Já em relação aos votos que dão expressão ao fenómeno, e uma vez que o número de votos conquistados não implica necessariamente a perda de votos pelas restantes candidaturas, o impacto destas candidaturas sobre as restantes forças políticas pode ser menos directo. No sentido de saber se as candidaturas independentes conquistam eleitorado partidário ou se contribuem particularmente para uma maior participação de novos eleitores, começámos por apurar o número de votos obtidos pelas diversas partes (partidos, coligações, votos brancos, nulos e não votantes), em 2009 e 2013, nos concelhos onde estiveram presentes candidaturas independentes em 2013. O quadro que se segue mostra como é que evoluiu o sentido de voto (expresso em oscilação de votos) entre essas duas eleições.
Nos 80 municípios com candidaturas independentes, registou-se uma oscilação de votos, face a 2009, num total de 525 829 votos. As maiores fatias desse valor foram para as candidaturas independentes (41.52%) e para os "não votantes" (31.72%). O restante coube aos votos brancos (6.39%), nulos (4.76%), coligações separadas do PSD (11.18%) e do CDS-PP (0.50%)
com outros partidos – não tinha havido nenhuma coligação desse género em 2009, nestes municípios –, ao PCP-PEV (1.07%) e a outros partidos (2.86%). Do outro lado, com votos perdidos, temos as coligações PPD/PSD.CDS-PP, que perderam 39.05% desse total de votos, seguida pelo PSD (29.18%), PS (24.87%), BE (4.67%) e CDS (2.22%).
Nestes municípios 126 584 votos estavam já, em 2009, na posse de independentes. Dos quais 87 618 foram conquistados por MI que se recandidataram em 2013. Entre os votos conquistados em 2009 e os que conquistaram em 2013 verificou-se uma diferença de 218 312 votos.
Quadro 51: Oscilação de votos nº votos
(2009) nº votos (2013) oscilação (nº votos) oscilação (%)
Nº votantes 1 883 259 1 716 475 -166 784 31.72% Brancos 32 729 66 342 33 613 6.39% Nulos 22 575 47 627 25 052 4.76% PSD 333 005 179 550 -153 455 -29.18% PS 674 241 543 466 -130 775 -24.87% PCP-PEV 141 859 147 484 5 625 1.07% CDS 44 416 32 746 -11 670 -2.22% BE 62 213 37 632 -24 581 -4.67% Outros Partidos 8 960 23 998 15 038 2.86% IND 126 584 344 896 218 312 41.52% PPD/PSD. CDS-PP 436 677 231 329 -205 348 -39.05% PPD/PSD e outros 0 58 787 58 787 11.18% CDS-PP e outros 0 2 618 2 618 0.50%
Nota: na coligação PPD/PSD.CDS-PP incluimos as coligações
que integram apenas estes dois partidos e as coligações que integram estes dois partidos com outros partidos.
A partir destes dados apurámos depois a evolução das percentagens de votos nas diferentes forças políticas entre concelhos onde houve candidaturas independentes e onde estas candidaturas não estiveram presentes.
Aos dados nacionais apresentados pela DGAI (votos obtidos nas eleições de 2009 e 2013) – importa notar que estes são dados provisórios, e que contêm seguramente ligeiras imprecisões – subtraímos os votos obtidos por partidos e coligações, nessas eleições, nos concelhos onde houve candidaturas independentes em 2013, e comparámos a variação
percentual do número de votos obtidos pelas várias forças políticas entre concelhos com candidaturas independentes em 2013 e concelhos sem essas candidaturas.
Quadro 52: Variações percentuais do número de votos nos partidos/coligações, total nacional Total nacional 2009 2013 variação % PS 2084382 1835288 -11,95% PSD 1270137 964570 -24,06% PPD/CDS 872429 610687 -30% PCP 539694 552690 2,41% CDS 171370 164303 -4,12% BE 167101 120982 -27,60% Outros 38497 64278 66,97% IND 226111 344531 52,37%
Sobre esta leitura das diferenças nas variações percentuais interessa no entanto ressalvar que elas não reflectem apenas o impacto das candidaturas independentes e que certamente contêm algumas imprecisões. Nos concelhos sem candidaturas independentes, com os votos dessas candidaturas a distribuírem-se pelas restantes partes, o seu desaparecimento reflecte- se neste indicador – se esses votos perdidos foram para os "não votantes", então o impacto positivo dos independentes no número de votantes, em 2013, tende a estar inflacionado, se esses votos foram para os partidos, então é o impacto nas candidaturas partidárias que está inflacionado. Também com influência sobre as variações está o aumento ou diminuição do número de candidaturas que as diferentes forças políticas apresentaram entre concelhos com e sem candidaturas independentes.
