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Como proposto na introdução, trazemos que diversos motivos são possíveis de figurarem como explicações complementares à escassez de guerras interestatais na América do Sul. Realistas e neorrealistas olhavam para nossa localização geopolítica, para nosso grau de isolamento de influências e de guerras extrarregionais e para a presença da hegemonia britânica e, posteriormente, estadunidense como fatores de estabilidade. Essa lente de análise traz que havia a emergência de balanças de poder relativamente autônomas, sobretudo Brasil-Argentina-Chile, assim como outros elementos geográficos que limitavam a empresa da guerra no subcontinente (HURRELL, 1998), como ausência de meios de transporte, fronteiras que estavam longe das concentrações populacionais e econômicas, além de elementos físicos de difícil transposição como a Floresta Amazônica ou a Cordilheira dos Andes.

Outro motivo complementar vem desde período das independências, no século XIX, quando as elites sul-americanas, embebidas em um interesse de manter as potências europeias afastadas da política sul-americana para manutenção de seu próprio poder nascente, evitavam guerras, porque isso seria um ponto de fragilização regional atrativo à intervenção e aos interesses econômicos e políticos das potências europeias no subcontinente (HALPERIN-DONGUI, 2005).

Esse fator dos interesses convergentes do imediato pós-independência, embora seja um motivo pelo qual teóricos com abordagens em Sociedade Internacional e no construtivismo poderiam trabalhar que a América do Sul desenvolveu uma experiência

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cultural e histórica partilhada, produtora de uma cultura diplomática, é frequentemente pouco explorado em literaturas seminais; como por Andrew Hurrell em An emerging security community in South America?, um capítulo de Security Communities, de 1998. Hurrell toma essa experiência cultural um padrão “natural” na formação dos Estados sul- americanos; não levando em conta, portanto, uma base realista-construtivista, que é nossa abordagem, de que interesses convergentes levam à cooperação e isso poderia, finalmente, acarretar aquela cultura diplomática (KOWERT, LEGRO, 1996) por aprendizado social (WENDT, 2005).

Trazemos essas visões porque, como colocado há pouco, Santos (2002) argumenta que os eventos em um dado espaço caracterizam-se por criar tempo. Mas, suplementarmente, nessa criação, tais eventos veem-se constituídos não só fatos, mas também de ideias. Complementando a concepção de que as comunidades de segurança, como instituições, em um sentido oposto, não são “ideas all the way down” e também são preenchidas de fatos. Por isso, o geógrafo argumenta que as ocorrências de eventos podem ter “conteúdos parecidos, mas nunca idênticos” (SANTOS, 2002, p.151), porque cada lugar é uma combinação de vetores específicos, constituidores de fatos e ideias. Essa é uma razão pela qual trazemos dois estudos de caso maiores, um Brasil-Argentina e um Brasil-Venezuela, para ilustrar que embora especificamente vetorizados, eles apontam a um resultado comum: intensificação dos indicadores das variáveis de uma comunidade de segurança em ascensão.

Com isso, dado que há a presença de ideias em eventos, um intercâmbio entre elas leva que os espaços reorganizem-se constantemente, porque nos comunicamos com o mundo que nos rodeia. Se, na experiência comunicacional, acontecem processos de interlocução, a interação decorrente dela cria, alimenta e estabelece laços sociais e sensibilidade entre indivíduos e grupos sociais que partilham do mesmo quadro de experiência e identificam nos interesses convergentes ressonâncias de um background histórico comum (RODRIGUES, 1994), uma vez que comunicar, etimologicamente, significa “pôr em comum” (SANTOS, 2002, p.316).

Nesse processo, a ideia dos outros implica a ideia de mundo (TICKNER, WÆVER, 2009). Assim, diversas interpretações dos fatos e das ideias existem, resultando necessária uma negociação social que operacionalize pontos de vista compartidos (LEECEW, 1994). É por essa razão que os interesses convergentes acima poderiam acarretar uma cultura diplomática. Não uma naturalidade decorrente do passado colonial e da localização geopolítica e determinista do “destino geográfico”.

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Consequentemente, a interação torna-se um esboço simbólico de comunidade, provido pelo movimento de cooperação, prolongando a atividade própria de um sujeito e abarcando na totalidade da tarefa comum, levando cada sujeito a tomar consciência de que a escala da vida social mais universal é um sentido da existência singular (LEFEBVRE, 1958; SANTOS, 2002). Isso implica, como avalia Santos (2002), em um meio geográfico que une os grupos sociais sem confundi-los. Assim, a territorialidade torna-se um aspecto que leva à consciência de outras escalas de vida social, como a sul- americana. Esse fator justifica-se na dissertação por ser importante ao caso Brasil- Venezuela, no qual se percebe a mudança de escala da participação social no território sul-americano, de um locus identitário caribenho a um mais sul-americano.

Essa sociabilidade será mais intensa quanto maior a proximidade das pessoas envolvidas. A proximidade que nos interessa aqui não se limita apenas à definição de distância; ela tem a ver com a contiguidade física entre pessoas numa mesma territorialidade, vivendo com intensidade suas inter-relações. Não apenas as econômicas, que devem ser apreendidas em uma condição de vizinhança, mas sua totalidade. É, dessa forma, que Santos (2002) traz que a proximidade pode criar consciência, laços culturais e, por conseguinte, identidade por meio do conhecimento de “pôr em comum”. Acontece o adensamento social (SANTOS, 2002), que, da mesma forma que o adensamento da integração (WENDT, 2005), propicia uma percepção de copresença, impondo ao território, aqui na escala sul-americana, a operação de uma comunidade regional, a qual segue, na obra de Santos (2002), o mesmo contorno que Deutsch usa em 1969 e em 1974 para as comunidades políticas. E é sobre essa percepção de copresença e sua consciência e seu impacto nas comunidades políticas que trataremos na próxima subseção.

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