “Quam Terribilis Est/ Locus Iste, Vere Non/ Est Hic Aliud Nise/ Domus Dei & Porta Coeli” (PERESTRELO, 1952, p. 102). Como lugar de penitência, mas também como lugar de esperança, este original convento, no entender de Perestrelo (1952, p. 102), deveria ter sido a Casa de Deus e porta dos Céus.
D. Álvaro construiu ainda a cela de frei Agostinho da Cruz, que veio para Arrábida em 1605, onde permaneceu 14 anos, até falecer. A sua cela foi transformada, em 1720, pelo guardião frei José da Esperança, em ermida dedicada ao Santo António, e restaurada, posteriormente, em 1940, aquando do IV Centenário do nascimento do poeta, pela 4.ª Duquesa de Palmela (CALADO, 1993, p. 106).
No exterior da cerca, mas dentro da propriedade do Convento Novo (PEREIRA, 2006, p. 158), D. Álvaro construiu ainda instalações de uso próprio. É a chamada Casa da Romagem, que servia de alojamento para o duque e a sua família, quando ia à Serra para se recolher ou para participar nas caçadas.
No âmbito de reparações, para preservar a memória dos predecessores arrábidos, no lugar da cela de Frei Martinho, D. Álvaro mandou construir uma ermida de São João do Deserto, atualmente em ruínas (PIMENTEL, 1992, p. 58).
Assim como observa Pereira (2006, p. 74), em traços gerais, a estrutura do Convento Novo, tal como é conhecida atualmente, remonta aos anos que abrange o período entre 1590-1630, equivalente às obras de D. Álvaro.
Posteriormente, em 1632, D. Ana Maria Manrique Lara, uma das grandes protetoras do Convento da Arrábida (CALADO, 1993, p. 107), mudou-se para Arrábida com os seus filhos, onde viveu oito anos, até ao ano de partida para Espanha, em 1640, devido às instabilidades políticas em Portugal. Foi ela que mandou acrescentar à Casa da Romagem mais anexos, utilizados mais tarde pelos guardas do convento. Mandou também terminar a construção de três ermidas, iniciadas por D. Álvaro, e construir mais três, mas sem concretizar o acabamento destas, motivo pelo qual foram designadas de ermidas imperfeitas (PIMENTEL, 1992, p. 58). Ainda em relação às ermidas que fazem parte do complexo conventual, Piedade relata no capítulo XV da Crónica, que “no recinto deste convento estão desafiando à contemplação das Celestiais moradas treze Ermidas, cinco ainda sem ornato, e as mais com a sua especial dedicação. Admirão-se, situadas em circunferência fora dos muros da Cerca” (PIEDADE, 1728, p. 66).
Para completar o panorama construtivo deste Convento, devemos referir também as construções conhecidas como Mesquitas. As referidas instalações foram acrescentadas por Pedro de Mesquita Carneiro, secretário e administrador-geral da casa ducal de D.
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Álvaro e D. Juliana. O mesmo pediu, em 1632, autorização para viver em retiro e permaneceu neste espaço junto do convento, longe do mundo efémero, ate à sua morte que sucedeu em 1649.
A comunidade do Convento da Arrábida continuou as suas atividades, quer nas oficinas, quer na oração e penitência, até à extinção das ordens religiosas, em 1834.
Em 1863, o convento e o seu terreno foram adquiridos pelo 1.º Duque de Palmela, D. Pedro de Sousa Holstein. Permaneceu na posse da Casa Ducal de Palmela durante mais de um século, sendo que, no âmbito de projetos de preservação, foram efetuadas várias intervenções de restauro, as mais importantes realizadas nos anos 50 do século passado. Em 1990 o convento, bem como o terreno envolvente, foram adquiridos pela Fundação Oriente. O novo proprietário tem o mérito de, depois das intervenções de conservação adequadas, integrar o espaço conventual, nomeadamente as instalações situadas fora da cerca do convento, no circuito cultural, através de eventos e atividades culturais. É uma forma de reconhecimento e de expressão da importância espiritual que este espaço teve e sempre terá no contexto cultural português.
2.3. A Comunidade do Convento de Nossa Senhora da Arrábida em 1539-1834