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Africa and Prospects for 2006

1.7 Conclusion and policy recommendations

Como se pode observar, o conflito e a contradição e a união de opostos são colocados no filme Superoutro a todo momento. Segundo Mullahy (1965), a neurose se dá pelo conflito entre o recalque e o desejo.

Superoutro vive esse conflito entre seus desejos sexuais, a profanação dos objetos sagrados e a culpa o tempo todo.

A profanação presente em Superoutro também é marcante no segundo filme de Navarro, O rei do cagaço, em que o personagem defeca em monumentos tradicionais e históricos considerados sagrados. Em Superoutro, o personagem rouba, em uma missa na Igreja do Bonfim, o colar de uma mulher que está rezando. Ele foge até a beira do mar, onde oferece o colar a Iemanjá. Não apenas a religião, mas o dinheiro, considerado sagrado na nossa sociedade, é profanado, como na cena analisada no primeiro capítulo (item 1.2), na qual Superoutro encontra 500 cruzados e gasta tudo em tangerinas.

O fato é que tudo que é considerado sagrado, bom, ou valorizado na nossa sociedade é profanado, negado em Superoutro. O personagem joga fezes em um homem, que parece ser o que se considera um “homem bem de vida”, um playboy, que veste terno e gravata, anda em um bom carro, e ouve o rádio em alto volume no trânsito da cidade. Superoutro também profana quando assusta um trabalhador, bem vestido, com roupa social, que caminha pela rua durante a noite. Superoutro, fantasiado com sacos plásticos, que parecem asas de morcego e uma pintura vermelha no rosto, cantando Guita, de Raul Seixas, se esconde atrás de uma escada e, quando o homem passa, sai correndo e gritando atrás dele.

No entanto, a culpa caminha junto a tais profanações. O diretor contou que, quando realizou O rei do cagaço, lhe veio o sentimento de que o filme era diabólico e que deveria queimá-lo por isso: “Falei: vou queimar isso, porque, se sou um diabólico, vou ter que cumprir o meu destino” (NAVARRO, 2017). Em Superoutro, o personagem expressa seu sentimento de culpa em uma cena que tem uma crise com as vozes que o perturbam, queima revistas pornográficas e grita: “Arrependei-vos!”.

A culpa é apresentada no texto de Freud, discutido por Mullahy (1965) sobre a teoria da tribo primordial, existente em um período remoto, em uma pequena

comunidade, onde havia um pai dominador e violento que mantinha todas as mulheres para si e expulsava os filhos adolescentes. Um dia, os filhos se reuniram para matar o pai dominador. No entanto, após sua morte, passam por um sentimento de culpa e criam a imagem de um animal para se livrar desde sentimento. Esta seria a origem do Totem.

Compreende-se, na teoria de Freud, que a sociedade surge de um gesto criminoso e de cumplicidade, pelo ato criminoso em comum. A religião, assim, surge pelo sentimento de culpa e remorso, assim como a moral e a ética.

A culpa de Superoutro estaria relacionada a esse sentimento fundante da religião? Estaria relacionada à moral e à ética? A culpa é que faz o personagem entrar em crise? Qual seria a intenção do personagem ao profanar elementos sagrados?

Em Elogio à profanação, Agamben (2010) aponta a relação entre o sagrado e o profano. Sagrado é tudo aquilo que foi separado dos homens e pertence aos deuses. A profanação, então, seria restituir o que foi separado ao uso livre dos homens. Para esse autor, não há religião sem separação, e tudo que separa contém um núcleo religioso.

O termo religião, assim, não viria da palavra religare – o que liga o homem ao divino –, mas relegere, que significa o reler perante as formas, que se deve respeitar a separação entre o divino e o profano. Assim, religião não se opõe à incredulidade, mas a uma atitude livre diante das normas.

A passagem do sagrado para o profano pode ocorrer por meio de um reuso de algo sagrado, como o jogo que vem de rituais sagrados e é reusado de forma a desviar e libertar a humanidade do sagrado. O que foi profanado perde a aura e é restituído ao uso. Essa operação é política, desativa os dispositivos de poder e devolve ao uso comum (AGAMBEN, 2010).

Tratando de O capitalismo como religião, de Walter Benjamin (2013), Agamben (2010) aponta que o Capitalismo representa o fenômeno religioso que se desenvolve de forma parasitária a partir do Cristianismo. No entanto, o Capitalismo não tende para a redenção ou para a expiação da culpa, ele é a própria culpa e tende não para esperança, mas para o desespero “não tem em vista a transformação do mundo, mas a destruição do mesmo” (AGAMBEN, 2010, p. 70).

No Capitalismo, a estrutura de separação se dá de forma distinta. Como mercadoria, a separação é feita na própria forma do objeto, valor de uso e valor de troca. Tudo que existe é dividido em si mesmo e deslocado para uma esfera do consumo, separada, na qual o uso se torna impossível. O que não é possível ser usado é entregue ao consumo ou ao espetáculo, tornando impossível a profanação, se esta significa restituir o uso comum (AGAMBEN, 2010).

Agamben (2010) afirma que a separação se dá também no corpo, como a repressão e separação de suas funções, como é caso da defecação, isolada e escondida, pela proibição. O que seria profanar a defecação? Não seria encontrar nela sua naturalidade, mas sim sua forma transgressora. Para Agamben (2010), é preciso encontrar em todos os dispositivos as possibilidades de uso, encontrar a profanação do improfanável.

Superoutro encontra uma forma de profanar a defecação, como um ato que profana elementos sagrados. O Capitalismo é profanado por ele, por meio da relação que se reestabelece ao uso do dinheiro, e mesmo a forma de vida e a linguagem no sistema capitalista são profanadas. O personagem dá um outro uso à vida e à linguagem. Neste sentido, a culpa do personagem está ligada na intersecção de seu meio, a moral e a religião e o próprio sistema ao qual o personagem deveria se adaptar.

Como louco e poeta, Superoutro não respeita as regras sociais e do sagrado, o que não significa que não tenha fé em um mundo espiritual, mas sim que busca fazer o uso livre do que é considerado sagrado, frente às normas. O personagem incorpora este duplo, entre culpa e profanação, pois não nega ambiguidades, e, como vimos nas discussões de Cooper (1975), as contradições não devem ser negadas, pois elas são a chave da transformação.