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CONCOURS POUR LE QUARTIER GÉNÉRAL DE LA CHAMBRE DE COMMERCE

Por se constituírem em algo comum construído por um conjunto social, as representações sociais não são eternas, não são por si mesmas generalizáveis, podendo, ainda, apresentarem-se de modo distinto em um mesmo grupo. Os estudiosos as consideram construções altamente complexas, sempre localizadas e historicamente determinadas, constituindo-se saberes práticos, voltados para a ação e a relação com o mundo social (JODELET, 2001). Por esta condição histórica, as representações sociais estão sempre sujeitas a constantes transformações e atualizações. De acordo com Moscovici (2001), contribui, ainda, para essas possíveis transformações, o acesso às informações que permeiam a sua elaboração. Esta capacidade de mudança e de reconstruções é inerente aos processos de construções de identidades sociais, que podem emergir juntamente com a expressão de suas representações. Considera-se, assim, essencial o estudo das representações sociais do professorado em questão para a compreensão dos

processos de construção de suas identidades e de suas práticas educativas. A apreensão de suas representações tem o sentido de contribuir para a compreensão dos processos de reconstrução identitária desse grupo social em um momento especial de formação profissional e possibilitar a instauração de novas perspectivas do magistério e da atuação docente.

Na tentativa de mapear as regularidades, rupturas e transformações que envolvem esse processo utiliza-se a teoria do núcleo central proposta originalmente em 1976 por Jean– Claude Abric, complementarmente à teoria das representações sociais, assim formulada: “[...] uma representação social apresenta como característica específica a de ser organizada em torno de um núcleo central, constituindo-se em um ou mais elementos, dando-lhe significado” (ABRIC, 1998, p.31). Encontrar os elementos estruturantes de uma representação constitui-se na preocupação central que motivou esse autor à formulação de sua teoria do núcleo central. Amplamente considerada como uma grande contribuição ao estudo das representações sociais, esta teoria é definida pelo próprio autor como um construto eminentemente simbólico, possuindo uma alta complexidade pelos aspectos sociais, culturais e simbólicos que a determinam. Esta dimensão simbólica, que imprime sentido a uma representação, é determinada pelo seu núcleo central. Abric contrapõe-se, assim, de certa maneira, à idéia do núcleo figurativo definido pela grande teoria das representações sociais, conforme assinalado por Sá (1996, p.66), atribuindo-lhe a remoção de um equívoco que consistia em confundir essas distintas concepções:

O núcleo central é o elemento essencial de toda representação constituída e que ele pode, de uma certa maneira, superar o simples quadro de objeto de uma representação para encontrar sua origem nos valores que o transcendem e que não exigem nem aspectos figurativos, nem esquematizações, nem mesmo concretização.

As representações sociais se inserem numa realidade social complexa, servindo para interpretá-la e construí-la, ao mesmo tempo em que são construídas pelas práticas sociais. As representações não são construídas para sempre, não possuem um caráter definitivo. Enquanto construções sociais estão sempre sujeitas a incessantes desmanchamentos e reconstruções. Porém, uma vez constituídas, apresentam um núcleo central perceptível pela identificação dos elementos que o compõem, representado pelo conteúdo e a maneira como se organizam em seu interior. De acordo com a teoria do núcleo central, a mudança de um desses elementos que o compõem acarreta a transformação da própria representação. Assim, a dificuldade de seu estudo está associada à própria natureza e expressão das representações sociais, podendo apresentarem-se como“[...] estáveis ou móveis, fixas ou flexíveis” (Sá, 1996, p.33). As representações podem, ainda, tenderem para o consenso ou expressar marcas das diferenças entre grupos ou indivíduos, apontando para uma continuidade ou ruptura, com relação à situação ou ao objeto representado. As implicações teóricas que emergem de tal situação são resolvidas pelo autor da seguinte forma: toda representação possui um sistema central e, secundariamente, um sistema periférico. No primeiro, localiza-se o núcleo central, que organiza e imprime o significado e constitui-se na estrutura básica de uma representação social (ABRIC, 1998, 2001). Abric não se preocupou, em sua abordagem inicial, com o caráter fugidio, mutante, flexível de uma representação social, mas, pelo contrário, cuidou em identificar o seu caráter mais estável, organizador e permanente. Assim, todo o esforço de seu trabalho foi no sentido de delinear as razões da centralidade e a importância do núcleo central na estruturação e sentidos presentes em uma representação social. De fato, as características por ele identificadas reafirmam a relevância do seu estudo, que aponta o núcleo central como a parte da representação vinculada aos sistemas socioculturais mais amplos, presentes na

