II.4.1 Definição Sejam d1, d2 duas métricas no conjunto E. Diz-se que a métrica d2 é
mais fina que a métrica d1, e nota-se d2 d1 se se verifica a condição: em cada ponto
p ∈ E, e para cada 0, existe pelo menos um p 0 tal que B0
2p, p ⊂ B 0
1p, ,
onde B0
ip, r r 0 é a bola aberta no espaço métrico E, di, i 1, 2. As métricas d 1, d2
dizem-se equivalentes se cada uma é mais fina que a outra. Em linguagem lógica:
d2 d1 ≡ ∀p ∈ E, ∀ 0, ∃p 0, B0
2p, p ⊂ B 0
1p, ;
d1, d2 são equivalentes≡ d2 d1, d1 d2.
II.4.2 Exemplos (1) A métrica discreta di num conjunto E é mais fina do que qualquer outra métrica d em E, pois a bola aberta de centro p e raiop 1 está contida em qualquer bola B0p, para d. Se por exemplo E R, a métrica di não é equivalente à métrica usual
em R. (2) II.3.7 mostra que as métricas de, dMe ds em Rnsão todas equivalentes.
II.4.3 Observações (1) Se as métricas d1, d2em E estão na relação d2 d1, toda a
sucessãoxn em E, convergente para um ponto p em E, d2 converge também para p no
espaço métricoE, d1. Assim se d1 e d2 são métricas equivalentes, tem-se lim xn p em
E, d1 se e só se limxn p em E, d2
(2) Se existem um ponto p ∈ E e uma sucessão xn em E tais que limxn a em
E, d1, limxn b em E, d2 e a ≠ b, podemos concluir que nenhuma das métricas d1, d2 é
mais fina que a outra. Também se existem suvessõesxn, yn em E tais que xn é
convergente emE, d1 (resp. yn) é convergente em E, d2), mas xn não é convergente
emE, d2 (resp. yn não é convergente em E, d1, então nenhuma das duas métricas é
mais fina que a outra.
(3) A recíproca de (1) é válida, i.e. se duas métricas d1, d2 em E são tais que, para cada
ponto p ∈ E, toda a sucessão convergente para p relativamente à métrica d1é convergente
para p relativamente à métrica d2 (resp. e também cada sucessão convergente para p
relativamente a d2, é também convergente para p relativamente à métrica d1), então d2 é
mais fina que d1(resp. as duas métricas são equivalentes).
(4) Se existe uma constante positiva c tal que as métricas d1, d2 em E verificam a
relação d1x, y ≤ cd2x, y, onde x, y são quaisquer pontos de E, então para cada 0,
/c satisfaz a condição B0
2p, ⊂ B 0
1p, em cada ponto p ∈ E, onde B 0
ip, r é a
II.4.4 Exercícios
(1) Verifique o exemplo (2) em II.4.2.
(2) Demonstre que se d1, d2 são métricas em E tais que para cada ponto p ∈ E, toda a
sucessãoxn em E verificando limxn p em E, d2 é convergente para p em E, d1,
então d2 d1(Sug: prove a contra-recíproca, mostrando que se d2 não é mais fina que d1,
existem pelo menos um ponto p e uma sucessãoxn, xn → p em E, d2 mas tal que xn
não converge para p emE, d1).
(3) Mostre que as seguintes métricas são equivalentes: (i) d0, e em 0, , como em II.2.27 (2);
(ii) d e min1, d como em II.2.5 (2), em qualquer espaço métrico E, d; (iii) min1, d e d
d1 como em II.2.5 (2), em qualquer espaço métricoE, d. (Sug: para as três alíneas, pode utilizar II.4.3 (3)).
(4) Demonstre que se d1, d2, d3 são métricas em E, d2 mais fina que d1e d3
equivalente a d1, então d2 é mais fina que d3.
(5) Prove que: a) df, g
01 ∣ xfx − gx ∣ dx, d1f, g
0 1 ∣ fx − gx ∣ dx e d2f, g
0 1∣ fx − gx ∣2 12são métricas no conjuntoC0, 1 das funções reais
contínuas definidas no intervalo [0,1]; (Sug: utilize II.1.4 para d2).
b) a métrica d1é mais fina que a métrica d. (Sug: II.4.3 (4)).
