• Aucun résultat trouvé

Desde sempre a capoeira esteve próxima, ligada à escola, ou como ‘iniciativa’ pessoal, ou como ‘projeto’, ou como ‘oficina’, configurando diferentes modelos/métodos de efetivação de suas práticas.

No que cabe ao primeiro modelo – ‘iniciativa’, na maioria das vezes os docentes não conseguiam se sustentar somente através do ensino da capoeira, na grande parte das vezes buscando outros afazeres, dependendo muito da ajuda da comunidade, especialmente em tempos idos onde o preconceito era muito maior.

No que se refere ao segundo modelo – ‘projeto’, caracteriza-se por ações com início, meio e fim, pontuais, conforme interesses na maioria das vezes externos, para autopromoção de governos que se utilizam da capoeira, sem perspectiva de continuidade, ficando a pessoa do docente e os discentes em último plano, com exceção dos projetos que se tornam programas a partir de leis aprovadas pelas câmaras de vereadores, em nível municipal, por exemplo.

Já no terceiro modelo – ‘oficina’, o que se percebe é o fator continuidade, desde necessidades coletivas, configurando-se a partir de ações de política de estado, perpassando além das questões partidárias, em vista da garantia da preservação da capoeira como patrimônio cultural imaterial, estando ela integrada ao Programa Mais Educação, por exemplo, desta forma, enquanto política pública.

Só o fato da capoeira ser conteúdo de componentes curriculares como História, Artes, Ciências e Educação Física, isto é um grande avanço do ponto de vista da aprendizagem interdisciplinar, seja nas escolas formais ou de educação integral. Além disso, a capoeira já provou ser muito importante para a inclusão social em atividades complementares e como oficina de aprendizagem de contraturno em escolas e centros culturais e sócio-educativos, o desafio é agora ser de fato desenvolvida como componente curricular, é claro, a partir da estrutura interligada como atividade da mandala dos macrocampos, de forma permanente.

“A metáfora da Mandala é um recurso retórico que visa expressar simultaneamente o entendimento de conhecimento e a busca de uma organização curricular para uma educação integral (...)” (GABRIEL; CAVALIERE, 2012, p.288).

Organizada como ‘oficina de aprendizagem cultural’, considerando-se o aspecto patrimonial da capoeira, a metáfora da mandala, mesmo sem utilizar a expressão ‘currículo integrado’, dinamiza entendimentos sobre a idéia de ‘integração’, intimamente relacionada à Roda de Capoeira como metáfora da vida.

O desenvolvimento de uma ‘oficina de aprendizagem cultural’ deve principalmente proporcionar momentos de atividade que se aproximem o mais próximo possível da realidade de uma prática cultural reconhecida em seus hábitos, em seus rituais e em suas normas, aceitos por uma determinada comunidade significante, com seus próprios jogos de linguagem, seus próprios atos de fala, e suas próprias linguagens de movimento.

Especificamente em se tratando de uma ‘oficina de capoeira’, os princípios dos quais se devem partir são: o máximo desenvolvimento de hábitos de trabalho nos espaços e com materiais usados para esta prática corporal de movimento (Roda de Capoeira; instrumentos musicais; livros; manuscritos; cantigas de tradição oral e escrita etc); a divisão de trabalho/estudo mais ampla possível entre os participantes que a integram; além de espaço para a criatividade técnica (gestos corporais e materiais de arte) dos capoeiristas, devido ao caráter de produção, em sendo uma ‘oficina’.

Por meio do estudo e do desenvolvimento de conteúdos de forma integrada a vivências socioculturais, seja na escola integrada de tempo integral, na escola tradicional com atividades ampliadas para o turno contrário, seja em centros sócio- educativos, ou em casas de cultura, promove-se:

(...) Em primeiro lugar, a significação de diferentes esforços musculares que ritmicamente organizam (individualmente) o físico e o psíquico das crianças; em segundo lugar, o uso das oficinas, seu trabalho e equipamento nos objetivos escolares. (PISTRAK [Org.], 2009, p.228).

