John Carr nasceu no dia 28 de abril de 1723, em Horbury, perto de Wakefield – Yorkshire, West Riding – no seio de uma família ligada à arte da pedra, detentora de duas pedreiras486.
John Carr era o mais velho de nove filhos resultantes do matrimónio de Rose Lascels comRobert Carr487. O pai assumia-se como pedreiro, pois no seu testamento, lavrado em 1756, figura: “Robert Carr of Horbury in the County of York Mason”. Porém, John Carr conferiu-lhe o estatuto de arquiteto, conforme nos testemunha a obra intitulada North Riding Book of Bridges e ainda o panegírico em latim patente no monumento erigido na Igreja de Horbury488.
486 O nome da família Carr começa a aparecer nos registos paroquiais de Horbury a partir da segunda década de seiscentos. O bisavô do arquiteto, Robert Carr (1644-1689) é o primeiro elemento da estirpe a figurar como pedreiro, logo seguido pelo primogénito, John (1668-1736). Na senda da tradição familiar, também Robert (1697-1760), o filho mais velho de John, vem a ser descrito como pedreiro. A projeção do trabalho da família torna-se difícil de aferir com rigor. A única referência ao trabalho de John Carr, o avô do arquiteto, está relacionada com despesas inerentes à Wakefield Grammar
School, em 1717. Cf. WRAGG, Brian – The Life and Works of John Carr of York. York: Giles
Worsley, 2000. ISBN 0 953657426, p. 3.
487 John Carr integrava uma família numerosa. Tinha oito irmãos: Robert, pedreiro/ arquiteto (1724-77); Joseph (1727-33); David (1731-94); James of Burnstall, pedreiro, mas por vezes referenciado como
“gent” (1733-1804); Samuel, clérigo que ascende a Vigário de Finchley e Prebend de St. Paul´s Cathedral; Ursula, que casou em segundas núpcias com Richard Heaton, gent de Barlow Hall (1729-
99); Elisabeth (1738-41) e Rose (1740-41). Cf. WRAGG, Brian – The Life and Works of John Carr of
York, ob. cit., p. 4.
488 Brian Wragg coloca reservas em atribuir-lhe a designação de “arquiteto”. Robert Carr era hábil em matéria construtiva, sabia escrever cartas e riscava pequenos trabalhos. No entanto, a única prova do seu talento para o desenho reporta-se à antiga Igreja de Horbury: fora incumbido, juntamente com Thomas Goodall, de desenhar o plano da capela e de proceder a aditamentos em 1739. De qualquer modo, não deixou de ter uma trajetória profissional auspiciosa, conforme deixa transparecer o livro
The Order Books of the West Riding. Uma vez reconhecida a sua experiência e inegável talento, viria
a ocupar, à semelhança de John Watson, o cargo de Surveyor of the Riding Bridges, que era bem remunerado. O montante que auferia por cada dia de trabalho suplantava o valor médio da féria semanal de um pedreiro. Robert Carr esteve ligado à supervisão de pontes do West Riding até ao ano
A atividade da família de John Carr não se encontra muito bem documentada. Infelizmente, também escasseiam dados biográficos alusivos ao período anterior à sua consagração como arquiteto489. Não obstante, compilamos algumas informações curiosas, que passamos a relatar.
John Carr deve ter frequentado a Horbury Town School – fundada em 1710 – e abandonado a escola com cerca de catorze anos para prestar assistência ao pai, como nos indicia uma carta datada de 1787 em que refere estar associado à atividade construtiva há mais de cinquenta anos. No entanto, o teor e a apresentação das suas cartas eram equiparados às de um cavalheiro da época490.
A infância de John Carr compreende alguns episódios pitorescos. Em afirmações proferidas anos mais tarde, quando observava a construção da Igreja de Horbury, referiu ter experienciado privações. Contou que havia permanecido na cama por não dispor de outros calções, enquanto os seus eram arranjados. O seu talento precoce também está associado a um facto insólito. Quando trabalhava em Bretton Hall os trabalhadores intentavam, em vão, desenhar um pequeno edifício. Robert Carr sugeriu que deixassem o filho experimentar. Ele conseguiu resolver o problema, pelo que o plano seria materializado. Uma outra curiosidade granjeou fama. Quando John Carr, por motivos laborais, se ausentava durante a semana dividia uma tarte de carne, de forma circular, em seis partes equitativas com compasso. Assegurava uma porção para o jantar de cada dia. Frugalidade, amor pela ordem e simetria, traços essenciais a um arquiteto palladiano, podem ser deduzidos desta história491.
