Tal como se depreende do objectivo geral, e das questões que procuram operacionalizá-lo, parte-se do pressuposto segundo o qual diferentes ambientes formativos conduzem a diferentes perfis de competência pessoal e profissional para o exercício das funções de docência. Ou seja, acredita-se e reconhece-se a importância de ambiências formativas e respectivas culturas na estimulação e activação dos factores de qualidade da sua formação pessoal e profissional.
Introdução
Foi em consonância com os pressupostos e indicadores provenientes dos enquadramentos teórico e metodológico, já anteriormente apresentados, que configurámos o estudo empírico.
Em linhas gerais, considerámos três momentos estruturantes que, não acontecendo linearmente no “eixo da temporalidade” (Jessop, 2005), reforçam as dimensões complexa e sistémica do estudo, por considerarem a possibilidade de emergências e por se compreenderem numa lógica de recursividade.
6.1. Modelização e operacionalização do estudo empírico: das contingências e das suas possibilidades
Relativamente à modelização e subsequente operacionalização do estudo, é possível estruturá-lo em três momentos que passamos a explicitar.
• Primeiro momento
Um primeiro momento alicerçou-se na pesquisa, no levantamento e sistematização de referenciais teóricos, com vista a enquadrar o estudo e servir de orientação na modelização da sua dimensão empírica e na interpretação da informação recolhida.
Para a construção deste referencial estruturante foram desenvolvidos dois tipos de procedimento:
(a) revisão de literatura e sua sistematização e ainda (b) o aprofundamento da compreensão
acerca do processo supervisivo na formação inicial de professores na Universidade de Aveiro.
(a) Revisão de literatura
Quanto a este procedimento baseámo-nos na sistematização do aporte conceptual e teórico de reflexão e pesquisa, procurando caracterizar o estado da arte, no que se refere às questões que sustentam a lógica, a coerência e a consistência do estudo. Nesse sentido, consultámos um acervo variado de fontes documentais, do qual destacamos:
• Revistas de especialidade; • Actas de conferências; • Dissertações e teses; • Livros;
• Documentos legislativos (nacionais e internacionais);
• Documentos institucionais e de associações de referência (UNESCO, OCDE, EURYDICE, COUNCIL OF EUROPE);
• Jornais;
No seu conjunto, estas fontes permitiram um levantamento dos referenciais procurados e dos quais resultaram alguns indicadores que facilitaram a modelização do estudo empírico, a construção dos instrumentos de inquirição e, num primeiro momento, a contextualização da informação recolhida. Como pretende ilustrar a figura 6.1., a revisão de literatura aconteceu em fases não necessariamente lineares: uma de pesquisa generalista – searching –, de acordo com os principais eixos do estudo; outra de aprofundamento – assessing – e, por fim, uma fase de sistematização e integração das pesquisas – integrating –, culminando com a apresentação escrita da tese.
Fig. 6.1. Fases de processamento da informação na revisão de literatura.
Fonte: http://www.gwu.edu/~litrev/i01.html
(b) Aprofundamento da compreensão acerca do processo supervisivo na formação inicial de professores (na Universidade de Aveiro)
Quanto ao segundo procedimento a que anteriormente aludimos, participámos informalmente nas reuniões de reflexão de três núcleos da disciplina de Prática Pedagógica, do 4.º ano da Licenciatura em Ensino do 1.º Ciclo do Ensino Básico, sob orientação de uma das professoras supervisoras institucionais, duas vezes por semana, ao longo de todo o ano lectivo de 2006/2007.
Este tipo de participação assemelha-se à técnica de “observação participante” que, segundo Lessard-Hébert, Goyette e Boutin (1994: 155-156), “é uma técnica de investigação qualitativa adequada ao investigador que deseja compreender um meio social que, à partida, lhe é estranho ou exterior e que lhe vai permitir integrar-se progressivamente nas actividades das pessoas que nele vivem; descobrir o sentido, a dinâmica e os processos dos actos e acontecimentos”.
Naturalmente que, no caso presente, não se verificava esta relação de exterioridade, uma vez que, ainda na condição de aluna (em situação de estágio), se havia participado e experienciado este ambiente de supervisão.
• Segundo momento
No processo de desenvolvimento deste estudo, podemos identificar como um segundo momento, a construção, validação e aplicação de dois tipos de instrumento de inquirição: o questionário e a entrevista.
