Embora o assédio seja praticado em qualquer ambiente laboral, favorecido pelas condições e circunstancias da própria organização, existem locais mais expostos à violência (HIRIGOYEN, 2006). Segundo a autora o assédio predomina em setores onde as atividades não são definidas, e em consequência disto, é possível culpar alguém por algo, como por exemplo, nos setor terciário, da medicina social e na educação.
Ao adentrar especificamente no setor público, para Barreto e Heloani (2015) deve-se analisar o atual modelo de gestão largamente utilizado, orientado sobretudo nos princípios da eficácia empresarial e de avaliações heterônomas, que levam a culpabilização os trabalhadores, e com isso gerar individualismo e competitividade nas relações laborais. Ou seja, o “atual” modelo de gestão é o mesmo praticado na administração científica e clássica, onde os fins eram e sempre serão a produtividade e eficácia.
No setor público o assédio pode durar anos, pois os trabalhadores são “protegidos e não podem ser demitidos” devido à estabilidade profissional, a não ser devido a uma falta muito grave (HIRIGOYEN, 2006). Por esta razão, e pela falta de ação da gestão, os danos e efeitos provocados nas vítimas, que vivenciam durante anos estas violências, são intensos. Em uma das pesquisas realizadas por Barreto (2005), os casos
com maior duração de assédio moral ocorreram em organizações públicas, nas quais 60% destas duraram mais de 3 anos.
Em levantamento realizado a partir de denúncia e procura espontânea no site assediomoral.org (organizado por Margarida Barreto e Roberto Heloani), foi constatado entre 2007 e 2012, que 69% de 2.869 trabalhadores do serviço público sinalizaram terem sido vítimas de humilhações, constrangimentos, isolamento, imposição de horários injustificados ou transferência de turno (BARRETO; HELOANI, 2015). Para os autores, situações persistentes como as mudanças de setor independente do tempo no funcionalismo, fofocas e comentários maldosos, são práticas comum no serviço público. Ainda sobre esta pesquisa, foram identificados: tempo de duração: de 1 mês a 2 ou mais anos; 78% relatou consequências como: mal estar, insônia, sentimento de incapacidade e impotência, depressão, e vontade de desaparecer; 69% a 75% das mulheres foram autoras da agressão. Dentre as situações hostis mais frequentes: 61% ignorar a presença frente dos outros; 58,5% bloquear o andamento dos trabalhos; 58,5% atribuir erros imaginários; 54% dar instruções confusas e imprecisas; 52% falar mal do outro em público (BARRETO; HELOANI, 2015).
Como o setor público está voltado para o bem público, dentro de um esquema social, os abusos que lá ocorrem parecem chamar mais a atenção. Nota-se geralmente que o assédio moral não está relacionado à produtividade, mas às disputas de poder. Neste caso, não se pode livrar as pessoas da responsabilidade, incriminando o lucro ligado ao capitalismo e à globalização, só se podendo atrelar o assédio a uma dimensão psicológica fundamental, a inveja e a cobiça que levam os indivíduos a controlar o outro e a querer tirá-lo do caminho (HIRIGOYEN, 2006, p. 125).
Desta forma, se a instituição é transparente com suas ações, punições são efetuadas quando existe o abuso. Por sua vez, o que mais se observa é exatamente o contrário, a permissividade e impunidade presente em muitas das instituições públicas brasileiras. Onde o apadrinhamento político, a rede de contatos, e o pertencimento ao grupo dominante permite ao agressor perpetuar suas ações no seu setor de domínio. Estas situações provocam, necessariamente, a desilusão do servidor público em relação ao seu trabalho, à própria imagem que ele apresentava sobre a
instituição, e isso repercute no seu desenvolvimento e trabalho, adesão organizacional, dentre outras manifestações.
Doravante, um campo muito discutido dentro da academia e que segundo Hirigoyen (2006) é um dos mais afetados pelas práticas de assédio moral é a área da educação, a qual é lócus de investigação desta tese. No setor da educação, mais especificamente no campo da pesquisa, o assédio moral é considerado um fenômeno de sobrevivência, pois poucos dentre estes conseguem alcançar algum reconhecimento ou status, enquanto os outros ficam acumulando rancor e inveja e aproveitando-se dos colegas com maior notoriedade (HIRIGOYEN, 2006).