No dia 31 de agosto de 1746, casou com Sarah Hinchliffe. O casal nunca chegou a ter filhos, daí que John Carr cultivasse uma particular afeição pelos sobrinhos. William viria a ser o seu braço direito. As sobrinhas acompanharam-no em muitas das longas viagens, pois o arquiteto gostava de lhes mostrar o trabalho que havia feito, bem como a paisagem dos lagos e a Escócia. John Carr participou ativamente na educação dos sobrinhos. Facultou apoio financeiro, acertou casamentos e desenvolveu esforços para garantir bons empregos492.
da sua morte. Foi o responsável pela construção de uma das mais elegantes pontes de Yorkshire –
Masham Bridge, sobre o rio Ure – cujos traços podem ser frequentemente apreciados em diversas
pontes desenhadas pelo filho. Cf. WRAGG, Brian – The Life and Works of John Carr of York, ob.cit., p. 3-4 e p. 35.
489
Cf. WRAGG, Brian – The Life and Works of John Carr of York, ob. cit., p. 6. 490 Cf. IDEM, Ibidem, p. 4.
491 Cf. IDEM, Ibidem, p. 4-6.
492 Cf. IDEM, Ibidem, p. 6 e p. 81; HEAPE, Robert – Georgian York: a sketch of life in Hanoverian
Por volta de meados do século XVIII, John Carr começou a afirmar-se como um promissor arquiteto do Yorkshire. Contrariamente ao pai e aos irmãos Robert e James, ele não estava resignado com o exercício de um mero posto de pedreiro ou empreiteiro. Por isso, ciente da sua habilidade e em busca de novos horizontes, decidiu trocar Horbury pela capital do condado, onde pretendia angariar uma vasta clientela, uma vez que York era o mais importante centro social do norte da Inglaterra. Além disso, gozava de um forte dinamismo comercial, sendo detentor de uma vasta área de influência493.
Desconhecemos a data precisa em que John Carr fixou residência em York. Todavia, podemos afirmar que em outubro de 1751 comprou uma casa em Skeldergate pelo valor de £180494. No ano seguinte, solicitou o estatuto de homem livre da cidade, requisito necessário para aí poder exercitar a atividade, conforme nos testemunha um registo datado de 9 de julho de 1752. Por essa ocasião construía o
Pikeing Well para a Corporação de York, que devia encerrar uma fonte medicinal. Ingressa no rol de homens livres como “Mr John Carr, Stonecutter by order”. A designação de canteiro traduz possivelmente o seu ramo de negócio assim que chega a York495.
John Carr começou a praticar arquitetura em York numa época favorável aos negócios e à atividade construtiva. A nobreza terratenente sentia especial apreço pela moda, procedendo à aquisição de obras de arte e à encomenda de planos para construir ou remodelar residências. Os mercadores e manufatureiros que acumulavam avultadas fortunas procuravam adquirir a dignidade que não tinham herdado, cultivando o garbo dos aristocratas e o seu gosto pelas artes, nomeadamente, por gravuras, pela estatuária e pela literatura. A nova elegância devia ser materializada de forma conveniente na habitação. Por conseguinte, podemos encontrar diversas casas da autoria do arquiteto, com diferentes dimensões, em praticamente todo o condado de Yorkshire496.
493
Cf. WRAGG, Brian – The Life and Works of John Carr of York, ob. cit., p. 13; KITSON, Sidney– Carr of York. Journal of the Royal Institute of British Architects. London: RIBA. 3.rd. series, vol. XVII, n. º 6 (1910), p. 243.
494
John Carr permaneceu em Skeldergate durante a vida ativa. O incremento do seu estatuto social e da sua fortuna levou-o a construir, em 1765-66, uma nova residência nessa importante artéria, situada na margem ocidental do rio Ouse [cf. WRAGG, Brian – The Life and Works of John Carr of York, ob.
cit., p. 13 e p. 25]. O arquiteto optou por se fixar em York. Afigura-se uma decisão estratégica, uma
vez que lhe proporcionou uma excelente carteira de clientes capaz de o manter sistematicamente ocupado. Cf. JOHNSON, Francis Frederick – John Carr of York, architect 1723-1807, ob. cit.,s/p. 495 Cf. WRAGG, Brian – The Life and Works of John Carr of York, ob.cit., p. 13. Imagem disponível em:
http://www.friendsofnewwalk.org.uk/img/design/tour/6_photo.jpg [acedida em 2012-03-04].
