optei pela pesquisa de campo e por um tratamento qualitativo dos dados, esses obtidos por meio de entrevistas semiestruturadas e interpretados segundo a análise de conteúdo.
Ao desenvolver os estudos prévios sobre o tema, entretanto, percebi uma carência de referências teóricas e pesquisas sobre esse assunto específico, o que me lançou em um desafio diferente do que havia planejado inicialmente: entender quais pontos deveria focar na entrevista.
Como a escassez de literatura me impôs essa barreira, ir a campo e entender primeiramente o fenômeno para depois buscar a teorização, pareceu ser o mais prudente na abertura deste caminho, uma vez que, não sabendo exatamente o que encontrar na teoria apresentada, se feita antes da coleta dos dados preliminar, pode se mostrar de pouca utilidade para compreender o fenômeno como ele é expresso. Essa inversão está presente em alguns métodos de pesquisa, entre eles a Teoria Fundamentada, a qual tratarei adiante fazendo aproximações e distanciamentos com o percurso que segui nessa Tese.
Por fim, a decisão conjunta com meu orientador foi dividir o percurso da pesquisa em duas partes iniciais para ter maior contato com essa realidade, a saber:
1 revisão integrativa de literatura sobre o tema no Brasil; e 2 entrevistas não estruturadas de levantamento do fenômeno.
3.1 As Primeiras fases da pesquisa
Como exposto anteriormente, essa fase tem como objetivo fazer um mapeamento do campo a ser pesquisado por força de uma falta de literatura específica que aponte os caminhos e possíveis problemáticas acerca do tema estudado.
A revisão integrativa de literatura traz os elementos das publicações do tema ou, na falta dela, a produção correlata ao tema e possíveis interfaces. Isso propicia um cenário geral do assunto e, se não for possível chegar a ele de maneira
circunstancial por uma falta de pesquisas e textos na área, pelo menos proporcionará, por via dos assuntos afins, um caminho de tocar o tema pela borda, ou seja, por pesquisas e textos de caráter próximo ao que ora pretendo pesquisar.
Por sua vez, as entrevistas preliminares fazem um apanhado dos pontos mais importantes para a discussão e a compreensão dos pontos focais da pesquisa.
É importante destacar que a primeira fase da pesquisa antecedeu, inclusive, a escrita da parte teórica desta Tese; o primeiro contato com o campo possibilitou um caminho mais assertivo em onde e como realizar a pesquisa teórica para este texto.
Esse expediente não é de nenhuma forma inédito. Alguns métodos de pesquisa têm utilizado ele sistematicamente e bem sucedido. Nas ciências sociais foi utilizada por Glaser e Strauss (1967) e intitulada de Grounded Theory (Teoria Fundamentada).
Nela o investigador busca primeiro a imersão no campo, colhendo dados para daí desenvolver uma teoria sobre eles. Esse método tende a uma generalização teórica, enfatizando o desenvolvimento de uma teoria muito mais do que tentando comprová-la por meio do fenômeno. Ao tratar do tipo de metodologia que a Teoria Fundamentada é e as maneiras de utilização, Strauss e Corbin (2000) delimitam que, quando a utiliza, o pesquisador não precisa necessariamente usar todos os procedimentos da Teoria Fundamentada, podendo, caso ache mais viável a sua pesquisa, usar apenas alguns; assim, esse método pode se acoplar a um número grande de variações.
É importante destacar que existe uma aproximação com a Teoria Fundamentada no sentido de que o campo pode preceder o trabalho teórico. Bem verdade, como explicito no próximo parágrafo, que outras teorias também se utilizam desse expediente, mas que não faço uso da Teoria Fundamentada. Ela aparece aqui para deixar claro que essa inversão entre ir a campo e levantamento teórico não é uma novidade no terreno da pesquisa e que para esta Tese, utilizei dessa estratégia por não encontrar literatura que respaldasse uma incursão teórica antes da ida ao campo.
Dentro da Psicologia do Trabalho a ida a campo para uma posterior teorização sobre o fenômeno também é uma realidade. Nesse contexto a Clínica da Atividade de Clot (2007), é expresso como método de pesquisa/intervenção que tem
como característica a imersão no campo, uma intervenção, para uma posterior teorização sobre o fenômeno.
