Como o próprio pensador, György Lukács, revela no prefácio escrito em 1967 a obra Geschichte und Klassenbewusstein (História e Consciência de Classe), desde seus escritos juvenis, ele já era ciente das obras de Karl Marx, na conveniência de uma data, pelo menos desde 1908 na obra Entwicklungsgeschichte des Modernen Dramas (História e Desenvolvimento do Drama Moderno), O Capital de Marx já se encontrava presente em seus trabalhos (Lukács, 2003:3). No entanto, a filosofia de Marx se apresentava ali de maneira inautêntica (tal como o próprio Lukács viria julgar sua postura com relação ao pensamento filosófico de Marx antes da década de 30). O materialismo marxista ali estava colocado como uma sociologia de base neo-kantiana no que diz respeito à estrutura filosófica elementar. Lukács era herdeiro de Dilthey,
Simmel e Weber em relação a essa base neo-kantiana. Desse marco, atravessa-se um caminho de intensas vicissitudes e progressões até a chegada da colocação genuína do pensamento de Marx, tal como uma filosofia dentro do pensamento de Lukács, algo que irá passar a ocorrer somente nos escritos filosóficos e críticos-literários do início da década de 1930.
Como o filósofo húngaro revela: ele desde tenra idade ―desprezou e nutriu um ódio pela vida tal como o capitalismo a exigia que fosse‖ (Ibidem: 5), mas até a chegada daquilo que o próprio pode considerar como uma saída real e genuína contra a sociedade capitalista transcorreram mais de 30 anos.
Não se trata aqui de expor completamente, em sua ampla complexidade, essa jornada que o pensamento de Lukács percorre até o que o mesmo vem a entender como a colocação genuína da filosofia dialética-materialista; mas sim de apresentar o núcleo filosófico que passa a operar na crítica literária do filósofo a partir da década de 30. É importante ressaltar que em virtude da complexidade desse núcleo filosófico, a dissertação aqui faz menções a esse núcleo categorial, mas não adentra o complexo em sua totalidade.
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Se considerado o problema da ―relação sujeito-objeto‖ abordado por Lukács em seus pensamentos estéticos do período de 1912 a 1918, publicado em um texto intitulado Die Subjekt-Objekt Beziehung in der Ästhetik (A relação sujeito-objeto na estética), esse se trata justamente de um núcleo filosófico categorial que atravessa todo
o pensamento do filósofo14, como pode ser conferido na última obra publicada por Lukács, a Para uma ontologia do ser social, existe exatamente um tópico de capítulo intitulado, ―a relação sujeito-objeto no trabalho e suas conseqüências‖ 15.
É exatamente na conhecida como ―virada da década de 30‖ que esse núcleo categorial filosófico recebe sua base de reestruturação definitiva (Cf.Oldrini, 2013). O pensamento de Marx alude a uma necessidade de objetividade na amplitude total de qualquer pensamento filosófico e Lukács adere a essa objetividade. Entretanto essa objetividade é abordada com princípios dialéticos, não se trata de um materialismo mecânico, mas sim de um materialismo dialético, em outras palavras, a base de reestruturação é o imprescindível lugar que o cotidiano deve receber no pensamento filosófico, cita-se:
O comportamento do homem na vida cotidiana é ao mesmo tempo o princípio e o fim de toda atividade humana. Isto quer dizer que, se imaginarmos a vida cotidiana como um grande rio, veremos a ciência e a arte emergirem e se apartarem dele como formas superiores de captação e reprodução da realidade, veremos ainda que tanto um quanto outro, de acordo com seus fins específicos, diferenciam-se e se constituem individualmente, atingindo sua forma pura nesta peculiaridade – que tem origem nas necessidades da vida social – para, em seguida, e em conseqüência de seus efeitos, de sua ação sobre a vida dos homens, desaguar novamente no rio da vida cotidiana. Esta, por sua vez, é continuamente enriquecida com os produtos mais elevados do espírito humano, assimilando-os a suas necessidades práticas, diárias, de onde surgem, mais uma vez, como questionamentos e demandas, novas ramificações das formas de objetivação superiores. (Lukács apud Patriota, 2010: 63)
Esmiuçando essa virada de pensamento na década de 30, entre os anos de 1929 a 1957 – neste último ano quando retorna definitivamente a sua casa em Budapeste – pode-se dizer que o pensador György Lukács vive intensamente dois processos marcantes em sua vida e em sua filosofia. Um deles é, obviamente, a ascensão do nazi- fascismo, a 2º Guerra Mundial e a expansão do capitalismo; o outro é o contato com os Manuscritos Econômico-Filosóficos de Karl Marx, e os Cadernos Filosóficos de Lênin. Como reitera Tertulian (Cf. 2008), os dois processos não devem ser vistos apartados um do outro, considera-se assim como sendo um único processo. A era da perfeita
14 Para uma visão detalhada desse aspecto central do pensamento filosófico de Lukács, pode-se recorrer a
tese A relação sujeito-objeto na Estética de Georg Lukács:reformulação e desfecho de um projeto interrompido de autoria de Rainer Patriota.