496 Cf. HEAPE, Robert – Georgian York: a sketch of life in Hanoverian England, ob. cit., p. 96; WRAGG, R. B. – John Carr of York. [Leeds: West Yorkshire Society of Architects], 1957-1958, p. 8.
Traços da personalidade, talento e sorte fomentaram o sucesso do arquiteto. John Carr era um homem inteligente, agradável, otimista, competente, talentoso, destemido e correto nos negócios497. Era apaixonado por equídeos e um frequentador assíduo de corridas, designadamente das York Races. Por conseguinte, teve o ensejo de entrar em contacto com Lorde Rockingham – um dos grandes impulsionadores da construção do Grand Stand, em Knavesmire – que nutria igual paixão por cavalos. Assim, com apenas trinta e um anos, foi comissionado para desenhar a obra. A qualidade do trabalho ditou então o início da sua sorte498.
O arquiteto encetou uma fulgurante carreira profissional que promoveu a sua ascensão social, tendo sido impelido a participar de forma ativa na vida municipal e política de York499. A entrega de Carr ao trabalho não o ilibou do exercício das obrigações que recaiam sobre ele como cidadão de York e membro da sua ancestral municipalidade. Em 15 de janeiro de 1766, foi nomeado city chamberlain. No ano seguinte, foi eleito city sheriff. Nessa altura, preferiu entregar £70 para ficar dispensado do posto, uma vez que andava muito ocupado. Todavia, não declinou o cargo de alderman and justice of the peace – vereador e juiz de paz – cuja taxa de isenção era muito superior, prestando juramento em 7 de junho em 1769. No ano seguinte, ascendeu à categoria de lord mayor e no dia 3 de fevereiro de 1770 ocupou a respetiva residência oficial. Em 1785, voltou a ser eleito no seguimento da morte do titular de então. O arquiteto atingiu o patamar da notoriedade pública, obtendo um leque ainda mais abrangente de potenciais clientes. No entanto, as exigências da vida cívica eram demasiado absorventes e condicionavam os seus negócios. John Carr integrou comissões com responsabilidades no processo de modernização e embelezamento da cidade tirando partido dos seus conhecimentos arquitetónicos e emitiu pareceres sobre distintas matérias. Em 1798 protagonizou uma tarefa verdadeiramente difícil: encabeçou um comité incumbido de averiguar a ação de um colega – alderman Richard Hobson – acusado de empregar a maior parte dos materiais resultantes da demolição de edifícios em benefício próprio500.
497 Cf. JOHNSON, Francis Frederick – John Carr of York, architect 1723-1807, ob. cit.,s/p. 498 Cf. HEAPE, Robert – Georgian York: a sketch of life in Hanoverian England, ob. cit., p. 98. 499
A eleição para cargos cívicos indiciava o grau de sucesso alcançado. Os indivíduos só podiam esquivar à nomeação mediante o pagamento de uma taxa.
500 Cf. DAVIES, Robert – A memoir of John Carr, Esq., formerly of York, Architect [reprinted from the Yorkshire Archaelogical Journal, vol. 4 (1877), p. 202-203], p. 6; WRAGG, Brian – The Life and
O exercício de cargos oficiais extravasou a cidade de York. Em 1786 foi indigitado Juiz de Paz do West Riding. De igual modo, desempenhou funções como magistrado no North Riding501.
Existem testemunhos escritos alusivos ao envolvimento político de John Carr e à simpatia nutrida pelos Whig até ao final da sua vida. Aferimos que a esmagadora maioria dos clientes do arquiteto pertencia à fação dos Whig. Com efeito, os seus grandes patronos aristocráticos eram líderes desse partido. Entre eles, figuram os nomes de Devonshire, Portland, Rockingham e Fitzwilliam. John Carr perfilhava os mesmos ideais políticos502.
Carr era membro do Rockingham Club fundado pelo Marquês de Rockingham, que havia vislumbrado as potencialidades políticas de York enquanto baluarte da causa dos Whig. No dia 3 de junho de 1754, ocorreu uma reunião do Rockingham Club que contou com a afluência de 133 membros, que eram cidadãos influentes de York: homens de negócio, líderes civis e eclesiásticos, e elementos da nobreza rural. O nome do arquiteto consta dessa listagem. As sessões orientadas por Rockingham eram sobejamente concorridas. Quando não comparecia, os trabalhos eram conduzidos pelo vice-presidente nomeado para o efeito. Em janeiro de 1779, a vice-presidência foi ocupada por John Carr. Após a morte de Rockingham, em 1782, o cargo de presidente passou a ser desempenhado pelo conde Fitzwilliam, sobrinho do Marquês. John Carr marcou presença na reunião de 9 de outubro desse ano para manifestar o seu apoio e, astuciosamente, continuar a desfrutar dos préstimos do clã503.