Assim ir ao campo de maneira prévia ao apanhado teórico que se irá utilizar para a leitura do fenômeno não é, sob nenhuma hipótese, um procedimento inédito nem nas Ciências Humanas e Sociais, fonte de muitas referências para a Psicologia do Trabalho, tampouco para a própria Psicologia do Trabalho em seus métodos investigativos e de intervenção.
Esclareço que aqui não pretendo criar um método de pesquisa para o fenômeno, mas a realidade se impõe ao percurso que foi previamente planejado e, nesse caso, a exposição de que ir ao campo antes da teorização não é algo novo traz apenas um aporte de fundamentação para essa escolha.
3.1.1 Revisão integrativa de literatura sobre o tema no Brasil
O objetivo desse levantamento foi o contato com pesquisas na área, privilegiando o conhecimento produzido e as fontes utilizadas e as conclusões a que os pesquisadores pudessem ter chegado durante seus percursos de investigações. Soma-se a isso o fato de que, por meio de pesquisa na área, já se pode antever a organização temporal desses professores-gestores (Objetivo Específico 1).
O modelo de pesquisa seguiu o que chamamos de Revisão Integrativa de Literatura, que se caracteriza por uma pesquisa do tipo survey, utilizando a pesquisa bibliográfica como fonte (LANDEIRO, PEDROZO, GOMES e OLIVEIRA, 2011; GARCIA, 2014; ERCOLE, MELO, ALCOFORADO, 2014).
Ercole, Melo e Alcoforado (2014) delimitam, ainda, que esse método consiste em uma revisão realizada com base em uma pergunta de pesquisa definida como todas as outras pesquisas, mas que busca identificar, avaliar, selecionar e sintetizar evidências de estudos que atendam a critérios de elegibilidade predefinidos, fazendo um levantamento do conhecimento produzido sobre determinado tema em um tempo preestabelecido.
Segundo as autoras essa revisão tem que cumprir seis etapas, a saber: identificação da questão de pesquisa; estabelecimento de critérios para inclusão e
exclusão; definição das informações a serem extraídas dos estudos selecionados (definição das categorias); avaliação dos estudos elegidos; interpretação dos resultados; e apresentação da revisão/síntese do conhecimento.
Com efeito, me dirigi aos textos científicos com revisão por pares das áreas pesquisando nos seguintes buscadores de textos científicos: SciELO e Portal de Periódicos CAPES.
A escolha teve como critério o número de publicações indexadas nas bases, sendo elas as maiores do País; além disso, essas bases concentram diversas outras bases de dados no Brasil e no Exterior, tais como BVS-Psi, Scopus, SciFinder e Britannica Academic Edition. Esses fatores facilitam a busca e a tornam mais completa.
O primeiro critério de busca que usei foram às palavras-chave: trabalho docente e gestão de tempo. Utilizei o conectivo e que abrange a ocorrência das duas palavras juntas e exclui quando essas palavras aparecem sozinhas. Com esse critério de busca, não obtive nenhum resultado. A segunda tentativa foi utilizando os descritores trabalho docente e ensino superior. Na base de dado SciELO, obtive apenas oito resultados, mas nenhum sobre o tema desta Tese, mas 6 deles com temas correlatos ao aqui pesquisado; no Portal CAPES, 337 resultados, e mais uma vez nenhum no tema da minha pesquisa, mas dez com temas correlatos.
Ampliei a busca para os termos trabalho docente e universidade, usando o conectivo e, e pesquisei em todos os índices, o que resultou em 115 ocorrências no SciELO, mas nenhuma delas dentro do escopo da pesquisa; no Portal CAPES obtive 1.064, nenhum com o tema desta Tese. Refinei a busca para os termos docente e tempo, usei o conectivo e, marquei exato (no caso do Periódicos CAPES) para o critério de busca e procurei apenas em assunto, obtive 5 retornos. Ampliei a busca, não restringindo ao critério da mesma busca anterior, desta forma utilizei os mesmos parâmetros e busquei em todos os índices, essa busca resultou em 690 artigos no SciELO, todos foram analisados e 6.398 no Portal CAPES, dos quais 2.716 foram apontados como periódicos revisados por pares, a pesquisa foi realizada nesses textos, como a Tabela 1.
Tabela 1 – Total de textos elegíveis para a pesquisa
TERMOS CONECTIVOS RETORNOS