II.4.5 Resoluções
(1) Utilizando II.3.7 temos: B0
dsp, r ⊂ B 0 dep, r para cada p ∈ Rn, r 0, e ds de; também B0 dep, r/n ⊂ B 0 dsp, r e de ds, d
e, ds são equivalentes.; de é mais fina que dM, pois B0d ep, r ⊂ B 0 dMp, r; e B 0 dMp, r/ n ⊂ B 0 de
donde dM de e de, dM são equivalentes. B0 dsp, r ⊂ B 0 dMp, r, ds dM e B0 dMp, r/n ⊂ B 0 dsp, r, dM ds e ds, dM são equivalentes.
(2) Suponhamos que d1e d2 são métricas em E, e que d2 não é mais fina que d1.
Verifica-se então a negação da condição d2 d1, i.e., com B0ip, r a bola de centro p e raio
r para a métrica di, i 1, 2 tem-se: ∃p ∈ E, ∃ 0, ∀ 0 ~B02p, ⊂ B01p, , ou, o
que é o mesmo, para certo ponto p e certo 0, existe, para cada positivo, um ponto
x ∈ B02p, tal que x ∉ B01p, . Fazendo 1/n para cada n ∈ N, obtemos uma
sucessão de pontos xn x1/n tais que cada xn ∈ B02p, 1/n e xn ∉ B01p, . Obtemos
d2xn, p 1/n e, fazendo n → , vemos que d2xn, p → 0 n → e portanto xn → p em
E, d2. Também, xn não converge para p em E, d1, uma vez que não existe nenhuma
ordem a partir da qual d1xn, p , estas distâncias são sempre ≥ , onde é certo número
(3) (i) Utilizando II.4.3, mostremos que cada sucessão convergente em0, para um ponto, relativamente a uma das métricas, é convergente para o mesmo ponto, relativamente à outra métrica. Se p 0, tem-se xn → p se e só se x1n →
1
p; portanto
d0,xn, p ∣ xn − p ∣→ 0 é equivalente a xn, p ∣ x1n −
1
p ∣→ 0. (ii) Se xn → p em E, d, dxn, p → 0 e então
min1, dxn, p min1, dxn, p ≤ dxn, p → 0, logo xn → p em E, min1, d; e se min1, dxn, p → 0, existe uma ordem p1 ∈ N tal que dxn, p min1, dxn, p se
n ≥ p1; para cada 0, existe pmin1, ∈ N, pmin1, ≥ p1, tal que dxn, p min1, dxn, p min1, ≤ para cada n ≥ pmin1, , e dxn, p → 0, xn → p em E, d. As métricas d, min1, d são portanto equivalentes.
(iii) Como provámos em (ii), se xn → p em E, min1, d então xn → p em E, d, i.e.
dxn, p → 0. Segue-se que d1d xn, p dxn,p 1dxn,p → 0 e xn → p em E, d d1. Reciprocamente, se dxn,p 1dxn,p → 0 então lim dxn,p
2max1,dxn,p 0. Existe uma ordem p1/2 ∈ N tal que dxn,p
1dxn,p 1/2 para cada n ≥ p1/2; então tem de ser dxn, p 1 se n ≥ p1/2, pois a função real da variável real x 1xx é crescente em0, e se
dxn, p ≥ 1 com n ≥ p1/2 obtem-se o absurdo dxn,p
1dxn,p ≥ 1/2, com n ≥ p1/2. Logo
dxn,p
2 → 0 e dxn, p → 0, xn → p em E, d e xn → p em E, min1, d pela alínea
anterior.
(4) Se d2 é mais fina que d1, então (representemos por B0ip, r cada bola relativa à
respectiva métrica di, i 1, 2, 3) em cada ponto p de E e para cada 0, verifica-se uma inclusão B02p, p ⊂ B01p, , para certo p 0. Sendo d1 e d3 equivalentes, em particular
d1 d
3; logo, dado um qualquer número positivo, verifica-se uma inclusão
B01p, p′ ⊂ B03p, . Com p′ 0 tal que B02p, p′ ⊂ B01p, p ⊂ B03p, vemos que
d2 d3.
