Como o objetivo geral da pesquisa é compreender os caminhos do ensino do lidar com a morte na APS a partir da visão de docentes do curso de graduação em medicina da UFPB, é fundamental antes termos noções sobre o que eles pensam em relação à morte. Identificar que sentimentos e ideias os docentes de medicina têm sobre a morte é contextualizar o universo de valores e atitudes no qual eles estão inseridos.
Para isso, no início das entrevistas pedimos para cada entrevistado dizer, no mínimo, três palavras ou expressões que vinham à cabeça quando pensavam em “morte”. Depois pedimos que escolhessem a palavra que consideravam a mais importante entre elas e justificassem a escolha. Ao todo foram citadas vinte e seis palavras, destas seis se repetiram. A palavra que mais apareceu foi “despedida”, seguida de “saudade”, “tristeza”, “passagem” e “fim”. Esta frequência de repetições e a citação de palavras com sentido semelhante pode configurar um núcleo comum das expressões subjetivas, dos docentes entrevistados, em relação ao assunto “morte”.
O desenho analítico a seguir resume os achados em três núcleos representativos das ideias e sentimentos dos docentes em relação à morte: despedida, cuidado e passagem/fim. O primeiro, indicando uma representação existencial e simbólica; o segundo, imprimindo a marca da concepção de cuidado, como alternativa para a concepção científica moderna sobre a morte (a morte técnica e medicalizada); e um terceiro núcleo relacionado à questão da transcendência e do pós-morte.
Vejamos abaixo trechos das entrevistas dos docentes, destacando respectivamente esses três núcleos expressões subjetivas:
É um tempo de agonia, tristeza. Pessoas que estão para chegar, pessoas que estão morrendo, pessoas que ficam e que estão acompanhando. [Fragmento de entrevista – Hermes, grifo nosso].
Cuidado porque a morte, ela é um estado especial. Ela não necessariamente causa sofrimento e tristeza. Ela pode ser um momento de um incentivo também, e isso pode ser propiciado pelo cuidado, pelo quanto à gente está dentro daquele processo ali, [...] cuidando de quem vai morrer, se cuidando, ou cuidando de outro. Pode transformar esse sofrimento, essa tristeza em vivências significativas. [Fragmento de entrevista – Apolo, grifo nosso].
[...] eu acho que a morte, ela traz pra gente um limiar da vida. Porque assim, limiar em que sentido: porque por um lado, a experiência de viver é melhor quando você vive com intensidade, com amor, com vínculo, vive em coletivo com outras pessoas, e uma pessoa vai dando sentido à vida da outra; mas por outro lado a morte é inevitável. É uma passagem que faz parte do que nós somos. Então uma hora, esse vínculo, esse amor todo vai ter um rompimento necessário, e uma partida necessária. Então, por um lado, a gente tem que mergulhar mesmo, faz parte da experiência de viver. Mas por outro é um desafio, porque uma hora ou outra você vai ter que lidar com essa partida e você vai ter que seguir em frente da melhor forma possível. [Fragmento de entrevista – Hefesto, grifo nosso].
Na tese de Silva (2006) também se utilizou a estratégia de pedir para os entrevistados nomearem palavras que lhes vinham à cabeça quando pensavam em “morte”, mas, nessa pesquisa, os entrevistados eram estudantes de diversos períodos do curso de medicina da UFRN. Comparando-se os achados da pesquisa de Silva (2006) com os nossos, feitos com os docentes, houve grande semelhança de palavras em relação à representação existencial e simbólica da morte (como: tristeza, sofrimento e saudade). Já no segundo conjunto de
MORTE PASSAGEM / FIM Eternidade Ressurreição Vida Dúvida Desafio CUIDADO Construção Cooperação Raciocínio Clínico Paz / Tranquilidade DESPEDIDA Saudade Tristeza Desespero Dor / Sofrimento Choro
palavras, houve um predomínio de palavras influenciadas pela concepção tecnicista sobre a morte no grupo dos discentes (fracasso, óbito, frustração, impotência), ao contrário do que ocorreu no grupo dos docentes onde predominou palavras alusivas a concepção de um cuidado compartilhado (construção, cooperação, paz, cuidado). Além do mais, na pesquisa com os docentes houve também uma maior alusão a palavras relacionadas à questão da transcendência e do pós-morte, ao comparar com a pesquisa feita com os estudantes.
Esta maior influência de uma concepção tecnicista da morte sobre os estudantes mostra como o paradigma biomédico é forte, desde o início do curso de graduação em medicina, e até mesmo no imaginário da maioria das famílias de onde vêm estes estudantes.
O primeiro contato com a morte na graduação de medicina é na Anatomia, onde se aprende a separar, dissecar e estudar cada órgão e pedaço de cadáveres, mas poucas vezes se cria um espaço para a expressão de emoções, perplexidades e sentimentos entre estudantes e professores. Talvez essa seja uma estratégia para desumanizar o estudante e neutralizar sua angústia frente à morte. Para Quintana et al. (2002), este primeiro contato com o morto, nas aulas de Anatomia, tem como principal objetivo suprimir todo vestígio de humano na morte, para afastar um dos mais difíceis, mas necessários aprendizados na medicina e na vida: a transitoriedade da experiência humana. Laks et al. (1999) referem-se ao curso de Medicina, como uma fase de vacinação contra a morte. As vacinas seriam: a dissecação de cadáveres nas aulas de Anatomia, as necropsias na disciplina de Medicina Legal, o treinamento e a morte na UTI. Todas elas com o objetivo de que o aluno, progressivamente, se habitue à morte não se entregando a ela.
As palavras e expressões representativas citadas pelos docentes da APS trazem uma esperança na superação do paradigma biomédico sobre a morte, ao aludirem a uma concepção de cuidado humanizado em que a emoção, a subjetividade e a ciência possam conviver. É fato que, neste momento do texto, pode parecer incipiente tal afirmativa, mas o percurso do estudo irá sinalizar para essa sensibilização e perspectiva entre os docentes que atuam no universo da atenção primária à saúde, por estarem em contato mais próximo e com a possibilidade de vinculação ao outro e a sua dor, seja no adoecimento ou na morte.
Então, como veremos no próximo subcapítulo, identificar que pressupostos teóricos e pedagógicos os docentes envolvidos na APS consideram importantes no ensino do lidar com a morte pode contribuir com um cuidado no viver e morrer mais humanizado, sensível e