A atividade política de Carr também está vinculada à Yorkshire Association, estabelecida com o intento de permitir a expressão de ideias livres e isentas da influência aristocrática. Manifestava preocupações com a autoridade crescente e inconstitucional por parte da coroa e preconizava uma verdadeira reforma parlamentar. No entanto, o arquiteto deixaria de participar na Yorkshire Association, na sequência do teor de uma longa carta redigida por Rockingham, a quem reverenciava profundamente. O Marquês aproveitara, ainda que de forma subtil, para colocar sérias reservas a propósito dessa associação, na medida em que constituía uma ameaça latente, com capacidade para abalar o poder que detinha na região504.
501 Cf. WRAGG, Brian – The Life and Works of John Carr of York, ob. cit., p. 28. 502 Cf. IDEM, Ibidem, p. 40-43.
503 Cf. IDEM, Ibidem, p. 28-30. 504
As convicções políticas de John Carr não o impediram de conservar uma agenda de trabalho copiosamente preenchida no domínio da arquitetura. Ele não precisou de publicar anúncios, não sentiu necessidade de dedicar livros a potenciais mecenas, nem de elaborar volumes elegantes para angariar clientes. Apenas incluiu alguns dos seus desenhos na obra Vitruvius Britannicus. O sucesso que animou a longa carreira do arquiteto parece resultar da conjugação de distintos aspetos. Desde logo, a ligação a Kirby Hall, desenhado por Lorde Burlington, conferiu-lhe um estatuto profissional invejável. Começou a trabalhar numa época desprovida de supervisores competentes e marcada pelo incremento da atividade construtiva. Acresce referir a sua competência, entrega, disponibilidade para viajar, entusiasmo e manutenção do grupo de contactos505. John Carr angariou muitos clientes, em virtude da estima e confiança que o marquês de Rockingham depositava na sua pessoa. Apresentou-o aos amigos, designadamente aos Duques de Devonshire, Portland e Kingston, que recorreram aos serviços do arquiteto. Brian Wragg admite que esta amizade possa estar na base do pedido formulado pelo rei de Inglaterra, no ano de 1769, para ver o projeto elaborado por John Carr para o novo hospital da Misericórdia no Porto506. De facto, o arquiteto, numa carta dirigida a D. António de Lancastre, com data de 7 de agosto de 1769, referiu o interesse manifestado pelo monarca, que ouvira falar sobre a matéria por intermédio de um aristocrata – que talvez possa ser Rockingham – das suas relações:
“(...) a design which the King of England has seen with admiration and approbation, he desired to see it, having heard so great an account of it and of the noble founder Don Antonio de Lancaster from a great many noblemen of my acquaintance, who waited of me to see the designs and the general instructions which your Lordship sent me from Dr. Wood”.
“ (...) planta essa que o Rei de Inglaterra viu com admiração e aprovação. Quis vê- la, pois muito ouvira falar dela e do Nobre Fundador D. António de Lencastre e muitos nobres do meu conhecimento que muito desejosos estavam de ver os planos e as instruções gerais que Vossa Senhoria me mandou pelo dr. Wood”.
Cf. A.H.S.C.M.P., Secção D, Banco 1, Livro n.º 1, s/fls. Tradução transcrita de TAYLOR, René – John Carr
e o Hospital de Santo António do Porto, ob. cit., p. 7.
Nesta época, um indivíduo que idealizasse um projeto bem sucedido podia ampliar a sua carteira de clientes. Seria prontamente apresentado a um vasto número de pessoas, em virtude da natureza gregária da aristocracia rural, que marcava uma forte
505 Cf. IDEM, Ibidem, p. 33. 506
presença nas assembleias e nas corridas de cavalos, e das relações familiares alargadas. John Carr enquadra-se neste cenário. Trabalhou para Edwin Lascelles. Logo foi contratado pelo irmão e pelos primos. Lascelles tinha ligações com a família Roundell que, por sua vez, estava relacionada com os Beilby Thompsons e Lane Foxs. Todos eles requisitaram os préstimos do arquiteto 507.
