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Spectroscopie multidimensionnelle rapide pour les spectres parcimonieux

8. Conclusion et perspectives

Os estudos teóricos de Joan Scott1 sinalizam pensar as diferenças mesmo em se tratando dos estudos das

mulheres, sugerindo evidentes distinções para as que pertenciam às camadas aristocráticas e as que integravam as camadas populares. As mulheres que faziam parte da aristocracia – como rainhas ou nobres – usufruíam de um padrão de conforto diferenciado, sem a preocupação com o trabalho forçado; já as mulheres das camadas populares, portanto, as que trabalhavam na agricultura, na criação de animais, nas oficinas artesanais no campo ou na cidade tinham um modo de viver distinto, uma vez que a luta pela sobrevivência dava uma tonalidade particular ao seu cotidiano. Mas no universo das relações simbólicas, em suas manifestações com o sagrado, como isto ocorria? O trabalho constante e a luta pela sobrevivência impediam às mulheres pobres de terem acesso à vida religiosa? O formalismo dos gestos da vida de corte seria enfadonho para as mulheres aristocráticas e as impelia em busca de outras razões para o sentido da vida mais plena? A vida virtuosa exerceria uma atração distinta para as mulheres em uma determinada época? A problematização das relações de gênero trazidas por Joan Scott sugere pensar a mulher em várias épocas e suas diferenças em relação à classe, etnia, religião, entre outras categorias. Aos estudos de Scott, somaram-se os desdobramentos da Nova História – novos objetos, novas abordagens e novos problemas – bem como as contribuições da História Cultural e suas aproximações com a Literatura, Antropologia e História das Religiões, motivando historiadores e historiadoras a se empenharem na escrita da “história a contrapelo” ou em aderir ao aceno do anjo de Paul Klee, em “libertar os oprimidos dos escombros” para dar voz aos excluídos, em que se evidenciam as mulheres também em suas relações com o sagrado.2 Assim, recuperar a história das mulheres religiosas, como monjas ou freiras confinadas nos conventos,

em diferentes períodos da história do Ocidente, significa recuperar trajetórias remotas e mergulhar em documentos oficiais – uma vez que as fontes da história feminina são mais limitadas que as masculinas. Também no universo religioso, os homens foram e são os que escrevem e fazem a história. As mulheres, que se dedicavam à escrita, eram as rainhas, princesas ou membros das famílias aristocráticas, porém, em proporção desigual, se comparada aos homens. Além disso, seus testemunhos nem sempre eram reconhecidos como verdadeiros pela Igreja, pois dar autoridade às mulheres significava também reconhecer suas potencialidades, gerando possibilidades

perigosas para o campo das relações de poder que sempre estiveram presentes no mundo religioso oficial. A leitura dos textos – em suas entrelinhas, nos cochilos de seus autores e em suas omissões – revelou que, desde o tempo dos Pais do Deserto – Antão, Pacômio e Basílio –, as mulheres compartilharam das experiências religiosas masculinas, seguindo uma regra, recitando salmos ou fazendo jejum, portanto, praticando um conjunto de rituais que dava significado ao cotidiano e as enlevava em busca do sagrado. Até que ponto elas tiveram iniciativas próprias ou seguiram plenamente as orientações masculinas, ainda é um campo a ser investigado uma vez que somente os discursos masculinos eram reconhecidos como verdadeiros e legítimos. Mas as mulheres também tentaram fazer experiências de isolamento no deserto, como faziam os eremitas,3 mas foram combatidas, pois não podiam

expor seus corpos como a pobreza das vestimentas, nem se mostrarem desprotegidas na solidão das cavernas onde bandos de aventureiros estavam sempre presentes confundindo as intenções. Se elas pressionavam ou demonstravam iniciativas por experiências semelhantes as dos homens, os textos apontam que por volta do século V, na Europa Ocidental, houve uma intensidade na criação de conventos femininos para abrigar as mulheres, na condição de mães, irmãs, tias, cunhadas dos fundadores monásticos. Jovens, idosas ou viúvas, as mulheres eram acolhidas em espaços para se encaminhar para uma

vida virtuosa, longe das maldades provocadas pela traição, incesto, nascimentos de filhos bastardos que incomodavam as famílias nobres, cuja linhagem necessitava de preservação: Nas moradias aristocráticas, a mulher do senhor acolhia os hóspedes. Tal como rainha [...] cuidava das reservas da casa, do tesouro. Incumbiam-lhe armazenar todas as prestações, todas as oferendas e prever a respectiva redistribuição. Dirigindo um esquadrão de servidores masculinos, ela mantinha contactos cotidianos com o chefe deste serviço, o camareiro. Que tipo de relações podia ela ter com tal homem no retiro secreto, obscuro, onde se achotavam as provisões, as jóias, os instrumentos e os atributos do poder?[...] O pior era que se ela fosse fecundada por um outro que não o marido, que filhos de outro sangue que não o do pai, o do senhor, viessem um dia a usar o nome dos antepassados dele e a recolher a sua herança.4 O movimento de edificação dos

conventos e mosteiro foi lento até o século X, quando se acentuaram as iniciativas, generalizando-se o ingresso das mulheres nesses espaços, incluindo-se então, as que tinham vocação e as que não demonstravam nenhum perfil para a vida reclusa. Neste sentido, os mosteiros e conventos tornaram-se espaços conflituosos e tensionados pela rebeldia de mulheres que não aceitavam as condições a elas impostas. A essa rebeldia a Igreja respondeu com a intensificação do rigor do confinamento. Mulheres enclausuradas tinham acesso aos familiares ou aos cultos por corredores infinitos

