Na segunda fase da AD, como já apresentamos, iniciou-se a descentralização de como se concebia o discurso: como homogêneo. Desde que essa homogeneidade foi dando lugar às formações discursivas, o discurso passou a ser entendido como um conjunto de enunciados que não se bastava em si mesmo e que estava localizado no tempo e no espaço. Com base nisso, chegou-se ao que se caracteriza como heterogeneidade do discurso, objetivando sua composição a partir de várias questões. Vejamos:
Se a análise de discurso se quer uma (nova) maneira de “ler” as materialidades escritas e orais, que relação nova ela deve construir entre a leitura, a interlocução, a memória e o pensamento? O que faz com que textos e seqüências orais venham, em tal momento preciso, entrecruzar- se, reunir-se ou dissociar-se? Como reconstruir, através desses entrecruzamentos, conjunções e dissociações, o espaço de memória de um corpo sócio-histórico de traços discursivos, atravessado de divisões heterogêneas, de rupturas e de contradições? Como tal corpo interdiscursivo de traços se inscreve através de uma língua, isto é, não somente por ela mas também nela? (PÊCHEUX, 1993, 317. Grifos do autor).
Esses questionamentos ancoraram o que, mais adiante, foi estudado pela linguista Authier-Revuz (1990, 2004) no concernente à presença do interdiscurso. A autora se pautou nos postulados da AD e refletiu sobre esses elementos interdiscursivos que, juntos, explicitam a presença de outras vozes compondo os discursos que norteiam os textos. Dessa forma, chega- se ao que se conhece como os mecanismos linguísticos que nos permitem materializar essas reflexões.
Para explicitar os mecanismos linguísticos que determinam as inserções de outras vozes, e considerando que as heterogeneidades enunciativas são divididas em constitutiva e mostrada (esta podendo ser marcada e não marcada), nos pautamos na heterogeneidade enunciativa marcada e na afirmação de que quase nenhum discurso é homogêneo. Consideremos que “sempre sob as palavras, ‘outras palavras’ são ditas: é a estrutura material da língua que permite que, na linearidade de uma cadeia (discursiva), se faça escutar a polifonia não intencional de todo discurso” (AUTHIER-REVUZ, 1990, p. 28).
Em concordância com isso, apontamos a heterogeneidade enunciativa mostrada ocorrendo quando “no fio do discurso que, real e materialmente, um locutor único produz, um certo número de formas, linguisticamente detectáveis no nível da frase ou do discurso, inscrevem, em sua linearidade, o outro” (AUTHIER-REVUZ, 2004, p. 12). Ou seja, trata-se de um mecanismo linguístico de inserção de outro discurso de forma explícita e material em que se pode recuperar, por meio de aparatos limítrofes, exatamente o que foi pontuado como voz do outro.
Além disso, reiteramos que a heterogeneidade mostrada pode ser marcada ou não marcada. A heterogeneidade marcada diz respeito a formas explícitas que podem ser facilmente recuperadas por meio de marcas linguísticas. Exemplo dessas formas encontramos no discurso direto ou indireto, na modalização autonímica, na autonímia, nas aspas, na glosa, no itálico e na entonação. Por outro lado, existem as formas não marcadas cujo reconhecimento ou interpretação cabem ao receptor pois elas não estão explícitas no texto. Como exemplo dessa manifestação temos o discurso indireto livre, a ironia, a antífrase, a alusão, o pastiche, a imitação, as metáforas, os jogos de palavras e a reminiscência.
Nesse sentido, partimos do ponto crucial de que cada texto é proveniente de outros textos, que todo dizer é proveniente de outros dizeres. O que altera os contextos são as formas como esses outros discursos aparecem ou são organizados dentro do texto e todas essas escolhas partem das necessidades do texto em questão. O autor fará suas escolhas ancorado em suas intenções e, ao leitor, cabe não necessariamente decifrar as intenções reais dos autores, mas, buscar, linguisticamente, as intenções recuperáveis.
É importante salientarmos que não foram nas intenções em que nos ancoramos para o seguimento das análises da pesquisa, mas em formas explícitas de introduções de outros dizeres no texto, como a heterogeneidade enunciativa, que é parte primordial das análises. Apontamos, sempre, aquilo que pode ser retirado do texto não por meio de especulações, mas por vias linguísticas. As escolhas teóricas, portanto, são base para que isso seja possível.
Com base no exposto, nas análises, focamos mais precisamente no discurso direto, no discurso indireto e na modalização em discurso segundo (MAINGUENEAU, 2004). Observemos os exemplos seguintes, retirados das redações que compõem o corpus da pesquisa, atentando para as partes negritadas.
(1) “O ornamento da vida está na forma como um país trata suas crianças”. A frase do sociólogo
Gilberto Freyre deixa nítida a relação de cuidado que uma nação deve ter com as questões referentes à infância.
Em (1), a voz do sociólogo Gilberto Freyre é introduzida entre aspas e sinalizada deixando claro os limites do que é dito pelo autor da redação e do que é dito pela voz inserida. Esse mecanismo linguístico é o que se considera discurso direto.
(2) De acordo com Karl Marx, filósofo alemão do século XIX, para que esse incentivo ocorresse, criou-se o fetiche sobre a mercadoria: constroi-se a ilusão de que a felicidade seria alcançada a partir da compra do produto.
Em (2), o conteúdo explicitado pelo autor da redação é introduzido pela modalização em discurso segundo. Nesse caso, o enunciador, de forma discreta e simples, indica que não é o responsável pelo enunciado. Nesse tipo de inserção sempre haverá um modalizador, como, por exemplo “conforme”, “de acordo com”.
(3) O filósofo italiano Norberto Bobbio afirma que a dignidade humana é uma qualidade intrínseca ao homem, capaz de lhe dar direito ao respeito e à consideração por parte do Estado.
Em (3), o conteúdo explicitado pelo autor da redação é introduzido por outro tipo de mecanismo linguístico, o que é considerado como discurso indireto. Nesse caso, não se distinguem as vozes com as aspas, mas com a introdução do pensamento a que se quer fazer alusão a partir das próprias palavras do autor da redação.
Na análise das redações, foi feita a classificação e a distinção de todos os casos de discurso direto, discurso indireto e modalização em discurso segundo, além da investigação das formas como esses elementos linguísticos contribuem nas estratégias argumentativas e no desdobramento das relações intratextuais.