• Aucun résultat trouvé

O modelo pedagógico dos dois irmãos utiliza a execução de um espetáculo como ponto de partida para atrair discípulos e, dentro dessa perspectiva, encontra-se uma concepção de argumentação, cuja especificidade é a da invencibilidade. É isso que causa espanto nos interlocutores e arranca da plateia risos e aplausos. De certo modo, o que caracteriza a atividade argumentativa não é somente a sua organização lógica, posto que também é possível perceber que se trata de usar os recursos lógicos para gerar certo efeito, tanto no interlocutor, quanto no público que acompanha a discussão. Com efeito, todo o processo se determina como uma performance, no sentido de promover um espetáculo que atraia e convença o público de estar vislumbrando algo maravilhoso e invejável. Trata-se, em suma, de uma apresentação como espetáculo, ἶἷ Ὁmἳ π έ De fato, isso se encontra delineado na construção dos personagens Eutidemo e Dionisodoro, posto que a conduta erística é, por si mesma, algo espetacular. Como pode se perceber, apesar de ser Sócrates que, em 274b, solicita Ὁmἳ ἷxiἴiὦὤὁ ( π α ) para os dois irmãos, o que observamos é que a aproximação deles de Clínas já tinha por objetivo a conquista do jovem. Nesse contexto é que Sócrates solicita que eles ensinem o caminho para a virtude.

Por outro lado, ao longo da exibição, Sócrates demarca a rigidez do espetáculo que obedece ao objetivo de provocar espanto. Uma das primeiras observações feitas pelo filósofo,

104 em 276d, indica o caminho em que se solidifica essa relação ἷὀὈὄἷ ἷὅὂἷὈὠἵὉlὁ ( π ) ἷ ἷὅὂἳὀὈὁ ( αυ )μ “ἠἷὅὅἷ mὁmἷὀὈὁ ὁὅ ἳἶmiὄἳἶὁὄἷὅ ἶὁὅ ἶὁiὅ hὁmἷὀὅ ὄiὄἳm ἷ ἳὂlἳὉἶiὄἳm ἳiὀἶἳ mἳiὅ, ἳἶmiὄἳὀἶὁ ἳ ὅἳἴἷἶὁὄiἳ ἶἷlἷὅέ ἠὰὅ, ἷὅὂἳὀὈἳἶὁὅ, fiἵὠmὁὅ ἵἳlἳἶὁὅέ” (Ἐ α α α

π υ α α α α α α ῖ ῖ , α φ α

α ῖ · ' ῖ π π π έ) (ἀἅἄἶ)έ É iὀὈἷὄἷὅὅἳὀὈἷ ὀὁὈἳὄ ὁ ὂἳὄἳlἷlὁ feito entre os discípulos e os interlocutores, pois, de um lado, os seguidores dos irmãos são ἵἳὄἳἵὈἷὄiὐἳἶὁὅ ἵὁmὁ α α , enquanto que os interlocutores são colocados como “ὁὅ ὁὉὈὄὁὅ” ( ' ). Nesse aspecto, pode-se entender que, de um lado, estão os apaixonados, que se relacionam com os dois irmãos como amantes, deixando claro que eles podem ser vistos como jovens que são atraídos por um encantamento erótico. Ou seja, os discípulos têm o caráter de admiradores, que demonstram sua condição pela manifestação de um “ἴἳὄὉlhὁ tumultoso” ( α ). Percebe-se que eles veem na conduta dos dois irmãos um “objeto de riso” ( α )ν ἵὁὀὈὉἶὁ, ἳὁὅ iὀὈἷὄlὁἵὉὈὁὄἷὅ ἳ única reação plausível é a de “silenciar” ( π )έ δὁgὁ, hὠ Ὁmἳ ἶiὅὈiὀὦὤὁ ὀἳὅ ὄἷἳὦὴἷὅ ἳὁ ἷὅὂἷὈὠἵὉlὁ: enquanto os discípulos reagem por risos e aplausos, os interlocutores reagem com espanto, atordoados, sendo levados ao silêncio. Em 303a-c, acompanhamos um paralelo também digno de nota:

Eu, como que abatido pelo argumento, fiquei imóvel, sem voz (Ἐ ,

, π π π υ, φ ). Entretanto veio Ctesipo em meu auxílio e disse: – Bravo, Héracles, que belo argumento! ( ππ

