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Como enunciado, o objetivo da presente pesquisa é examinar a questão nacional como desdobramento das contradições que movem o processo histórico na América Latina.

Neste primeiro capítulo, nos dedicamos a uma breve revisão bibliográfica sobre o tema da nação e nacionalismos revisitando bibliografia referente sobre o tema, não exclusivamente marxista, buscando destacar o caráter contraditório do conteúdo da questão nacional.

Reunimos na leitura de autores selecionados, Renan (1882), Gelnner (1983), Anderson (1983 / 1991) e Hobsbawm (1990), contribuições sobre o tema da nação e nacionalismos, a partir das quais buscamos examinar o que seria o conteúdo de movimentos nacionalistas e o caráter contraditório da questão nacional nas nações modernas.

Os dilemas da tradição marxista em relação à questão nacional são abordados por Michael Löwy em Les marxistes et la question nationale 1848-1914: études et textes (1974), reflexão que resultou, segundo o próprio autor, de um curso saudavelmente polêmico, ministrado com o cientista político Nicos Poulantzas – cujo esforço de construção de uma teoria do Estado de tipo capitalista, somou-se ao corpus teórico da escola Althusseriana dos anos 1960 e 1970.

Ao oferecer-nos um abrangente mapeamento histórico dos movimentos nacionalistas na Ásia, África, América Latina e Oriente Médio, Löwy tem como pressuposto o crescimento dos nacionalismos enquanto fenômeno que, ao menos em parte, contrapõe-se à mundialização da economia. Nesse sentido, o autor pergunta-se como os nacionalismos de tipo emancipador podem contribuir para a luta internacionalista contra o imperialismo e o capitalismo,

ressaltando, contudo, que a fronteira entre os nacionalismos é móvel, “considerando que certos movimentos são, por sua vez, libertadores e opressores ou transformam-se de democráticos em agressivos” (LÖWY, 1995-1996, p. 77).

Essa indagação de Löwy fornece-nos algumas pistas para a reflexão sobre a questão nacional, como uma questão extremamente complexa. Buscamos então examinar qual seria a contribuição da tradição marxista à reflexão atual sobre o tema, bem como à esquerda, em busca das fronteiras de resistência ao neoliberalismo e seus efeitos devastadores sobre a condição de vida dos trabalhadores no mundo todo.

Ao retomar a questão nacional em Marx e no marxismo, Löwy12 apresenta a constatação de que grande parte do pensamento marxista, em virtude do economicismo, tendeu a subestimar o papel da questão nacional bem como a importância da libertação nacional dos povos dominados ao “esquecer, negligenciar ou, ao menos, subestimar as forças opressoras que não são as de opressão de classe: nacional, racial ou sexual” (LÖWY,2000, p. 83). Se o marxismo deve ao conceito de “imperialismo” a possibilidade de evitar as armadilhas do universalismo eurocêntrico, ele não pode, “ignorar impunemente a importância das culturas nacionais ou a legitimidade da luta pelos direitos nacionais democráticos” (Löwy, 2000, p. 81)

Löwy destaca como importante contribuição da produção marxista sobre a questão nacional, a obra do austro marxista Otto Bauer Le question des nacionalitès et la social- democratie (1917), ao identificar: 1) a nação como um produto inacabado de um processo histórico constantemente em andamento, contribuindo ao combate à fetichização da nação, aos mitos reacionários da nação eterna, pretensamente enraizado no “sangue e no solo”; e 2) a caracterização de nação como comunidade de destino do autor ou comunidade de projeto. O programa de autonomia nacional cultural de Bauer era uma proposta construtiva, mas ficou restrito na prática diante do empasse frente ao direito democrático de cada nação se separar e construir um Estado independente. (LÖWY, 2001)

Feito o balanço do “sonho naufragado” da Revolução de Outubro13 com relação à

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Nacionalismos e internacionalismos: da época de Marx até nossos dias (LÖWY, 2000)

