• Aucun résultat trouvé

Conclusions and the way forward

Referindo-se a Cruz e Souza e Lima Barreto, Bosi observa que:

[...] netos de escravos e filhos de forros apadrinhados, receberam educação refinada, de cunho europeu, que lhes deu esperanças de realização profissio- nal e acatamento nos meios liberais da recém-criada República. Mas as bar- reiras já começavam a levantar-se: com a perda dos protetores ambos caíram em ambientes estreitos, sem horizontes”.70

Cruz e Souza teria sublimado seu ressentimento em poesias como

Dor negra e Emparedado, e Barreto exposto seu sentimento “nu e cru” na

ficção, começando com o romance Recordações do escrivão Isaías Caminha, cujo protagonista é um rapaz que só descobre que é “negro” quando sai do interior e procura o sucesso na grande cidade. Guardando as devidas proporções – afinal, Querino teve uma educação refinada, de cunho euro- peu, graças aos seus próprios esforços como aluno fundador da Escola de Belas Artes, e também ficou sem “pistolão”, como Ramos observou71 –,

pode-se dizer que o ex-jornalista e ex-vereador baiano dedicou-se à pes- quisa e defesa do negro e das artes pelo mesmo motivo. Como observa Frederico Edelweiss: “Quantas vezes deve ter ouvido a frase feita e ainda

67 Segundo Viana, “Não pode fazer o mesmo quanto às ‘Toadas’ por não lhe terem sido entre- gues os originais, que se acham sob a guarda do filho de Querino”. VIANA, 1928, p. 309. 68 QUERINO, 1938.

69 VIANA, 1928, p. 308

70 BOSI, Alfredo. Literatura e resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p. 186-187. 71 QUERINO, op. cit., p. 11. Segundo Pereira, Querino: “Não soubera agradar aos políticos e

corriqueira: ‘este negro não se enxerga’. As reivindicações a favor dos ir- mãos de raça haviam de trazer-lhe simpatia e desafetos; mais desafetos”.72

Querino é muito mais conhecido pelo rumo que seguiu nas últimas décadas de sua vida – seus trabalhos, alguns dos quais pioneiros, nas áreas da cultura e contribuição do negro à civilização brasileira, da História da Arte e dos costumes e culinária da Bahia – do que pelas suas militâncias como republicano, abolicionista, líder operário e político. Mas esse aspec- to de sua trajetória não foi esquecido. As instituições que participaram das comemorações do centenário do nascimento de Querino incluíram “as entidades culturais da Bahia” – o IGHB, a Academia de Letras e a Co- missão Bahiana de Folclore –, mas também outras “de outro caráter, no- tadamente proletárias”– a Sociedade Protetora dos Desvalidos e o Centro Operário da Bahia.73 Durante as comemorações, numa palestra realizada

na Casa da Bahia, no dia 28 de julho de 1951, o confrade Antonio Viana

[...] apresentou [...] aspectos inéditos da vida e da obra de Manuel Querino, focalizando-o sempre como denodado amigo e defensor de sua gente, servi- dor honesto das artes, da história e das letras. O conferencista relatou vários episódios da vida do homenageado para demonstrar o interesse e a perti- nência com que procurara elevar o nível do operariado para sua completa independência.74

Segundo Lopez e Mota, os “republicanistas ‘puros’ [...] defendiam uma mudança de regime que, a exemplo da França, tivesse como resul- tado maior participação da população na vida política nacional”.75 Como

“republicanista puro” e militante, Manuel Querino ficou profundamente desiludido com o desfecho desse movimento em dois níveis. No nível “macro”, a Primeira República fortaleceu o poder das oligarquias nacio- nais, manteve o “modelo de exclusão política e sociocultural” do Império numa República “sem cidadania democrática”, desprezou as artes76 e nada

fez para integrar os escravos libertos em 1888 ao mercado de trabalho 72 QUERINO, 1946, p. 1-2.

73 Conforme jornal A Tarde, de 28 jul. 1951, p. 13: Centenário de Manoel Querino, As homenagens da

Bahia.

74 Publicado no jornal A Tarde, de 29 jul. 1951, sob o título: Encerradas as comemorações do centenário

de Manuel Querino.

