A configuração de um pleno desenvolvimento humano rompe com os limites e com os conhecimentos compartimentados, na busca de um ensino que seja inerente a um movimento dinâmico, acreditando que é possível quebrar paradigmas através de novas descobertas, a mesma traz o repensar à realidade não somente do que está em torno de nós, mas repensar de forma global e humanizada.
A pedagogia para o pleno desenvolvimento humano, como afirma Morin (2011a, p. 28), valoriza o “Pensamento para o Sul”, onde se qualifica a autonomia e concebe a necessidade do perceber o outro, uma vez que a existência humana só tem sentido se todos puderem usufruir dos direitos e dos deveres de uma sociedade.
Segundo Boff (2003), isto só será possível se pensamos em comunhão e entender que a solidariedade levará para um desenvolvimento global, onde todos terão suas particularidades preservadas, mas perceberão a necessidade do outro, transformando as dicotomias em elos que possam contribuir para com uma sociedade mais justa e menos desigual.
Dentro desta perspectiva, a educação deve tratar o pleno desenvolvimento humano a partir da concepção, da percepção e da emoção como forma de agregar os conhecimentos científicos aos conhecimentos culturais, resgatando o indivíduo em suas particularidades, levando-o para o todo, que para Morin (2010) seria um pensamento mais contextualizado e complexo, de forma que todos os envolvidos no ato de ensino e aprendizagem possam perceber de acordo com Boff (2003) o seu meio social, cultural e ecológico, mas também a importância do meio coletivo para que possamos agregar valor real às nossas ações.
Assim, a escola enquanto mediadora do conhecimento para o desenvolvimento pleno humano deve repensar continuamente os atos dos seres humanos e buscar uma melhoria para o global, analisando as práticas pedagógicas em conjunto com as questões sociais do planeta, trabalhando a consciência como prática social na busca da percepção de que todos nós somos responsáveis para com a humanidade.
Fundamentar a ação pedagógica na ética, no respeito à dignidade e na própria autonomia do educando é constituir uma compreensão da prática educativa enquanto dimensão social da formação humana para uma formação que gere transformação.
Saber analisar criticamente as relações que emergem na escola é fazer uma leitura das causas dos conflitos que levam à degradação humana e ao estímulo ao individualismo e à competitividade. Este estímulo negativo é por vezes inserido na escola, quando se nega a posição do sujeito através de inflexibilidade, da mecanização de ações e da imparcialidade frente à exclusão e à omissão da busca por uma prática educativa formadora.
Para que se estabeleça uma ação cooperativa para a aprendizagem, onde se promova a convivência de todos os envolvidos no processo pedagógico dialógico e interativo, o educador necessita assumir uma posição aberta ao diálogo com o objetivo de colaborar com a formação humana, uma vez que se torna relevante para o processo educativo o fortalecimento de ações que visem à interferência dialógica do outro.
Tendo em vista que a educação vem sendo solicitada pela sociedade a transformar seu contexto e buscar produzir uma realidade diferente daquela que encontramos em nosso dia a dia, onde a aprendizagem é vista como algo rotineiro e estático, fatores emergentes, tanto internos como externos, têm tornado as relações educativas mais complexas, mais influenciadas, mais mutáveis.
A postura reflexiva no ambiente educativo é um instrumento relevante ao trabalho do educador dentro da escola, bem como a iniciativa, o potencial criativo, cognitivo, afetivo, no desenvolvimento da comunicação verbal e não verbal, dentre outros aspectos.
Cresce a percepção de que vigoram interdependências entre todos os seres, de que há uma origem e um destino comuns, de que carregamos feridas comuns e alimentamos esperanças e utopias comuns. Somos, pois, solidários em tudo, na vida, na sobrevivência e na morte. (BOFF, 2003, p. 87).
Buscar o autoconhecimento e o reconhecimento do outro enquanto sujeito ativo é, por natureza, um processo social e não individual. É na responsabilidade compartilhada que se estabelecem condições para maior desenvolvimento do
trabalho pedagógico, e isto emerge a partir da participação ativa do educador, uma presença que contribua para com a formação autônoma do educando.
Este posicionamento do educador exige uma abertura para o outro de forma que se possa viabilizar um diálogo de aproximação e construção de relações marcadas pela cooperação mútua.
Educar para o pleno desenvolvimento humano é provocar e estimular o conhecimento, tendo em vista que uma educação para a vida insere o educando dentro do processo educativo, de forma que o mesmo demonstre predisposição para perceber o educador e vice e versa, exercitando assim a prática dialógica que irá interagir com o grupo, de forma a evoluir para outra vivência e experiência de aprendizagem que influenciará outros seguimentos da vida tanto do educador quanto do educando.
Portanto, comprometer-se com uma prática pedagógica para o pleno desenvolvimento humano, é comprometer-se em ouvir o outro, em deixar que todos tenham vez e voz no processo de desenvolvimento da aprendizagem, sendo este um dos papéis do educador, haja vista, que os educandos já entram na escola falando sobre sua realidade, entretanto muitas vezes é na escola que se negam os posicionamentos dos sujeitos.
