O “porto externo”, segundo uma matéria publicada no jornal A República, era separado do ancoradouro interno por um recife natural, que nem todos os comandantes de vapores gostavam de transpor, receando os bancos e coroas, como a Cabeça do Negro ou a Baixinha.72
A Baixinha, recife localizado na costa sul do litoral, aterrorizaria, até o começo do século XX, os viajantes que buscavam aportar na capital. Desde o começo das obras do porto, em 1893, o arrasamento da Baixinha, foi colocado como o principal serviço a ser feito. Segundo o jornal, “bastaria arrasar a Baixinha e o futuro que tanto nos espera logo chegará.”73
No entanto, mesmo depois de dez anos após o início dos trabalhos no porto, a Baixinha, ainda continuava a assombrar os viajantes e os administradores locais norte-rio-grandenses. A falta de equipamento apropriado para seu arrasamento, foi apontada, pela comissão de melhoramentos do porto, como um dos grandes motivos para a demora desse serviço. Porém, mesmo com o atraso, o jornal A República, não via problemas em ressaltar, como os serviços da barra estavam adiantados, resultando na entrada de navios de maior porte em Natal. Cada navio que conseguia transpor a barra, era comemorado e exaltado pelo periódico, que fornecia ao leitor informações específicas da embarcação, como seu tamanho e largura.
Nem todas as embarcações conseguiam transpor, nem muitos menos estavam dispostas a correr o risco de um iminente naufrágio, algo não muito raro no porto. A própria embarcação que trazia Pedro Velho, não se atreveria a correr o risco, sendo o senador buscado por escaleres, pequenas embarcações, que além de ter levado o ex-governador para terra, também trouxe suas bagagens.
Mesmo lutando para construir uma imagem positiva dos serviços da barra, foi difícil para o periódico não provocar em seus leitores, dúvidas a respeito desses trabalhos mediante os vários casos de naufrágio que ocorriam no porto e que eram relatados no jornal. O caso do naufrágio do Vapor Brasil, em 1905, encalhado na barra, foi um desses acontecimentos indesejados pelo jornal e muito mais ainda pelos administradores norte-rio-grandenses, pela publicidade adquirida em jornais de outros estados. Tendo encalhado na Barra, segundo o jornal do comércio do Rio de
72 O PORTO de Natal. A República, Natal, 18 de jan. de 1908.
73
Janeiro, o Vapor Planeta levou os seus passageiros a perderem muitas de suas mercadorias no mar, sendo abrigados pelos empregados da comissão de melhoramentos do porto, na Fortaleza dos Reis Magos.74 Outro vapor, o Maranhão, foi enviado pela companhia de navegação Lloyd Brasileiro, para levar de volta para a capital federal, os passageiros e as mercadorias que sobreviveram.
O episódio gerou, inclusive no próprio jornal A República, algumas sátiras, como a publicada em 11 de abril, que afirmava que após o naufrágio, alguns cidadãos natalenses, adquiriram bonitos chapéus, todos estes encontrados no mar, resultado do inconveniente evento, sendo apelidado o navio de “Papai Brasil”75
. Um boato, por sinal, foi criado na cidade, de que um indivíduo havia achado, no rio, uma mala contendo joias preciosas. O boato logo fora desfeito pelo Coronel Cascudo, que conseguiu identificar o indivíduo, e descobrir que, na verdade, não havia joias na mala. Um dos passageiros, que realmente tinha joias, decidiu, na ocasião, fazer uma exposição na cidade de seu material, enquanto esperava o Vapor Maranhão, que vinha socorrer aqueles que haviam naufragado com o Vapor Brasil.76
O episódio do naufrágio ocasionou também uma pequena desavença entre o periódico Republicano e o jornal do comércio, da capital federal, que segundo o jornal potiguar, estaria distorcendo as versões dos acontecimentos. Para os editores do A República, o naufrágio não fora provocado pela barra, o que havia sido ventilado pelo periódico carioca. O jornal potiguar não desistira de vender ao público natalense, a imagem de que não havia problemas com a Barra, que estava sendo transposta naturalmente por grandes navios.77
Em 1906, chegou a Natal, o escafandrista Manuel da Gaya, experiente mergulhador, de 60 anos de idade, contratado pela comissão de melhoramentos, para realizar estudos na Baixinha. O primeiro mergulhador profissional a pisar em terras potiguares, Manuel da Gaya, viria a capital para realizar sondagens no mar, destinadas a fornecer, ao engenheiro-chefe Pereira Simões, informações importantes sobre o interior do rio Potengi de modo a direcionar novas intervenções pela comissão no porto. Logo no seu primeiro mergulho, próximo à Baixinha, o mergulhador se deparou com os cascos de um antigo navio que havia naufragado em Natal em 1883, o Sussex.78
74 VAPOR Brasil. A República, Natal, 29 de mar. de 1905. 75
PAPAI Brasil. A República, Natal, 11 de abr. de 1905.
76
EXPOSIÇÃO de joias. A República, 31 de mar. de 1905.
