Este estudo é de cunho social, tem como lócus da pesquisa, a Escola Estadual Mário Quintana, localizada na Penitenciária Professor João Pimenta da Veiga em Uberlândia-MG. Como sujeitos da pesquisa, participaram os professores da Educação de Jovens e Adultos, a diretora, a enfermeira e as psicólogas da Penitenciária, que se prontificaram a responder os questionários e assinar os respectivos termos de consentimento livre e esclarecido. Nas palavras de Gil (1989, p.27), “pesquisa social é o processo que utiliza a metodologia científica, permitindo a obtenção de novos conhecimentos no campo da realidade social”. A escolha do local da pesquisa se justifica, pois dos 15 anos de carreira no sistema prisional mineiro, laboro há 12 anos na Penitenciária, além do que, para atender as propostas de um mestrado profissional, pretendo agregar valor à minha atividade profissional. Para André (2017, p. 5) o mestrado profissional constitui-se:
A leitura de alguns textos, especialmente os de Ribeiro (2005, 2006) ajudaram a entender a especificidade do Mestrado Profissional (MP). Em um desses textos, Ribeiro (2005, p. 10) explica que as justificativas para criação do MP pela CAPES, foram, por um lado à exigência da sociedade atual para ter uma formação qualificada, mesmo para os setores que não atuam na docência universitária ou não se envolvem em pesquisa de ponta; e por outro lado, a constatação de que muitos mestres e doutores buscam um destino profissional fora do ensino superior, o que evidencia que há demanda de trabalho para o pessoal qualificado. Ao se referir à diferença entre o mestrado profissional (MP) e o acadêmico (MA), Ribeiro (2005, p. 15) indica o produto, ou o resultado do curso. Em suas palavras: “No MA pretende-se pela imersão na pesquisa, formar, a longo prazo, um pesquisador”. Já no MP, segundo o autor, também deve ocorrer a imersão na pesquisa, mas o objetivo é formar alguém que “saiba localizar, reconhecer, identificar e sobretudo, utilizar a pesquisa de modo a agregar valor a sua atividade”. Estaria ele advogando ao pós- graduando do MP o papel de mero consumidor de pesquisa? Em texto escrito posteriormente, Ribeiro (2006, p. 214) esclarece um pouco mais seu ponto de vista sobre o lugar da pesquisa no MP: “espera-se que a pessoa, mesmo não pretendendo depois ser um pesquisador, incorpore certos valores e certas práticas com a pesquisa, que façam dele, em definitivo, um usuário privilegiado da pesquisa”. Especifica um pouco melhor sua proposta, ao dizer que: O que se almeja é algo aparentemente simples, mas bastante ambicioso e difícil, que o aluno entenda a importância da pesquisa em sua área profissional, que saiba onde encontrar a pesquisa ainda não feita, mas que se fará no futuro – e finalmente, que seja capaz de incorporá-la em seu exercício da profissão (RIBEIRO, 2006, p. 215).
Nosso objetivo foi construir um caderno de orientações para os professores prisionais da Escola Estadual Mário Quintana e para professores que pretendem iniciar a docência no cárcere. Por isso foi necessário ampliar o número de sujeitos da pesquisa, ao aplicar também um questionário à enfermeira e às psicólogas da Penitenciária, que por consequência, assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido.
Paraconhecer a realidade vivenciada pela comunidade escolar local, realizamos uma pesquisa de abordagem qualitativa, a fim de conhecer os pontos de vista dos participantes (professores, diretora, enfermeira e psicólogas), e por consequência, poder interpretar a realidade a partir dos significados que eles revelaram durante a coleta de dados. Sobre pesquisa qualitativa, Hernandez Sampieri (2013, p. 34), escreveu:
O enfoque se baseia em métodos de coleta de dados não padronizados nem totalmente pré-determinados. Não efetuamos uma medição numérica, portanto, a análise não é estatística. A coleta de dados consiste em obter as perspectivas e os pontos de vista dos participantes (suas emoções, prioridades, experiências, significados e outros aspectos subjetivos). Também são de interesse as interações entre indivíduos, grupos e coletividades. O pesquisador formula perguntas abertas, coleta dados apresentados pela linguagem escrita, verbal, não verbal e também visual, que ele descreve e analisa para que sejam transformados em temas relacionados, e reconhece suas tendências pessoais (Todd, 2005). Por isso, a preocupação direta do pesquisador se concentra nas vivências dos participantes, tal como foram (ou são) sentidas e experimentadas (Sherman e Webb, 1988). Patton (1980, 1990) define os dados qualitativos como descrições detalhadas de situações, eventos, pessoas, interações, condutas observadas e suas manifestações.