Em algumas publicações na área de administração, tendo como base os eventos da ANPAD entre os períodos de 2001 a 2013, de 35 trabalhos sobre assédio moral, 12 apresentam como universo de análise as universidades (NUNES; TOLFO, 2015c). Entre os quais, maioria tem como foco os docentes universitários.
De fato os docentes aparecem mais nos artigos acadêmicos como sujeitos de análise, uma vez que os mesmos ou futuros docentes querem expor a precariedade e deterioração do trabalho docente, bem como a acirrada competitividade e a busca desenfreada pela produtividade presente na vida da categoria. No entanto, os técnico-administrativos também são submetidos a históricas violências dentro das instituições, uma vez que são inferiorizados por muitos docentes, como se eles fossem incompetentes, subalternos e servis a uma categoria superior (NUNES, 2011).
O Quadro 21, a seguir, apresenta algumas pesquisas e levantamentos que tem como âmbito de estudo o contexto universitário.
Quadro 21: Assédio moral: casos em universidades
AUTOR PÚBLICO SITUAÇÕES
Acosta, Salazar, Bastián (2015) México Universidade Veracruzana Docentes (77)
- 100% presenciaram alguma violência psicológica no ambiente laboral, a qual apresentava uma intensidade de média a alta (13%);
- Presença de assédio psicológico de média a alta intensidade (5,2%);
- Presença de condutas violentas generalizadas (66,2%); Barreto e Heloani (2015)28 Brasil UNB Docentes (8.000)
-15,7% queixavam-se de sofrimento expresso em exaustão emocional; sentimento de baixa autoestima profissional, esgotamento.
(continua)
28 As informações apresentadas por Barreto e Heloani (2015) são dados coletados em pesquisas realizada pela UNB.
(continuação)
AUTOR PÚBLICO SITUAÇÕES
Buéndia (2003) Espanha Universidades Espanholas Funcionários (435)
- 44,36% declararam ter sido vítimas de assédio moral;
- 66% presenciaram comportamentos de assédio; - 59,3% das ações foram perpetradas por pares; - 17,3% foram submetidos à chantagens;
- 15,8% atribuíram à inveja e ao ciúme profissional como sendo a causa do assédio;
- 11,5% acreditaram que a sua perseguição começou após solidarizar-se com terceiros;
- 6,9% foram assediados por não terem participado de comportamentos fraudulentos ou ilegais.
- 51,6% afirmaram que os seus assediadores distorciam suas palavras/escritas;
- 49,5% foram avaliados de forma injusta e negativa; - 44% foram alvos de calúnias e difamações; - 29,7% foram agredidos verbalmente; - 4,7% receberam ameaças escritas; - 2,3% sofreram agressões físicas. Caran (2007)
Brasil (IES não declarada)
Docentes (54)
- 92,6% sofreram pressão no trabalho. - 87% sentiram a sua saúde afetada;
- 38% afirmaram que a prática do assédio é comum; - 22% se consideraram vítimas;
- 32% tinham conhecimento de colega que é vítima.
Nunes (2011) Brasil UFSC Docentes (170) Técnico- administrativos (102) Não informaram (11)
- 4,6% vivenciaram situações de deterioração proposital das condições de trabalho;
- 5,1% vivenciaram situações de isolamento e recusa de comunicação;
- 3,7% vivenciaram situações de atentado contra dignidade;
- 1,4% vivenciaram situações de violência verbal, física ou sexual;
- 27,6% identificaram-se como vítimas de assédio moral;
- 70,1% foram vítimas de 2 ou mais agressores; - 45,5% dos agressores foram colegas de trabalho; - 41,6% dos agressores foram do sexo masculino; - 24,7% das vítimas prestaram queixa, formal ou informal.
- 47,7% afirmaram que a prática do assédio no ambiente universitário é comum;
- 56,3% não sabem se existem orientações aos funcionários sobre o assédio;
- 81,4% afirmaram que os treinamentos e capacitações realizadas não abordaram o assédio; - 80,6% afirmaram que não existe política ou prática de prevenção e combate ao assédio;
- 24,7% afirmaram ter conhecimento da divulgação do tema na instituição.
