A condição sinestésica pode ser adquirida, por exemplo, em função de lesões óticas
ou de quaisquer outros motivos que alterem as conexões neurais, sendo, nessas circunstâncias, passível de detecção neurológica. Mais um caso estudado por Cytowic pode exemplificar a conceituação de sinestesia adquirida:
Michael Watson inalou gás xenônio radiativo, que logo passou a seu sangue. Watson cheirou várias fragrâncias e sentiu cones, esferas e colunas invisíveis pressionando sua pele. Um rastreador indicou que o fluxo sanguíneo no córtex cerebral - onde se processam as sensações e o pensamento abstrato - estava praticamente obstruído (LEMLEY, 2000).
Essa experiência demonstra que, com o dano cerebral constatado mediante a
circulação sangüínea cortical detectada, Watson adquiriu um raro tipo de condição
sinestésica, em que se relacionam odores a sensações de contato. O relato acima revela a ocorrência de uma comunicação neural entre regiões cerebrais, antes da inalação da substância radiativa, apartadas e com funcionamentos particulares. Em contraposição, Meyer (2002, p.56) cita uma situação explanatória de desconexão de circuitos neurais: “uma síndrome prosopagnósica - não reconhecimento dos rostos - acompanha muitas vezes a perda da visão das cores. Ora, a área crítica para a percepção dos rostos familiares está
12 Primeiridade, secundidade e terceiridade são as três categorias fundamentais da semiótica de C.S. Peirce,
significando, respectivamente, o estado sensório e irrefletido, a percepção do factual, dos existentes, e a racionalidade, a generalidade, o simbólico. Consulte CP 2.281, 28 5 e 297-302.
situada no giro fusiforme, não longe de V4, área da cor”. Ladeando-se, portanto, as duas
experiências relatadas, pode-se admitir que as regiões neurais são suscetíveis a conexões e desconexões, fato que vem a reiterar a materialidade e a plasticidade do cérebro, explanando, outrossim, a tenacidade da condição sinestésica humana.
1.3.3.1. Mecanismos de compensação
A sinestesia pode ser desenvolvida, também, como mecanismo de compensação.
Com o comprometimento, total ou parcial, congênito ou adquirido, de um dos cinco sentidos, pode-se estar propenso a um maior desenvolvimento da percepção sinestésica. Segundo Serrano (2002, p.7), pessoas com necessidades especiais ou “incapacidades parciais” (evocando seu próprio termo) podem desenvolver a condição sinestésica como uma ferramenta compensatória. A autora supracitada exemplifica esse tipo de aquisição sinestésica com o caso de Joseph Long, concertista de piano e professor de música, que, portando catarata congênita em um dos olhos, manifestou experiências sinestésicas, de forma involuntária, irracional e perdurável. Outro caso ilustrativo de manifestação sinestésica, como possível fator compensatório, é o do físico Éder Pires de Camargo13, descoberto por esta pesquisadora, no decorrer da presente investigação. Apresentando uma deficiência visual denominada retinose pigmentar congênita, começou a perceber cores em face da execução de instrumentos musicais. Declara o físico que não sabe o momento exato em a sinestesia som-cor se desenvolveu, mas acrescenta que talvez a tenha percebido na pré-adolescência quando começou a tocar violão. Ele pontua que a sensação sempre lhe fora estranha, mas as cores estavam sempre ali: “violino, azul; contrabaixo, prata;
trompetes e instrumentos de sopro em geral, ouro; piano, branco; violão, amarelo [...]” 14.
Além da relação de cores com sons de determinados instrumentos musicais, o sinesteta ainda ressalta: “o jazz me parece um emaranhado de cores com a predominância do amarelo e alguns detalhes em azul e vermelho. Músicas italiana s me parecem ser azuis, música brasileira, do tipo Chico Buarque, brancas” 15.