John Carr trabalhou para grandes proprietários rurais, mas também para homens de negócio do West Riding como, por exemplo, George Green, Samuel Shore, Sir Henry Ibbetson, Jeremiah Dixon, entre outros. Estes contactos valeram-lhe encomendas. Esteve ligado ao Hollis Hospital, em Sheffield, por intermédio de Samuel Shore, à Leeds General Infirmary e a reparações empreendidas na Igreja de Saint John, em Leeds, graças a Jeremiah Dixon508.
John Carr praticou arquitetura numa extensa área geográfica, que ultrapassou os limites do território nacional estendendo-se à vizinha Irlanda e ainda a Portugal509. Todavia, a esmagadora maioria do seu trabalho está concentrada em Yorkshire, principalmente no West Riding, desde Leeds até Sheffield. A oeste dos Montes Peninos, desenvolveu a sua atividade em Lancashire, Cheshire, Cumberland e Westmorland. No Norte, obteve algum êxito no condado de Durham, mas não conseguiu chegar às classes que acumulavam fortunas resultantes do setor industrial ou da exploração mineira, conforme sucedera no West Riding. No sul de Inglaterra, o volume da obra de John Carr não é muito significativo. Além disso, resultou das suas ligações ao norte. Trabalhou, por exemplo, em Basildon Park para Sir Francis Sykes, que era natural de Yorkshire; em Milton House, perto de Peterborough, propriedade do conde Fitzwilliam; nos estábulos em Courteenhall, encomendados por Sir William Wake, cuja mãe e mulher eram provenientes de Yorkshire. O arquiteto esteve mais ativo nos condados imediatamente a sul de Yorkshire, tais como: Lincolnshire, Derbyshire e, sobretudo, Nottinghamshire, onde contou com o patrocínio do Duque de Portland. Na Escócia empreendeu apenas três projetos que não lograram êxito. Na Irlanda, graças aos contactos que detinha no norte de Inglaterra, conseguiu algumas comissões: Coolattin House e Flannel Hall, em Rathdrum, para o conde Fizzwilliam; Sessions House, em Lismore, para o duque de Devonshire; um obelisco e mausoléu, em Armagh, para o arcebispo de Armagh, natural de Yorkshire, Richard Robinson. Curiosamente, Portugal
507 Cf. IDEM, Ibidem, p. 43. 508 Cf. IDEM, Ibidem, p. 43-44.
509 Cf. The Works in Architecture of John Carr. A list prepared by the York Georgian Society. York: Sessions of York, 1973. ISBN 0 900 657 19 7, iii.
proporcionar-lhe-ia a maior e mais surpreendente comissão de toda a sua longa carreira: o risco do Hospital de Santo António, na cidade do Porto que detinha uma longa tradição inglesa510.
John Carr enfrentou algumas contrariedades. A aristocracia britânica perspetivava a atividade construtiva como uma agradável e moderna forma de lazer. Tinha por hábito solicitar planos a diversos arquitetos, antes de enveredar por uma solução. Em Harewood, Edwin Lascelles consultou, pelo menos, quatro arquitetos. John Carr participava neste tipo de desafios. Apresentou, à semelhança de Adam, Lancelot Brown, Thomas Atkinson e Thomas Lightoler, desenhos para remodelar Burton Constable Hall. No entanto, as propostas de Thomas Lightoler seriam aceites, em detrimento de todas as outras. Em Platt Hall, perto de Manchester, este arquiteto voltou a suplantar John Carr e William Jupp. Dez anos mais tarde – por volta de 1770 – Charles Hotham encomendou desenhos para a nova Dalton Hall a John Carr, William Middleton e ainda a Thomas Atkinson. Este último seria o autor do risco eleito511.
A vasta relação dos trabalhos desenvolvidos por John Carr comprova a supremacia do arquiteto na região de Yorkshire. O número de comissões angariadas pelos rivais era diminuto. Thomas Atkinson, que era o seu principal émulo em York, detinha pouco mais de vinte. Muitas delas haviam sido requeridas pela nobreza católica do condado, um mercado que dominava mercê da sua conversão ao catolicismo romano. William Belwood reuniu somente seis. Entre os restantes concorrentes figuram William Middleton, Robert Corney, John Foss e John Platt. Todavia, não eram propriamente arquitetos512.
Ainda que fosse um arquiteto de província, John Carr conhecia bem a capital do reino. A partir dos finais da década de setenta, costumava visitar Londres anualmente –