O educando deve ser visto como sujeito ativo e atuante, e não como um mero reprodutor de modelos pré-estabelecidos, em vez de serem passivos, os educandos são hoje agentes ativos no contexto social da escola.
A responsabilidade do educador na formação do educando é, portanto, uma condição muito especial, uma vez que o mesmo, ao ver o estudante como sujeito ativo, necessita exercitar uma conduta mais dialética e aprendente.
Dentro deste contexto, o educador ao ter consciência da sua importante função social em sala de aula, passa de uma posição divulgadora, para uma posição emancipadora ao se colocar no lugar do outro, não sendo apenas mais um transmissor de ensinamentos, mas um agente mediador da interação do grupo.
Para tanto, se faz necessário um pensar aprofundado sobre a função da educação na formação do sujeito. É preciso que todos os envolvidos na prática
educativa estejam engajados com a quebra de paradigmas que mascaram a função do educar, do interagir e que engessa a possibilidade do pensar juntos, aliando aos mais variados saberes.
Os educadores que buscam uma educação global e emancipatória devem partir da escola para a comunidade, e ao mesmo tempo a escola deve estar aberta a compreender a cultura da sua comunidade, perceber o contexto social e abrindo espaço para a solidariedade de compreender que o seu principal capital é humano, que vive emoções, conflitos e sentimentos complexos que podem influenciar em seu processo de ensino-aprendizagem.
É preciso de acordo com Morin (2011c), recusar a hegemonia, mas perceber a complexidade no ambiente educacional, para tanto a escola deve se fazer presente não apenas nos gráficos das avaliações sistêmicas, mas na vida do educando, deixando marcas positivas para que o mesmo, ao sair da escola, leve consigo a importância de uma escola para a formação do ser humano.
As relações escolares na concepção de uma aprendizagem que partilha saberes busca o compromisso do indivíduo consigo mesmo e com o outro, com o objetivo de uma formação ética impulsionada pela valorização do indivíduo e do grupo.
Para Morin (2010), uma educação para uma cabeça bem-feita, que acabe com a disjunção entre as duas culturas, daria capacidade para se responder aos formidáveis desafios da globalidade e da complexidade na vida cotidiana, social, política, nacional e mundial.
Isto se faz no interior das salas de aula, em ambientes significativos, que respeitem as diferenças, que prezem pela pluralidade de informações com o objetivo de preparar o aluno para o enfrentamento das crescentes incertezas do mundo.
Portanto, é com a abertura da comunicação em sala de aula, carregada de um sentido ideológico ou vivencial, que se dá uma nova percepção do mundo que nos cerca. A contínua troca discursiva entre os educandos e educadores, as manifestações de pensamentos tornam a base para as interações sociais, bem como para o desenvolvimento dos processos cognitivos e sócio-afetivos.
Dentro deste contexto, o processo pedagógico voltado para o desenvolvimento pleno do ser humano proporciona aos alunos uma compreensão dialógica do mundo, uma compreensão crítica da realidade global, levando-os a interagir e a inferir na participação e criação de novos conceitos e quebra de paradigmas no cotidiano da sala de aula e por consequência no meio em que se vive.
Buber (1982) mostra o diálogo como uma habilidade fundamental para que seja construída na sociedade uma ética da cooperação entre os indivíduos, com o objetivo de entrelaçar saberes, de conhecer o meio em que vivemos, de respeitar o sujeito e sua cultura compreendendo que todos fazem parte de um mesmo cosmo criando assim um mundo sem barreiras.
Favorecer o diálogo através de práticas pedagógicas que utilizem o pensar e o questionar traz a oportunidade de criar alicerces que sustentarão a ponte mais eficiente e mais importante da vida que é a percepção do ser humano em sua totalidade.
Faz-se relevante a escola, perceber o quanto é importante a comunicação e a união na construção de uma sociedade mais humanizada e organizada é, portanto, transcender o pensamento do eu para o nós.
Nesta conjuntura, propomos o silêncio e empreender uma nova postura pedagógica aberta, que amplie a interação entre os seres humanos, que mobilize a comunidade e que trabalhe nas pessoas a capacidade de pensar e de expressar seus pensamentos.
A educação no exercício do seu papel deve contribuir para uma sociedade mais justa e menos desigual, para que todos possam desfrutar de uma educação que não apenas trabalhe os conhecimentos, mas sistematize-os para o cotidiano por meio de práticas sociais dialógicas que realmente formem as pessoas para interferirem em seu meio de forma positiva.
Uma educação eficaz é aquela que favorece o diálogo entre todos os sujeitos, onde perpassa uma rede de diversos saberes de forma coletiva. As pessoas juntas constroem novos conhecimentos e conseguem pensar criticamente a realidade a
partir de um novo ângulo de visão que se revela por meio da diversidade, de maneira que gere nos sujeitos intervenções capazes de suscitar novas formas de se posicionarem frente aos mais variados conflitos do nosso tempo.
Ouvir e dialogar com o outro é a melhor forma de entender o nosso inacabamento e a fragilidade e interdependência de todos os seres da terra, portanto a educação deve oportunizar que o indivíduo parta do silêncio para o diálogo, do individual para o coletivo, do eu para o nós e do pensar para o pensar dialógico.