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Desde o início de sua existência, Teresina tem se revelado em espaços segregacionais, ou seja, as divisões sociais são marcas indissociáveis da sua existência. Mafalda Baldoino, Alcides Nascimento e Rosilda Sobrinho já teceram opiniões históricas sobre essas camadas sociais urbanas, traçando reflexões acerca dos motivos de tais divisões sociais, mas vinculadas ao tema história e cidades.138

Um primeiro olhar a se destacar entre os cronistas analisados é aquele que simboliza as pequenas e grandes distâncias. José Auto de Abreu registra as distâncias vencidas com caminhadas a pé, pois se comparadas as distâncias que separam os bairros da cidade agora metrópole, com aquelas do passado, veem-se emergir daí imagens contrastantes que vão além de impressionar, mas trazem à berlinda questões do processo de urbanização em curso. Uma cidade de relações menos impessoais alimentava, na visão do cronista, atitudes mais fraternas. Mostra-se um defensor destas tradições.

Façanha, em trabalho de pesquisa sobre a expansão da malha urbana de Teresina, faz uma cuidadosa avaliação deste processo, e ressalta vários aspectos que motivaram tal expansão, como, por exemplo, processos migratórios, terceira fase da divisão internacional do trabalho, a qual Teresina e o Piauí como um todo se inserem. O Estado brasileiro intervém com políticas urbanas expansionistas com a construção de conjuntos habitacionais, Teresina se insere neste contexto com a construção dos conjuntos como o Itararé, o Parque Piauí, conjunto Saci e outros. Loteamentos com investimentos das empresas privadas, estas inclusive se beneficiando com terrenos que eram valorizados por se situarem entre o centro da cidade e os conjuntos construídos pelo governo.

Quilômetros passam a separar o centro da cidade daqueles bairros. Façanha chama a atenção para uma reflexão desse processo especulativo dos solos urbanos, uma vez que os agentes imobiliários promotores daquele crescimento estavam ligados diretamente a uma especulação imobiliária do solo urbano. O autor chama a atenção para a necessidade de novas pesquisas históricas em torno dos sujeitos que estiveram envolvidos na expansão urbana da cidade. Na realidade, esta pesquisa vem contribuir – nesse sentido, senão em sua totalidade, mas pelo menos em parte – para o lançamento de novas chaves de pesquisas. A imprensa e os

138 Cf.: SOBRINHO, Rosilda Marques. O Piauí entre a Saúde e a Doença. Por que a saúde se torna pública.

Teresina, Carta Cepro, v. 21, n. 1, p. 42. 2002; ARAÚJO, M. Mafalda Baldoino de. Cotidiano e pobreza: a magia da sobrevivência em Teresina (1877-1914). Teresina: Fundação Monsenhor Chaves, 1995. NASCIMENTO. Francisco Alcides do. A cidade Invisível. Teresina, Carta Cepro, v. 21, n. 1, p. 7. 2002.

jornalistas exerciam o ofício de divulgar e motivar compreensões em curso sobre a cidade. Prova disso está na convocação de Fabrício de Arêa Leão, quando dos 120 anos da cidade.

A cidade então memorizada e versada pelos jornalistas, com feitio de versões verdadeiras, posto que o discurso da imprensa moderna tem esse valor de verdade, tem um efeito de referência significativa para o leitor, sem que seja preciso falar sobre o que venha a ser o próprio sujeito aqui em análise, jornalistas que contribuíram para a construção das imagens que versam sobre a cidade de Teresina. O segundo capítulo deste trabalho de pesquisa já revelou como se deu o processo de modernização da imprensa no Brasil. O terceiro capítulo tratou sobre os impasses enfrentados pelos jornalistas no processo de modernização da sua profissão na cidade de Teresina.

Portanto, a cidade moderna setentista colocava-se em constante luta contra uma cidade pretérita. Para os defensores da modernização, as lembranças daqueles que presenciaram outras épocas não passavam de um provincianismo que atava o progresso da cidade. Façanha, no entanto, analisou com propriedade os incômodos e contrastes sociais gerados por aquela onda modernizante.

