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Conclusions Pistes de recherche

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Quelles images pour sortir de l’espace et du temps ?

5. Conclusions Pistes de recherche

Como nenhum tratamento surtiu efeito, António Variações acabou por falecer. Foi declarado morto às 6 da manhã do dia 13 de junho, dia de Santo António e data de nascimento de Fernando Pessoa, a quem o seu último disco foi dedicado. O insigne cantautor tinha somente 39 anos.

No dia 14, a pedido da família, realizou-se a autópsia, e, logo depois, o corpo do cantor foi para a Basílica da Estrela, em câmara ardente. Por ordem médica, a urna estava selada. Muitos populares, mas também algumas figuras públicas como Pita e Pedro Ayres Magalhães, estiveram presentes no último adeus ao cantor. 58 O cançonetista Fernando Pereira, que mais tarde realizou um espetáculo em torno da obra do malogrado cantautor, no livro de presenças no funeral, deixou as seguintes sentidas palavras: “Perdemos um grande artista e um colega extraordinário. Todos ficamos mais pobres. Saudades António. Ass. Fernando Pereira.” 59 O corpo de Variações seguiu depois para Fiscal, em Amares, no

dia 15, a sua região natal, onde ficou sepultado.

Durante estes dias, vários jornais, entre eles o Expresso, o Diário de Notícias e o

Correio da Manhã, especularam à volta da causa da sua morte, adiantando a hipótese de ele ter morrido de Sida, à época um verdadeiro flagelo, ainda, erradamente associada aos homossexuais.

O Correio da Manhã, um dia após a morte do bardo, no canto direito da sua primeira página, ao lado duma fotografia do cantor, anunciou o trágico acontecimento com um título desrespeitoso: “Variações surpreendeu-nos: morreu”. 60 Durante estes dias,

principalmente nos jornais diários, mas não só, pouco se realçou a enorme perda para a música e cultura portuguesas que fora o seu desaparecimento, preferindo-se, ao invés, especular à volta das causas da sua morte. A sua autópsia foi seguida quase ao minuto pelos jornais. 58 Cf. Anexo n.º 4, p. 22. 59 Cf. Anexo n.º 4, p. 24. 60 Cf. Anexo n.º 4, p. 27-28.

Joana Mota, que fez um estudo sobre a cobertura mediática da morte de figuras públicas portuguesas, traz-nos alguns dados pertinentes. Diz-nos, por exemplo, que: “Os casos que não tiveram qualquer mensagem de condolências publicada nos jornais analisados por parte das principais figuras políticas do país dizem respeito às mortes de Angélico Vieira, António Variações, José Megre, Pavão e Vítor Baptista”. 61 E, de facto,

em relação a Variações parece ter sido assim. A presidência da República da época (Ramalho Eanes) fez-se apenas representar nas exéquias, como se poderá verificar na respetiva lista de presenças e condolências. 62 Note-se que o funeral de Variações foi dos mais pesarosos e o que mais adesão popular teve nessa década. As ruas em redor da Basílica da Estrela estavam apinhadas de populares. Em seguida, Mota constata que a cobertura mediática foi menor em comparação com outras figuras:

O ruído que afeta a noticiabilidade revela-se também no caráter excêntrico de António Variações e, na altura, da doença que o matou. De facto, a morte de António Variações foi um dos acontecimentos analisados com menos destaque nos jornais, apesar de gozar já de algum reconhecimento na sua vida pública e artística. Neste caso, seria de esperar que a morte de um jovem cantor desse que falar, sobretudo por ter falecido de uma doença ainda desconhecida. Paradoxalmente, parece-nos que talvez seja essa uma das justificações para o menor grau de atenção mediática que António Variações obteve. O músico foi uma das primeiras vítimas conhecidas de Sida, em Portugal e, face à estranheza e à complexidade que a doença ainda causava na altura, em alguns casos estigmatizada socialmente, talvez os jornais tivessem optado por secundarizar o falecimento de António Variações. A acrescentar a este facto, também a irreverência de António Variações e a estranheza que a sua imagem causava poderão também justificar o afastamento que os jornais assumiram aquando da sua morte. No caso de António Variações, o Correio da Manhã foi o único jornal que usou a palavra Sida, mas em forma de interrogação: “a pneumonia surge como a hipótese mais consistente para justificar a morte de Variações, embora se avente também a