(a) Questionário
No que se refere ao questionário1, a sua aplicação foi feita à totalidade dos professores licenciados
em Ensino do 1.º Ciclo do Ensino Básico, pela Universidade de Aveiro, desde que a substituição através de um novo plano de estudos, passou a conferir grau de Licenciatura, no ano lectivo de 1998/1999.
Tendo em atenção as questões de dispersão e mobilidade geográficas características da profissão docente, este instrumento pareceu-nos a melhor técnica a utilizar, não obstante as reservas acerca das habituais taxas de retorno que se apresentam com frequências relativamente baixas (Muijs, 2004). Por outro lado, as vantagens apresentadas por diversos autores relativamente ao uso de questionários para recolha de informação, destacam-no como um método familiar aos respondentes, relevando a possibilidade de o preencherem de acordo com as suas conveniências e/ou tempo que precisam para pensar. Neste caso, os questionários foram remetidos via postal, tendo em consideração as informações gentilmente disponibilizadas pelos Serviços Académicos da Universidade de Aveiro2 que, num efeito de snow ball, fomos actualizando, pelo contacto com os
professores e destes com outros e assim sucessivamente, o que permitiu alargar o espectro de contactos possíveis. Outro dos caminhos que empreendemos na tentativa de chegar aos potenciais respondentes, consistiu na pesquisa em listas de concurso docente para o Continente, Ilhas e Países de Língua Oficial Portuguesa, o que significou a localização de algumas das escolas em que os professores trabalhavam e, consequentemente, o envio dos questionários para a “morada da instituição escolar”, num esforço de chegar ao maior número possível de elementos.
1 Cf. Anexo 6.1 (final da tese).
Quanto ao processo de construção do questionário, este envolveu várias fases, baseando-se essencialmente nos fundamentos teórico-conceptuais que enquadram o estudo e que permitiram a sua conceptualização. Relativamente aos procedimentos de validação, o questionário foi revisto entre Maio e Junho de 2006 para aferir a sua consistência interna3. O painel para o seu processo de
validação foi constituído por dez especialistas, cujas áreas de especialização são as seguintes: • Três supervisoras institucionais responsáveis pela disciplina “Prática Pedagógica” do Curso de Licenciatura em ensino do 1.º ciclo do Ensino Básico, da Universidade de Aveiro.
• Uma professora cooperante, supervisora da disciplina de “Prática Pedagógica” do Curso de Licenciatura em ensino do 1.º ciclo do Ensino Básico, da Universidade de Aveiro.
• Uma coordenadora do 1.º Ciclo do Ensino Básico, de uma instituição particular. • Três ex-alunos da Licenciatura em Ensino do 1.º Ciclo do Ensino Básico.
• Uma especialista em procedimentos estatísticos, docente na Universidade de Aveiro. • Uma especialista em Supervisão da Formação, docente e investigadora na Universidade de Aveiro, ao longo de todo o processo.
As notas de validação permitiram-nos construir o quadro 6.1., no qual são evidenciadas as questões que, de acordo com cada elemento do painel, mereceriam pequenos reajustes.
Elementos do painel de validação do instrumento “questionário”
AR CT IB CM JD AT JB MD EC ISC Introdução • 1 2 • 3 • 4 • • • • 5.1 • • • • • • Bloco 1 5.2. 6.1 • • • • • 6.2 • • • 6.3 6.4 • 6.5 • • • Bloco 2 6.6 • 7.1 • • • • • 7.2 • • 7.3 • Bloco 3 7.4 • • Sugestões ao longo do processo Acrescentar uma questão prospectiva (formação a disponibilizar pela UA)
7.5 • • 7.6 • • • 7.7 • • • • • 8.1 • • 8.2 • • 8.2.1 8.3 • • 9 9.1 • • • • • 9.2 • Bloco 4 10 • •
Quadro 6.1. Contributos para a validação do questionário
Todos os elementos que se disponibilizam a colaborar na validação do questionário, fizeram referência à sua apresentação cuidada e apelativa, alertando para o facto de ser um pouco extenso. As principais considerações para a melhoria do instrumento oscilaram entre a inteligibilidade de algumas perguntas e a adequação das escalas utilizadas com vista ao tratamento posterior dos dados.
Em relação aos procedimentos de administração, o questionário foi enviado a 230 professores (amostra I), em Setembro de 2006.
O tratamento dos dados recolhidos conjugou procedimentos estatísticos (com apoio do software SPSS) e análise de conteúdo (utilizando algumas das potencialidades do software Nud*ist).