Sobre este ponto sabemos que o PS reduziu muito ligeiramente a sua presença nos concelhos com candidaturas independentes. Tinha apresentado candidaturas, sempre isolado, nos 80 municípios e deixou de se apresentar em 4 municípios (nos concelhos de Oleiros e Aguiar da Beira, e na Madeira, nos concelhos de Santa Cruz e São Vicente), onde tinha somado um total 6 265 votos. O PSD reforçou a sua presença em coligações com o CDS (de 20 para 27) e reduziu significativamente o número de candidaturas isoladas (de 60 para 50 candidaturas). Deixando de estar presente em 3 municípios, em Belmonte, Góis e Grândola, onde tinha somado um total de 3 092 votos. O PCP manteve a sua ausência em 2 municípios: nos concelhos açoreanos de Calheta e Sta. Cruz da Graciosa. O CDS reforçou as candidaturas em coligação com o PSD e reduziu o número de candidaturas isoladas (de 38 para 34 candidaturas). E o BE estava ausente em 36 municípios e passou a estar ausente em 47 municípios.
A comparação das variações percentuais mostra como as diferentes forças políticas, com excepção do PCP e dos "outros" partidos (partidos sem assento parlamentar), perderam uma percentagem de votos mais elevada nos concelhos onde se apresentaram candidaturas
independentes. Essa diferença é mais significativa nas coligações PSD/CDS, que tiveram uma variação percentual negativa agravada em 33,49% – é a única força política que tinha conseguido a maioria dos seus votos, em 2009, nos concelhos onde haveria candidaturas independentes em 2013. O CDS-PP, que teve um aumento de 3,63% do seu número de votos nos concelhos sem candidaturas independentes, registou uma variação negativa de 20,38%. O BE teve mais 18.98% de variação negativa, o PS mais 11,01% e o PSD mais 5,93%. Indicadores que parecem apontar para um impacto significativo das candidaturas independentes nas candidaturas partidárias.
Quadro 53: Variações percentuais do número de votos nos partidos/coligações, concelhos sem e com candidaturas independentes
Conc. sem can. Ind. Conc. com can. Ind.
2009 2013 variação % 2009 2013 variação % PS 1410141 1291822 -8,39% 674241 543466 -19,40% PSD 937132 726233 -22,50% 333005 238337 -28,43% PPD/CDS 435752 376740 -13,54% 436677 231329 -47,03% PCP 397835 405206 1,85% 141859 147484 3,97% CDS 126954 131557 3,63% 44416 35364 -20,38% BE 104888 83350 -20,53% 62213 37632 -39,51% Outros 29537 40280 36,37% 8960 23998 167,83% IND 99527 0 -100% 126584 344896 172,46%
Nota: os votos que os partidos com assento parlamentar conquistaram em
coligação com outros partidos estão incluídos nestes valores. A este propósito interessa notar que foram atribuídos ao PS, nos concelhos sem candidaturas independentes, em 2013, mais 23259 votos, que foram conquistados em coligações que integravam igualmente o BE. Foram também atribuídos ao PSD, nos concelhos com candidaturas independentes, em 2013, mais 58787 votos, e ao CDS mais 2618 votos, que foram conquistados em novas coligações com outros partidos, mas que considerámos como candidaturas isoladas desses partidos.
Traduzindo as diferenças nas variações percentuais entre concelhos com candidaturas independentes e concelhos sem essas candidaturas em número de votos, calculámos que os diversos partidos e coligações perderam um total de 247863 votos, a mais, nestes concelhos. Para o qual quem mais contribuiu foram as coligações PPD/PSD.CDS-PP (146222 votos), PS (74206 votos) e PSD (19742 votos) – o PSD beneficia dos votos que ganhou em novas coligações com outros partidos, de que demos conta na nota do quadro anterior. Um valor que excede o número de novos votos nas candidaturas independentes (218312 votos), em linha com o que dissemos a propósito da incontornável imprecisão deste indicador.
Quadro 54: Agravamento da variação percentual em número de votos mesma variação* com independ entes** totais*** PS -56569 -74206 -130775 PSD -74926 -19742 -94668 PPD/CDS -59126 -146222 -205348 PCP 2624 3001 5625 CDS 1612 -10664 -9052 BE -12772 -11809 -24581 Outros 3259 11779 15038 totais -195898 -247863 -443761
*Mantendo-se a mesma variação que se verificou nos concelhos sem independentes. **O agravamento verificado nos concelhos com candidaturas independentes, em votos. ***Corresponde ao total da oscilação de votos verificada nos concelhos com candidaturas independentes.