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As cidades têm assumido cada vez mais o protagonismo no que se refere à vida política, econômica e cultural, articulando sociedade civil e forças políticas, em busca de novas soluções para as crises urbanas e para os desafios resultantes da globalização, em diferentes partes do mundo, o que configura um fenômeno que Sassen (1996, p. 66) apresenta como a dimensão política das mudanças econômicas ocorridas na estrutura econômica global a partir dos anos 1960, no que concerne à relação entre cidade e Estado-nação.

Esse posicionamento de destaque das cidades se deve a diversos fatores, dentre os quais podem ser destacados:

a. O crescimento populacional;

b. A influência cultural e econômica que passaram a representar;

c. A limitação da capacidade de ação do Estado-nação diante da crise fiscal e dos fluxos internacionais da globalização econômica e financeira;

d. A fragilidade e a incapacidade do Estado-nação em responder às novas realidades postas pelas novas tecnologias dos meios de comunicação e a cultura informacional e, em oposição, a rapidez com que as cidades res- pondem a esses desafios;

e. A nova competitividade do capital, que não respeita fronteiras nacionais e busca, nas cidades, novos polos produtivos como pontos nodais onde encontra insumos adequados aos seus sistemas de produção de bens e serviços. Estes pontos nodais são denominados hoje, em sua patente máxima, de “cidades globais”, que se mostram no topo da hierarquia dos centros urbanos, notadamente as grandes cidades norte-americanas e as europeias, além de Tóquio. São grandes centros concentradores de uma complexa rede de atividades econô- micas, de uma avançada tecnologia informacional e de um sofisticado setor de serviços. Esses nódulos globais estabelecem uma complexa rede de interdependência

mundial, que envolve cidades de médio porte, no contexto de uma reorganização das atividades econômicas e de um novo alinhamento, no qual as diversas cidades devem dispor de certos atributos de interesse do capital transnacional (ROOST; SASSEN, 1999; SASSEN, 1996).

Esse diagnóstico afeta, mais ou menos, uma ou outra cidade e, por isso, deve considerar os diversos níveis de desenvolvimento nos quais as cidades se encontram e a sua inserção nos mercados globais. Essa nova realidade tem levado diversas cidades de diversos países, inclusive brasileiras, a buscar, na produção arquitetônica contemporânea, no PE e no marketing, instrumentos mais adequados para dar respostas aos movimentos provocados pela globalização da economia, especialmente no que se refere aos fluxos de capitais, em particular os turísticos e de realização de grandes eventos.

Observando criticamente os esforços pelas renovações e transformações urbanas em diversas cidades norte-americanas, especialmente em Baltimore, numa análise seminal crítica, Harvey (2006, p. 89-92) reforça a importância dos projetos urbanos e arquitetônicos para o sucesso dessas iniciativas, bem como a busca das localidades pela construção de imagens positivas “[...] e de alta qualidade de si mesmas”. Diz ainda, referindo-se a Baltimore e suas renovações e eventos espetaculares, que: “Uma arquitetura do espetáculo, com sua sensação de brilho superficial e de prazer participativo e transitório, de exibição e de efemeridade, de jouissance, se tornou essencial para o sucesso de um projeto dessa espécie [...]” (HARVEY, 2006, p. 91).

Dessa forma, mediante a “espetacularização” da arquitetura, a renova- ção dos espaços urbanos e a promoção dos grandes eventos, as cidades têm se convertido em pontos nodais mais adequados às novas formas de reprodução do capital, criando uma nova base econômica para as localidades. Hall (1988, p. 412), numa análise sobre as fórmulas adotadas por cidades norte-americanas, nos anos 1970, com vistas à recuperação econômica por meio de novas funções para a “cidade-base” que perdia sua indústria manufatureira, afirma sobre o fenômeno das revitalizações urbanas que:

Yuppies, ou jovens profissionais urbanos – a palavra começou a circular no início dos anos 80 – elitizariam as degradadas áreas residenciais vitorianas próximas do centro e injetariam seus dólares em butiques, bares e restaurantes restaurados. Por fim, a cidade restaurada tornar-se-ia efetivamente importante atração para turistas que proveriam o município de uma nova base econômica.

Pelo que se percebe, o autor identifica nas cidades norte-americanas um novo direcionamento para o planejamento urbano. Essa nova direção adotada continha na sua essência elementos do empreendedorismo que a partir de então seria adotado pelas cidades norte-americanas. Como, por exemplo, uma sagaz

e bem estabelecida administração municipal como no caso de Baltimore, o que pôde também ser observado em Boston (HALL, 1988, p. 413).

Tal personalismo e caráter dos administradores locais, pelo que se percebe, foram fundamentais à implementação do “empresariamento” urbano e ao sucesso dessa nova forma de encarar o planejamento das cidades. Este período de crises e de busca de novas soluções para os problemas advindos com o declínio do Fordismo e da indústria manufatureira nos países centrais, notadamente entre os anos 1970 e 1980, ao que parece, deflagra e populariza o PE, como ferramenta importante no estabelecimento das coalizões em torno do papel de protagonistas, que passam a desempenhar as grandes e médias cidades. Estabelece também a construção de identidades como facilitadoras das transformações necessárias aos processos colocados pelas novas questões urbanas.

Neste estudo, adotou-se a conceituação de Lopes (1998) para o PE, que é definido como o processo de planejamento participativo para construção da identidade de uma cidade, com vistas ao enfrentamento dos desafios postos pela globalização e pela competição interurbana. Prefeitos e agentes públicos e privados, de um modo geral, e nem sempre de forma participativa, têm buscado essa construção de identidades com a visão de inserir suas cidades no jogo da competitividade global, em busca de investimentos e de uma nova imagem que as promova no mundo por meio do binômio PE-marketing urbano.

Mas o que tudo isto significa? De que forma o PE e o marketing urbano se tornaram a panaceia para todos os problemas urbanos das grandes e médias cidades mundo afora? Qual o significado disso tudo para Natal? É o que se pretende entender com a discussão destas questões, por meio de revisão teórico-conceitual ao abordar diversos autores que tratam dos temas relativos ao novo protagonismo das grandes cidades.