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habitus social

Antigamente e hoje. Palavras que marcam o tempo dos “antigos” e o tempo de “agora”. Recorrentes nas narrativas Kaingang, estas expressões ressaltam os distintos modos de vida do passado e do presente. Por sinal, em muitos momentos confrontam o modo de ser “tradicional” com o modo de ser “contemporâneo”, onde os elementos considerados da tradição Kaingang pouco são vivenciados. A tradição Kaingang é rememorada com respeito e saudosismo, afirmam que naqueles tempos o Kaingang era mais forte, tinha longevidade, não ficava doente e não dependia da assistência. Naquela época, inclusive, falavam o “idioma” Kaingang.

Um dos aspectos mais recorrente nos argumentos que visa mostrar as diferenças e transformações experienciadas pelos narradores consiste na questão das práticas alimentares. A alimentação do passado é distinta da alimentação atual na TI Xapecó. A alimentação do passado era forte e saudável na concepção dos narradores.375 Hoje, os Kaingang

375 Para maior compreensão sobre as expressões “forte” e “fraco” na vida e alimentação Kaingang, ver: OLIVEIRA, Philippe H. de A.. Comida forte e comida fraca: alimentação e fabricação dos corpos entre os Kaingáng da Terra Indígena Xapecó (Santa Catarina, Brasil). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social/PPGAS, Universidade Federal de Santa Catarina/UFSC. Florianópolis, 2009.

não fazem mais comidas tradicionais e não encontram os alimentos no ambiente ou no mato.

A senhora Maria Librantina afirma que hoje não “[...] é como era antigamente, é tudo mudado! Desde as nossas comidas!”.376

Sua narrativa sobre infância recorda que a alimentação tinha como base o mato, onde se encontrava a carne de caça de tatu, veado, cotia, raposa, nas suas palavras até o bicho do mato era remédio:

Nós comia, não comia carne de mercado, quando o pai não criava, ele ia no mato buscar! Caçava o tatu, o veado, a cotia, uma raposa, fazia pra nós, pra nós era uma festa! E isso aí eu tava falando com a menina da minha vizinha ali, muitas vezes até a carne do próprio do bicho do mato era remédio pra... dependendo da doença que a criança tá!377

Ao rememorar o passado, a artesã avalia que havia muita “pobreza”, apesar de que essa expressão é relativizada pela própria narradora quando argumenta que o estilo de vida se assemelhava ao de passarinho. Dona Librantina afirma que naquela época não havia “mercado” e os Kaingang viviam do “nosso angó”, viviam daquilo que plantavam, dependiam da época da maturação de certos frutos, bem como da coleta de folhas do mato, por isso a vida do Kaingang era como do passarinho. A narradora em certo sentido acusa que apesar da vida ser difícil e de “pobreza”, o Kaingang foi comparado ao passarinho por ser livre, autônomo, desprendido de certas responsabilidades contemporâneas:

[...] naquela época era muita pobreza assim! Na verdade era pobreza e não era pobreza porque assim a gente não vivia das coisas do mercado né, a gente plantava e vivia do que a gente fazia! Então daí pra nós assim nossa vida era uma vida assim como é que vou di.... tipo um passarinho! Chegava a época de fruta nós... a piazada ia pro mato juntar fruta e vinha de lá e já trazia as folhas de mato pra comer né, os nossos angó né, chegava a mãe fazia nós comia e nós ia brincar. Nossa vida era assim!378

376

CAMPOS, M. L., Entrevista, op. cit.. 377

Idem. 378 Idem.

Seu Albérico Paliano informa que ele e sua esposa se criaram comendo canjica, feijão, quirera,379 avalia que hoje, na própria família, se forem cozinhar uma quirera, seus filhos não comeriam, pois preferem arroz e massa. Afirma que um ou outro come a “banana có” e os “brotos do mato”. Naquela época tinha caça, “[...] tinha tatu, paca, veado, tateto, só que hoje já não né tanto. Os bicho do mato, tá muito pouco, tá longe pra ir caçar! Hoje é poucos que caçam né, muito pouco, mas na época tinha!” Nas suas palavras: “[...] era assim que funcionava a vida do índio. Hoje tá mudado né. Hoje mudou bastante né!”380

A vida do índio mudou. O narrador Miguel Alípio esclarece que os costumes alimentares integram a tradição Kaingang e que praticamente não se encontra mais caça ou bicho do mato na reserva:

