Num tempo em que a escola é para todos, a cada um deve ser dada a oportu- nidade de alcançar o sucesso. Faz todo o sentido desenvolver nos alunos compe- tências metacognitivas68, que lhes permitam um percurso escolar sem sobressal- tos. Para nós esta é a ideia força que dá origem a nova área curricular não discipli- nar.
A nova área curricular de estudo acompanhado, de acordo com o espírito do legislador, tem como objetivo “a aquisição de competências” capazes de proporcio- narem aos alunos “ o desenvolvimento de atitudes e de capacidades” a fim de “ favorecer uma cada vez maior autonomia na realização das aprendizagens” (Abrantes, 2002, pp.10-11). Por outras palavras, tem como objetivo o de aprender a aprender, isto é, “ensinar o estudante a atuar estrategicamente69 ao longo do seu processo de aprendizagem” (Simão, 2002, p.79).
Com a área curricular não disciplinar, não se pretende desenvolver mais uma disciplina, com manual e programa próprios (Abrantes, 2002, p.14), mas sim inte- riorizar nos alunos “hábitos pessoais de estudo e de organização pessoal”, tais como a consulta autónoma de informação em diversas fontes, a realizar resumos ou trabalhos a partir de fontes previamente identificadas.
Esta nova área vai exigir novas competências aos professores70, capazes de
sugerir e ensinar aos alunos estratégias de aprendizagem, contextualizadas com
68 Caritas et al (Como Ensinar a Estudar) sugerem a definição deste conceito a partir de Flavel (1976):”A metacognição refere-se ao conhecimento que o próprio dispõe em relação aos seus processos cognitivos e dos seus produtos… metacog- nição inclui entre outros aspetos, a avaliação ativa, a regulação e organização desses processos em relação a objetos cogni- tivos visando habitualmente atingir um objetivo concreto”(p.239)
69 Para a autora, citando (Monereo, Castelló,Clariana, Palma e Pérez,1997,p.27) estratégias de aprendizagem são “ pro- cessos de tomada de decisão (conscientes e intencionais) pelos quais o aluno escolhe e recupera, de maneira organizada, os conhecimentos que necessita para completar um determinado pedido ou objetivo, dependendo das características da situação educativa na qual se produzirá a ação”(p.79)
70 Vieira et al (Para a compreensão da área de estudo acompanhado, pp.37-38), sintetizam da forma seguinte essas competências:
“Capacidade de trabalhar em equipa, negociar perspetivas, manter diálogos interdisciplinares.
Capacidade de desenhar planos de ação pedagógica a partir da análise de necessidades e interesses dos alunos. O conhecimento acerca dos processos de aprendizagem, nomeadamente da sua dimensão estratégica (estratégias cog- nitivas, metacognitivas e sócio-afetivas, de aplicabilidade mais geral — multi/transdisciplinar ou mais específica —
disciplinar).
A capacidade de (re)construir propostas e materiais didáticos para o desenvolvimento da autonomia na aprendizagem (reflexão, experimentação, regulação e negociação).
A capacidade de regulação individual e colaborativa dos planos de ação desenvolvidos, sobretudo para avaliar o seu impacto nas aprendizagens de âmbito disciplinar.”
os conteúdos das disciplinas curriculares, de maneira a que as aprendizagens dos alunos possam ser realmente significativas, partindo do princípio de que as apren- dizagens têm em conta os conhecimentos anteriores dos discentes, (Simão, 2002, p.75).