Corroborando com Hernandez Sampieri, Malheiros, (2011, p. 31), afirmou:
Já as pesquisas qualitativas tentam compreender os fenômenos pela ótica do sujeito. Neste sentido, têm como premissa que nem tudo é quantificável e que a relação que a pessoa estabelece com o meio é única, e portanto, demanda uma análise profunda e individualizada. Godoy (2015) estabelece algumas características para a pesquisa qualitativa: O ambiente natural é a fonte de dados. É fortemente descritiva. É orientada pelo significado que as pessoas dão aos fenômenos. Tem enfoque indutivo.
No que se refere à coleta de dados, um dos instrumentos utilizados foi a observação, uma vez que o pesquisador é um servidor público e trabalha no lócus da pesquisa e pôde descrever a partir da observação, como acontecia e como acontecem as
relações entre os sujeitos da pesquisa, e também reconstruiu diálogos, descreveu seu local de trabalho e eventos especiais, além de atividades, como também a sua rotina diária e alguns esclarecimentos necessários. É importante destacar que a observação e a vivência no cárcere, por parte do pesquisador subsidiou a construção de um glossário com 123 termos utilizados pelos privados de liberdade no cotidiano do cárcere, que será apresentado no caderno de orientações. Em relação à pesquisa observacional, Malheiros (2011, p.190) trouxe:
O estudo observacional pressupõe um sólido planejamento já que, em paralelo ao levantamento de dados, é imperativo garantir a redução das impressões subjetivas, além de se ter a clareza sobre o fenômeno que se deseja observar. Exatamente por isso a observação é um método que se aplica a quase todas as pesquisas em educação, mas requer tempo e conhecimento para ser realizada de forma correta. [...] Há que se lembrar nesse momento que é possível que o observador participe ou não da realidade que observa. Por exemplo, um professor pode coletar dados para uma pesquisa na sala de aula na qual é regente, sendo, portanto uma observação participante. Por outro lado, ao coletar dados observando alunos de uma escola da qual ele não faz parte torna-se apenas um investigador que coleta dados, mas não participa da realidade.
Ainda sobre a observação, Hernandez Sampieri (2013, p. 410), apontou:
Observação Qualitativa não é uma mera contemplação (“sentar-se para ver o mundo e tomar notas”). Implica entrarmos profundamente em situações sociais e mantermos um papel ativo, assim como uma reflexão permanente, estarmos atentos aos detalhes, acontecimentos, eventos e interações.
No que tange às descrições, por meio de narrações, fotos, imagens e glossário, nosso intuito foi aproximar o leitor do lócus da pesquisa, uma vez que o espaço de presídios e penitenciárias é restrito e de difícil acesso para a maioria da população. Ainda no que tange a investigação qualitativa, Bogdan e Biklen (1994, p. 50) escreveram:
A investigação qualitativa é descritiva. Os dados recolhidos são em forma de palavras ou imagens e não de números. Os resultados escritos da investigação contêm citações feitas com base nos dados para ilustrar e substanciar a apresentação. Os dados incluem transcrições de entrevistas, notas de campo, fotografias, vídeos, documentos pessoais, memorandos e outros registros oficiais. Na sua busca de conhecimento, os investigadores qualitativos não reduzem as
muitas páginas contendo narrativas e outros dados a símbolos numéricos. Tentam analisar os dados em toda sua riqueza, respeitando, tanto quanto o possível, a forma em que estes foram registrados ou transcritos.
Como já mencionado anteriormente, outro instrumento de coleta de dados foram os questionários, com perguntas abertas e fechadas. Hernandez Sampieri (2013) esclareceu: “Um questionário é um conjunto de perguntas a respeito de uma ou mais variáveis que serão mensuradas.” Nas palavras de Malheiros, (2011, p. 137):
Os questionários são a forma mais comum de se coletar dados em uma pesquisa nas ciências humanas ou sociais quantitativas. Eles são formados por um conjunto de questões agrupadas que trazem as possíveis respostas (hipóteses) previstas por quem o desenvolveu.
Para complementar esta pesquisa, foram usados também documentos, como o PPP da escola e os planos curriculares das séries iniciais, finais e ensino médio. Além dos documentos, pesquisamos junto ao Sistema de Gestão Prisional da Penitenciária (SIGPRI), o perfil dos matriculados na Escola Mário Quintana. Procuramos, portanto, realizar um trabalho cuidadoso, detalhado e fiel às revelações dos sujeitos da pesquisa, para a construção de um caderno de orientações que possa ser utilizado pelo público ao qual ele se destina.