(continuação)
AUTOR PÚBLICO SITUAÇÕES
Soboll, Freitas e Zanin (2015) Brasil UFPR Docentes (60)
- Perseguição no ambiente de trabalho; - Ocorrência de violência psicológica; - Controle abusivo; - Condutas de discriminação. Justicia et al. (2003) Espanha Universidade de Granada Docentes (225) Técnico- administrativos (75)
- 55,3% tiveram informações ocultadas para realizar o trabalho;
- 55,3% foram subestimados em relação ao trabalho; - 46% receberam críticas sem fundamento; - 45,3% foram subestimados em relação seu esforço; - 44,7% foram excluídos/isolados socialmente; - 37% tiveram tarefas limitadas sem justificações; - 34,7% tiveram propagados falsos rumores; - 31,7% tiveram sobrecarga de trabalho;
- violência ocorrida apenas entre os docentes (47,9%);
- violência ocorrida entre docentes e técnicos (12,2%);
- violência ocorrida apenas entre os técnicos (20,9%). López-Cabarcos, Picón-Prado e Vázquez-Rodríguez (2008) Espanha Universidades Públicas da Galícia: Santiago de Compostela, Coruña e Vigo Docentes e técnico- administrativos (321)
- 53,6% tiveram sua autoestima lesionada; - 46,4% tiveram excessivo controle de trabalho; - 46,4% tiveram críticas exageradas sobre seu trabalho;
- 42,9% foram desacreditados na frente de outros; - 42,9% foram acusados de cometer erros e falhas no trabalho.
Fonte: compilado pelo autor (2016)
O Quadro 14, apresenta alguns casos de assédio moral no ambiente universitário e constatações apresentadas pelos autores. São aspectos frequentes na vida do docente e técnico-administrativo, mediante suas especificidades, identificadas tanto nas diversas regiões brasileiras quanto em outros países. Em outras palavras, muitas das situações hostis praticadas em universidades brasileiras podem ser identificadas em outras instituições ao redor do mundo, e vice-versa.
Segundo Buendía (2003) a estrutura organizacional das universidades favorecem a ocorrência da violência, uma vez que é considerada obsoleta, rígida e altamente burocratizada; permite assim muitos espaços de poder nos quais alguns assumem cargos importantes e utilizam destes para se sobreporem aos demais. O autor expõe que a universidade é um potente agente estressante devido à estas características, e acrescenta também o sistema de apadrinhamento que gera relações e vantagens para alguns, enquanto outros viram alvos potenciais, além dos espaços de impunidade que converte a submissão em
uma condição necessária para adaptar-se. Conforme destacado anteriormente, estas características identificadas pela pesquisa de Buendía (2003) nas universidades espanholas também estão presentes nas universidades brasileiras, e no serviço público brasileiro.
Por fim, é importante reconhecer que o assédio moral ocorre no âmbito acadêmico como em qualquer outra organização, ou seja, não é uma situação rara e esporádica (WESTHUES, 2015). Embora as universidades desejam ser um espaço de racionalidade, de confiança na lógica e na evidência, e de tolerância, o que é ideal e há algo de verdade nisto, está sujeita as mesmas forças e influências que qualquer outro local (WESTHUES, 2015). Forças e influências estas, internas e externas, que repercutem muitas vezes negativamente na própria cultura e práticas organizacionais e nos comportamentos e ações dos trabalhadores, favorecendo assim, a ocorrência de violências, em especial o assédio moral no trabalho.
3 MÉTODO
Com a finalidade de operacionalizar a pesquisa de forma ordenada para que os objetivos elencados fossem alcançados, foram utilizados métodos e técnicas, que serão expostos neste capítulo, com o intuito de proporcionar maior entendimento a respeito dos caminhos que foram percorridos pelo pesquisador. Deste modo, apresenta-se a seguir a caracterização da pesquisa, participantes, procedimentos de coleta de dados, procedimentos de análise e interpretação dos dados, e as limitações.