Ao avaliar o papel do setor externo, não se pode perder de vista que o uso de tal estratégia requer que haja países dispostos a adquirir mercadorias no mercado internacional, bem como países com excedentes de capital para a realização de inversões no setor produtivo em outras localidades no exterior. Desse modo, a estratégia de crescimento com base no setor externo depende das condições estruturais e conjunturais nas relações econômicas e geopolíticas internacionais.
No período de 1980 a 2008, as exportações mundiais (em US$) cresceram mais de 700%, o que criava oportunidades para que o comércio internacional se tornasse um relevante impulsionador do desenvolvimento econômico. Já o fluxo anual de IDE multiplicou-se por 47 no mesmo período, passando de US$ 51,5 bilhões, em 1980, para US$2,44 trilhões (BANCO MUNDIAL, 2016).
No entanto, as oportunidades não estavam disponíveis de maneira simétrica entre os países. Diferentes fatores, como a localidade geográfica, o grau de especialização produtiva e as questões geopolíticas, além das próprias políticas domésticas adotadas (como nível de taxa de câmbio), eram capazes de definir em que grau determinado país poderia usufruir do impulso externo.
Nos termos de Medeiros e Serrano (1999),
Tanto a ampliação ou mudança na hierarquia dos países do centro quanto o crescimento acelerado e mesmo a diminuição significativa do atraso relativo dos países da periferia são processos que pouco ou nada têm de automáticos ou naturais e dependem, fundamentalmente,
de estratégias internas de desenvolvimento dos Estados Nacionais. Por outro lado [...] o resultado final de tais projetos está fortemente associado, em cada período histórico, às condições externas. (MEDEIROS e SERRANO, 1999, p. 119).
Segundo Medeiros (1999) e Leão, Pinto e Acioly (2011), a inserção geopolítica da China no confronto entre os Estados Unidos e a ex-URSS exerceu papel de destaque para integração da China na economia mundial. Segundo o autor, a aproximação do país com os Estados Unidos, no início ainda da década de 1970, redundou em uma série de acordos que vieram a diminuir o seu estrangulamento externo, tais como: a obtenção do tratamento de nação mais favorecida concedida pelos Estados Unidos, o que estimulou fortemente as exportações de têxteis chineses; e, também, a aquisição de financiamentos externos dos órgãos multilaterais a taxas de juros inferiores às oferecidas aos demais países em desenvolvimento no final da década de 197050. Ampliando-se
o conceito de Wallerstein (1979), pode-se dizer que a China teria sido beneficiada por uma estratégia de “desenvolvimento a convite”.
Além disso, a China teria se beneficiado de um contexto regional favorável, potencializado com a reconfiguração do sistema monetário internacional em direção ao padrão dólar-flexível (MEDEIROS e SERRANO, 1999)51, no qual os EUA passaram a ter a condição de ampliar os déficits em
conta corrente sem que isso tivesse qualquer implicação negativa sobre a autonomia de política econômica (EICHENGREEN, 2005).
Com isso, no contexto do dólar valorizado na primeira metade da década de 1980, os EUA progressivamente transladaram parte da sua estrutura industrial para a Ásia, com destaque para o Japão. Porém, com a valorização do iene após o Acordo de Plaza, em 1985, e o maior nível de desenvolvimento
50 Segundo Medeiros (1999), esses elementos somados teriam permitido que a China ampliasse
maciçamente as importações de bens de capital para a modernização do seu parque industrial, sem comprometer o crescimento da indústria leve de consumo e da agricultura.
51 Com a crise do sistema de Bretton Woods, em que o dólar deixou de ser conversível em
relação ao ouro e passou a flutuar livremente em relação a este e a outras moedas, iniciou-se o movimento dos Estados Unidos em direção à obtenção de sua autonomia de política econômica. Com as contestações quanto ao poder do dólar que se seguiram, a favor um sistema monetário internacional mais simétrico (GUTTMAN, 1994; SERRANO, 2004), sucedeu-se a postura agressiva do Federal Reserve (Fed), banco central norte-americano, com uma brusca elevação dos juros com o objetivo de reafirmar o status internacional da moeda norte-americana (TAVARES, 1985).
econômico, a indústria japonesa buscou migrar para os demais países da Ásia com vistas a assegurar a competitividade (SOLOMON, 1999). Esse padrão de migração das empresas intensivas em mão de obra para os países menos desenvolvidos da Ásia foi descrito na versão moderna do “modelo dos gansos voadores” (MEDEIROS, 1999).
No final da década de 1980, a valorização das moedas dos “Newly
industrialized countries” (NIC’s)52 de primeira geração e a ofensiva comercial
norte-americana frente a esses países pelo fato de apresentarem expressivos superávits comerciais com os Estados Unidos, propiciaram o deslocamento de indústrias manufatureiras de baixo valor agregado para a China, bem como para outros países asiáticos, sob a forma de IDE, sobretudo para as suas zonas econômicas especiais, para servirem de plataforma de exportações para os Estados Unidos. Desse modo,
A explosão do IDE e das exportações chinesas corresponde, portanto, a uma resposta a um duplo movimento americano: um, diretamente político, de promoção da China e de isolamento da ex-URSS e outro, diretamente econômico, de contenção do déficit comercial com o Japão e dos demais Tigres asiáticos (MEDEIROS,1998, p.12).
No entanto, a partir do final da década de 1990, o contexto geopolítico internacional passa a exercer força contrária ao processo de ascensão da economia chinesa. O massacre na Praça da Paz Celestial em 1989 e o fim da Guerra Fria fez com que a China ficasse numa posição mais fragilizada na negociação com as potências capitalistas ocidentais. No entanto, a disposição para a continuidade do processo das reformas econômicas, bem como “as possibilidades abertas pela rivalidade oligopólica de capitais internacionais crescentemente voltados para o seu mercado interno” criaram as condições para a sustentação da trajetória ascendente da economia chinesa (MEDEIROS, 2006, p.13).
Em síntese, pode-se afirmar que o desenvolvimento econômico chinês obtido nas últimas décadas não pode ser dissociado das condições favoráveis do ponto de vista geopolítico, que permitiram que o país conseguisse dar início às reformas econômicas em um contexto de maior restrição de divisas,
bem como da condição regional favorável à recepção de IDE em um contexto de expressivo crescimento do comércio internacional.