[...] a nossa tradição era isso, né! Caça, tatu, veado, porco do mato. Era tudo quanto era bichinho do mato, caçava. Hoje, sei lá né. Hoje, em todos causo, a gente mora na cidade aí, não posso dizer pra vocês que existe ainda caça aí, né. Tem algum bichinho pros fundo, pra lá, algum tatu, algum perdido, um veado, tem ali. Mas é muito difícil [...].381

Seu Miguel recorda que cresceu vivendo de caça e pesca, e que: “Hoje ninguém quase não pesca mais. Né? Hoje ninguém caça mais.” Avalia que a cada ano as coisas vão mudando: “Então, veja bem como mudou as coisas depois. E cada ano vai mudando, né! Hoje não vamos longe, mudou até o tempo das pessoas que viviam nas matas, né, comendo fruta, como eu tô dizendo, melando. A tradição deles era aquilo, né, não ficava doente.”382

Neste mesmo sentido, seu Noé afirma que “aquele tempo era mior” e que “Hoje em dia o índio tá...tá...tá ruim de viver.” Ao explicar porque “naquele tempo” era melhor, seu Noé acusa que os índios plantavam para se alimentar e que hoje “vive só no comprado, aquele que não planta né? Tem muitos que não gostam quase de plantar. Naquele tempo os índio plantavam, tudo que era coisa. Hoje é difícil cruzar numa casa que tenha um pé de milho plantado mesmo.”383

A narrativa ressalta que atualmente existe grande dependência de muitos indígenas em relação ao alimento comprado e

379 “Quirera” é um alimento a base de milho consumido com carne do mato. 380 PALIANO, A., Entrevista, op. cit...

381

ALÍPIO, M., Entrevista, op. cit.. 382

Idem.

que a prática do roçado e do plantar, pertence ao passado para muitos índios.

Dona Emiliana afirma que apesar do índio estar pautado em certo sentido de liberdade, isso não é mais possível no presente. Se o índio se mobilizava de lugar, hoje os princípios mudaram, se desejar um “pedaço de terra”, tem que comprar, ademais, não pode se “mudar” pra onde quer como outrora. A narradora realiza neste ponto da rememoração uma apreciação interessante e crítica, expressa que precisa morar “apertadinho” e que não tem terra pra poder “criar galinha”, mas aí ela explica, “[...] a terra é nossa! Diz que é nossa! Diz que é nossa!”. Na sua avaliação, fica evidente que a liberdade do índio de se situar como desejasse no território, por meio de sua territorialidade, foi cerceada pelo branco, ele quem “manda” e quem “planta” “no lugar” ou na “comunidade da gente”, os índios para não se “incomodar” com o branco, “dava o lugar e deixava”, e com isso “volteava” a área.

Como o índio é, ele é liberto né! Que nem agora, se a gente quer se mudar... agora deferenço, porque agora a gente tem que comprar os pedaço de terra! A gente não se muda pro lugar que a gente quer! Que nem eu tô aqui nesse apertadinho né, podia escolher um lugar mais longe, pra poder criar galinha, mas não posso! Eu tenho que comprar e daí eu não posso, e a terra é nossa! Diz que é nossa! Diz que é nossa! Mas mais quem manda é o branco! O branco vem e planta tudo por aí! E a gente fica oh...[...] não! Não tinha! Quando entrava um branco na comunidade da gente, agora a gente diz comunidade, daquela vez dizia o meu lugar! Quando entrava um branco lá e se apossava e fazia casa nós oh... dava o lugar e deixava! Pra não se incomodar! É assim que nós voltiemo essa área!384

O índio era “o dono da terra” ou “ da área indígena”, tinha a liberdade de “cortar uma árvore”, “furar uma abelha”. Dona Emiliana não utiliza a palavra autonomia, mas seu tom narrativo parece caminhar para afirmar que o índio era autônomo, auto-suficiente e independente, podia realizar suas práticas sem cerceamento. Hoje, a paisagem da TI Xapecó está diferente, não há mais mel “nem pra remédio”. A narradora comenta sobre o “veneno” que está presente na terra, é passado nos

“pedacinhos de mato” e com a ação do “vento”, “mata tudo os bichinhos”. Quanto ao mato, além de ter sido derrubado, ainda foi envenenado. Nas palavras de dona Emiliana:

Kaingang é ser a virtude da terra né! Ele é o dono da terra! Da área indígena! Era uma vez! Era dono da terra, a gente mandava né! Queria ir no mato cortar uma árvore lá pra... furar uma abelha, não tinha ninguém que impedisse! E quando foi no tempo do Nereu ele não deixava cortar! Não deixa cortar uma árvore, era uma vida que terminava, assim ele explicava pra nós!