―pecaminosidade‖ – em referência a Fichte –, tal como já se referia Lukács desde a primeira década do século XX à sua realidade (a modernidade e o modelo social do capitalismo), somente iria de mal a pior com o avançar do século16. Entre tantas e muitas buscas para um remédio ao diagnóstico fichteano, o filósofo húngaro encontraria na obra do jovem Marx um vislumbre de resposta o qual passaria a lapidar durante o restante de sua vida.
No postscritum de 1957, de um ensaio intitulado Meu caminho para Marx (Mein Weg zu Marx), revela o pensador:
Se acrescentar que nós mesmos, naqueles anos, conhecemos as obras fundamentais do jovem Marx, sobretudo os Manuscritos econômico- filosóficos como também os Cadernos filosóficos de Lênin, terei apontado aqueles fatos que trouxeram grandes esperanças no início da década de 1930. (...) Quando, no entanto, tratava-se de tomar posição em relação a esses acontecimentos, toda pessoa consciente tinha de partir da situação histórica do momento: a ascensão de Hitler e a preparação de sua guerra de aniquilamento do socialismo. Sempre foi claro para mim que eu deveria subordinar tudo, de maneira incondicional, a toda decisão que esta situação impunha, inclusive aquilo que pessoalmente me era mais caro: a própria obra de minha vida. Acreditava que o principal compromisso de minha vida consistia em empregar corretamente a concepção marxista-leninista nas áreas de meu conhecimento, em fazê-la avançar na medida em que a descoberta de novos dados assim o exigisse. Na medida em que a questão central, do período histórico em que minha atividade se desenvolveu, consistia na luta pela sobrevivência do único estado socialista e, portanto, do próprio socialismo, eu obviamente subordinava cada tomada de posição, mesmo em relação a minha própria obra, às necessidades do momento.
Fica claro nessa declaração que o filósofo como que lhe imputa o dever e a necessidade em combater a ideologia nazista que estava em ascensão na época, e a maneira como iria fazê-lo era através da necessidade objetiva qual o pensamento de Marx aludia. Esse combate veio sob forma da pergunta Wie ist die faschistische Philosophie in Deutschland entstanden? (Como pode uma filosofia fascista vir à tona na Alemanha?) – título de um correspondente trabalho redigido em 1934. Resposta que Lukács trouxe sobre a aplicação do método historiográfico de Marx e sobre o caráter
16 O item que se segue nesse capítulo, o 1.2, traz um panorama sobre essa denominação que Lukács faz
em referência a Fichte. Denominação bastante difundida no pensamento do jovem Lukács, sobretudo na obra A Teoria do Romance.
ontológico, que é, sobretudo um dos grandes significados dessa virada da década de 30, cita-se um comentário sobre esse entendimento de caráter ontológico:
a humanidade do homem tem o seu verdadeiro ato de nascimento na história; que o homem, como ente que desde o começo reage à sua realidade primeira, ineliminavelmente objetiva, é um ―ente objetivo ativo‖, produtor de objetivações, um ente que trabalha (...) (Oldrini, 2002: 53)
Como será mostrada adiante em um momento adequado, essa leitura do pensamento de Lukács qual Oldrini se refere, aparece de maneira nítida nas análises de Lukács à dialética hegeliana. Na concepção lukacsiana, Hegel consegue derivar esse principio de prática na filosofia, esse princípio do ―ente objetivo ativo‖ justamente porque Hegel empreende seu pensamento filosófico, e a escrita de suas obras de maneira totalmente conexa aos acontecimentos políticos e sociais que lhe eram contemporâneos. Para Lukács, Hegel tinha até mesmo uma noção dos contornos econômicos que regiam a sociedade capitalista de sua época, e avança na compreensão de como as questões econômicas influenciam na esfera do direito e na política. No entanto, a leitura que Hegel vai realizando - que se encontra ancorada em Adam Smith (Cf. Lukács: 1970: 310 - 325) - insiste em fazer projeções da situação própria da Inglaterra sob a Alemanha , essa idealização presente na leitura de Hegel resulta que, em muitas vezes ela não consiga enxergar a situação de atraso econômico pelo qual a Alemanha passa na primeira metade do século XIX, daí deriva-se várias contradições que são solucionadas de maneira idealizada na dialética hegeliana (Ibidem).