(b) Entrevista semi-estruturada
No sentido de obter uma perspectiva mais global sobre o objecto de estudo foram entrevistadas quatro supervisoras. As entrevistas decorreram entre Fevereiro e Março de 2007, depois do guião4
ter sido disponibilizado e negociado com cada uma das entrevistadas. Para a sua elaboração, tivemos em atenção, sobretudo, as sugestões de Bordieu (1998): o aporte teórico, ou seja, a
pesquisa bibliográfica que sustenta o estudo, a selecção dos indivíduos a entrevistar, o propósito da entrevista (tema e seus objectivos), o estabelecimento dos meios de comunicação (oral) e verificação de possíveis suportes de registo (gravador áudio) e a própria validação crítica do guião
da entrevista. Assim, e de acordo com as sugestões de Lopes (2007a: 24), o guião da entrevista
englobava, “para além de uma visão autobiográfica que permite caracterizar o sujeito, também dimensões específicas relativas à sua formação e à sua profissão”.
Ainda relativamente ao processo, privilegiámos uma entrevista de tipo semi-estruturado, por ser uma abordagem mais flexível, na qual o investigador tem algum controlo na sua direcção. Embora as questões estejam pré-delineadas, ao longo da entrevista há possibilidade de uma gestão flexível e consensual entre os intervenientes no processo, gerindo a comunicação com atenção à imprevisibilidade do discurso.
Todas as entrevistas foram registadas em suporte digital e transcritas posteriormente, tendo em consideração os contributos de Freebody (2004) para este processo, tentando aproximar a oralidade do registo escrito, sem contudo o alterar e/ou descaracterizar. Sempre que pertinente, retirámos das transcrições as redundâncias verbais ou “tiques” linguísticos, no sentido de dar uma maior legibilidade aos discursos (Boni e Quaresma, 2005: 78). Transcritas, atentámos na sua relevância comparativamente com os objectivos delineados para o estudo, ou seja, a amplitude das respostas e seu contributo para o aprofundamento das questões do estudo. O tratamento destes dados incidiu na análise de conteúdo, utilizando algumas das funcionalidades do software Nud*ist, podendo ser consultadas na íntegra em anexo.
A técnica da entrevista pode, segundo diversos autores (Ghiglione e Matalon, 1995; Campenhoudt e Quivy, 1998; Wilkinson e Birmingham, 2003), assumir-se como um método complementar aos questionários ao suscitar um conjunto de discursos individuais. É nesse sentido que Bell (1997: 118) refere que este tipo de instrumento permite “consolidar as respostas obtidas nos inquéritos por questionário”.
Ao contrário destes, cujas taxas de retorno são normalmente baixas, o índice de respostas das entrevistas é, como facilmente se compreenderá, mais alargado. Segundo Boni e Quaresma (2005), isto deve-se ao facto das pessoas aceitarem mais facilmente falar sobre as suas experiências, expectativas, motivações, do que fazê-lo por escrito. Conforme reforça Machado Pais (1993: 61) “a função da entrevista é chegar ao desconhecido, ao não visto ou, melhor dizendo, somente ao entrevisto. O entrevisto é justamente o visto imperfeitamente, o mal visado, o apenas previsto, ou pressentido numa tentativa de recolha de mais informação”. Reconhecem-se nestas formulações aspectos directamente conotados com a perspectiva da complexidade, no sentido de uma melhor compreensão dos fenómenos em estudo, nas suas dimensões menos claras e menos objectivas.
• Terceiro momento
Um terceiro momento centrou-se na elaboração, reaferição e validação dos instrumentos de análise, tratamento e sistematização da informação num processo que conjugou os contributos referenciais provenientes da pesquisa bibliográfica e do enquadramento teórico (indicadores de qualidade) e os contributos emergentes no decurso do estudo empírico.
DOS QUESTIONÁRIOS E DAS ENTREVISTAS
Descrição dos procedimentos utilizados
Introdução
No tratamento da informação recolhida através de entrevista e de questionário, e no que se refere às questões abertas de ambos os instrumentos, privilegiaram-se as técnicas de análise de conteúdo. Relativamente às questões fechadas do último instrumento referido, utilizam-se procedimentos estatísticos para sistematizar e analisar a informação. Em ambos os casos, e como pretende evidenciar a figura 7.1., os softwares informáticos foram uma mais-valia na e para a análise da informação recolhida.