Sebastião Negreiros,139 visionário de uma “Teresina metrópole”, revela-se opositor à

visão de Francisco Auto de Abreu. Este não deixa de aplaudir as novas conquistas, “os sonhos inevitáveis” do progresso, mas termina por deixar brechas em defesa de certas tradições, mesmo que pertencentes à cidade pequena, pacata, provinciana e tranquila, de domínio espacial facilitado por uma sociedade que se circunscrevia a pequenas quadras de convívio social:

Entre a Rua Estrela e a Rua São José, passando pelas ruas da Glória, do Amparo, Rua dos Negros, do Fio, Rua Grande, Rua Bela e Paissandu – belos nomes que deveriam voltar – estava a cidade, toda ela, para as pessoas da nossa condição social, A Avenida Frei Serafim, hoje Getúlio Vargas, era uma promessa e um abrigo para as famílias mais prósperas. Ainda hoje me lembro das casas, uma a uma, e as famílias que as habitavam, parentes, amigos, conhecidos. Desconhecido só o caixeiro viajante que se hospedava algumas noites no Teresina Hotel.140

A. Tito Filho, confesso admirador de Auto de Abreu, segue reforçando esta linha reconstrutiva da cidade passada, definindo contornos e imagens, logradouro por logradouro, os cinemas Royal e Olímpia. Cabaré à beira-rio frequentado por gente “não alta”,141 calçadas povoadas em rodas de conversas, ruas silenciosas e desertas em horários de calor e após o

139 SEBASTIÃO, Negreiros. Hábitos provincianos. Teresina, O Dia, 3 jan. 1969, p. 4. 140 ABREU, José Auto de. Teresina na sua data de aniversário. Teresina, O Dia, 1971, p. 7.

141 A. Tito Filho se refere à “alta sociedade” como frequentadora do Cabaré Rosa do Banco. Este frequentado por

apagar das luzes. A narrativa do cronista projeta a imagem de uma cidade tranquila em oposição ao vai e vem e veloz das grandes cidades. Diga-se, a Teresina que se passou. A de “hoje está repleta de transformações”.142

Carlos Castelo Branco tece olhar de um espaço urbano também dominável e domesticado. Refere-se ao trem que tinha partida da cidade de Flores como o “Trenzinho”. À reforma do logradouro que dava passagem em frente ao Palácio do Governo, como a “pequena avenida em frente ao palácio”; neste caso, a Avenida Antonino Freire. Quanto à Praça Pedro II, “acabava de ajardinar”.

A paisagem desses espaços recebe adereços bucólicos, assim do que seja natural, com pouca ou quase nenhuma intervenção humana. Citando o jornalista e literato Celso Pinheiro, Carlos Castelo Branco traz à cena as lembranças “das folhas secas que caíam das árvores do seu quintal”, acrescentando como “era doce a sombra das mangueiras e dos oitizeiros”.

Todos os cronistas são cônscios das vertigens de progresso no passado. No entanto, a narrativa se lida a contrapelo, por vezes detecta-se o olhar atento e registrador de uma monumental “face do atraso”. No entanto, os citados cronistas se referem a costumes como a falta de uma higiene pública e privada. Percebe-se assim uma sensibilidade vinculada a um tipo de sanitarismo urbano. Um cronista como José Auto de Abreu se sensibiliza com os avanços da higiene na década de 1970, e registra a mudança de hábitos no uso das águas, por conseguinte das habitações. Carlos Castello Branco, já retratando a cidade em números de casas e ruas, induz a uma percepção inevitável do que os cronistas reiteram as suas imagens da cidade pretérita, associada ao rústico, avessa ao que seja metropolitano, desta feita em defesa de melhores condições de moradia, e não simplesmente em defesa da expansão da malha urbana:

Teresina que aos nossos olhos ingênuos afigurava quase que como uma metrópole, era uma pequena cidade, de 30 a 40 mil habitantes, se tanto, com casas de telha em sete ou oito ruas e um vasto casario de palha informe, sem conforto, que abrigava dois terços da população.143

A estatística é para impressionar, não há dúvida. Ingenuidade dos moradores ou outros motivos subjacentes?

142 A. Tito Filho, op. cit., s/p. 143 Ibid., p. 5.

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