Percebe-se, portanto, com esse exemplo, que o cérebro tem a capacidade de compensar uma desigualdade ou insuficiência sensorial, estabelecendo intersecções dialógicas entre outros sentidos, de modo a galgar, com a sinestesia, o equilíbrio e o suprimento dos processos percep tivo-cognitivos, atestando a idéia agapista16 de uma natureza inteligente que busca o aprimoramento e a perfeição.
1.3.3.2. Sinestesia e drogas psicoativas
Estabelece-se, desde há muito tempo, a relação de sensações sinestésicas com o uso de drogas psicoativas, assim designadas por agirem ativamente sobre o cérebro humano. Grande parte das substâncias conhecidas como feniletilaminas possui uma intensa atividade biológica, apresentando a capacidade de alterar a percepção da realidade. Entre tais substâncias estão o LSD e a mescalina, ambas consideradas alucinógenas. No entanto, apesar dessa classificação, essas substâncias raramente provocam alucinações (imagens
sem objetos), mas sim ilusões (distorções perceptivas de objetos reais) visuais, auditivas,
14 Dados obtidos pela pesquisadora em conversas informais e entrevistas, via correio eletrônico, com Éder
Pires de Camargo. Cabe destacar que ele desconhecia o tema sinestesia e também que a relação som-cor que lhe acompanha consistia em um tipo de manifestação sinestésica.
15 Idem à nota anterior.
16 Agapismo, conceito desenvolvido por Peirce, em seu artigo Amor Evolutivo (CP. 6. 287-317), descrito pelo
táteis, que tendem a engendrar, então, processos sinestésicos, marcados pela sobreposição de percepções sensoriais: audição colorida, imagens auditivas, entre outros exemplos. A mescalina é um alcalóide natural extraído do cactus peyote, espécie comum na América Central, e foi usada, durante séculos, nos rituais das civilizações americanas pré- colombianas17. O LSD (dietilamida do ácido lisérgico) surgiu em 1943, em laboratório, quando o químico A. Hoffman começou a sintetizar derivadosdo ácido lisérgico, também
produzido por certos microorganismos como o fungo ergot. Conta-se que Hoffman ingeriu, certa vez, uma pequena porção da substância, o suficiente para experimentar um estranho estado de confusão sensorial, o qual denominou “caleidoscópio das cores” 18. Sob os efeitos dessa substância, aguçam-se as entradas da percepção sensorial e a criatividade vem à tona. Os usuários dizem ver cubos, linhas e cores, principalmente as primárias. Talvez algo similar ao “mundo colorid o”, declarado por vários sinestetas, e ao universo psicodélico, aclamado pela juventude das décadas de sessenta e setenta19.
Sobre a sinestesia adquirida mediante o uso de substâncias psicoativas, cabe acrescentar que as manifestações sinestésicas, ou seja, as intersecções das modalidades sensoriais, podem ser constatadas não apenas durante o período em que se julga estar sob os efeitos da droga, mas existe, outrossim, a possibilidade da extensão crônica dessas manifestações em decorrência de uma mutação gênica. A esse respeito, Lopes (2003, p.
17 Os povos pré-colombianos utilizavam o peyote para a obtenção de prazer e elevação e, quando, em seu
reduto, chegaram os missionários católicos e tentaram condenar a adoração da substância, os índios se apropriaram do imaginário dos religiosos e, convenientemente, entenderam que Deus, o "Grande Espírito", concedera-lhes o peyote para a divinização. Há, ainda hoje, quem cultive a crença de alcançar experiências espiritualistas mediante a mescalina e o LSD.
18 Sobre LSD e mescalina, informações disponíveis em: Álcool e drogas sem distorção. Programa álcool e drogas sem distorção (PAD) do Hospital Israelita Albert Einstein.
19 Em meio a esse universo psicodélico, os Beattles lançam Lucy on the Sky with Diamonds, álbum musical
que, coincidentemente ou não, traz, em suas iniciais, uma referência ao LSD, o que pode ter gerado a polêmica sobre uma intencional alusão a essa droga.