[...] só aquela! Tirava os favos e guardava, e daí tampava de novo pra eles fazerem de novo ali! Era assim! O café nosso era a guarapa, água doce, de mel! Me criei nesse tipo! Hoje não tem nem pra remédio! Não tem mais, terminou, tudo! [...] veneno! Derrubaram tudo! Derrubaram tudo o mato! Aonde tem os pedacinhos de mato aí envenenaram, passam veneno aqui, o vento vai lá e mata tudo os bichinhos!385

Outras narrativas também mencionaram os “venenos” como um dos fatores intervenientes na qualidade de vida que se tem atualmente na TI, contribuindo inclusive para o desenvolvimento de doenças. Na realidade, a expressão “veneno” faz referência aos agrotóxicos que são dispensados nas lavouras. Assim, dona Lurdes, seu Cesário, professor Pedro Kresó, professor Claudemir, dona Maria Librantina, professor Gilmar, seu Ernesto, seu Noé e seu Getúlio manifestaram críticas aos “venenos” empregados pelos não índios nas lavouras arrendadas na terra no contexto do “sistema de parceria”.386

Noutros tempos plantavam de tudo, não havia “esse negócio de lavoura”, se referindo às lavouras de parceria que são praticadas na terra atualmente, “Nós plantávamos de tudo, não é que nem agora que tem que, esse negócio de lavoura!”. Seu Ernesto acusa que antigamente quando plantavam, não se “vencia colher” o feijão, e que hoje o plantio está baseado nos insumos agrícolas

385 Idem.

386 O “sistema de parceria” consiste em arrendar a terra sendo seu pagamento acordado em porcentagem sobre a colheita. Essa questão será evidenciada nos últimos capítulos quando se discute a questão da terra, do arrendamento, da agropecuária, do esbulho, da intrusão e da exploração da madeira.

(“venenos”) para alcançar produtividade, “[...] precisa tudo que é coisa pra punha na planta pra dar [...]”.387

Dona Lurdes afirma que estes “venenos” contaminam a água e causam “doençarada”. Seu Cesário explicou que a terra hoje tem “veneno”, sendo que quando chove, a água se mistura com o “veneno” e corre para o rio, provocando a morte dos “bichinhos da água” ou dos peixes. O professor Claudemir explicou que as lavouras com agrotóxicos contaminam as águas e “intoxicam” o ar que possibilita doenças nas crianças e na comunidade, nas palavras do professor, há “muita transformação” e “no passado não era assim”. Neste mesmo sentido, o professor Pedro Kresó afirma que o “veneno” e toda a poluição adentraram nas terras indígenas. O professor Gilmar, ao intermediar e acompanhar a entrevista realizada com o seu pai, o senhor Marins dos Santos, informa que o “veneno” ou os agrotóxicos estão próximos das lavouras e das plantas do mato, assim sendo, certas plantas tradicionais na alimentação, já não são mais encontradas e quando o são, como no caso do “fuá”, apresentam as folhinhas enrugadas, sinal de contaminação, sem poder ser consumida.388

Enquanto isso, seu Ernesto numa roda de conversa, com a presença de seu Noé Rodrigues e de seu Getúlio Narsizo quem intermediou a entrevista, afirma que o “veneno que tá terminando com certas coisas”, interfere na saúde, pois “de primeiro nós matávamos um porco pra comer, é, de dois anos” e “agora com 45 dias” o porco é carneado, o que torna essa “carne fraca”.389

Daí hoje já a água incomoda nós por causa dos venenos, que daí o povo de fora passam muito veneno dentro da reserva, e nós não gostamos disso, porque aí mistura a água! Daí não tem como você tomar, e por isso que vem essas doençarada pra nós, e uma vez não vinha doençarada pra nós! Daí não tem mais nem abelha, ir pro mato, que naquela época não criava abelha, nós deixava se criar no mato, no nativo!390 Já tem veneno a terra né! e daí com a chuva ela enxágua né! Daí cai a água lá no rio, ela já não faz bem lá pros bichinhos d'água né! E os bichinhos