61 Joana Margarida Martins (2017). “A cobertura da morte de figuras públicas na imprensa Portuguesa”.

Estudos em Comunicação, nº. 25, vol. 1, dezembro 2017, p. 204. 62 Cf. Anexo n.º 4, p. 25.

probabilidade de o cantor minhoto ter sido vítima de um invulgar síndrome pulmonar. A SIDA?” [sic] (Correio da Manhã, 1984). 63

Convém aqui assinalar alguns aspetos. O estudo de Mota cingiu-se aos jornais diários. Outros jornais não diários usaram a palavra SIDA e interessaram-se pela morte do icónico cantor. Outro pormenor não despiciendo: ela afirma que Variações morreu de SIDA. Qual é a fonte donde retira tal conclusão? Pode provar aquilo que diz? Se não o pode fazer, deveria, talvez, reformular o discurso. 64 De todo o modo, parece-me muito relevante a sua conclusão de que os jornais diários não deram a atenção que seria de esperar ao desaparecimento do cantor.

O semanário Expresso, em 16 de junho, continha uma reportagem sobre este assunto, usando a palavra SIDA:

A hipótese do cançonetista António Variações, falecido na manhã de quarta feira, ter sido vitimado pela SIDA (…) não foi ainda confirmada pelos médicos, embora existam suspeitas de que tal tenha acontecido. «Gerou-se a ideia de que a simples autópsia poderia dissipar todas as dúvidas, o que não é correto», afirmou ao Expresso o diretor do Instituto de Medicina Legal, que autopsiou o artista. Segundo este clínico, os poucos conhecimentos que ainda hoje existem sobre a SIDA, «principalmente em Portugal», tornam difícil um diagnóstico categórico, que ainda por cima «é mais fácil de fazer em vida do doente». «É verdade que o estado de debilidade física a que o artista chegou e a sintomatologia apresentada durante o internamento são muito idênticos aos casos de SIDA», acrescentou José Sombreiros que, no entanto, afirma não se poder ter «uma certeza total». Dada a sua inexperiência em situações deste género - «foi o primeiro caso que me apareceu onde se levanta a suspeita de SIDA», – o diretor do Instituto de Medicina Legal contactou vários especialistas estrangeiros com conhecimentos mais profundos sobre este assunto. «Foi

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Joana Margarida Martins (2017). “A cobertura da morte de figuras públicas na imprensa Portuguesa”.

Estudos em Comunicação, nº. 25, vol. 1, dezembro 2017, p. 216. 64

A questão da morte ou não por causa da SIDA em relação a Variações é complexa e exige prudência e estudo adequado.

através deles que fiquei a saber que a autópsia nunca poderia ser conclusiva e que mesmo os exames mais complexos já requeridos não serão conclusivos». 65

Os jornais ligadas às artes e às letras, de circulação semanal, como o Sete e o JL, contrariaram esta tendência especulativa e fizeram balanços muito positivos da obra que Variações deixava para trás, reconhecendo o seu valor e a falta que ele fazia à cultura Portuguesa.

António Duarte, radialista e crítico, na edição da semana correspondente ao falecimento do cantor, assinava no JL um texto crítico e de homenagem, com um título encomiástico que remetia para a poética camoniana, “António Variações: curta a fama, grande o engenho”. E afirmava o seguinte: “Com a morte de António Variações desaparece o mais original, mais autêntico e mais popular artista pop Português”. E prosseguia, depois, no merecido elogio póstumo:

Possuidor da voz mais original da música portuguesa, compositor e letrista de mérito (musicalmente intuitivo), criador de um visual fora de comum, dançarino elegante, artista de bom gosto (por vezes, algo naif). António aglutinava todas estas facetas num só projeto: Variações. (…) Desapareceu o maior artista pop dos anos 80. Dificilmente alguém voltará a trilhar o seu caminho. 66

65 S/A (1984). “António Variações vítima de Sida?”. Expresso, 16 de junho, pp. 1-24 et. seq. Acrescente-se que o médico José Sombreiros, entretanto, faleceu.

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António Duarte (1984). “António Variações: curta a fama, grande o engenho”. Jornal de Letras, n.º 102, de 19 a 25 de junho, p. 21.

Cap. 2. PRECONCEITOS E MITIFICAÇÃO

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