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40 Ibid., p. 32. 41 Ibid., p.32.

vida de Sigmund Freud fora, e também dentro, do movimento psicanalítico. Após o aparecimento deste trabalho, nenhuma biografia completa — feita por um psicanalista ou um historiador com formação teórica psicanalítica — veio à luz até a publicação de Sigmund Freud O Século da Psicanálise. 1895-1995, de Emilio Rodrigué.

Dissemos que provavelmente, no mundo das idéias, não exista uma identificação tão próxima entre o homem e a obra como no caso de Sigmund Freud. Por isso, a importância tanto das biografias como dos ensaios biográficos. De alguma forma, estes trabalhos atingem não só a figura do protagonista mas também à psicanálise como um todo. Muitos ataques à doutrina, privilegiaram esta estratégia, “Como assinala Anzieu, Freud ‘[...] descobriu a psicanálise ao mesmo tempo em que se descobria a si próprio’. Freud foi Newton , mas também a maçã. Ele sonhou a psicanálise e foi sonhado por ela.”, sem dúvida, “Existe uma identificação iniciática do homem com sua obra. Dado esse enlace entre objeto e sujeito, ‘questionar a lenda freudiana às vezes pode eqüivaler a questionar os fundamentos de pensamento freudiano, eventualidade que os discípulos mais zelosos só em raras ocasiões estavam dispostos a encarar’ .”42. Assim, E. Rodrigué entende em relação à história de vida de 5%ffiaand Freud, “O objetivo biográfico é recriar o universo-síntese desse homem, desse sistema, desse sintoma cultural. O ideal seria entrar em sintonia filosófica, filológica, poética, histórica e retórica, como quem afina um instrumento para além da simbiose” quer dizer, não se trata de um objeto indiferente ou aleatório de pesquisa; “É um ideal alquímico, eu sei. Mas, pensem bem, à diferença da história, a biografia é um empreendimento essencialmente identificatório. Com efeito, a biografia é a arte de ser o outro.”, e isto, certamente, inclui a dimensão sexual,

Isso, aprimorar a cópula — consubstanciar-se, ser o outro, com a antecipação da sombra. Esta identificação f a s c in a d a e fascinante não se encontra assim, não se encontra assim ao acaso de

uma noite. Provém de uma larga caminhada e, às vezes, penso tratar-se de uma iniciação, da qual a idéia de possessão não se ausenta. A biografia como possessão sublimada em escrita.43

O ideal identificatórío visa, neste caso, forjar um universo freudiano particular, aquele que diz respeito ao autor, “[...] trata-se de minha ficção veraz e feroz de Freud; texto liberado do fardo da crença na existência de uma verdade histórica instalada num passado a ser remontado.”44. Em relação a este aspecto, E. Rodrigué cita F. Nietzsche, “O homem pode esticar ao máximo seu conhecimento, tendo a impressão de ser o mais objetivo possível mas, em última análise, produz somente sua própria biografia.”45, no mesmo sentido, sobre os limites do biografe», afana E. Glover,

A arte aniaaásta da biografia, como a de embalsamar, esculpir ou pintar imagens, ou lavrar epitáfios, ttsan a intenção do artista-biógrafo de reanimar e preservar, para benefício da posteridade, o semblante daqueles que alcançaram a fama. O superlativo mérito do gênero biográfico aeside no fato de que além de brindar um retrato do biografado — terreno onde a escultura nãò tem rival — permite traçar os lineamentos da caminhada mental do herói. Mas existe um pasblema: o biógrafo não pode ir além dos limites de sua própria compreensão; isto é, não pode ir além de sua própria autobiografia.46.

A empresa bio,gráfica encarna, por isso, dois desafios epistêmicos, dois problemas: como conhecer a história? e, como conhecer o outro? Problemas de origens diferentes que devem imbricar-se na construção de uma representação narrativa. Nesse contexto, a verdade histórica é construída, assim, pela determinação das concepções culturais de uma época; quer dizer, pelos esquemas lógicos que a constituem. Com efeito, o destino do objeto biografado se joga entre a inefável singularidade de uma existência e as generalidades abstratas, entre a asaedota e a estrutura; o biógrafo deve lutar para que a sobredeterminação interpretativa não

42 Ibid., p.33. 43 Ibid., p.35. 44 Ibid., p. 34.

derive na indeterminação. Assim, a biografia, “[...] extrai sua eventual riqueza da qualidade de uma relação de objeto que deve negar e ultrapassar; de um campo que implica as três dialéticas do passado e do futuro, do saber e do querer, do eu e dos outros, portanto deve limitar suas aberturas ilimitadas.”47.

Todavia, o biógrafo deve estar disponível à invasão do objeto como uma terra fértil onde se cultivam raízes póstumas, “[...] dar asilo na memória às almas errantes, reinteriorizá- las ausentando-se de si próprio: esvaecimento interior, quase místico, ascese aberta à ilumâaœaçâo através do outro;!..]”48. Tratar-se-ia de um tipo de disposição que cultiva a inteiasidade da recordação, que luta contra o esquecimento; por esse viés, a biografia moderna “[...J deveria traduzir em termos humanos, quotidianos, microscópicos, as intuições do século XX, enriqueeendo o estudo do sujeito com uma bela galeria de casos.”49. Essa disposição não deve ser coufondida com um servilismo teocrático, à medida que se reconhece nessa relação as am bigim Ues próprias da proximidade íntima.

© imíasnaa do biógrafo — assim como o do historiador — desdobra-se de diferentes maneiras; entre d as podemos ver como em alguns momentos, nos melhores casos, reaparece o vocábulo grego bios, “[...] quer dizer, não o vivido, mais a vida nisso que há de mais orgânico: o corpo.”50. Talvez, esses encontros conformem os momentos em que o leitor parece tocar uma ponta do real ao redor do qual o biógrafo circula com sua narrativa; a essa síntese dialética, Roland BARTHES, deslocando o sentido do significante, chama de

46 GLOVER apud RODRIGUE, op. cit., p.35.

47 MADELÉNAT, Daniel. La biographie. Paris: PUF, 1984. p. 140. 48 Ibid., p.90.

49 ARNAUD, Claude. Le retour de la biographie: d’un tabou à l’autre. In: Le débat. Paris: Gallimard, n°. 54, mars-avril, 1989, p.47.

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