387 BELINO, E., Entrevista, op. cit.. 388

SANTOS, M., Entrevista, op. cit.. 389

BELINO, E., Entrevista, op. cit.. 390 SILVA, L., Entrevista, op. cit..

são fracos né, morrem! Então agora, não existe muito esse negócio de peixe!391

[...] estão enchendo as lavouras com agrotóxicos, intoxicando nossas águas, intoxicando nosso ar. Queira ou não queira, o ar leva longe o veneno, leva para as comunidades, onde as comunidades e onde as crianças vão ficar doentes. As crianças vão ficar mais doentes com tudo isso, no passado não era assim. Sim, tem muita transformação, então hoje as crianças estão bem mais frágeis, estão mais doentes, são mais fracos.392

Né, o veneno que tá terminando com certas coisas... é o veneno né! Uma coisa, que no meu pensar até sobre a saúde, eu desconfio que é o veneno também né! Porque, olha, uma vez, eu tô dizendo pra vocês, olha aqui, esses novos não vão alcançar o que nós alcançamos! Na idade né! Por causa do quê?! Porque de primeiro nós matávamos um porco, pra comer, é, de dois anos, pra carnear o porco né, e agora com 45 dias né, uma carne fraca já digo né!393

Ao realizar a analogia dos tempos, emergiu a expressão espontânea nas falas de alguns narradores Kaingang: os “índios puros” e os “mais civilizados”. Quando o narrador usa essas expressões ele está demarcando a diferença entre o Kaingang que fala a língua, convive a partir dos costumes dos antigos, crê nos saberes transmitidos geracionalmente e, àquele que não é falante de Kaingang, depende da assistência da proteção tutelar e do estilo de vida dos não índios. Perpassa claramente nas narrativas que o índio deixa de ser “puro” quando se relaciona com os “brancos”, quando ele passa a viver como os não índios.

Na relação com o não índio, seu Miguel afirma que há o lado positivo e o lado negativo, sendo que a tradição estaria acabando por conta dos índios estarem se envolvendo cada vez mais com o “outro”: “É bom, uma parte é bom. Só que daí a tradição cai. Já ele vai aprendendo mais pro lado do outro, da parte dele já não faz, ele faz de

391

PACÍFICO, C., Entrevista, 26 de julho de 2013, op. cit.. 392

PINHEIRO, C., Entrevista, op. cit.. 393 BELINO, E., Entrevista, op. cit..

outra parte, né. [...] Então cada dia mais tá mudando. Tá mudando. E nossa tradição tá chegando o momento que tá acabando.”394

Dona Emiliana afirma que havia muitos conflitos na terra, que os “brancos são sem vergonha” e que costumeiramente invadiam as terras dos índios: “Os índios não gostavam dos brancos sabe! Os brancos são sem vergonha! Onde tem um lugarzinho eles entram! Invade! A gente fala, muitas vezes a gente é murrinha! Por causa do que é da gente! Era assim!”395

Para seu Albérico, o “índio puro” não se preocupava com “capital” ou com o “ter as coisas”, aliás, o próprio “trabalhar numa firma” estava distante dos objetivos do Kaingang. Contudo, os “mais civilizados” querem ter as coisas:

Os índios mais puro! Hoje já não, porque hoje a maioria já tá mais civilizado, então eles já querem ter as coisas, assim, já. E o índio puro, digo eu, ele não liga ter as coisas sabe! Ele não liga pra capital, essas coisas... ele tendo, fazendo seu artesanato, tendo o... dia-a-dia ali, já come, é assim o índio Kaingang! Pra ele não interessa trabalhar, o índio puro mesmo entra numa firma assim é muito difícil!396

Existe na caracterização do “índio puro” a relação com a língua, com a fala Kaingang. Seu Ernesto Belino afirma que os “índios puros” falavam somente o Kaingang, “[...] eu já digo, o índio puro, ele sabia falar só o Kaingang”. O narrador percebe um fator que caracteriza boa parte da juventude na terra, a interrupção geracional da transmissão da língua materna enquanto suporte hereditário e identitário, uma vez que atualmente os pais falam o Kaingang, mas seus filhos não: “[...] os pais que sabem falar Kaingang e as crianças nenhuma falam.” Ao comparar o Xapecó com outras terras indígenas, seu Miguel avalia que existem poucos “índios puros” e falantes de Kaingang, este montante, considerado pouco, chegaria perto de cem casos de “índio puro” que “falam mesmo e entende a tradição”. No contexto da expressão “fala e entende a tradição”, o narrador remete-nos a inferir que a língua se apresenta como um fator exponencial da cultura Kaingang:

A diferença que tem com o nossa aqui, do TI Xapecó! É, então é aí tá, aí que é o problema! Se nós dividir os índios pro um lado, ela vai dar em

394

ALÍPIO, M., Entrevista, op. cit.. 395

PINHEIRO, E., Entrevista, op. cit.. 396 PALIANO, A., Entrevista, op. cit..

torno de... olha, pelo menos 100 casos de índio puro mesmo que falam mesmo e entende a tradição, é pouco, né! E agora, como é que nós vamos fazer?! Bom... Vamos deixar quieto né, (risos)! Vamos arrumar outro lugar!397

Dona Emiliana informou que seu pai não era “índio puro”, mas que era filho de uma “índia pura”, assim, teria aprendido o “sistema do índio” com a mãe: “E meu pai não era índio puro! Como é que ele pegou o sistema do índio?! Por causa que a mãe dele era índia pura né!, e o pai dele era branco!”. Neste sentido, parece que os narradores encaminham-se para distinguir exatamente o que pertence a tradição, ao sistema e ao modo de vida Kaingang, considerado como “puro”. Em certa medida, essa categorização apresenta seu essencialismo quando deixa de mostrar a reatualização constante da cultura, suas porosidades e influências na sociedade Kaingang.

O ontem e o hoje, o passado e o presente, o antigo e o agora. Todas estas expressões de confrontação ou, no mínimo, de comparação, possibilitam perceber certas rupturas na transmissão geracional dos saberes indígenas ao mesmo tempo em que as ressignificações estabelecidas pelos narradores explicam as transformações vivenciadas por eles, suas famílias e pela comunidade da TI Xapecó. Apresenta-se assim, outro aspecto fundamental nas análises narrativas, as mudanças no modo de vida e no habitus social que reatualizam a identidade Kaingang.

O “índio tá mudando”.398

Essa parece ser assertiva consensual entre os narradores e apresenta certo essencialismo. Contudo, as transformações no modo de vida e no habitus social se processam ao longo do tempo, ao longo de décadas e também por influência de diversos fatores, mas esse processo ocorre com todas as sociedades. Seu Albérico Paliano acusa que “entrou muito branco” na reserva e com seu “outro jeito de viver” influenciou a comunidade e influencia os índios. Para o narrador, existem “índios que hoje já não querem ser mais índios”, e argumenta frente a esta constatação, “é errado né, eu acho que é errado, que o índio tem que ser índio!”. O índio quando estava pautado na “tradição”, a comida do mato “cortava tudo que é doença que ia chegar, e hoje, muitas doenças, muitos remédios é próprio veneno pro índio né.” Na avaliação de seu Albérico o modo de vida mudou:

397

ALÍPIO, M., Entrevista, op. cit.. 398 PALIANO, A., Entrevista, op. cit..

É, muda, mudou por causa que dentro das reservas, entrou muito branco, e os índios começaram a ter influência com o branco né. Então daí mudou, porque o branco já tem outro, outro jeito de viver, e hoje o índio tá mudando! Tem índio que tá deixando, tem índios que hoje já não querem ser mais índio né! (silêncio) E é errado né, eu acho que é errado, que o índio tem que ser índio! Ele tem que ter a sua tradição, ele tem que ter os seus, assim, a sua alimentação, que na época nem doença existia né! O índio comia broto do mato aí e cortava tudo que é doença que ia chegar, e hoje, muitas doenças, muitos remédio é próprio veneno pro índio né.399

“Como que nós vamos fazer?! Nós temos que viver por aí!” Essa frase de seu Miguel Alípio expressa a impossibilidade de retornar ao modo de vida dos tempos dos antigos. As suas lembranças de quando “era piazote” exemplificam as diferenças do modo de vida em relação ao hoje. No passado o Kaingang “vivia mais tranqüilo do que agora”, pois não “vivia doente”. Dormia-se sem coberta próximo do fogo, comia-se uma “carninha assada” e frutas, bebia-se água nas fontes, tomava-se banho no rio inclusive em dias frios de geada que tava “branqueando o sapato”, porém, ressalta, não usavam sapato e viviam de “pé no chão” e apenas com uma “manguinha de camisa”. Suas

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