Sabe-se pouco sobre a percentagem de vítimas que sofrem distúrbios emocionais, menos ainda o que faz com que algumas pessoas superem mais rapidamente do que outras o evento potencialmente traumático, e quase nada sobre a evolução dos efeitos ao longo do tempo (BERISTAIN, 2000).
Isso acontece porque o trauma não está no evento, mas na desorganização gerada pelo evento naquele sujeito específico. Ademais, um fato pode ser desorganizador para uma pessoa e não o ser para outra. Tudo depende da resiliência de cada indivíduo, da vulnerabilidade, de fatores predisponentes ao adoecimento, bem como do caráter simbólico da vitimização, das conseqüências sociais e econômicas que a vítima sofre etc. (LEVINE, 2002; MOLINA e GOMES, 2002; DORIGO e LIMA, 2007). Ou seja, uma determinada experiência, seja ela potencialmente organizadora ou potencialmente desorganizadora, como os roubos a banco, tem inúmeras camadas e estruturas de significação diferentes para cada sujeito (BERGER e LUCKMANN, 1989).
Outro fator que parece ter influência nas reações diante de um processo de vitimização é a idade do sujeito e o gênero. Molina e Gomes (2002) creditam às mulheres o maior índice de Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Esse transtorno é na verdade duas vezes mais comum em mulheres que em homens. No entanto, é importante levar em consideração que os
estudos sobre desigualdade em saúde apontam para o fato de que os homens procuram menos os serviços de saúde, bem como costumam falar menos de questões relacionadas a aspectos emocionais do que as mulheres.
Para Molina e Gomes (2002), as vítimas de delitos violentos costumam apresentar inicialmente preocupação, medo e desconfiança, posteriormente sintomas de depressão ou estresse, distúrbios do sono, ou outros problemas de saúde, e finalmente raiva e frustração. Como 75% dos entrevistados sofreram vitimização repetida ou múltipla, os sintomas se sobrepõem, dificultando identificar esse ordenamento citado pelo autor, embora todos esses sintomas tenham se apresentado entre as vítimas diretas. Para Nascimento (2003), os distúrbios do sono (insônia, pesadelos, sono interrompido) são as evidências somáticas mais freqüentes. De fato, identificamos as mesmas queixas por parte dos funcionários de bancos privados, bem como a associação dos sintomas citados por Molina e Gomes (2002): “Eu
estava fazendo tratamento com psiquiatra por causa da insônia. Eu tomava remédio para dormir e antidepressivo também, porque eu ficava triste, com sentimento de imobilidade, de impotência” (sexo masculino, caixa, 37 anos).
Paes-Machado e Levenstein (2002) identificaram transtornos emocionais apresentados pelos motoristas de ônibus vitimizados por assaltos semelhantes aos apresentados pelos bancários. Assim como os motoristas passavam a ver os passageiros como assaltantes em potencial, por conta do medo, os bancários, logo após os assaltos, também enxergavam em seus clientes possíveis assaltantes. Algumas vezes, o medo se torna tão grande que esse fantasma do potencial assaltante aparece até fora do ambiente de trabalho: “No dia mesmo que
teve o assalto, quando eu cheguei aqui... não! Eu morava em outro apartamento. Aí de noite, tocou a campanhia, aí, eu fiquei super assustada, achei que era o assaltante, assim... que loucura!” (sexo feminino, gerente comercial, 45 anos).
O sintoma do medo é a principal reação do trauma:
[...] você tá andando na rua... a impressão que dá é que todo mundo é uma ameaça, qualquer um pode, né, se você vê uma pessoa, eu já evitei entrar em supermercado, por achar o indivíduo dentro do supermercado parecido com o assaltante que entrou no banco. Isso já aconteceu, então é terrível... (sexo masculino, caixa, 37 anos).
De acordo com DSM-IV (Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais, APA, 2008) o trauma, ou Transtorno de Estresse Pós-Traumático é:
[...] o desenvolvimento de sintomas característicos após a exposição a um extremo estressor traumático, envolvendo a experiência pessoal direta de um
evento real ou ameaçador que envolve morte, sério ferimento ou ameaça à própria integridade física; ter testemunhado evento que envolve morte, ferimentos ou ameaça à vida de outra pessoa; ou o conhecimento sobre morte violenta ou inesperada, ferimento sério ou ameaça de morte ou ferimento experimentados por um membro da família ou outra pessoa em estreita associação com o indivíduo (Critério A1). A resposta ao evento deve envolver intenso medo, impotência ou horror (Critério A2).
Outra característica do Transtorno de Estresse Pós-Traumático é a “evitação”, ou seja, afastar-se do local onde ocorreu o evento potencialmente traumatizante, bem como de todos os elementos a ele associados. Porém, ao mesmo tempo, esse afastamento contribui para a remissão dos sintomas:
Eu me afastei uns quinze dias mais ou menos, depois eu voltei para o banco, mas em seguida vim para o sindicato e aí a rotina é completamente diferente. É um trabalho que eu gosto de fazer. Aí eu acho que isso ajudou a sumir os sintomas, acho que ajudou (sexo masculino, caixa, 37 anos). Outro funcionário inclusive, percebendo que teria sido melhor para ele se tivesse sido transferido da agência depois do assalto, sugere remanejamento da vítimas:
O remanejamento dessas vítimas não digo como um todos de vez, mas aos pouquinhos, acomodando um em outra agência pra mudar mesmo o foco e o entrosamento das vítimas porque o fato de eu estar aqui, no mesmo lugar você lembra as coisas, os fatos, o trauma. E em outro ambiente não, você já consegue dispersar um pouco os fatos (sexo masculino, supervisor).