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questão nacional diante da inviabilidade do desfecho de uma livre federação socialista de repúblicas autônomas, Löwy sugere uma moral – provisória – para nortear os revolucionários com relação à questão nacional à luz da Revolução de Outubro: 1) a utopia – no sentido forte do termo – de uma livre federação socialista de nações iguais em direito, gozando de direito de separação e assegurando à minorias nacionais uma plena autonomia territorial e/ou cultural, permanece duplamente atual. Por um lado, ante os confrontos étnicos; e por outro diante das unificações neoliberais que se realizam sob a égide do capital financeiro; 2) O direito das nações à livre disposição de si próprias não pode ser subordinada a nenhum outro objeto – por mais anti-imperialista, proletário ou socialista que seja – mas unicamente limitadas pelos direitos democráticos das outras nações. Em outros termos uma nação não pode se valer da autodeterminação para negar o direito de nações vizinhas, para oprimir suas próprias minorias ou praticar a “faxina étnica” no seu território; 3) Do ponto de vista internacionalista, que é o do marxismo, as questões de fronteira, “os direitos históricos” e as reivindicações territoriais “ancestrais” são desinteressantes. O critério principal para tomar posição diante dos conflitos nacionais e das exigências nacionais contraditórias é a democracia; e 4) Os revolucionários são, via de regra – a principal exceção sendo situação de tipo colonial -, mais favoráveis às grandes federações multinacionais – à condição que sejam autenticamente democráticas – do que aos pequenos Estados pretensamente “homogêneos”. Lutarão para convencer os povos implicados, mas são estes últimos, no exercício democrático do direito à autodeterminação, que devem, em última análise, decidir por uma ou outra forma de organização política. (LÖWY, 2001, p. 63)

No texto Nacionalismo del Sur 14, LÖWY nos brinda com a possibilidade de aproximar esses dilemas da questão nacional no marxismo, a partir da experiência de movimentos de libertação nacional na Ásia, África e América Latina. Löwy adverte que os nacionalismos são “ora democráticos e emancipadores”, ora “regressivos, intolerantes, agressivos” e que a fronteira entre essas duas tendências é móvel. Indagamo-nos, então, o que os empurraria mais em um sentido que em outro.

Destacamos algumas questões que aparecem no debate travado com Michel Cahen, não

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com intuito de entrar na polêmica, mas para identificar perguntas provocativas que favorecem a nossa pesquisa sobre questão nacional. 15 1) As categorizações habituais de nacionalismos, se válidas, não seriam suficientes para exprimir a realidade dos movimentos étnico-nacionais nos terceiros mundos, por não sublinharem que o nacionalismo tanto pode exprimir sentimentos nacionais que já existem (resgate), como podem exprimir projeto de nação (futuro), em sendo nacionalismos produzidos por um movimento de massa? 2) A luta anticolonial, como a luta contra o opressor estrangeiro não poderia criar uma noção falseada de nação, a medida em que “lutas de libertação nacional” no Terceiro Mundo buscassem um objetivo impossível diante da inexistência da nação, de modo que a rigor essas lutas não seriam de libertação nacional, mas sim lutas anticoloniais? 3) Ao exaltar amplamente as virtudes do “nacionalismo anti-imperialista”, nomeadamente na América Latina, coloca-se um impasse: o nacionalismo, mesmo nas suas formas mais progressistas, é capaz de ultrapassar esses limites? Até onde o exemplo da Revolução Cubana, em que o patriotismo forneceu a base social de massa do exército revolucionário e processo de revolução permanente abrangeu nacionalistas anti-imperialistas, deu lugar à transição socialista é uma assertiva? 4) Está pressuposto um “paradigma da etapa”, como se o nacionalismo – e mesmo o anti-imperialismo – um dia deverá ser ultrapassado para ceder lugar ao universalismo socialista, ou seja, a consciência nacional ou étnica também seria a expressão de uma etapa ou uma forma da consciência de classe?

Observamos esses questionamentos entendendo que a época das revoluções nacionais está longe de terminar, e que os nacionalismos continuarão a ser um importante fator de desenvolvimento histórico no século XXI, provocando, quiçá, uma “nacionalização do mundo”. Perguntamo-nos, então: mas o que é uma nação? Nacionalismo de que tipo? Isso dependerá amplamente da capacidade ou da incapacidade dos marxistas de integrarem a questão étnico nacional no programa da democracia política.

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CAHEN, Michael. Nationalismes des Tiers Mondes: pour un débat, en response à Michael Löwy. (1999) .Esse debate tem como pano de fundo a luta supranacional reivindicada pelo Exército Zapatista de Libertação nacional de Chiapas, no México, que ao mesmo tempo que comporta uma reivindicação étnica que não aponta para o separatismo nacional, mas, para a solidariedade e mobilizações internacionais. VIDE em: LAZAGNA, Angela.

A partir dessa natureza de preocupações nos dedicamos neste primeiro capítulo a uma revisão bibliográfica de autores que são referências nas formulações sobre nação e nacionalismos para reunir elementos que nos permitam examinar o conteúdo das questões nacionais na modernidade e, posteriormente, nos próximos capítulos, examinar a especificidade da questão nacional na América Latina.

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