, υππ Ἡ , φ , α υ) E vai daí

Dionisodoro: – Explica-me: Héracles é que é bravo, ou o bravo que é Héracles? – perguntou Dionisodoro. – Ó Posídon! – exclamou Ctesipo. – Que raciocínios espantosos! Retiro-me: estes dois homens são imbatíveis. ( α υ ,

, φ , Ἡ α πυππ πυππ Ἡ α ν ὑ – } α ππ , Ὦ , φ , έ φ α α · )έ

Na sequência desse trecho, vem aquela descrição já citada de que as colunas do Liceu ὃὉἳὅἷ fiὐἷὄἳm Ὁm ἷὅὈἳὄἶἳlhἳὦὁ ( ) ἷ ὅἷ ἶἷlἷiὈἳὄἳm ( α ) por causa desse último lance argumentativo de Dionisodoro. O argumento, como se observa, consiste em simplesmente inverter os termos de uma relação predicativa. O que a narrativa de Sócrates quer mostrar é a dimensão do espetáculo produzido pela erística. Há uma tonalidade de certa caricatura, porém é da reação do público que Sócrates faz uma caricatura mais marcante. É esplendorosa a π , mas o resultado pode ser preocupante, na medida em que a reação do público é praticamente irrefletida. Esse teor de espanto com o espetáculo era, no início do diálogo, restrito aos discípulos e amantes dos irmãos; contudo, como dissemos, a partir desse momento se estende a praticamente todos os presentes. Isso mostra o modo como os dois irmãos conseguem atrair discípulos. Além disso, expõe o efeito de prazer que toma conta do

105 público diante do espetáculo: os presentes “riem” ( ), “aplaudem” ( ) ἷ “mostram um contentamento” ( α ), ὃὉἷ ὁὅ lἷvἳ ἳ lὁὉvar além da medida a atitude dos dois irmãos diante dos interlocutores.

Por conseguinte, há um convencimento envolvido na apresentação: antes apenas os discípulos que eram amantes se deleitavam com os argumentos dos irmãos, mas a partir desse momento a sensação de prazer em ver os argumentos também inclui os admiradores de Clínias, que passam a ser admiradores dos dois irmãos. Com isso se demonstra que o espetáculo tem certo aspecto de atração erótica, que age sobre o público. Todavia, ele não parece ter o mesmo efeito sobre todos os interlocutores, como é o caso de Sócrates, Clínias e, de certa forma, Ctesipo, já que eles são levados a outra sensação, uma espécie de desilusão com a discussão: os dois irmãos são invencíveis. Sendo assim, nota-se, em primeiro lugar, que a reação de Sócrates se dá em três aspectos: 1. o uso dὁ vἷὄἴὁ π , ὃὉἷ Ὀἷm ὁ ὅἷὀὈiἶὁ ἶἷ ser abatido por uma pancada ou de ser ferido por um golpe de alguém; nesse caso, Sócrates Ὁὅἳ ὁ vἷὄἴὁ ὂἳὄἳ ἶiὐἷὄ ὃὉἷ ἷlἷ fὁi ἳὈiὀgiἶὁ ὂἷlὁ ἶiὅἵὉὄὅὁ ( π υ), vἷὀἵiἶὁ ὂἷlὁὅ gὁlὂἷὅ ἶὁ ἳὄgὉmἷὀὈὁ ἶἷ Diὁὀiὅὁἶὁὄὁν ἀέ ὁ Ὁὅὁ ἶὁ vἷὄἴὁ ῖ α , ὃὉἷ Ὀὄἳὐ Ὁm ὅἷὀὈiἶὁ equivalente ao verbo anterior, pois significa basicamente permanecer imóvel por ter sido atingido, ficar quieto ou em repouso por ter sido ferido por um golpe; 3. o uso do adjetivo φ , ὃὉἷ iὀἶiἵἳ Ὁmἳ ἵὁὀἶiὦὤὁ ἶἷ ὀὤὁ ἵὁὀὅἷgὉiὄ ὄἷἳgiὄ, ὂὁὄ ἷὅὈἳὄ ὅἷm vὁὐ, ὀἷὅὅἷ mὁmἷὀὈὁ indicando a incapacidade do filósofo de reagir aos argumentos erísticos de Dionisodoro. Ao lado do filósofo, aparece a reação de Ctesipo, que atribui ao argumento de Dionisodoro uma força e violência semelhante às que o herói Héracles poderia utilizar; além disso, diante da reação de Dionisodoro à sua tentativa de vir em apoio a Sócrates, Ctesipo diz desistir dos dois irmãos e parece se afastar do que ἷlἷ ὀὁmἷiἳ ἶἷ , ὃὉἷ ἶἷὅἵὄἷvἷ uma incrível capacidade de argumentar, cuja execução promove um discurso amedrontador para os interlocutores. Pὁὄ iὅὅὁ, ἷlἷ ἳὈὄiἴὉi ἵἷὄὈἳ iὀvἷὀἵiἴiliἶἳἶἷ ἳὁὅ iὄmὤὁὅ, ἳfiὄmἳὀἶὁ ὃὉἷ , iὅὈὁ ὧ, ὧ imὂὁὅὅívἷl ὅἷ mἷἶiὄ ἵὁm ἷlἷὅ ὀἳ lὉὈἳ, ἶiὅὂὉὈἳὄ ἵὁm ἷlἷὅ ὀὁ ἵἳmὂὁ argumentativo.