– verdadeiros labirintos – isoladas do mundo e do convívio como amigos ou familiares. Esta recuperação histórica é necessária, uma vez que se construiu um pensamento generalizado sobre os lugares femininos e as condutas das freiras e das monjas como sendo espaço piedoso de mulheres resignadas, infelizes, desapontadas nas iniciativas mundanas ou sem êxito nas relações amorosas. Seria possível que uma mulher bela e bem-sucedida nas relações amorosas buscasse a renúncia destes prazeres para viver a solidão da clausura ou o silêncio da cela? Os estudos revelam que no percurso do castelo ao mosteiro ocorreram oportunidades de a mulher da nobreza demonstrar sua capacidade de gerenciar uma unidade religiosa também no seu potencial administrativo, o que conferia às mulheres, com tal iniciativa, o título de abadessa. Além de demonstrar o sucesso de um negócio como unidade econômica, ocasião em que poderiam estabelecer acordos com os homens, cunhar moedas, participar das feiras, elas também experimentavam a autonomia o que não encontravam em nenhum outro espaço. Por isso também entendia da leitura e da escrita. No interior das abadias e das celas, as mulheres buscaram a transcendência da condição feminina a elas imposta pelo clero masculino. No silêncio da clausura, elas podiam estudar, ler, escrever, pesquisar e criar, como afirmava Virginia Wolf, ter “um teto todo seu”. Ao mesmo tempo elas reproduziam as relações de dominação existente na sociedade em geral. Monjas

afortunadas eram coroadas como rainhas no interior dos conventos, traziam suas servas para realizar os serviços pesados. Mulheres pobres, que desejavam ascender à vida monástica, costumavam participar do coro nas últimas fileiras, pois não tendo acesso à leitura e à escrita não tinham com ler as antífonas e salmodiar. Tais questões percorrem as intenções deste trabalho de pesquisa, dialogando com as produções historiográficas do tema, com as publicações de biografias hagiográficas e com as possibilidades de levantamento de perfis de mulheres, cujas atuações salpicam em documentos e textos diversos, por vezes econômicos em dados, mas que merecem um exercício de perseguição por parte dos historiadores. Antenada na diversidade – mulheres aristocráticas ou mulheres comuns – a pesquisa centra suas preocupações nas tentativas femininas de criar uma regra, fundar um mosteiro, construir uma comunidade, sair pelo mundo afora para pregar o evangelho, criando um roteiro de vida de oração, reconhecidas, controladas ou ignoradas pelo público masculino. Régine Pernoud dialoga com as fontes para esta recuperação e sugere ampliar o olhar sobre a tipologia das fontes: Seria indispensável pesquisar não somente as coleções sobre os costumes ou os estatutos das cidades, mas também, os cartulários, os documentos judiciários ou, ainda, os inquéritos [...] colhidos na vida cotidiana, mil pequenos pormenores colhidos por acaso e sem ordem preconcebida, que nos mostram homens e mulheres

através dos menores atos de sua existência: aqui a queixa de uma cabeleireira, ali a de uma salineira [...] de uma moleira, da viúva de um agricultor, de uma castelã, da mulher de um cruzado, etc. É por documento deste gênero que se pode, peça por peça, reconstituir, como em um mosaico, a história real. Ela nos parece aí, é inútil dizer, muito diferente das canções de gesta, dos romances da cavalaria ou das fontes literárias que tão freqüentemente tomamos como históricas!5 Na construção desta história, há

que se estabelecer um constante diálogo com as fontes oficiais e com a diversidade de materiais que se colocam à medida que novas perguntas se formulam a partir da retomada das relações que se estabelecem

entre homens e mulheres em suas manifestações com o fenômeno religioso e as práticas instituídas por estes atores distintos, seus confrontos, parcerias, alteridades e reconhecimentos mútuos.

Palavras-chave: história; religiosidade; gênero.

1 SCOTT, Joan. História das mulheres. In: BURKE, Peter. A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: UNESP, 1992.

2 BENJAMIM, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasil- iense, 1985.

3 BERLIOZ, Jacques. Monges e religiosas na Idade Média. Lisboa: Ter- ramar, 1994.

4 DUBY, Georges. O cavaleiro, a mulher e o padre. Lisboa: Dom Quixote, 1988, p. 37.

5 PERNOUD, Régine. O que não nos contaram sobre a Idade Média. Rio de Janeiro: Agir, 1994, p. 114-115.

ENTRE O CORPO E O DESENHO