PROCEDIMENTOS
QUESTIONÁRIO
Análise de conteúdo Procedimentos estatísticos
ENTREVISTA
Análise de conteúdo
SPSS
Nud*ist
Fig. 7.1. Procedimentos utilizados no tratamento da informação recolhida
De acordo com Quivy e Campenhoudt (1998: 222), “a utilização de computadores transformou profundamente a análise dos dados”. Sendo esta ideia também partilhada por nós, recorremos a dois programas de apoio à sistematização dos dados, respectivamente Nud*ist1 e SPSS versão 15,
considerados poderosas ferramentas que permitem realizar operações complexas e visualizar resultados de forma muito imediata (Muijs, 2004; Pereira, 2004; Pestana e Gageiro, 2005).
1 Segundo Ferreira e Machado (s.d.), o programa NUD•IST enquadra-se nas técnicas que desenvolvem um tipo de
análise qualitativa, nomeadamente análises temáticas. É sobretudo uma forma de análise relacional com uma vertente estatística muito limitada. A associação e a subdivisão de categorias são as suas operações mais importantes. Com estas podemos desmontar o texto, em função do encadeamento dos núcleos de sentido e da forma como estes se hierarquizam. O NUD•IST, através do seu sistema interactivo, dá ao investigador o mérito de conduzir reflexivamente toda a análise. As virtudes e potencialidades do NUD•IST emergem, sobretudo, da interacção quando trabalhamos com material muito extenso ou em grande quantidade (cf. http://www.c5.cl/ieinvestiga/actas/ribie94/II_310_314.html).
Convém salientar, em conformidade com Gibbs (2002: 11), que os programas não “lêem” a informação, nem pensam pelo investigador, sendo o pensamento deste que introduz a inteligibilidade capaz de dar sentido à informação contida nos discursos das pessoas inquiridas.
Deste modo, a análise é sempre fruto das interpretações das relações de qualidade, remetendo para as abordagens de natureza hermenêutica.
7.1. Os procedimentos estatísticos no tratamento da informação recolhida por questionário A Estatística é, cada vez mais, uma metodologia de investigação científica necessária a todas as áreas do conhecimento. Segundo Pestana e Velosa (2006: 17), “é a ciência que se ocupa da obtenção de informação e do seu tratamento inicial (ordenação, cálculo de características amostrais, representações gráficas) ”, com a finalidade de, através desses resultados, inferir de uma amostra para a população do estudo (por exemplo, decisão sobre hipóteses e relacionamento de variáveis).
A Estatística é, por assim dizer, um instrumento que possibilita a “leitura” da informação na sua formulação mais genérica e a sua transformação num outro sistema informacional mais preciso e referenciado aos objectivos que presidem à sua análise. Nesse sentido, e um pouco à semelhança da análise de conteúdo (do discurso), passa-se de um aparente caos ordenado a uma nova construção de sentido. Conforme Moore (1997), os dados são números, mas são números num determinado contexto que lhes conferem um sentido particular.
• População e amostra
Neste estudo, os questionários foram aplicados à totalidade dos professores licenciados em Ensino do 1.º Ciclo do Ensino Básico (N=230), pela Universidade de Aveiro, desde que o curso passou a conferir o grau de Licenciatura. A amostra, que neste caso coincide com a população, foi constituída de forma não aleatória, tendo subjacentes objectivos precisos, também eles previamente definidos. A taxa de retorno dos questionários foi de noventa e quatro questionários, o que a aproxima dos 40%, valor considerado razoável para este tipo de técnica.
• Registo e codificação da informação recolhida
No que se refere aos procedimentos de registo e de codificação da informação recolhida, foi construída uma matriz no programa SPSS, organizada em função das variáveis do próprio instrumento. Aos questionários devolvidos pelos professores, atribuiu-se um número de identificação, codificando e registando de seguida os respectivos dados na matriz construída para esse efeito. Segundo Pestana e Gageiro (2005), este procedimento de identificação dos questionários, permite facilmente identificar “erros de introdução ou de codificação de dados, ou ainda quando não existem respostas (missing values), ou também quando há observações aberrantes”, permitindo fazer a monitorização dos processos de análise.
• Tipos de variáveis e escalas de medida
A escala de medida utilizada nas Ciências Sociais e Humanas, tal como afirmam Maroco e Bispo (2005: 21), é um conceito de grande importância, já que os estudos neste âmbito, e por questões de ordem prática, implicam geralmente a atribuição de números a observações.