77 A BARRA. A República, Natal, 6 de abr. de 1905. 78 OBRAS do porto. A República, Natal, 17 de abr. de 1906.
O entulho encontrado na região, necessitaria, segundo os estudos do mergulhador, de aparelhos adequados para realizar o arrasamento e a dragagem do porto externo. Para o arrasamento da Baixinha, inicialmente, fora utilizado um pilão mecânico, que logo se tornaria insuficiente para os trabalhos exigidos, sendo encomendado outro pião além de um novo pontão.
Imagem 03 – Foto do mergulhador Manuel da Gaya em 1906
Fonte: Arquivo particular de William Galvão.
A presença do mergulhador em Natal, foi exaltada pela Folha Republicana, que destacou, em suas páginas, a importância do aparelho escafandro, um aparelho que representava, para o periódico, os benefícios trazidos pela ciência ao homem. Uma parte do mundo industrial, que estaria proporcionando ao homem a superação dos limites da natureza, estava, para o jornal republicano, sendo introduzida na capital norte-rio-grandense.79
No entanto, a natureza parecia ainda oferecer obstáculos difíceis de serem superados, como revelaram as obras da Baixinha. A falta de equipamentos mais adequados e sofisticados para realizar os serviços, levou o engenheiro-chefe, Pereira Simões, a recorrer à dinamite para resolver o problema.80 Junto com Manuel da Gaya, o engenheiro-chefe fabricou algumas bombas, no intuito de explodir a resistente Baixinha, saindo frustrado das várias tentativas empreendidas.
79 MERGULHADORES. A República, Natal, 24 de abr. de 1906. 80 OBRAS do porto. A República, Natal, 26 de jun. de 1906.
Uma delas, por pouco, não levou a vida do mergulhador, que ao colocar a dinamite no recife quase foi pelos ares também!81 As dificuldades com a Baixinha, levou o engenheiro chefe Pereira Simões, a mudar os planos para melhorar o porto, direcionado os serviços para o arrasamento de outros recifes.
Com as recorrentes dificuldades dos seus navios em fundearem a barra, a companhia Lloyd Brasileiro, suspendeu a entrada de seus vapores na capital potiguar, enviando para Natal, um engenheiro representante da companhia com a missão de averiguar a situação da Baixinha e elaborar um novo plano de melhoramentos. O comandante Jaufrett veio a Natal, no dia 11 de julho de 1906, sendo recebido por Pereira Simões. Jaufrett visitou o porto, empreendendo sondagens sobre a região e sugerindo algumas mudanças nos trabalhos realizados pela comissão. Uma delas, era encontrar uma nova entrada para barra, já que no momento, por falta de verba e aparelhos adequados, o arrasamento da Baixinha não podia ser concretizado. A ideia era amenizar o raio da curva da concordância dos arrecifes, ampliando seu raio de curva interno.82
Segundo o relatório feito por Jaufrett, o porto de Natal teria condições, até o final desse ano de receber, sem problemas, os navios do Llolyd. A companhia autorizou, no dia 21 de agosto a entrada de seus vapores com algumas restrições. Os vapores podiam, segundo o jornal que publicava as notícias referentes ao relatório do comandante inglês, entrar, desde que não tivessem o calado superior a 16 pés, além de ser imprescindível, se colocar, a noite, na região sul da Baixinha, uma boa iluminativa. No dia 22 de agosto desse ano o engenheiro chefe da comissão, Pereira Simões, enviou uma carta ao redator do jornal A República, comentando as afirmações publicadas no periódico, no dia anterior, do comandante Jaufrett.83 Pereira Simões discordaria do representante da Lloyd, quando este afirmava que bastava seguir algumas condições para que os navios entrassem, até o final do ano, normalmente no porto. Para Simões, o representante achava, que, diminuindo parte da Baixinha e colocando uma boia, bastaria para entrada dos navios, no entanto, para o engenheiro-chefe, a entrada dos vapores só seria realmente possível, no final do ano seguinte, 1907, caso a comissão recebesse a verba requerida para os serviços.84
81
OBRAS do porto. A República, Natal, 9 de jun. de 1906.
82
OBRAS do porto. A República, Natal, 11 de jul. de 1906.
83 LLOYD Brasileiro. A República, Natal, 21 de ago. de 1906. 84 LLOYD Brasileiro. A República, Natal, 22 de ago. de 1906.
Imagem 04 – Planta do porto elaborada pelo engenheiro Antônio Pereira Simões
Fonte: Arquivo particular de William Galvão.
Na planta acima, podemos observar a preocupação do engenheiro-chefe, com a curvatura formada pelos recifes, indicando os melhoramentos que já haviam sido feitos, em relação ao arrasamento da Baixinha.
No dia 3 de agosto de 1907, a comissão de melhoramentos realizou, na fortaleza dos Reis Magos, uma festa para comemorar o recuo de 30 metros da boia que assinala a ponta da Baixinha, que indicava o quase desaparecimento da curva reversa, existente próximo a esse recife. Tal feito, era, segundo o jornal A República, resultado do trabalho de arrasamento e dragagem de entulhos na barra empreendido pela comissão, permitindo, agora, o ingresso de navios de maior porte no porto.85 Do porto externo, prosseguimos nossa visita ao porto interno, formado pelo ancoradouro interno.