de um grupo social, menos variável e mais vinculada à permanência das representações. Em contraste, o sistema periférico reporta-se às expressões mais individualizadas, respondendo mais diretamente às questões do cotidiano por ser mais ligado ao contexto imediato, sendo assim mais flexível e voltado a atualizações e mudanças.

Guimelli (1994) foi um dos pesquisadores que mais contribuíram para a

compreensão da íntima relação que se estabelece entre os referidos elementos, constatando a plena complementaridade entre o núcleo central e o sistema periférico, apesar de pautarem-se, individualmente, por regras próprias e específicas. Conforme estabelece a teoria do núcleo central, que representa uma estrutura estável e mais resistente à mudança, para assegurar a permanência da representação social tal como se apresenta. Já os elementos periféricos são caracterizados por este autor como os mais vulneráveis às solicitações ambientais,

apresentando conteúdos heterogêneos, constituindo-se em uma barreira (pára-choque) entre o núcleo central e a realidade concreta, cumprindo, desta forma, a função de protegê-lo e de garantir sua continuidade.

No plano operacional, conforme veiculação e pesquisas experimentais, constata-se que os elementos situados no núcleo central são os que respondem mais prontamente à

investigação, por serem os elementos melhor memorizados e reconstituídos mais rapidamente do que os elementos periféricos (ABRIC, 1994). Conforme Abric (1994), pesquisas

desenvolvidas por ele e outros pesquisadores dedicados ao estudo do núcleo central das representações, como Flament, Guimelli e Moliner, têm servido para conhecer melhor a organização e o funcionamento dos sistemas centrais e periféricos de representações, bem como a maneira como estes evoluem e se transformam. Seus resultados confirmam

garantia da estabilidade dos seus elementos como fundamentais para que estas se mantenham em torno de um objeto representado. Assim, o núcleo central fornece a estrutura de

sustentação de uma representação, e sua ausência ou o desmanchamento de um de seus elementos constituintes resultaria em sua transformação e numa nova apreensão da realidade social.

Em suas formulações iniciais, Moscovici (1978) já sugeria a importância da informação como um dos elementos mais poderosos na transformação de uma representação social, o que é reafirmado por Abric (1998, 2001). Para este autor, a teoria complementar do núcleo central de uma representação constitui a base comum partilhada das representações sociais cuja função primordial é o consenso, fornecendo a um grupo social as condições para a avaliação e orientação para a ação. A teoria do núcleo central das representações sociais apresenta-se, assim, como um recurso que permite uma leitura mais real das permanências e rupturas ali operadas, pela maneira como organiza e reorganiza seus elementos constitutivos.

O já mencionado grupo de pesquisadores franceses, conhecido como o grupo de Midi, desenvolveu importantes contribuições metodológicas para o aprimoramento da teoria do núcleo central, permitindo-lhe a identificação dos elementos que fornecem o significado e a organização das demais cognições, ao ponto de considerar distintas duas representações que não partilhem o mesmo núcleo central (SÁ, 1996.) .