A escolha dos procedimentos de análise estatística adequados, torna necessário identificar as escalas ou níveis de medida das variáveis e, comummente, consideram-se quatro tipos: nominal, ordinal, intervalar e rácio. Uma vez que, no nosso estudo, as variáveis do questionário são do tipo qualitativo, importa abordar os dois primeiros níveis de medida considerados2.
Segundo Pestana e Gageiro (2005: 36), numa escala nominal os elementos são atributos ou qualidades. Os números que são utilizados na codificação dos dados servem apenas para identificar os elementos. É o caso da variável género. Maroco e Bispo (2005) acrescentam que neste tipo de escala os números não gozam de qualquer tipo de propriedade aritmética, sendo que a única relação válida é a de identidade.
Por seu lado, num tipo de escala ordinal, e em conformidade com Pestana e Gageiro (2005), apenas podem ser distinguidos diferentes graus de um atributo ou variável, caso exista entre eles uma relação de ordem. Os números utilizados na codificação dos dados são associados de modo que essa relação de ordem se continue a manter. É o caso da variável classe etária. A relação de identidade mantém-se e acresce a relação de ordem.
• Recodificação de variáveis
Em algumas situações de análise da informação recolhida, foram produzidas variáveis secundárias, partindo de variáveis primárias do estudo.
Estes processos de recodificação, segundo Pestana e Gageiro (2005), permitem, através da função
transform compute do programa SPSS, criar novas variáveis, mais ajustadas ao estudo de
determinadas características.
2
• Da utilização da estatística descritiva e sua relação com os níveis de medida das variáveis em estudo
De acordo com Pestana e Gageiro (2005: 35), a estatística descritiva centra-se no estudo de características não uniformes das unidades observadas e utiliza-se para descrever os dados através de indicadores chamados estatísticas. Em conformidade com a tendência paradigmática que informa este estudo (perspectiva complexa), partimos de uma análise descritiva e univariada dos dados recolhidos para podermos ter uma percepção global da informação, sendo esta uma fase considerada por Pestana e Velosa (2006: 81) como um passo absolutamente necessário à análise da informação recolhida. Também segundo Pestana e Gageiro (2005: 45), a análise univariada da informação recolhida refere-se ao estudo descritivo de cada variável3 per si, abrangendo as
estatísticas adequadas à interpretação dos dados, a sua apresentação gráfica, a análise das não- respostas (geralmente quando esta taxa é superior a 20%) e a possível identificação de observações aberrantes (outliers). A informação descritiva relevante para variáveis nominais refere- se, ainda de acordo com Pestana e Gageiro (2005: 54), às frequências simples (frequências absoluta e relativa) e às categorias mais frequentes na colecção de dados, tais como a moda ou a
classe modal.
Relativamente à informação descritiva relevante para variáveis ordinais, e conforme os autores anteriormente referidos (idem, ibidem), esta diz respeito às frequências simples, às frequências acumuladas, à moda e às estatísticas de ordem (quartis e percentis).
Neste estudo, e tendo em consideração a natureza dos dados recolhidos utilizaram-se, em casos esporádicos, medidas de localização de tendência central para descrever a informação recolhida. De acordo com Maroco e Bispo (2005: 31), estas medidas “permitem caracterizar a ordem de grandeza das observações, caracterizando o valor central e/ou médio das observações”, como se verifica nos casos da média4, da mediana5 e da moda6. De modo a complementar a informação
sistematizada, utilizaram-se também algumas medidas de dispersão como a amplitude.
3 Segundo Ketele e Roegiers (1999: 92) uma variável pode ser caracterizada como “uma quantidade ou uma qualidade
susceptível de flutuação” podendo, nesse sentido, assumir diferentes valores ou modalidades.
4 Conforme Pardal e Correia (1995: 108), a média aritmética “é uma medida de localização que configura o centro de
gravidade da respectiva ordenação de dados. É calculada a partir de todos os elementos de um sistema de valores concretizados pela amostra”. No caso de dificuldade de acesso ao rol de dados (dados classificados), “parte-se da hipótese básica da tabulação, recorrendo-se à marca de classe para efeitos de cálculo da média”. Uma das desvantagens apontadas por alguns autores à utilização da média tem a ver com a sensibilidade a possíveis valores excêntricos (outliers) presentes na colecção de dados.
• Da estatística inferencial como contributo para a construção de conhecimento contextualizado
Conforme Pestana e Gageiro (2005: 35), a estatística inferencial permite, com base nos elementos observados, tirar conclusões para um domínio mais vasto de onde esses elementos provieram.