Fundamentalmente, retomando-se o conceito de interdisciplinaridade, toda oficina deverá potencializá-la em direção aos objetivos escolares, principalmente em se tratando da educação integral. Integrando em sua organização a exigência básica de globalidade das tarefas desenvolvidas, o auto-serviço sociocultural advindo do envolvimento coletivo, o conjunto de atividades que permitam a criação e a fabricação de materiais e novos conceitos, dialeticamente, bem como trabalhos relacionados a momentos especiais, a datas comemorativas e a passeios de integração e partilha de saberes, conhecimentos e informações.

Uma ‘oficina de aprendizagem cultural’ é um espaço aberto à pesquisa e a pensamentos e ofícios criativos, criteriosos e críticos visando a promoção de comportamentos autônomos, auto-organizativos e de autogestão na vida de educandos e educandas com seus educadores, em seu trabalho cultural, na coletividade da escola e da comunidade (PISTRAK, 2011, p.47-56 e p.139-185; FILINOV; BAUER; BUFFA [Orgs.], 2010, p.70-76 apud MAKARENKO, 1957), onde se enquadra o “Ofício dos Mestres de Capoeira” como um saber de nível patrimonial, por meio da arte-luta ensinada na ‘Roda de Jogo da Capoeira’, seja como conhecimento, seja como linguagem, potencializados nas oficinas escolares.

Sobre o dia-a-dia do espaço de uma ‘oficina de aprendizagem cultural’, diz Pistrak [Org.], “quem administra o trabalho, o inventário e materiais é uma das crianças. O trabalho é realizado por grupos. O controle do trabalho e do tempo gasto por cada membro do grupo é conduzido pelo monitor do grupo” (2009, p.228-229), no sentido de aproximar mais a condução da aprendizagem das mãos dos educandos, em vista de sua auto-organização, de sua autonomia, diria Paulo Freire, e de sua cidadania plena. Muitas experiências de oficinas estão na educação integral pelo Brasil, como a ‘Conexão de saberes’, configurando processos de educação preocupados com a formação integral dos sujeitos.

Para desenvolver e coordenar ações como oficinas de arte e cultura, círculos de cultura, debates e fóruns de discussão, espetáculos culturais, ações integradas às escolas, entre outras, o Conexão Felipe Camarão vem desenvolvendo uma metodologia estruturada em núcleos integrados, distribuídos da seguinte forma: Conexão de saberes – núcleo responsável pelas ações de valorização e preservação da cultura de tradição oral local e pelo diálogo com o sistema forma de ensino. Suas ações são: a) Oficinas de arte e cultura: Boi de Reis, capoeira, rabeca, flauta, percussão (permanentes), dança, teatro, circo, João Redondo, entre outras (periódicas). (SANTANA, 2012, p.496.)

A distribuição de tarefas tende a ser formativa à medida que os participantes tomam consciência dos elementos da cultura e da arte que estão aprendendo a ajudando a cuidar, no caso a capoeira, haja vista os vários papéis de liderança que existem dentro de uma Roda de Capoeira, por exemplo, desde os que podem tocar berimbau àqueles que entram na roda de jogo para demonstrar suas habilidades corporais, de forma a respeitar os rituais e as tradições, um processo de zelo pelos bens culturais que tende a ser expressivo também dentro da sala de aula e nos outros espaços educativos da escola e da comunidade.

Considerando que toda oficina possa vir a ter um cunho pré-profissionalizante ou profissionalizante, no aprendizado e desenvolvimento de conhecimentos,

competências e habilidades específicas, ampliam-se possibilidades de aprendizagem e de instrução voltadas ao mundo do trabalho, este sendo uma das atividades que caracteriza o ser humano, ou seja, em se tratando da atividade laboral, seja ela como prestação de serviços, remunerados, ou para realização/formação pessoal, no caráter, na índole, nos hábitos de vida.

Para a formação de um profissional de capoeira, especialista em instrução em capoeira, não há uma quantidade específica de informações, técnicas e conhecimentos, de forma rígida, formatada para todas as agremiações, grupos, companhias, escolas e/ou federações de capoeira, tanto para a tradição da Capoeira Angola quanto para a da Capoeira Regional, ambas com aspectos de formação, avaliação e registro da formação bem genuínos, conforme o complexo teórico- prático cultural de cada Mestre e a linhagem a que este pertence e/ou desenvolve.

5.1.2 A convivência pedagógica entre mestres e aprendizes e os métodos de ensino

Documents relatifs