Não poderia deixar de mencionar as exceções, histórias que não se enquadram nos tipos de situações descritas nos itens anteriores. Dois meninos narraram latrocínios que tinham cometido. No caso de José, o latrocínio aconteceu durante um assalto: o homem reagiu, houve troca de tiros e ele morreu. José caracterizou esse homem como uma pessoa “inocente”, porém afirmou que atirou porque houve reação. Disse ainda que não era “sanguinário”, que não gostava de matar “inocentes”.
Já a história de Júnior é bem diferente daquelas contadas pelos outros meninos. Júnior era branco, de olhos claros e do interior do Estado. Contou que os pais eram separados e que ainda criança saiu da casa da mãe para morar com o pai. Na adolescência, passou a praticar furtos e começou a usar crack. Disse que conseguiu deixar o vício sozinho. Relatou também o motivo pelo qual estava preso:
[...] tava precisando de dinheiro pra me sustentar, eu ia morar sozinho, daí eu vim pra..., e roubei um carro. Eu queria roubar um carro, mas daí quando eu vim roubar um carro daí aconteceu o... o latrocínio. Daí em vez de eu ir lá roubar o carro, eu peguei fui lá, pedi uma pousada lá no hotel que o cara era dono do hotel.
O cara do carro?
Não, um outro. Eu ia roubar um carro, mas daí aconteceu um estresse ali com o cara do hotel, que eu já tava devendo pra ele 30 reais e eu fui no hotel dele e fui pedir pra ele me arrumar uma pousada, né, que eu tava todo molhado. Daí como eu tava devendo pra ele, ele começou a me chamar de, começou a me xingar, começou a me chamar de... como é que é que não paga os outros? É... veiaco (ri), me chamou de veiaco, xingar meu pai e meu pai não tinha nada a ver com a história. Peguei fui embora [...] aí eu peguei... fui lá no outro dia, toquei a campainha e matei ele. Daí eu peguei a chave do carro dele, a carteira, o relógio, corrente de ouro, anel, embarquei no carro e... daí não sei, não sabia dirigir. Daí peguei e fui sair com o carro, sabia dirigir, mas devagarzinho, não embalado. Daí saí com o carro, entrei na BR e numa cidadezinha eu capotei o carro e saí do carro. Daí ninguém me pegou, né, eu passei na casa da minha tia, troquei de roupa e fui pra rodoviária pegar ônibus. E depois de um tempo eles me pegaram na rodoviária e daí agora eu tô aqui. Daí eu não quis resistir, né, peguei e fiquei de boa.
[...] Mas na hora você tava sentindo muita raiva dele, por que você decidiu...
Não, é que eu não gosto que mexa com o meu pai, que o meu pai foi o que me criou, né. Eu não gosto da minha mãe, né, eu não me dou bem com a minha mãe e daí eu peguei e fui pro meu pai. Daí o meu pai, qualquer coisa que aconteça pra ele eu não sei o que acontece comigo, eu até morro por ele [...] Mesmo aqui dentro, aqui dentro eu nunca briguei, pode me chamar do que quiser, mas... os cara fazem tanta brincadeira, aí eu engulo tudo, mas... eu tô pagando uma coisa que eu fiz, não quero que mexam com a minha família, fiz a besteira por causa que mexeram com meu pai.
Júnior justificou ter matado aquele homem por uma questão de honra. Ele procurou, em vários momentos, diferenciar-se dos outros meninos que estavam internados com ele: disse não gostar de ouvir rap e falar gírias, nem de usar boné. Frisou que não queria fugir, pois aprendeu que deve pagar pelos erros. Era um menino de classe média que afirmou que, desde pequeno, gostava muito de roubar, pela emoção que sentia. Júnior contou também que os meninos de uma instituição na qual ele estava anteriormente queriam fugir. Para isso, prepararam espetos e precisavam dele, que é mais forte fisicamente, para render os monitores. Ele não quis fugir, não quis ajudar e delatou os “colegas”. Então, foi transferido para a instituição na qual realizei a pesquisa. Quando ele chegou, alguns meninos ficaram sabendo que Junior era “cagueta” e se juntaram para dar uma surra nele. Ele disse que se defendeu bem, pois “esses aí acostumados a se esconder atrás de arma”, não sabiam brigar bem “no braço”.
Outro menino que contou histórias com explicações diferentes para os homicídios foi Paulo. Esse jovem de 17 anos falava pouco, pausadamente e não desenvolvia muito as frases,
as idéias. No decorrer da entrevista, pude deduzir que suas dificuldades em se expressar poderiam ser sequelas do uso de drogas – no caso “mesclado” (crack com maconha) – desde pouca idade. Ele contou que uma vez deu “uns tiros num guri” porque ele tinha roubado um passarinho que era dele. Em outro momento de sua narrativa, falou que matou outro “cara”. Questionei quais os motivos e Paulo apenas disse: “por causa de palhaçada, bobiça.” Quis entender melhor e ele disse que foi uma briga por causa de bebida, de cachaça. É bem difícil tecer comentários sobre esse caso, pois Paulo forneceu poucos elementos que ajudassem a entender como as situações ocorreram. Não parecia o caso de alguém que tinha “gosto” em matar, ou algo assim, mas sim de um jovem que apresenta sérios danos mentais por conta do uso constante e de longa data de substâncias psicoativas.
Houve também um caso de “morte em família”: o jovem matou a sua avó. Essa interlocução foi difícil para mim, pois o menino apresentou uma postura bem diferente daquela dos outros entrevistados: ele falava muito baixo, raramente dirigia o olhar para mim, estava completamente centrado na história que me contava. Narrou como o evento aconteceu e procurou explicar sua atitude como uma forma de descarregar sua raiva, fazendo referência a um processo de sucessivos sofrimentos e violências que vivenciou no âmbito de sua família. Também no que concerne a esse caso, não me sinto apta a desenvolver reflexões consistentes, pois precisaria lançar mão de conhecimentos de outras áreas, como a psicologia, a psicanálise, ou proceder a uma análise “situacional”, fenomenológica, como faz, por exemplo, Jack Katz (1988). No momento, não tenho condições de realizar nenhum desses empreendimentos.
Os caminhos da pesquisa foram apresentados, as histórias foram recontadas. No capítulo que segue, algumas reflexões sobre as vidas que apareceram nas histórias sobre mortes.