Pretende-se, portanto, proporcionar experiências que desenvolvam a autono- mia de cada aluno no sentido da sua autoaprendizagem, objetivo fundamental na sociedade em que vivemos, onde, o conhecimento de hoje rapidamente fica obso- leto, criando a necessidade de atualização e de estudo permanente e ao longo da vida, a todos os cidadãos. Então, o que fazer na sala, em estudo acompanhado de modo a aumentar as competências dos alunos de aprender e pensar? A resposta poderá ser a seguinte (ibidem, p.88):
i- Fazer com que o aluno reflita “sobre a sua própria maneira de apren- der”, conseguindo assim uma melhor rentabilidade e melhores proces- sos (ibidem, p.88);
ii- Induzir o aluno a uma introspeção que permita identificar “as suas difi- culdades e competências no momento de aprender”, de modo a prever “e compensar as suas lacunas e carências durante a aprendizagem, e solicitar ajuda”(ibidem, p.88);
iii- Desenvolver no estudante hábitos de relacionamento com “os seus conhecimentos prévios sobre o material a tratar e relacioná-los com cada nova informação” (ibidem, p.88);
iv- Criar nos aprendentes hábitos de definição de “objetivos da própria aprendizagem e à compreensão das prioridades e objetivos dos outros”, de forma a uma melhor adaptação (ibidem, p.88);
v- Fomentar nos alunos o gosto pela aprendizagem para o saber, “explici- tando que só se aprende em profundidade quando o aprendido é fruto de um esforço de compreensão” e que o aprendido tem caráter dura- doiro (ibidem, p.88);
vi- Incutir nos discentes um espírito científico na sua aprendizagem ” con- vertendo as ideias em hipóteses”, verificando se as mesmas são váli-
das. Verificando a validade “mediante a sua experimentação ou con- frontando com outras ideias, interpretando os resultados obtidos e reformulando-os se forem caso disso as premissas de partida”. (ibidem, p.88);
O estudo acompanhado não poderá ser uma área isolada no contexto curri- cular, antes pelo contrário, deverá ser planificado em conselho de turma71, tendo em conta as características dos alunos da turma, bem como as necessidades das outras áreas curriculares e não curriculares.72
Por outro lado, vai exigir que seja “planificado, implementado e avaliado com a mesma exigência profissional que os docentes dedicam às áreas curriculares disciplinares”. (Rosário, 2001, p.87), o que constituirá porventura um grande desafio para aqueles que se confrontam pela primeira vez com esta nova área que, como refere o parecer do Conselho Nacional de Educação de 2000, sobre a Reorganização Curricular, só será bem desenvolvida se aos professores for dada formação adequada. Do mesmo modo se refere Figueiredo (2008), firman- do a sua opinião na revisão da literatura sobre a autorregulação da aprendiza- gem e a motivação e disponibilidade dos professores para o ensino de estraté- gias de auto – regulação, acerca das necessidades de formação.73
71 ”Na sua estruturação, com sugestões e tarefas concretas e ofereça uma tipologia de tarefas promotora de um trabalho autorregulatório efetivo e não apenas uma oportunidade para o estudo pessoal avulso ou a resolução de trabalhos que deve- riam ter sido realizados noutros contextos”. (Rosário P.S.L., Área Curricular de “Estudo Acompanhado”, contributos para a discussão de uma metodologia, p.87);
72 O “ Estudo Acompanhado. deve centrar no “aprendente”, partindo do interesse e necessidades dos estudantes (nomeada- mente para acompanhar as diferentes disciplinas), e articular com as diferentes disciplinas, em momentos diversos, com ritmos diversos, recorrendo a conteúdos que se estão a desenvolver ou já foram trabalhados anteriormente ou que serão objeto de ensino posterior e recorrendo a metodologias/estratégias gerais ou específicas….Deve ser equacionado em articu- lação com o que se faz nas disciplinas pois trata-se de uma área que é ao mesmo tempo, transversal (às disciplinas e áreas do currículo) e integradora ( de aprendizagens e saberes com diversas origens e características)” ( Simão A .M. V.,
Estudo Acompanhado-Uma oportunidade para aprender a aprender, p.89).
73 Assim, aos professores devem ser proporcionadas “experiências de formação que os ajudem a aprender como os estudantes pensam, assim como oportunidades para aplicarem nas suas próprias turmas, aquilo que aprenderam acerca dos alunos, da aprendizagem e das estratégias de ensino” (Figueiredo F.J.C., Como ajudar os alunos a estudar e a pensar? – autorregulação da aprendizagem, p.248).