(5) a) (D1) df, g
01 ∣ xfx − gx ∣ dx ≥ 0, pois o integral de uma função real contínua definida num intervalo limitado e fechado de R é finito e≥ 0 se a função é ≥ 0 em cada ponto do domínio; também df, f
0 1 ∣ xfx − fx ∣ dx
0 1 0dx 0. (D2)df, g dg, f porque ∣ xfx − gx ∣∣ xgx − fx ∣ e portanto os integrais são
iguais. (D3) df, h
0 1 ∣ xfx − hx ∣ dx
01 ∣ xfx − gx gx − hxdx ≤
0 1 ∣ xfx − gx ∣ ∣ xgx − hx ∣dx
0 1 ∣ xfx − gx ∣ dx
0 1 ∣ xgx − hx ∣ dx df, g dg, h; (D4) d1f, g
0 1 ∣ xfx − gx ∣ dx 0 implica xfx − gx 0 0 x 1 e(D1)
0 1 ∣ fx − gx ∣ dx ≥ 0,
0 1 ∣ fx − fx ∣ dx
0 1 0dx 0. (D2) d1f, g
0 1 ∣ fx − gx ∣ dx
0 1 ∣ gx − fx ∣ dx d2g, f (D3) d1f, h
0 1 ∣ fx − hx ∣ dx
0 1 ∣ fx − gx gx − hx ∣ dx ≤
01 ∣ fx − gx ∣ dx
01 ∣ gx − hx ∣ dx d2f, g d2g, h. (D4) d1f, g
0 1 ∣ fx − gx ∣ dx 0 fx − gx 0 x ∈ 0, 1 i.e, f g. (D1) d2f, g
0 1 ∣ fx − gx ∣2 dx12 ≥ 0, d 2f, f
0 1 0dx 0; (D2) d2f, g
0 1 ∣ fx − gx ∣2 dx12
0 1 ∣ gx − fx ∣2 dx12 d 2g, f; (D3) d2f, h
0 1 ∣ fx − hx ∣2 dx12
01 ∣ fx − gx gx − hx ∣2 dx12 ≤
0 1 ∣ fx − gx ∣ ∣ gx − hx ∣2dx12 ≤
0 1 ∣ fx − gx ∣2 dx12
0 1 ∣ gx − hx ∣2 dx12 d 2f, g d2g, h; (D4) d2f, g
0 1 ∣ fx − gx ∣2 dx12 0 fx gx x ∈ 0, 1 i.e, f g. b) Tem-se df, g
01 ∣ x ∣. ∣ fx − gx ∣ dx ≤
01 ∣ fx − gx ∣ dx d1f, g.Conclui-se de II.4.3 (3) que d1 d.
II.4.6 Definição As métricas d1, d2em E dizem-se uniformemente equivalentes se
satisfazem a condição de para cada 0, existirem pelo menos um 0 e pelo menos um
′ 0 tais que B 0 2p, ⊂ B 0 1p, e B 0 1p, ′ ⊂ B 0
2p, qualquer que seja o ponto p
em E. (Notação como em II.4.1).
II.4.7 Observações (1) Pela definição, duas métricas d1, d2em E são uniformemente
equivalentes se e só se para cada 0, existem , ′ 0 tais que d2x, y implica
d1x, y para todos os x, y ∈ E, e também para cada 0, existe ′ 0 tal que
d1x, y ′ implica d2x, y para cada x, y ∈ E. (2) Se duas métricas em E são
uniformente equivalentes, então são equivalentes; a recíproca é falsa. (II.4.10 (2) adiante).(3) Dadas métricas d1, d2 em E, se existem constantes positivas c1, c2 tais que
d1 ≤ c2d2e d2 ≤ c1d1 em E E (i.e, d1x, y ≤ c2d2x, y em cada x, y ∈ E E, e
analogamente para a segunda desigualdade), então as duas métricas são uniformemente equivalentes.
II.4.8 Definição SejaE, d um espaço métrico. A sucessão xn em E diz-se uma sucessão de Cauchy se satisfaz a condição de, para cada número positivo arbitrariamente escolhido, existir uma ordem p tal que a distância dxn, xm entre cada dois termos xn, xmfôr menor que, sempre que n, m ≥ p. Em linguagem lógica:
xn é de Cauchy ≡ ∀ 0, ∃p p ∈ N, n, m ≥ p dxn, xm .
II.4.9 Toda a sucessão convergente num espaço métrico, em particular, toda a sucessão constante a partir de certa ordem, é uma sucessão de Cauchy, mas a recíproca é falsa em geral.
II.4.10 Exercícios
(1) Prove que se duas métricas d1, d2em E são uniformemente equivalentes, então uma
sucessão é de Cauchy emE, d1 se e só se é de Cauchy em E, d2.
(2) Mostre que as métricas d0,, em 0, (II.4.4 (3) (i)) não são uniformemente
equivalentes (Sug: considere a sucessão1
n e utilize o exercício anterior).
(3) Prove que se d1, d2, d3 são metricas num conjunto E, d1, d2 uniformemente
equivalentes, e se d2 e d3são uniformemente equivalentes, então também d1, d3são
uniformemente equivalentes.