Procurando ainda estabelecer parâmetros pertinentes à identificação dos elementos centrais de uma representação, Abric (apud SÁ, 1996) menciona quatro importantes propriedades para a sua identificação: a primeira é o poder simbólico de uma representação - que se constitui no laço indefectível com o objeto da representação, considerando-se aquilo que o simboliza, que lhe imprime o sentido; a segunda, o poder associativo ou a associatividade – considerada a

segunda propriedade qualitativa mais importante, indicada, juntamente com a anterior, como emanada da grande teoria das representações sociais, originalmente proposta por Moscovici, cuja capacidade associativa a outros termos reduz a polissemia daquele termo primeiro, na medida em que forma um sentido junto a outras palavras às quais se associa. Já as duas outras propriedades seguintes são consideradas como propriedades quantitativas, dentre elas, a propriedade da saliência, que é o aparecimento mais freqüente de certas cognições evocadas em decorrência do valor simbólico das cognições centrais, e a propriedade da conexidade, que se relaciona com as cognições centrais remetidas a manifestações quantitativas do seu poder associativo.

Nesse estudo pioneiro no Brasil sobre a teoria do núcleo central, Sá apresenta um quadro amplo e detalhado sobre as diferentes abordagens para a apreensão e tratamento dos dados levantados pelos pesquisadores franceses da teoria do núcleo central, tendo em vista o conhecimento e a configuração desses núcleos nas representações pesquisadas. Com base nesses estudos, procuramos delinear as representações que configuram as identidades docentes, sobretudo em seus traços mais permanentes, porém, procurando compreender os possíveis processos de transformação neles envolvidos. Estes processos de constantes construções e reconstruções das representações do conjunto do professorado refletem-se na maneira como esse grupo vem se percebendo e se relacionando com os outros em suas práticas pedagógicas e educativas.

De acordo com Sá (1996), é o próprio Moscovici que se remete a várias pesquisas experimentais desenvolvidas com a preocupação central de levantar indícios de reversibilidade das representações sociais. Dentre elas, situa-se o estudo de Flament (1994), pesquisador vinculado à sua base de pesquisa como um dos que melhor introduziram uma noção essencial para a compreensão dos processos de transformação das representações sociais diante das

práticas a elas contraditórias. O foco maior de sua pesquisa reitera a importância dos elementos periféricos na construção das representações sociais.

Nesse estudo, Flament (1994) procura mostrar que as alterações, em geral, localizam- se no sistema periférico de uma representação, ocorrendo apenas uma mudança superficial em seu interior, não afetando o seu núcleo central e não modificando, por conseguinte, substancialmente, uma representação. Contudo, as transformações não se dão sem resistências. Ainda de acordo esse estudo de Flament, diante de novas práticas que entram em contradição com as representações já estabelecidas, ou seja, em face dos elementos que lhes são estranhos, desenvolvem-se, no plano periférico, mecanismos clássicos de defesa, como interpretações, justificativas e racionalizações. Este autor anuncia que tomou por base um estudo realizado por Guimelli, para afirmar que a ativação de esquemas não contraditórios com o núcleo central pode levar a uma reestruturação sem ruptura da representação.

Conforme a teoria do núcleo central, essas transformações podem ocorrer de maneira radical, com ruptura, ou de maneira progressiva. A transformação progressiva ocorre quando as novas práticas não entram totalmente em contradição com o núcleo central da representação. Neste caso, os novos elementos vão progressivamente se integrando ao núcleo central, não havendo uma substituição deste, mas uma atualização, configurando-se numa transformação sem ruptura, resultando numa representação apenas em alguns aspectos distinta da antiga. Já a transformação brutal, com ruptura, ocorre quando as novas práticas se

apresentam contraditórias com relação às representações já existentes; os esquemas periféricos não são mais capazes de atuar na situação de conflito. Assim, ocorre uma mudança rápida e radical no sentido do surgimento de uma nova representação, provocada, assim, pela ruptura com a antiga representação.

Não obstante a importância do sistema periférico nos processos de organização, atualização ou transformação de uma representação social, o foco deste trabalho encontra-se voltado para o núcleo central da representação dos docentes, implicado como está numa já existente enunciação de transformação da sua prática pedagógica e de suas identidades sociais e profissionais.