75 LOPEZ, Adriana; MOTA, Carlos Guilherme. História do Brasil: uma Interpretação. 2. ed. São Paulo: Ed. Senac, 2008. p. 52.

livre. Ao contrário, deu continuidade ao projeto de “branqueamento” ini- ciado durante o Império, incentivando a imigração de mão de obra euro- peia77. No nível “micro”, Querino enfrentou e sofreu a ira da oligarquia

baiana, sendo obrigado a deixar a vida política e o serviço público.

Referências

ALBUQUERQUE, Wlamyra Ribeiro de. O jogo da dissimulação: abolição e cidadania negra no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

BOSI, Alfredo. Literatura e resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p. 186-187.

BRAGA, Júlio Santana. Sociedade Protetora dos Desvalidos: uma irmandade de cor. Salvador: Ianamá, 1987.

BURNS, E. Bradford. Manuel Querino’s interpretation of the African Contribution to Brazil. The Journal of Negro History, v. 59, n. 1, p. 80, 1974.

BUTLER, Kim D. Freedoms given, freedoms won: Afro-Brazilians in post-abolition São Paulo and Salvador. New Brunswick, N.J. : Rutgers University Press, 2000.

CALMON, Jorge. Manuel Querino, o jornalista e o político. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais, UFBA, 1980.

______. O vereador Manuel Querino. Salvador: Câmara Municipal de Salvador, 1995. LEAL, Maria das Graças de Andrade. Manuel Querino entre letras e lutas: Bahia: 1851- 1923. São Paulo: Annablume, 2010.

LOPEZ, Adriana; MOTA, Carlos Guilherme. História do Brasil: uma interpretação. 2. ed. São Paulo: Ed. Senac, 2008. p. 52

NASCIMENTO, Jaime; GAMA, Hugo (Org.). Manuel R. Querino: seus artigos na Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Salvador, IGHB, 2009. NUNES, Antonieta d’Aguiar. As leis orçamentárias provinciais baianas (1835-1889) como instrumento de política educacional. Gestão em Ação, Salvador, v. 8, n. 3, p. 329-242, set./dez. 2005.

PEREIRA, Gonçalo Athayde de. Prof. Manuel Querino: sua vida e suas obras. Bahia, Imprensa Oficial do Estado, 1932.

QUERINO, Manuel. As artes na Bahia. 2. ed. Bahia, Officinas do “Diário da Bahia”, 1913.

______. Artistas baianos. 2. ed. Bahia: Officinas da Empresa “A Bahia”, 1911. p. 147-148.

QUERINO, Manuel. A Bahia de outrora. 3. ed. Salvador: Progresso, 1946.

______. A Bahia de outr’ora: vultos e factos populares. 2. ed. aumentada. Bahia: Livraria Econômica, 1922.

______. O colono preto como fator da civilização brasileira. Bahia: Imprensa Official do Estado, 1918.

______. Costumes africanos no Brasil. Prefácio e notas de Arthur Ramos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1938.

______. A raça africana. Salvador, BA: Progresso, 1955.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. Introdução. ______ (Org.). Contos completos de Lima Barreto. Organização e introdução de Lilia Moritz Schwarcz. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 18-19.

SILVA, Viviane Rummler da. Miguel Navaro y Cañizares e a Academia de Belas Artes da Bahia: relações históricas e obras. Revista Ohun, v. 2, n. 2, p. 219-261, out. 2005. Disponível em:<http://www.revistaohun.ufba.br/pdf/Viviane_Rummler.pdf>. Acesso em: 20 abr. 2012.

SKIDMORE, Thomas E. Uma história do Brasil. 4. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2003. ______. Preto no branco: raça e nacionalidade no pensamento brasileiro. São Paulo: Paz e Terra, 1976. p. 81-94.

TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Bahia. 10. ed. Salvador/São Paulo, Edufba/ Unesp, 2001.

VIANA, Antonio. Manoel Querino (conferência). Revista do Instituto Geográfico e Histórico

da Bahia, Salvador, n. 54, p. 305-316, 1928.

WANTUIL, Zeus. Teles de Menezes: pré-história do espiritismo no Brasil. In: ______ (Org.). Grandes espíritas do Brasil. [1969]. Disponível em: <http://estudosespiritas- milsoliva.blogspot.com.br/2012/05/teles-de-menezespre-historia-do.html>. Acesso em: 31 ago. 2006

O roseiral e os espinhos: J. J. Seabra e a crise

Documents relatifs