Em suma, o modo como os interlocutores reagem à disputa com os dois irmãos caminha para um reconhecimento da invencibilidade deles no campo argumentativo, enquanto que para o público há certo processo de atração utilizado para conseguir discípulos. Em certa medida, é como se disséssemos que, no campo argumentativo, os sofistas são invencíveis em todos os sentidos, mantendo a coerência com a primeira caracterização feita por Sócrates no prólogo do diálogo, que os comparava com os pancraciastas. Diante disso,

106 pode-se ver que o modelo de argumentação erístico é um modo de luta em todos os sentidos, em que se consegue vencer independente do contexto em que se insere a discussão.

Por conseguinte, percebe-se que a epistemologia sofística do aprendizado tem um eixo central que gira em torno da luta, porém é no jogo da linguagem que ela se executa, o que encontramos explicitamente encenado ao longo do diálogo. No primeiro interlúdio (285a-d) o uso recorrente do Ὀἷὄmὁ πα (ἀἅἅἶ, ἀἅκἴ ἷ ἀ78c) traz o sentido para as analogias que descrevem o procedimento argumentativo: 1. o pancrácio como capacidade de dominar o outro em 271c; 2. o uso das palavras como armas em 271d; 3. um saber sobre as guerras como as defesas dos tribunais em 273c; 4. o jogo de bola em 277b; 5. lançar-se como em uma luta em 277d; 6. jogos de iniciação como os Coribantes na iniciação aos mistérios em 277d-e. No segundo interlúdio (288a-d), Sócrates opõe o jogo feito pelos sofismas à uma ação feita de mὁἶὁ ὅὧὄiὁ ( π υ ), ἶiὐἷὀἶὁ ὃὉἷ ὁὅ iὄmὤὁὅ ὅὁfiὅὈἳὅ imiὈἳm ὁ ἶἷὉὅ ἷgíὂἵiὁ ἢὄὁὈἷὉ56, para

indicar uma espécie de encantamenὈὁ mὠgiἵὁ, ὂἷlὁ Ὁὅὁ ἶἳ ἷxὂὄἷὅὅὤὁ (ἀκκἴ), no qual percebemos o intuito de Sócrates de dispor uma oposição sutil entre agir por encantamento e agir seriamente. O que Sócrates exige dos dois irmãos é que deixem as brincadeiras e os encantamentos para se expressarem de modo sério (288d).

Porém, em todo esse contexto vemos sendo enumerados o riso e o cômico como experiências que podem ter os mais diversos aspectos, dependendo do uso que lhes é dado. Entretanto, como afirma Halliwell (1991, p. 280), os termos não podem ser colocados em situações definitivas e cristalizadas, posto que a própria experiência do cômico gera, simultaneamente, umἳ ἷὅὂὧἵiἷ ἶἷ “ὄiὅὁ ἵὁὀὅἷὃὉἷὀὈἷ”, pois ao se utilizar da brincadeira e da ὂiἳἶἳ (πα ) ἵὁmὁ ὂὁlo essencial, é preciso que algo a mais esteja sendo dito. Isso é o que faz da experiência do riso algo que implica, por vezes, em processos práticos e sérios; ou seja, não há necessariamente na experiência do riso uma contraposição definitiva entre os ἵὁὄὄἷlἳὈὁὅ πα , πα , πα α ἷ ὁὅ ὅἷὉὅ ἵὁὀὈὄὠὄiὁὅ π υ αῖα ἷ , jὠ que o riso quase sempre pode estar a serviço de uma proposta séria.

Documents relatifs