347) aponta que “as mutações gênicas, embora ocorram espontaneamente, podem ser provocadas por agentes mutagênicos, como radiações e certas substâncias químicas (LSD, por exemplo)”. A bióloga (op.cit) expõe, ainda, outras considerações concernentes à questão das mutações gênicas, como a explanação que, na seqüência, transcreve-se:
As mutações não ocorrem para adaptar o indivíduo ao ambiente. Elas ocorrem ao acaso e, por seleção natural, são mantidas quando adaptativas (seleção positiva) ou eliminadas em caso contrário (seleção negativa). Podem ocorrer em células somáticas ou em células germinativas; neste último caso, são de fundamental importância para a evolução, pois são transmitidas aos descendentes.
Desse modo, é possível apontar que, em alguns casos, o uso de drogas psicoativas pode resultar em uma mutação gênica, implicando no desenvolvimento de determinados tipos de sinestesia. Sendo essa mutação e seus efeitos reconhecidos, pelos organismos acometidos, como vantajosos, pode dar-se a perduração dos mesmos, em virtude do processo de “seleção positiva”.
Vale, também, apontar que a idéia de “acaso”, que permeia a mutabilidade gênica, compatibiliza-se com o conceito peirceano de “tiquismo”, entendido como “acaso”, “azar” ou “chance de mudança”. O tiquismo20, tratado amplamente na obra de Peirce, apresenta-se como um dos fatores impulsores da evolução. As mutações gênicas convergem, uma vez mais, rumo à noção de tiquismo, quando se expõe que elas são “consideradas as fontes primárias da variabilidade, pois aumentam o número de alelos disponíveis em um lócus, incrementando o conjunto gênico da população” (LOPES, 2003, p.347). O conceito de tiquismo, na teoria peirceana, é também concebido como princípio de variabilidade, diversidade e mudança de toda e qualquer matéria; é uma alavanca que permite sair do
20 Em CP 6. 287-317, Peirce discorre sobre “tiquismo”, “agapismo” e “ananquismo”, conceituando-os como
hábito. Com vistas a essa variabilidade, pode-se acrescer que, como exposto, se a mutação ocorrer em células germinativas, existe a transmissão das características à descendência, fato esse que pode, em partes, esclarecer o fator genético da condição sinestésica.
Outro ponto de convergência entre a mutação gênica e as idéias de Peirce é o fato de a mudança ser compreendida como benéfica e adaptativa e, então, suceder-se a seleção positiva. O organismo, de forma natural e inteligente, persegue o aprimoramento e a perfeição, o que, novamente, remonta ao agapismo, tratado, nos escritos de Peirce, como o fator de evolução movido pelo amor criador. O agapismo pressupõe, se assim se pode dizer, o acolhimento e a junção das forças oponentes. Esse conceito divisa a volta à instância monádica, em que um signo abarca o outro, e mais outro, infinitamente, de modo a atestar a lei da continuidade (sinequismo) e a idéia de um universo pensante, semiótico e em expansão contínua. Feitas essas considerações, é cabível apontar que a condição sinestésica, mesmo advinda de mutações gênicas, pode ser entendida como vantajosa e adaptativa, sendo articulada e mantida nas relações dialógicas habituais entre os sentidos, presentificando, não obstante, a protopercepção sinestésica.
1.3.4. Diversidade das manifestações sinestésicas e relatos ilustrativos
A ciência reconhece, atualmente, mais de cem tipos de manifestações sinestésicas.
Alguns se mostram mais recorrentes, outros, extremamente raros. O pesquisador S. Day se interessou pelo estudo da sinestesia quando se percebeu dotado dela e, desde então, suas investigações se tornaram ponto de referência para muitos outros cientistas interessados no fenômeno da sinestesia. O quadro demonstrativo, abaixo, compreende 35 tipos de sinestesia catalogados por Day, em 621 casos examinados.