(4) Mostre que seE, d é um espaço métrico, então:
(i) as métricas d, min1, d são uniformemente equivalentes; (ii) as métricas d, dd1 são uniformemente equivalentes. (iii) min1, d, d
d1 são uniformemente equivalentes (Sug: utilize (i), (ii) e (3)).
(5) Mostre que duas métricas d1, d2 em E podem ser uniformemente equivalentes, mas
um conjunto B ser limitado emE, d1 e não ser limitado em E, d2 (Sug: considere E R
em (4) (i), d a métrica usual em R).
(6) Demonstre que toda a sucessão de Cauchy num espaço métricoE, d é um conjunto limitado.
II.4.11 Resoluções
(1) Basta provar que sexn é uma sucessão de Cauchy em E, d1 e d1, d2 são
uniformemente equivalentes, entãoxn é de Cauchy em E, d2. Sejam pois d1, d2 métricas
em E nas condições em da definição II.4.4, e sejaxn de Cauchy em E, d1 i.e.,
∀r 0, ∃p pr ∈ N, n, m ≥ p d1xn, xm r. Se 0, existe 0 tal que
d1x, y d2x, y quaisquer que sejam x, y ∈ E; tomando r na expressão
quantificada anterior obtemos: para cada 0, existe uma ordem p p tal que
n, m ≥ p d1xn, xm d2xn, xm o que, pela transitividade de "" , mostra que
xn é de Cauchy em E, d2 c.q.d.
(2) Com efeito, a sucessão xn 1n é de Cauchy em0, , d0,, mas
1
n, n1k k ≥ 1 para cada m n k, k ∈ N e portanto não existe nenhuma ordem p tal
que1n, m1 1 para todos os n, m ≥ p, e 1n não é de Cauchy em 0, , . Assim as métricas d0,, não são uniformemente equivalentes, pelo exercício anterior.
(3) Da hipótese d1, d2 uniformemente equivalentes e d2, d3 uniformemente equivalentes
temos:P1,2 ≡ para cada r 0, existe 0 tal que d1x, y d2x, y r para cada
x, y ∈ E; e podemos trocar d1 ↔ d2 obtendoP2,1 igualmente verdadeira. Analogamente,
verifica-se
P2,3 ≡ para cada 0, existe r 0 tal que d2x, y r d3x, y para cada
x, y ∈ E, e P3,2 obtida trocando d2 ↔ d3 é também verdadeira. Pela transitividade de ""
concluimos deP1,2 e P2,3 que
P1,3 ≡ ∀ 0, ∃ 0, d1x, y d3x, y , para cada x, y ∈ E. E concluimos
tambémP3,1 (obtida de P1,3 trocando d1 ↔ d3), a partir deP3,2 e P2,1
analogamente, ficando provado que d1, d3 são iniformemente equivalentes.
(4) (i) Se 0 ≤ 1 então min1, dx, y implica dx, y . Assim para cada
0, existe min1, tal que min1, dx, y dx, y ; claramente 0 satisfaz dx, y min1, dx, y .
(ii) Se dx, y então d
1dx, y
dx,y
1dx,y ≤ dx, y . Reciprocamente, dado 0,
consideremos 1 0. Como a função 1 é estritamente crescente, a desigualdade 1dx,ydx,y 1 implica dx, y ; assim, para cada 0, existe
1 0 tal que 1dd x, y implica dx, y para cada x, y ∈ E, e as métricas
d, 1dd são uniformemente equivalentes.
(iii) Como vimos em (3), de min1, d uniformemente equivalente a d, e d
uniformemente equivalente a 1dd podemos concluir que min1, d e 1dd são uniformente equivalentes.
(5) Com d2 d, a métrica usual em R, e d1 min1, d, estas métricas são
uniformemente equivalentes, por (4) (i), e no entanto R é limitado emR, d1, pois todo o
conjunto R está contido na bola fechada de centro em qualquer ponto e raio 1; mas
R em R, d2.
(6) Sejaxn uma sucessão de Cauchy no espaço métrico E, d. Existe então
p p1 ∈ N tal que dxn, xp 1 para cada n ≥ p. O número não negativo
maxdxn. xp : 1 ≤ n p r é finito, pois é o máximo de um conjunto finito; tem-se
dxn, xp ≤ max1, r para todo o n, e portanto xn : n ∈ N ⊂ Bxp, max1, r, o que prova que o conjunto dos termos xn é limitado, c.q.d.