Korn Shell Reference
5. Editing and reusing commands
6.7 Conditional execution
86 CARLETTO, Ciro. Entrevista concedida a Roberto Luiz Pocai Filho. 05/07/2014. Áudio Digital.
144min.
dinheiro público. Além de relatar o desvio da nascente, o entrevistado apresenta sua posição onde o verbo “desviar” pode ser interpretado outro sentidos: “Daí não sei se o véio (Mário) emborçô o dinhero ou terminô o dinhero. Parô! (…) E não fechô”. A obra gerou expectativa no lugar como o próprio Carletto relata: “Mas óia o povo carcule, nem energia existia, (...) só que a rede ia pra Mariópis”88. Contudo, o diálogo
com os seis entrevistados chegou ao fim da barragem que nunca produziu energia. Além de filho de um dos primeiros moradores de Navegantes, Ciro Carletto é presidente da capela e dono de um recanto. Além do desvio da antiga barragem, subindo o rio contra suas intensas corredeiras, atravessando uma série de cachoeiras e lajes rochosas escorregadias, entre palmeiras e árvores imponentes avistamos a ilha do Carletto, guarnecida por garças brancas que a utilizam como abrigo e como fonte de alimento.
Em 1999, sentindo-se ameaçado com o avanço das Usinas Hidrelétricas São João e Cachoeirinha, tornou-se militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Assim, a narrativa inclui informações do Movimento que o faz associar Fontana ao interesse de levar energia elétrica até Mariópolis, enquanto a comunidade de origem da usina continuaria no escuro.
Lucília Delgado considera a memória como “uma construção sobre o passado, atualizada e renovada no presente”. Por isso, Carletto lembra da Usina do “véio Ruzza” sofrendo influência da sua condição de militante. Tal dinâmica do tempo mostra que o presente é presente de algo, o passado. O enredo de todas as múltiplas manifestações compartilhadas com o entrevistador criam e recriam interrogações que movimentam a dinâmica da História89.
Os acontecimentos passados e vividos não foram ou são alguma coisa, mas estão sendo, pois são ressignificados a todo instante na comunidade. A memória é individual ou coletiva? Para Pollak: “A memória deve ser entendida também, ou sobretudo, como um fenômeno construído coletivamente e submetido a flutuações, transformações, mudanças constantes”90. Ainda assim, não são as instituições, os
lugares ou as comunidades que lembram os acontecimentos, cada pessoa individualmente consigo mesma rememora algo de maneira introspectiva, singular e
88 Idem.
89 DELGADO, L. de A. N. op. cit. 90 POLLAK. op. cit. p. 200.
subjetiva.
A memória é seletiva. No fio da memória, em muitas ocasiões, até mesmo o que se tenta esquecer é o que mais se recorda. A amnésia social se efetiva em uma barragem desativada por ser desconhecida de grande parte do conjunto da memória social. Mas por ser um acontecimento familiar, retido, depositado e armazenado, de repente, essa barragem emerge selecionado na memória individual. Na perspectiva do ato de contar causos perante o gravador, a rememoração se torna algo socialmente apreensível por relacionar duas pessoas no mesmo processo. Segundo Meneses, a obsolescência do pensamento, o esforço de lembrar, “é esquecer uma diferença, generalizar, abstrair”91. Por isso, o ato de maquinar diversas áreas do
cérebro produzindo a lembrança se configura como mais uma construção de si sobre o todo, de uma trajetória da vida de uma pessoa com os elementos subjetivos que extirpam alguns episódios em favor de outros.
A memória distorce e seleciona, mas a memóra perservera e prevalece. Subtraindo, retendo, filtrando e digerindo o acontecimento familiar da usina por meio de suas lembranças, Zezinho adiciona ao enredo uma informação de relevância que desloca a intensidade dos acontecimentos vividos de um plano local para um plano regional:
José Ruzza: Foi na época que teve aquelas revolução lá em Marrecas (Revolta dos Posseiros, Francisco Beltrão-PR em 1957). Por causa que o dinhero que ele vendia as terra lá ele (Mario Fontana) tava tocando a usina aqui. Quando ele parô de fazê, teve que saí fugido de lá de Beltrão daí parô tudo (…). Eles ficaro devendo pra todo mundo (risos), todo mundo perdeu
porque não tinham mais como pagá os empregado, porque lá onde eles
tavam vendendo as terra eles não pudero mais vendê92.
Mário Fontana era reconhecido pelos representantes da elite industrial e da classe empresarial da época. A Revista da Associação Comercial o referenciava como o “verdadeiro desbravador do sudoeste do Paraná” entre os demais “bandeirantes do século XX plantando cidades e semeando civilização”, na ocasião da inauguração do aeroporto de Francisco Beltrão-PR (figura 6). O periódico publicado no Rio de Janeiro em 1953 destacava o papel da CITLA:
91 MENESES, op. cit. p. 17. 92 RUZZA, José. op. cit.
Cujo trabalho de recuperação social do homem do campo é, por assim dizer, uma das séries contribuições que se conhece nos dias de hoje, ao estudo da própria ecologia. Fixar o homem à terra, através de empreendimentos e realizações à altura do século em que vivemos, oferecendo novas perspectivas de vida dos trabalhadores rurais, fazendo-os proprietários das glebas que ocupam com a preocupação de explorá-los economicamente, este é o objetivo dos dirigentes da CITLA, que vêem ainda, por conta própria, construindo estradas de rodagem, campos de
aviação, usinas hidroelétricas, pontes, vilas e cidades no afã de
acompanhar o vertiginoso progresso do Estado do Paraná93.
Muito além do ufanismo das obras da CITLA, Zezinho evidencia os silêncios por trás da barragem, a sua voz anuncia a Revolta dos Posseiros. Em 09 de Outubro de 1957, a cidade de Pato Branco foi tomada pelos agricultores e trabalhadores urbanos que denunciavam as agressões de jagunços em suas terras à mando da CITLA.
Um dia depois, em Francisco Beltrão, os documentos da CITLA e das demais companhias imobiliárias foram rasgados, queimados e espalhados pelas ruas da cidade ocupada de colonos vindos das estradas vicinais em muitas carroças, caminhões, caminhonetes, todos amontoados sobre as suas carrocerias, outros a pé ou a cavalo, armados de paus, pedras, foices, facões e armas de fogo. Os jagunços ficaram aquartelados no escritório da companhia imobiliária Comercial e foram levados da cidade em viaturas da polícia. Os escritórios das companhias foram depredados, lá foram encontradas Winchesters, espingardas e muita bala, um verdadeiro arsenal que os jagunços da CITLA utilizavam para extorquir os moradores, exigindo que esses comprassem a terra onde viviam. Ao invés de proprietária, a companhia foi acusada de grilar as glebas Chopim e Missões94.
Naquele tempo, a rádio Colmeia ecoava as notícias a toda região e cobriu as principais ações dos posseiros. Até a atualidade, diversas literaturas já foram produzidas sobre esse episódio, desde a ficção até as produções científicas trancafiadas nos departamentos das universidades. Os tiros ecoaram da memória escrita ao áudio digital com a produção de singulares documentários sobre a conquista da terra pelos posseiros. A fantasia e a realidade não se contrapõem e o teatro da memória descortina a barragem financiada pela extorsão de agricultores.
93 Associação Comercial. Revista da Associação Comercial, 25 de fevereiro de 1953, Rio de