Como tantas outras teorias inacabadas, parciais e limitadas (FOUCAULT, 1979), as teorias sobre o trauma ou TEPT também estão incompletas ou são até controversas.
Além de vir associado com outros processos de adoecimento, o TEPT não é a única patologia decorrente da vitimização. Alguns estudos apontam para um maior risco de depressão e transtornos de angústia (LOPEZ, PIFFAUT e SEGUIN, 1992; RAPHAEL, 1986). Dentre os transtornos encontrados, um entrevistado desenvolveu uma claustrofobia logo depois da extorsão mediante seqüestro: “eu não pego mais elevador, não entro em elevador,
não ando de avião, já fui para duas reuniões em Recife de carro, porque não ando de avião”
(sexo masculino, gerente administrativo, 40 anos).
Outro transtorno encontrado foi a síndrome de pânico:
[...] desde a primeira vez eu já tinha medo síndrome de pânico desde o primeiro assalto lá depois do seqüestro o caso piorou eu já fiquei mais abalada ainda, hoje tenho dores no peito, desencadeei labirintite, fico muito tonta, nervosa, apreensiva, com dores na nuca, dores no reto, mal-estar, muito mal estar (sexo feminino, assistente, 40 anos).
Tive e tenho até hoje... eu não fiz nenhum tratamento mas eu acho que eu tenho um pouco de síndrome de pânico, sabe? Eu sou uma pessoa muito medrosa. Eu sempre fui muito corajosa, hoje eu me sinto medrosa... e eu fiquei com certas manias... se eu visto uma roupa e tudo der certo aí eu tenho que manter essa roupa, e se eu visto uma roupa e aí acontecer alguma coisa aí, eu não quero mais usar porque me deu azar, entende? E foi depois desse ultimo [assalto] (sexo feminino, gerente de relacionamento, 49 anos). O uso de bebida alcoólica por uma categoria de trabalhadores pode se tornar uma defesa subjetiva estratégica para minimizar o sofrimento psíquico gerado na relação com o trabalho (SELIGMANN-SILVA, 1994). Identificamos registros em relatórios e prontuários do Banco Y que apontam para o aumento do uso de álcool entre funcionários que trabalham no interior do estado, após roubos a bancos: “O índice de alcoolismo entre os funcionários do
banco [Y] no interior é altíssimo” (psiquiatra).
No entanto, não temos dados suficientes para avaliarmos se o mesmo acontece com funcionários de bancos privados. Em primeiro lugar porque o número de bancos privados no interior, principalmente em cidades pequenas, com poucos recursos ou suficiente infra- estrutura, é pequeno em comparação com os bancos públicos e, apesar das tentativas, não obtivemos sucesso em entrevistas com funcionários de bancos privados localizados no interior com história de vitimização por assalto.
O processo de adoecimento se relaciona com o trabalho, mas nem sempre diretamente com o assalto. Conforme Dejours (1987), o trabalho humano possui um duplo caráter: por um lado é fonte de realização, satisfação, prazer, estruturando e conformando o processo de identidade dos sujeitos; por outro, pode também se transformar em elemento patogênico, tornando-se nocivo à saúde.
Eu não sou uma pessoa que durmo maravilhosamente bem, não, entendeu?, Sofro mesmo assim, de ansiedade, quando é... tô fora do banco, eu fico mais calma, eu fico até mais magra, porque aquela ansiedade que vai beliscando um bocado de coisas, eu tenho aquele estresse (sexo feminino, 45 anos, gerente comercial).
Como a doença e a dor são reflexos das imposições da sociedade ao homem, a LER (lesão por esforço repetitivo), tão comum entre os bancários na atualidade, pode ser analisada como o meio de expressão das insatisfações com o processo de trabalho, como uma metáfora que simboliza um pedido de socorro da pessoa-corpo (MARAZANO-PARISOLI, 2004; SONTAG, 1984):
A grande maioria dos bancários tem problema de lesão por esforço repetitivo... E teria que ter também menos estresse porque a cobrança é
muito forte e a gente acaba ficando até doente por causa disso, porque era cobrado antes mensalmente, passou a ser quinzenal, depois semanal e agora e diária a cobrança e não tem saúde que resista, né? (sexo feminino, gerente de relacionamento, 49 anos).
O meu problema de saúde, por exemplo, que é a minha hipertensão, até pelo próprio médico que já testou isso, é conseqüente do meu dia de trabalho, tanto que quando eu estou de férias eu não tenho esses piques de pressão (sexo feminino, caixa, 49 anos).
A funcionária parece ter a intenção de relacionar os aborrecimentos no trabalho à gastrite:
Eu tenho insônia, mas não sei se posso associar porque não me lembro direito de ter tido antes e também não posso dizer que foi por causa disso [do assalto] porque agora eu tô entrando na menopausa, mas agora eu adquiri uma gastrite crônica. Eu só vim descobrir tem uns dois anos, quando eu já entrei com outro processo de aborrecimento dentro do banco, aí eu comecei a passar mal e a sentir queimar e tal, refluxo e tudo. Quando fui fazer o exame, constatou que tenho gastrite crônica eu não sei se foi por causa do assalto ou não.
Em sua pesquisa, Nascimento (2003) identificou que o setor de saúde ocupacional do Banco Y registrava os quadros clínicos de transtorno de adaptação (CID F43.2), reação aguda ao estresse (F43.0) e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (F43.1) como os diagnósticos mais comuns. No entanto, Dorigo e Lima (2007) afirmam que o TEPT tem sido mal diagnosticado.