Os cursos de licenciatura em Física, Matemática e Química foram planejados e se encontram em execução em pólos de EaD localizados nos estados
do RN, PB, PE e AL, sob a coordenação da Secretaria de Educação a Distância (SEDIS) pertencente à UFRN. Esse órgão foi criado com a com a missão de “expandir o acesso àqueles que não podem se deslocar até um dos campi da UFRN” (UFRN, 2004, p.4) e tendo como objetivo “democratizar o acesso, eliminando barreiras e criando condições para que populações excluídas tenham agora a possibilidade de uma educação de qualidade” (Ibid.) Os elaboradores dos projetos dos cursos acima referidos justificam que essa política da UFRN “vem ao encontro de uma evidente tendência mundial do uso das tecnologias para eliminar a exclusão educacional” (Ibid.).
Por ocasião da leitura dos projetos dos cursos pode ser conhecida a seguinte situação: o estado do RN no ano de 2002 possuía 46.959 docentes dos quais 37.142 lecionavam em escolas públicas, estaduais ou municipais. Apresentam dados do Censo Escolar de 2002 (INEP) que informam que o estado possuía cerca de 9.000 professores lecionando no ensino médio e/ou nas últimas séries do ensino fundamental, com formação de nível superior, mas sem a licenciatura especifica para a área de ensino em que estavam atuando. Outros dados informam que havia naquele estado em torno de 5.000 professores “lecionando nessas mesmas séries, sem nenhuma formação superior, sendo que destes, 42 possuem apenas a formação fundamental” (Id., p. 5).
Esse quadro, que, diga-se, é semelhante ao de outros estados da região Nordeste, sinalizaram para a necessidade de uma resposta, no intuito de efetivamente revertê-lo. Assim, a UFRN tomou a decisão de realizar cursos na modalidade de educação a distância em áreas de licenciatura que formassem e qualificassem professores que não possuíam a formação adequada e exigida legalmente.
Assim, foi elaborado um projeto para cada um dos cursos, que fazem parte de um projeto maior, abrangendo as licenciaturas na área das Ciências (Química, Física e Biologia) e Matemática. A concepção curricular foi desenhada simultaneamente, “no sentido de garantir a multidisciplinaridade e a integração dos conteúdos, dentro de uma perspectiva pedagógica problematizadora e dialógica” (Id., p.1)
Os materiais didáticos foram elaborados “dentro das especificidades da educação a distância e da realidade do aluno” (Id., p.6). Não deixando de considerar
os avanços das tecnologias da informação e da comunicação e os benefícios para o desenvolvimento dos cursos, entenderam os professores planejadores que “a realidade do nordeste brasileiro ainda vai comportar principalmente material impresso, áudio e vídeo” (Id., p.7).
Assim, o investimento maior voltou-se para a produção e utilização de materiais impressos, mas não abrindo mão da elaboração de materiais para web, ou a utilização de mídias digitais, como o CD-ROM.
A concepção do currículo dos cursos parte do princípio de que a aprendizagem é mais efetiva “quando é significativa para o aluno, quando se alicerça nas relações dialógicas e quando se constitui em uma construção coletiva que considera as diferenças de desenvolvimento e as diversidades culturais e sociais” (Id., p.8). Assim, a construção do currículo foi gestada com base nos preceitos educacionais do educador pernambucano Paulo Freire. Os conteúdos curriculares foram organizados em torno de um tema gerador; foi escolhido o tema “A seca e a água.” “Seca, por ser o tema local apontado como gerador de problemas de vida; água, como uma questão mais global, que avança na questão específica da seca” (Id., p.10).
A estrutura curricular propõe disciplinas comuns às três licenciaturas, para “garantir a multidisciplinaridade e a integração dos conhecimentos” (Id., p.11) nos quatro primeiros semestres dos cursos; a partir do quinto semestre, o currículo se orienta para os conteúdos específicos da área do conhecimento. Os planejadores se preocuparam com a manutenção da integração dos conhecimentos nos semestre finais, propondo a realização de eventos para esse fim. Das disciplinas comuns constam algumas que objetivam possibilitar ao aluno um olhar sobre o seu entorno, como, por exemplo, “Ciências da Natureza e Realidade” e “Educação e Realidade”; outras são voltadas para questões específicas da formação do professor como: “Fundamentos da Educação”, “Didática” e “Psicologia da Educação”.
Os cursos, conforme demonstram os projetos, pretendem investir num tipo de currículo que, sem deixar de lado a necessidade de aprofundamento nos conteúdos das áreas específicas do conhecimento, no caso, Ciências da Natureza e Matemática, valorizam a formação do professor para essas áreas. Certamente, esses cursos, além de buscarem uma formação de qualidade para professores nessa área de conhecimento, ainda cumprem o papel de contribuir para a solução
do problema do número insuficiente de professores com a formação adequada, que historicamente atinge e aflige os que pensam numa educação de qualidade para a população de nosso país.
Vale ainda informar que esses cursos são oriundos de uma parceria entre a UFRN e a UFAL, promovida pela Universidade Virtual Pública do Brasil - UniRede que se trata de um consórcio interuniversitário, criado em 1999, reunindo 82 instituições públicas de ensino superior e 07 consórcios regionais. Esse consórcio tem como objetivo “democratizar o acesso à educação de qualidade por meio da oferta de cursos a distância nos níveis de graduação, pós-graduação e extensão, sob a forma de ensino regular, gratuito e educação continuada.”47 A UniRede, ao articular a realização de cursos de formação de professores, um dos pontos básicos de sua política, se propõe a favorecer um processo compartilhado de realização de cursos com projetos que tentam ser inovadores e motivam a produção de materiais didáticos igualmente inovadores.
A despeito das dificuldades que cercam a implantação de cursos na modalidade de educação a distância, eivados dos mesmos problemas que historicamente vêm caracterizando a formação de professores em nosso país, têm esses cursos se apresentado como uma oportunidade de “fazer um curso superior”, de “estudar numa universidade federal”, de “estudar em horário flexível”, como foi salientado por estudantes dos cursos acima referidos, no questionário48 que foi
aplicado no intuito de esboçar o perfil do corpo discente desses cursos.