Como referido anteriormente, o Sistema Turístico subentende a existência de um conjunto de elementos do lado da oferta e da procura, os quais não se afectam de modo exclusivo a um produto turístico podendo, sim, assumir maior ou menor relevo na sua estruturação. No caso dos recursos culturais, verificamos que os mesmos são visitados por pessoas com motivações bastante diferentes, tendo por base produtos turísticos tais como o Turismo de Negócios e Congressos ou o Turismo Urbano. Se os resultados apresentados no ponto anterior demonstram que há uma relação, que podemos definir como sendo natural, entre a procura turística cultural e os recursos culturais, a figura seguinte apresenta a relação entre os diversos tipos de procura e a oferta do sistema turístico.
Figura 10 – Procura turística e utilização de recursos
PROCURA
Residentes nas cidades
Residentes na região
Lazer Visitante Congresso
Negócios OFERTA Monumentos Museus e Galerias Teatros e outras salas de espectáculos Animação nocturna Estabelecimentos de restauração e bebidas Lojas Escritório s Fonte: Adaptado de Ashworth (2003) (Burtenshaw et al, 1991)
É interessante a ideia de, independentemente da tipologia considerada, todos os tipos de procura incluírem na sua visita os recursos turísticos culturais, o que não sucede com outros elementos da oferta apresentados. Podemos concluir que os recursos culturais são parte de um sistema turístico, onde uma procura com multidimensões se desloca em busca de uma diversidade de oferta num espaço geográfico reduzido, na maior parte das vezes a cidade, designando-se essa oferta integrada como o Turismo Urbano (Asworth, 2001), o
qual “tem que ser compreendido no âmbito da gestão das cidades como um todo” (Ashhworth, 2003, p.147), divergindo este conceito da tradicional associação entre este produto de cariz global e a oferta de turismo cultural nas cidades. O Turismo Urbano constitui-se por um conjunto de produtos tais como o Turismo Cultural, Turismo de Negócios e Congressos e o Turismo de Desporto (Henriques, 2003), proporcionando ao seu visitante um leque alargado de propostas devido há forte concentração de uma boa parte da oferta turística neste espaços territoriais (Agusti, 2003). Significa que o turista que visita estas cidades vai usufruir, num espaço geográfico concentrado, de toda uma diversidade de propostas, que incluem não só os recursos turísticos culturais, mas também a oferta de compras, equipamentos e eventos desportivos, os serviços turísticos, o que tornam estes espaços em locais privilegiados para concretizar uma viagem que, não deixando de ser uma forma de o turista se deslocar para algo diferente do que possui no seu local de residência, mantêm um conjunto de símbolos comuns aos que encontra no seu dia a dia, do que resulta uma sensação de segurança e facilidade de se movimentar durante a deslocação (Ejarque, 2005).
Esta sensação é especialmente importante para as deslocações de curta duração (até 3 noites), designada por city breaks29, que conhece hoje uma forte tendência de aumento, no seguimento da tendência global da Europa para a repartição de férias. O Turismo Cultural, sendo por um lado o produto chave na atracção turística para a grande maioria das cidades, tal qual referido atrás, enquadra-se como uma das ofertas do Turismo Urbano.
Outro produto turístico com forte relação com os recursos culturais é o Turismo de Negócios e Congressos, definido pela OMT como “as actividades desenvolvidas por uma pessoa na sua deslocação e permanência num local diferente do seu ambiente habitual, por motivos de negócios” (in Wotton and Stevens, 1995), contemplando vários segmentos de procura, designadamente:
- Turismo de negócios corporativo » viagens profissionais que procuram a criação ou reforço de relações comerciais com outras empresas;
29
- Turismo de congressos e reuniões, internacionalmente reconhecido sob a sigla MICE (Meeting, Incentive, Congress and Exhibition), contemplando todos os que se deslocam para participar num congresso, reunião, feira comercial ou profissional;
- Turismo de formação, que vindo a assumir uma cada vez maior independência, se pode considerar como tendo uma relação com o turismo de negócios por muitas das vezes se tratar de actividade de formação organizadas pela empresa no seu exterior (formação outdoor).30
Já referido anteriormente, um novo segmento de mercado surge associado ao turismo de negócios – turismo de incentivos – no qual se estabelece uma relação entre este segmento de procura turística e os tipos de utilização desenvolvidos por segmentos de turismo de lazer, pelo que a sua contabilização pode ser difícil.
No primeiro segmento de Turismo de Negócios referido, as actividade conexas ao motivo principal de deslocação não são significativas, embora hoje se verifique uma tendência para que os turistas de negócios regressem aos destinos acompanhados da família durante as suas férias (BTA, 2001). Este segmento de mercado é o mais relevante de todo o turismo de negócios, representando 85% do movimento turístico nesta área (Wottton and Stevens, 1995), embora outros bastante menos representativos, como o de Congressos e Reuniões, despertem hoje maior interesse para os destinos turísticos, uma vez que apresentam duas características de grande interesse para a actividade turística:
- Influência sobre a sazonalidade da procura » os fluxos turísticos deste segmento centram-se fora das épocas onde tradicionalmente existe um maior fluxo de turistas, nomeadamente entre Setembro e Novembro e Fevereiro – Maio, o que implica uma alteração da sazonalidade turística nos destinos. Os efeitos desta procura poderão ser relevantes para a consolidação e estabilidade do destino turístico;
- Receitas geradas e impactos indirectos » a procura turística de Congressos e Reuniões caracteriza-se pelo consumo de um leque alargado de produtos e serviços no destino, como sejam o alojamento, restauração, recordações, deslocações,
aluguer de espaços, programas de animação social, tendo como resultado uma despesa/média elevada e um forte impacto sobre os serviços indirectos31.
Muitas das actividade conexas aos eventos, incluem a visita a recursos culturais, o que significa que a mera existência de Centros de Congressos num local pode não ser suficiente para que os promotores e agentes intermediários optem por esse destino. Pelo contrário, a existência de recursos turísticos culturais e de entretenimento são cada vez mais relevantes nesta opção o que, face ao aumento da oferta de espaços de Congressos e Reuniões em vários destinos do mundo, acarreta uma maior concorrência entre eles, sendo que a imagem global de um destino e toda a oferta turística do mesmos serão essenciais para a captação deste mercado. A relação entre o Turismo Cultural e o Turismo de Negócios estabelecesse, deste modo, a dois níveis: enquanto produtos integrantes da oferta do Turismo Urbano e enquanto parte integrante da oferta específica de Negócios e Congressos num destino.
O que nos ressalta como mais importante neste cruzamento entre produtos turístico é a complexidade de segmentos de procura que hoje visitam os recursos culturais, os quais possuem diferentes perspectivas sobre os mesmos, provocando o desenvolvimento de diferentes suportes de interpretação, sinalização e qualificação dos serviços de apoio ao usufruto daqueles, de modo a conseguir responder às expectativas dos diferentes segmentos. O Turismo Cultural deverá ser, por isso, analisado como uma forma de organização dos recursos turísticos culturais, transformando-os em produtos culturais e integrado-os noutros produtos turísticos como são o Turismo Urbano ou o Turismo de Negócios e Congressos.
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Adaptado pelo autor de Ejarque, 2005.
31
Estudo desenvolvido no Reino Unido demonstra que os congressistas têm uma despesa média até 3 vezes superior à dos turistas convencionais.